Coração de Porcelana

34 Capítulo 33 - Freyr


Capítulo 33 — Freyr

Vincent considerava entradas triunfais desnecessárias, mas não havia como não considerar chegar montado num dragão sendo “triunfal”.

Ele sentia a mente do ser. Não era exatamente pensante, formando palavras, mas ele o enviava sensações. Estava receoso de pousar no jardim do castelo, mas como já estava amanhecendo, já havia gente de pé, logo, já haviam sido vistos. Viu vários soldados aparecerem correndo enquanto os civis – provavelmente empregados – saíam correndo aos gritos. Os homens armados, porém, congelaram ao percebê-lo sobre o dragão.

Queria logo descer. Mesmo que não houvesse caído nem nada, e mesmo que estivesse com suas roupas, era extremamente desconfortável estar sentado direto sobre as escamas, o que o fazia ter certeza de que qualquer um que tenha montado um dragão usava cela. E, além disso, a própria mente do dragão era horrível de manter. Era como se sua mente fosse um pote que coubesse uma maçã, e a do dragão era uma melancia se forçando para dentro. Não era preciso dizer que aquilo piorava a enxaqueca que já estava sentindo.

Questionava-se como Alphonsus conseguira domar dois dragões. Havia sido desta maneira? Então como sua mente suportara tanto?

Talvez fosse por isso que ele se tornara um anjo, não era possível...

Quando pousaram no chão, levantando poeira, e desmontou, um silêncio profundo havia tomado conta de todos que estavam ali. Visualizou lorde Gregory Macbeth, acompanhado de seu bisneto – boquiaberto -, alto e robusto mesmo idoso, apoiado em um cajado, os olhos verdes traziam não medo, mas sim... Admiração. E nostalgia.

— Príncipe Alastair, estávamos procurando por você, mas... – ele olhou para o dragão, que esfregou a pata na cabeça como um gato. Ele se sentara no chão e estava tentando disfarçar o nervosismo com movimentos naturais. Vincent ficou abismado como aquele dragão conseguia ser melhor ator do que ele. – O que aconteceu? E vossa alteza retorna com...

— Lorde Gregory, eu adoraria explicar, mas, por favor, foi uma noite longa e difícil em todos os sentidos. – respondeu, tentando não soar tão... Bruto, como normalmente soaria numa situação daquelas. – Mas no momento, eu só quero tomar um banho e descansar.

— Oh, sim, claro... – ele olhou para um homem cujo nariz era quebrado, que olhava boquiaberto para o dragão. Levou um tempo até entender o recado e sair correndo.

— Mas e o dragão? – O bisneto, que Vincent ainda não sabia o nome, questionou. – Ninguém garante que ele não vá atacar assim que sair de vista!

Olhou para o dragão que o olhou de volta com seus olhos leitosos. Sentia que ele estava percebendo o que se passava ali muito melhor do que antes, já que do mesmo modo que a mente humana do rapaz estava vinculada à da criatura, a animalesca estava vinculada à sua. Interpretando o que lhe foi passado, respondeu:

— Ele não incomodará ninguém. – O dragão soprou fumaça pelo nariz. – É uma promessa. Ele está cansado também e provavelmente vai dormir o dia todo, desde que não mexam com ele.

A cauda se movendo foi um sinal de que ele ficara satisfeito com a resposta.

— Como sabe disso?!

— Sabendo. – respondeu, e o dragão soltou um som do fundo de sua garganta que pareceu uma risada. – Mas é verdade. Eu posso ir agora?

O rapaz abriu a boca, mas seu bisavô ergueu uma mão, impedindo-o de falar.

— Fique a vontade, meu príncipe. Mandarei que tragam alimento para o dragão também enquanto descansa.

A mente do outro se iluminou com a resposta, e mesmo sem a capacidade de formar palavras, Vincent sentiu um “Comida!” se formando. Mas ficou preocupado com o fato.

— Mesmo? Ele é bem grande, então deve comer...

— Oh, não se preocupe, ele é grande mas não é dois. – ele deu uma risada estrondosa, e levou um tempo para que percebesse o que o “dois” mencionados por Lorde Gregory significava. Ele riu mais ainda ao ver sua expressão. – Sim, já recebi Woden e Frige aqui. E meu príncipe, aí você veria o que significa “comer muito”! Mas você está cansado, é visível, então lhe contarei melhor a história depois!

Quando finalmente chegou ao seu quarto, havia uma tina fumegante num canto com um balde com tudo necessário para se lavar dentro. Tomou o banho que queria, percebendo que mesmo que seus ossos não estivessem mais quebrados, seu corpo ainda se encontrava repleto de roxuras e arranhões, principalmente nos lugares que batera ao cair no dragão. Em alguns pontos elas eram quase negras, outras eram amareladas. Como era pálido, era óbvio que tudo se tornava ainda mais evidente, e ainda havia algumas queimaduras do contato com o sangue do animal.

E ao adormecer... Tudo se tornou uma escuridão repleta de pesadelos. Havia as memórias revividas, os anjos podres saltando, a dor das múltiplas fraturas, a aparência morta de seu pai, sua mente criou a imagem do sofrimento de sua mãe, e ao fundo, a voz de Melissa parecia sussurrar: “estou fazendo minha parte, se tudo der errado, a culpa será sua”, que logo era acompanhado pelo “A culpa é sua!” de...

— Vincent! – Quase enfartou quando Jim o acordou com uma sacudida e deu de cara com o lobo Niflheim. – Você estava... Oh. Nossa. Você lutou contra Gregor Clegaine e escapou de ter a cabeça estourada?

Levou um tempo até que sua mente funcionasse o suficiente para perceber que seu irmão estava mencionando Game of Thrones. Depois sacudiu a cabeça negativamente, sua face esquerda – a que apoiara no travesseiro – latejando.

— E... Já percebi sobre o seu... Hã... Novo amigo? Dá para ver ele da janela.

— Ah... Sim. – sentou-se com esforço, sua cabeça ainda dolorida. – E não, eu não lutei contra o Montanha. – tossiu. – Mas me sinto como se tivesse.

— É... – Jim olhou-o de cima a baixo com uma careta.

— Que horas são?

— De tarde. Lorde Shakespeare adiou as “festividades” para amanhã.

—... Lorde Shakespeare?

— Macbeth Vincent. A peça “amaldiçoada” de Shakespeare e tudo mais.

— Sabia que já tinha escutado o nome dele. – constatou. – Mas parece que ele é bem mais antigo que Shakespeare, então...

— Certo, pulando todo o assunto. O que aconteceu com você? Tipo, você está roxo, e tem um dragão dormindo no jardim. O que eu perdi?

Vincent respirou fundo, percebendo uma bandeja com comida ao seu lado, que logo pegou. Bom, ele iria contar para Jim, só não esperava que fosse logo que houvesse acordado. Mesmo com a cabeça girando, contou o que acontecera enquanto comia, indo desde o aparecimento de seu pai até quando selara o pacto com o dragão sem saber exatamente o que fazia, explicando seus ferimentos no caminho.

— É... Salvo pelos anjos. – Jim murmurou. – Se você realmente tinha rompido um órgão, você teria morrido bem...

— Eu sei. – O interrompeu. Sinceramente, não queria lembrar se de como quase morrera duas vezes em uma noite.

— Isso também explica as caixas na minha cama. – ele ergueu uma que Vincent não havia visto. – Está escrito “Alastair Vincent Rockstone” aqui, então acho que é sua.

Ele a empurrou em seu colo antes de poder responder.

— E quanto ao nosso pai... O que você acha que aconteceu com ele? O levaram?

— Não sei. Ele tem um corpo físico no mundo dos vivos, mas não sei se dá para fazer algo com ele, por que... Querendo ou não, ele está morto. Mas depois do que eles me fizeram passar, eu tenho medo do que pode ter acontecido com ele.

Jim soltou um “Uhum” fraco.

— E tem a nossa mãe. – Vincent já sentia como se fosse difícil o suficiente para respirar.

— É, tipo... – ele também se silenciou logo depois. Nenhum dos dois sabia exatamente o que dizer sobre o fato. A mãe deles viva durante todos aqueles anos, e o mais velho os mantendo longe daquela informação. Claro, não sabia, mas também não mudava nada.

— E quanto a você? – Jim o olhou em dúvida. – O que aconteceu ontem? Só escutamos Victoria gritando quando estávamos a caminho do salão e o barulho do estrondo.

— Não sei. Foi... Esquisito. Mal me lembro da pancada. Só acordei com dor de cabeça.

— Somos dois. – Esfregou o próprio rosto e sentiu o dragão... Ronronando? Em sua cabeça. Ele estava cheio e satisfeito. Pelo menos alguém estava feliz.

— Mas agora quanto ao dragão... Cara, é difícil de acreditar. Você fez um pacto de sangue com ele, no caso?

— Foi. Ele ficou, hã, honrado por eu ter oferecido mesmo que tenha tentado me comer, e retribuiu. Agora eu fico sentindo ele.

Jim franziu o cenho.

— Sentindo?

— É como se a mente dele estivesse com a minha. – respondeu. — É bizarro. E dói pra cacete.

—... Deve ser uma questão de costume.

— Eu me pergunto como Alphonsus conseguiu ter dois. Um já parece demais para mim.

O mais novo assentiu.

— Bom... Isso significa que ele é seu?

— Ele quer ficar por perto. Então acho que sim.

— Isso inclui... Fora do Santuário?

Ambos se olharam em silêncio. Vincent sabia que provavelmente sim, mas era absurdo. Como esconder uma coisa daquele tamanho? E mais, mesmo que fossem em cidades majoritariamente bruxas, com certeza não seria como se as pessoas iriam querê-lo por perto. Além de ser necessário alimentá-lo. No fim, não queria pensar no assunto. Não no momento. Jim percebeu.

— É... Ele tem um nome ou coisa do tipo?

— Não. – respondeu. – Eu acho que posso chama-lo de alguma coisa, mas sei lá, estava com a cabeça tão cheia que nem pensei nisso.

— Alguma sugestão?

Viu claramente da janela quando o dragão levantou as orelhas, como se estivesse escutando a conversa – e certamente estava, estando na cabeça de Vincent. Ele até mesmo se deitava como um gato.

— Alguma ideia? – perguntou de volta.

— Eu chamei Niflheim desse jeito por causa de toda essa história “somos descendentes nórdicos, nosso tataravô era viking.”. – ele respondeu, coçando a própria nuca de maneira pensativa. – Os dragões de Alphonsus eram Woden e Frige, Odin e Frigg. E... Nossa, você é a primeira pessoa a ter um dragão desde ele. E isso faz quase...

— Um milênio. – bufou. – Mais responsabilidade nas minhas costas. Ótimo.

— Voltando ao nome... – Jim olhou para a janela, observando o dragão. – Se formos pensar em inglês antigo, como os dragões dele... Eu pensaria em Ingwine.

— Que seria...?

— Consideram que é um dos nomes de Freyr, que...

— É, eu sei quem ele era. E já entendi o motivo, Freyr era deus do sol e das chuvas... E as escamas do dragão parecem formar isso.

Passou as informações sobre o deus mentalmente, e o dragão ergueu um pouco a cabeça de suas patas, pensativo. Percebeu que ele gostara do que significava, mas estava escolhendo entre os dois nomes sugeridos. É, aquele dragão era surpreendente.

— Ele gostou mais de Freyr.

— É, fica isso então.

Algumas batidas soaram na porta, fazendo os dois erguerem a cabeça. Jim foi abrir a porta, e no fim era apenas lorde Gregory, com seu cajado que servia de bengala, e um livro enormemente grosso em mão, de capa que parecia ser madeira.

— Posso entrar? – o mais novo deu um passo ao lado, abrindo caminho. Ele era consideravelmente rápido, e se sentou na cadeira que Jim estava sentado com esforço, soltando um gemido de dor. – Ai, meu quadril! Por todos os anjos, estou velho! – exclamou, fazendo os irmãos soltarem uma risada fraca.

— Senhor... O que é isso? – Jim questionou enquanto sentava na beira da cama de Vincent. O idoso ergueu o livro com um pouco de esforço, entregando-o para Vincent.

— Achei que ficaria interessado nisso depois que chegou naquele dragão. Meu filho fez isso há... Muito tempo.

O mais velho abriu o livro, que pareceu estalar. As páginas eram amareladas e antigas ao ponto de ter medo de destruir alguma coisa apenas de tocar, e logo na primeira havia um desenho da cabeça de um dragão. Sabia que a perspectiva só havia sido criada na Renascença, mas aquele desenho era inacreditavelmente realista. Via com perfeição as escamas pesadas como uma armadura, seis chifres despontando da cabeça e então formando uma crista. O crânio parecia ligeiramente retangular e pesado, certamente ameaçador. Havia vários escritos na página, porém eles estavam naquelas letras medievais que eram ilegíveis para Vincent.

— Esse é Woden. – ele fungou. – Harait adorava ficar horas e horas os observando e anotando cada detalhe quando eles vinham aqui. Mas – Lorde Gregory se esticou um pouco, passando as páginas rapidamente até chegar aonde queria. – acho que isso é de interesse seu.

Olhou para o desenho. Era uma sela comprida, que se prendia no peito do dragão, e com três correias, se prendia no abdômen, formando uma espécie de cinta. Trazia várias setas e coisas escritas, designando as camadas do acessório, e havia também uma espécie de cabeçada, como as de um cavalo, presa à testa do dragão, porém deixava claro que não era para controla-lo, e sim para se segurar melhor.

— Eu me lembrei disso porque Brynjar reclamava que era desconfortável montar sobre as escamas, e a sua expressão desmontando deixou bem claro. Meu filho idealizou essas selas, que ele e Ailith usavam.

— Espera, o senhor... Conheceu o nosso bisavô? – Jim parecia surpreso. Claro que o idoso parecia velho, mas não tão velho.

— Eu tinha dezesseis anos quando ele nasceu. – deu uma risada. – Meu pai era vassalo do pai dele, Dagrun. Ou seja, eu sei quando ele, e cada um dos seis irmãos mais novos dele nasceram, mas não os mais velhos. E inclusive lembro-me de quando ele domou aquele dragão.

— E... Como foi?

— Parte eu só ouvi, parte eu vi. Ele tinha quinze anos. Um dos irmãos mais novos dele, Agmundr, que tinha uns... Seis anos, eu acho, se meteu na floresta e o pai dele o despachou atrás. – Gregory cofiou a barba. – Ele encontrou o menino, mas logo depois eles perceberam que haviam ido parar no lugar errado.

— O... “Covil” do dragão.

— Exato. Ele mandou o moleque correr, e foi como primeiro ficamos sabendo, porque ele chegou quase morrendo no castelo. Dagrun já estava reunindo pessoal para ir atrás de Brynjar quando ele chegou montado no dragão... E desmaiou. Ele estava com parte do rosto queimada e um olho cortado, perdendo muito sangue, mas poderia ser pior. Bem pior.

— Com certeza. – Vincent gemeu, recordando-se da noite anterior.

— Ele ficou muito tempo mal, e o pai dele mandou prender o dragão, que ficava acorrentado berrando no jardim. Ninguém tinha paz, mas ninguém tinha coragem de soltá-lo. Depois de um mês, quando Brynjar mal conseguia se por de pé, ele deu um jeito de ir até o dragão e soltá-lo. E ele subiu nas costas dele, o dragão levantou voo e eles sumiram.

Gregory pegou o copo que Vincent havia deixado na cabeceira, dando uma golada.

— Só fomos ter notícias dele uns... Quinze anos depois. Dagrun quase enlouqueceu nesse meio tempo. Assim como sua partida, a volta dele foi repentina. Um dia ele simplesmente apareceu, com mais um dragão além do que havia usado para partir, e nesse dragão estava Ailith. Ele havia domado os dois, mas ele montava Woden. Frige era normalmente usada por ela.

—... Quinze anos desaparecido. Imagino como eles foram... – Jim murmurou, e Vincent sentiu uma pontada quanto ao fato deles terem ficado treze anos.

— Oh sim. Depois ele explicou tudo. O dragão estava louco para ir atrás de sua companheira, que estava... Como se chama? Oh sim, a fêmea havia ido parar na Rússia, não me pergunte como ele a encontrou lá, e também foi lá que ele conheceu Ailith e a família dela. Eles sabiam como tratar as feridas causadas pelo dragão melhor do que o pessoal do país dele, e ficou por lá durante anos. Quando voltou, já a apresentou como sua noiva.

— Mas se ele se casou com Enguerrand, como...?

— Oh, isso. – Gregory emitiu um suspiro. – Juramos não falar do ocorrido na guerra, pelo menos, nada além do necessário. Mas acho que isso não faz mal. A família dela estava do lado inimigo, mas parece que... Um dos lordes mais poderosos a sequestrou, como forma de mantê-los leais. O pai dela se enfureceu, e mudou de lado, agindo como espião. Querendo ou não, a vitória só foi possível por causa dele, mas teve um preço.

— Que seria? – Vincent questionou.

— Ele tinha doze filhas... Todas com nomes de homens, talvez por não ter nenhum filho. Ele disse que como não tinha filhos homens, ele pediu que as doze filhas dele fossem casadas com os doze filhos de Dagrun.

Vincent e Jim se entreolharam.

— E no fim da guerra, veio à tona de que havia um espião do nosso lado. Tudo indicava que era o pai de Ailith, mas este havia morrido na batalha, então Dagrun mandou prender o único irmão dela que havia sobrevivido, a mãe dela, e as quatro irmãs, contando com a própria Ailith. Iria mandar executá-los como cúmplices.

— E o nosso bisavô não podia fazer nada?

— Ele tinha os dragões, mas não podia mandar queimar todos que discordassem com ele. Tudo estava contra a família dela, e além disso, ele foi obrigado a casar com Enguerrand... Mas isso não significa que ele tenha desistido. Brynjar armou uma fuga para eles, e tinha que... Como eu diria... Fazer viagens diplomáticas. Nessas viagens, ele os levava para mais longe, onde não poderiam ser encontrados. Eu mesmo fui um dos que aceitou ajuda-los, junto a Gaston Guiscard e Érico Bessa. No fim, os deixamos na Floresta Negra. Um ano depois disso, Dagrun morreu antes de ser coroado, pois ele que iria ser o rei, então Brynjar foi coroado como rei Alphonsus no lugar.

Ele deu mais uma golada no copo.

— O casamento dele com Enguerrand foi infeliz. O mais infeliz que eu vi até hoje. Ela era uma mulher linda, de cabelos brancos e olhos dourados, mas... Eu sabia que ele não conseguia esquecer Ailith, e ela percebia isso. Passou a odiá-lo e deixava isso bem claro para ele. Depois de algum tempo, ele passou a não suportá-la mais. Acho que as únicas coisas remotamente felizes naquele casamento foram o pequeno Augustus, e muito mais tarde, a pequena Freya. Ela nasceu um pouco antes da morte da mãe, alguns meses depois.

— Mas Ailith chegou a se tornar rainha. Então a inocência da família dela foi comprovada.

Gregory assentiu.

— Foi no dia em que Enguerrand morreu. – respondeu de forma quase sombria. – Os Guiscard se estabeleceram como espiões durante a guerra, e Gaston chegou com provas de que a “culpa” da família dela havia sido um complô entre duas famílias de vassalos que tentaram tirar a culpa de cima de si, com sucesso. Todos os responsáveis foram presos e executados, e então começaram a discutir sobre a volta da família dela. Era visível que Enguerrand não estava feliz. Acho que eu poderia dizer que ela já não tinha a atenção do marido, porque depois de várias brigas, ele passou a ignorá-la, e a volta de Ailith significava que provavelmente, ela seria trocada por uma amante. Não sei o que se passou na cabeça dela, mas imagino que tenha sido isso. Ela anunciou que iria se retirar e no momento em que levantou do trono, teve um colapso.

— Do que ela morreu? – Jim questionou.

— Ninguém sabe. Pensamos que houvesse sido envenenada, mas uma das famílias reais que tinha na época, mas sumiu, esqueci o nome deles... – bateu na própria cabeça. – Lembro que era do Oriente... Índia? Enfim, eles fizeram uma... Como é a palavra, autópsia? – os dois assentiram. – Sim, fizeram uma autópsia no corpo. Nada foi encontrado. Ela morreu naturalmente, mas foi um espetáculo horrível, ainda mais porque ela morreu na frente dos próprios filhos. A garotinha era um bebê, mas Augustus já tinha quase catorze anos. Ele nunca falou sobre o assunto.

Gregory olhou para Freyr pela janela.

— Pouco depois foram iniciadas as buscas pela família de Ailith, só para dizer que não sabíamos nada do paradeiro deles. Quando os encontramos, ela estava com uma infecção... E todos eles estavam miseráveis. Tivemos que leva-los ás pressas de volta para a Inglaterra. Soubemos depois que Ailith havia tido um bebê alguns dias antes, mas... O bebê não havia sobrevivido e ela contraiu febre puerperal em decorrência do parto.

Jim franziu o cenho.

— Eu ouvi dizer que a rainha Tempesta era filha dela.

Gregory ficou pálido, mas não disse nada.

— Não sei. A rainha Tempesta dizia ser filha de uma serva, mas nunca falou nada mais do que isso, e pelo que eu soube, o bebê era menino. Voltando à Ailith e Alphonsus, ele casou com ela dois anos depois da morte de Enguerrand, porque gostando dela ou não, seria desrespeitoso casar tão proximamente da morte da esposa, e a família dela foi denominada “Tenov” e colocada como uma casa da realeza. Os dois tiveram duas filhas, mas verdade seja dita, ela tratava Augustus melhor do que a mãe dele. Freya a chamava de mãe. Os dois ficaram bem mal quando eles morreram, dez anos depois.

— Falando nisso... – Jim comentou. – Eu encontrei o túmulo deles. Eles morreram no mesmo dia?

— Sim. Amanheceram mortos, aparentemente tendo morrido enquanto dormiam. Sabemos que foi uma morte natural, e morreram juntos. Acho que foi a melhor maneira de ambos partirem. E eles ainda são considerados anjos bruxos, o que é uma honra.

Vincent se assustou quando Freyr apareceu na janela. Apenas seu olho era visível, mas ele deu uma boa vistoriada dentro do quarto. Ele estava sabia o que o rapaz sentia, afinal, e deve ter se incomodado, fazendo-o ir dar uma olhada. Questionou-se o que os empregados fariam se tentassem sair e dessem de cara com aquela coisa gigantesca.

— Quanto aos Tenov... Eu soube que eles eram da família de Ailith.

— Com certeza. Aquela mocinha, Anastasiya, ainda tem algumas semelhanças físicas dos que eu conheci. Assim como vocês. É estranho como vocês Rockstones nunca mudam muito – os dois franziram o cenho para Gregory. – Augustus era a cara de Alphonsus, Richard era a cara de Augustus, e vocês dois são a cara dele. Chega a ser fascinante.

— Nossa... – Vincent começou a passar as páginas de maneira ausente. Havia desenhos de selas, adornos que aparentemente eram postos nos dragões em ocasiões especiais, desenhos em detalhes de Frige e Woden e até mesmo um esquema de armadura para eles. Sabia que as escamas deles não eram imperfuráveis, portanto, se foram levados para a guerra, era uma ideia inteligente. O filho de Gregory desenhava bem até demais. Ele sabia quanto ao seu pai em questão de semelhança, mas nunca havia visto exatamente algo sobre Augustus ou Alphonsus.

— E o rei Augustus? Você chegou a conhecê-lo ainda criança, não foi?

— Sim. – ele assentiu com a cabeça.

— Como ele era? Já ouvi muito de Alphonsus, e de certa forma do meu pai. Mas todos parecem pular ele.

— Ora. – Gregory riu. – Alphonsus foi o primeiro rei, Angus foi o rei assassinado... Augustus foi o melhor rei. Ele governou por quase setecentos anos, e foi extremamente popular, mas não começou assim, óbvio. – Ele parecia estar feliz de estar falando sobre a família deles. E Vincent admitia que era bom saber de alguém que não conhecia por partes, com respeito devido a imagem de rei, mas sim como pessoa. – Já disse que ele era muito parecido com Brynjar, mas ele era como a mãe, muito pálido, de cabelo branco e olhos dourados.

— Seth é loiro. – Jim comentou.

— O mais novo? Não só ele. Lyra também era, assim como Irene. – Vincent se questionou momentaneamente sobre quem era Irene, até recordar que seu avô tivera seis filhos e três eram confirmados terem sido assassinados por Amabosar, junto com seu próprio pai. – Mas cor de cabelo não é o caso. Quando ele era menor e a mãe dele era viva, hmm... Acho que poderia dizer que ele tinha duas personalidades: Augustus com Enguerrand e Augustus com Alphonsus.

— Uau. – o mais novo murmurou.

— Entenda, Enguerrand não exatamente destratava o filho, mas ela era frívola e restrita. Queria perfeição. Dava para ver que ele tinha medo dela. Alphonsus já lhe dava mais liberdade, e Frige permitia que ele a montasse, mas a mãe dele sempre tinha um ataque quando isso acontecia. No fim ele era um garoto tímido e um tanto quanto medroso. Ele começou a mudar quando a mãe dele morreu. – Gregory parou pensativo. – Foi ficando mais solto. Enguerrand o restringia a imagem do que ela achava importante para um futuro rei, Ailith e Alphonsus o incitaram a procurar os próprios talentos. Acho que esse foi o ponto de virada para ele.

Vincent por algum motivo pensou em si mesmo. Afastou tais pensamentos, trancando-os no fundo de sua mente. Os imensos olhos leitosos de Freyr cravaram em si.

— Quando ele foi coroado rei... Minha nossa. – ele gargalhou. – Acho que ele era o sonho de todas as donzelas e o motivo de inveja quase todos os rapazes. Ele era bonito, inteligente, carismático e talentoso.

— E tinha uma coroa. Isso é muito atraente. – Jim comentou, obrigando Vincent a concordar.

— Essa era a parte mais atraente. Durante três séculos ele se manteve solteiro com quase todas as casas nobres tentando convencê-lo a se casar com uma de suas filhas, mas ele tinha uma extrema aversão por casamento arranjado, certamente por causa do relacionamento com os pais dele. Quando mandou reformar o castelo Rockstone para as suas irmãs, ele veio passar um tempo, anos, aqui no Santuário. Foi onde ele conheceu Tempesta. Uma plebeia.

— Imagino a repercussão que isso tenha dado. – o mais velho comentou.

— Oh sim, imagine. Ela era uma alquimista e costureira, e já tinha uma filha bastarda chamada Serena. Além dele se casar com ela, ele ainda assumiu a menina, que bem depois se casou com Cesaire Guiscard.

Vincent franziu o cenho. Claire lhe contara tudo o que seu irmão lhe revelara, sobre o pai deles ser Acelet Guiscard e a perseguição de seu avô louco. O avô não se chamava Cesaire? Se Serena era filha de Tempesta, ela era meio irmã de seu pai, então se ela era avó de Claire...

Decidiu não pensar sobre aquilo no momento.

— Ele tinha várias propriedades aqui, mas se mantinha em uma... Que na verdade, era da princesa Freya. Augustus costumava sair e perambular entre os vilarejos e cidades, às vezes escondendo a identidade, às vezes como rei. Nesses casos, ele andava pelos pobres, conversava com eles, comprava coisas deles...

— É inteligente, se for pra para pensar.

— Sim, foi principalmente por isso que ele se tornou popular. Quando ele noivou com Tempesta, a maioria dos nobres não gostou tanto do fato dela não ser bem nascida, quanto pelo fato de ela já ter uma filha. Mas com o povo já foi outra história.

— Dava a impressão que ele estava selando seu relacionamento com os plebeus. – Vincent constatou.

— Exatamente. A rainha também não demorou muito para se tornar popular. Ela era linda, embora não exatamente para os padrões da época, com o cabelo preto e a pele não era doente de pálida, mas o certo era dizer que mais do que isso, ela impressionava pela personalidade e inteligência. Muitas das poções que existem hoje foram inventadas por ela, que também tinha o costume de ensinar o ofício para meninas. Ela acompanhava o rei nas viagens, era boa com os pobres, e logo na primeira gravidez, deu a duas crianças. Mas sempre tiveram as más línguas no fim das contas... Embora o relacionamento dele com Tempesta de longe foi o oposto de Alphonsus e Enguerrand. Ele era um marido e pai maravilhoso... Assim como o pai de vocês.

Os irmãos continuaram em silêncio com aquilo, mas Vincent quase engoliu o seco.

— Vocês se lembram de alguma coisa dos pais de vocês? De antes?

Jim negou com a cabeça. O outro ficou quieto. Vincent se lembrava de alguma coisa, de tudo e aquela havia sido uma das coisas que lhe assombrara a vida toda. Recordava da sua mãe, do seu pai e de suas três irmãs mais velhas, Juno, Alexa e Claire. Algumas coisas eram mais vívidas que outras: As gêmeas viviam brigando, mas eram inseparáveis, Juno parecia uma estrela de cinema, sua mãe misturando alemão e inglês para falar com ele e talvez o que mais se lembrasse de Richard fosse ele lendo numa poltrona sob uma luz amarelada. Era uma das coisas que mais se recordava do pai, era ele lendo. Ele vivia lendo. De vez em quando o punha no colo e lia para ele, e normalmente era sobre mitologia, que o fizera desgostar de contos de fada durante toda a infância. Se você poderia ter Thor batendo nos gigantes com seu martelo e Hércules realizando seus trabalhos, porque iria gostar de um pé de feijão gigante e um gato que andava com botas?

Parando para pensar agora, Juno – muito mais velha do que qualquer um deles – já tinha uma filha. Ela deveria ser uns poucos meses mais nova que Jim. Não era como se houvesse esquecido dela, de algum modo, a garota se mantivera às margens das lembranças, ao contrário dos outros... Lembrava de achar o nome dela complicado demais de se pronunciar para uma criança de quatro ou cinco anos, então lhe chamava de Mis. Ela aparecia de vez em quando, então não era uma constante.

Era estranho recordar dela depois de tanto tempo.

— Você lembra. – Gregory falou.

— Algumas. – respondeu, mas não queria falar sobre nenhuma delas.