Coração de Porcelana

28 Capítulo 27 - Memórias


Notas iniciais
O que dizer desse capítulo...? Eu escrevi ele três vezes. As duas primeiras, o meu pc apagou sozinho, cenas lindas e engraçadas. Na terceira, eu já estava irritada e cortei elas. Assim, me desculpem se saiu meio mé. Eu já tava de saco cheio com ele.

Capítulo 27 — Memórias

Vincent chegou quase correndo quando Claire olhava nervosa para o barco de Gitmak, a assustando. Havia sido literalmente a primeira a acordar e encontrara o anão loiro dormindo babando sobre uma mesa da estalagem antes de a dona o acordar com uma cutucada com um cabo de vassoura, fazendo-o ir para seu barco trovejando impropérios. Claire acabara indo atrás – depois de não conseguir comer todo o seu café da manhã e empacotar o resto — para ver se havia algo que poderia fazer. Ele a dispensara de maneira surpreendentemente delicada, mas dissera para ficar por lá.

— Olha o príncipe aí! – Gitmak exclamou enquanto mexia em algo dentro.

— Vincent? O que houve? Você sabe que tem que dormir bem porque vai ter que sair a noite. E... Sua camisa está cheia de pelos.

— Eu posso dormir mais tarde. – ele esfregou os olhos e espanou o tecido. – Aquele cavalo do Jim assume outras formas. Não é legal descobrir ele dormindo dentro da sua mala.

— Ah... Mas, e então?

— Eu queria falar com você antes de irem, mas... Parece que não vamos ter muito tempo. – ele maneou com a cabeça na direção em que via Joshua, Markus e Lilith descendo a última rampa em direção ao rio. – Eu reparei que tivemos três dias, só que não falamos a questão do... Gato.

— Oh. Oh... É mesmo. – agora que ele tocara no assunto, teve de admitir que passara os últimos dias tão frustrada com as transformações em animais e as tentativas frustradas em controlar magia que esquecera completamente. E como ele a lembrara de que cobrara o fato, a curiosidade e a necessidade de respostas se acenderam como uma vela. – Você acha que dá tempo de...

— Tudo o que eu preciso explicar não. É muita coisa, mas eu vou tentar me resumir quanto à parte do gato, apenas. – Ele respirou fundo.

— Certo, vá em frente. Acho que têm uns cinco minutos até eles chegarem até aqui.

— Acho que você lembra a primeira vez que eu apareci, certo? – acabou assentindo. Fora o dia da morte de seu pai, logo após ter recebido a notícia. – Fazia duas semanas que eu havia me mudado para Atlanta, e... As coisas estavam muito ruins em casa, entre mim e o Jim. Eu passei a explorar a cidade, mas não queria mais problemas, e passei a fazer isso sob a forma do gato.

Ele tirou mais alguns pelos cinzentos do ombro.

— A nossa mãe adotiva foi... Assassinada um pouco antes, o que tornou as coisas ainda piores. E eu encontrei você chorando e lamentando o que... Foi o suficiente para entender tudo. E o que me motivou a entrar no seu quarto naquele dia foi empatia, pois além do que acontecera com a minha mãe, quase todo o resto da minha família foi assassinado. Mas eu esperava sinceramente que você fosse me expulsar, já que não é todo mundo que gosta de gatos desconhecidos entrando no seu quarto.

— Fez muito bem para mim na hora, sabe? Eu não queria falar com ninguém mas o gato em si... Foi exatamente essa sensação que passou, sabe? Que ele me entendia.

Vincent pareceu desconcertado.

— No dia seguinte eu decidi voltar para checar se você estava bem, e você me tratou do mesmo jeito. E com o tempo, eu... Passei a ser egoísta. Em casa eu consegui me conciliar com Michael, mas Jim... Era horrível. Eu me acostumei a fugir disso e... Bom, eu percebi que... Era fácil ser o gato. Eu não era um príncipe desaparecido ou um fugitivo, eu era só um bicho de estimação. Você me tratava bem e me dava carinho, então eu...

— Ei meu lindo primo, flertando por aí? – Lilith exclamou.

Vincent pareceu querer abrir um buraco no chão. Que tremeu, aliás.

— Lili... – começou, mas logo foi interrompido.

— Qual é Ally, você já teve namorada antes, pra quê ficar sem graça agora? Rebecca ou coisa assim, não é? Uma ruiva?

— Lilith, você realmente vai desenterra-la das profundezas do... – Markus começou, mas foi interrompido pelo moreno.

— Você cumpre exatamente o papel da mãe que mata os filhos de vergonha. – Bufou. – Mas sério Lilith, agora não é a melhor...

Joshua olhou para Claire com as sobrancelhas erguidas, e então suspendeu o boneco-Near com a chave. Piscou por um segundo, percebendo que era outra coisa que havia se esquecido completamente. Pegou-o e franziu o cenho, recordando-se então que ele literalmente não havia se desativado em nenhum momento do dia anterior.

— Ele estava com a chave no bolso. – seu irmão disse. – Quando ele tirou, puf! Virou boneco. Pelo que você me disse, ele deveria ter se desativado em duas horas, mas... Talvez quando esteja com ele, ela dá corda continuamente?

— No bolso? – Virou a chave nas mãos, vendo então que ela estava trincada. – Parece ser perigoso. – Constatou. – E se uma quebrar?

— Talvez haja um tempo máximo. Ele ficou umas dez horas direto ontem, doze no máximo. Surgiu uma trinca.

Girou a chave nas mãos, percebendo que era verdade. O trinco emitia um brilho alaranjado logo abaixo de seu “20”, o que a alarmou. O que aconteceria se quebrasse? Preferia nem pensar, principalmente com o que poderia acontecer com Near, e o que levaria a sua maldição.

O ativou, já que não era justo mantê-lo como boneco, porém admitia que estava curiosa para ver se o que Joshua dissera estava correto, e assim que ele se tornou o rapaz, entregou-lhe a chave, explicando rapidamente a teoria do mais velho. E também o resto de seu café da manhã, que aceitou sem pestanejar.

Quando James chegou, Marc apareceu do nada. Literalmente se materializou da luz. Aquilo era possível? Ele estava com a expressão de quem tivera uma péssima noite.

— Gwenael! – Gitmak exclamou, saltando do barco com um imenso sorriso que lhe expunha vários dentes de ouro. – Onde cê teve? E...

— O seu pagamento. – A própria voz de Marc soara cansada. Ele pôs a mão no bolso e tirou um medalhão de prata que Claire não conseguiu ver muita coisa.

O sorriso do anão desapareceu.

— Isso é...

— O seu pagamento. – repetiu. — Tem um grande valor.

— Eu sei o quanto vale. – esbravejou. – Só não acredito que você está me dando isso!

Near e Claire se entreolharam, e logo depois Gitmak deu uma bela olhada em... Markus, antes de resmungar alguma coisa e pegar o colar.

— Ótimo. Você realmente sabe como mexer os pauzinhos, não é? Isso é chantagem emocional! – rosnou entredentes, escondendo a joia entre um dos couros de sua roupa. – Todos a bordo, pernas compridas! Vamos partir.

Marc virou então para a garota e o loiro.

— Desculpem-me, mas eu não posso ir com vocês.

— É... Nós já percebemos. – Near disse.

— Eu vou ter que ficar aqui. E depois ter que resolver umas coisas com um clã de bruxos que eu nem sabia que havia problemas. Se eu fosse com vocês só causaria problemas.

— Bom, mas você conseguiu alguém que nos guiasse. – Claire murmurou. – Isso já é muito bom.

— É isso por enquanto... Eu acho. Boa viagem para vocês.

Subiram no drakkar, Claire já sentindo o nervosismo novamente. “Não tenha medo, você não vai cair na água”. A parte superior do navio não tinha tanta coisa, pois todas as coisas se concentravam no andar inferior, que era por onde o anão o controlava, como um imenso submarino.

Não era acometida por enjoo, apenas um medo absurdo de cair na parte funda. Antes que pudessem falar mais qualquer coisa, assim que pisaram dentro do navio, Gitmak puxou as escadas e o pôs em movimento, sem dar chances para qualquer outra despedida.

E logo aderiu a pratica de seu irmão de sentar no chão para que não pudesse ver a água. Os dois não sabiam nadar. Que lindo.

Markus foi se sentar nas escadas, que eram cobertas, o que lhe permitiam não ter que ficar todo coberto sob o sol. Sua coruja então se transformou, virando um bichinho estranho como se fosse uma mistura de um esquilo com um pterodátilo. Seu pelo era preto, branco e cinza, suas patas dianteiras eram cascos, e as inferiores eram patas peludas como as de um gato, viradas para os lados, sua cauda pequena e peluda e a cabeça era uma bola de pelos, ambas se assemelhando a chamas. O rosto da criaturinha era como se feito de osso e comprido, os olhos completamente pretos e duas orelhas triangulares se destacavam no alto de sua cabeça.

— Que bizarro. – Joshua comentou. O bichinho se apoiava nas patas traseiras e começou a apontar coisas com a dianteira esquerda, a direita retraída sobre o peito como um coelhinho.

Lilith se sentou na parte de trás, James também. O albino então a chamou, para sua surpresa, o que a fez ir até ele.

—... O que é isso? – Claire questionou, apontou para a coisinha, que apontou para ela de volta. Tinha que admitir que, em sua própria forma, ele era muito fofo.

— Vie. – respondeu, o que não foi de muita ajuda. Ele puxou as mangas da própria camisa, revelando tatuagens que gritavam na pele desprovida de cor. Era como névoa preta e cinzenta, estendendo suas garras e formando rostos, em contraste com arabescos prateados e delicados, o que de certa forma lembrava o pelo do ser. – Quando você inventa um novo tipo de magia, ela assume uma forma. Ela normalmente se torna o que você quer que ela seja, mas ela tem a sua forma verdadeira. Essa é a de Vie.

Como em resposta, Vie se aproximou do bruxo. Ele andava se bambeando de um lado para o outro. Teve vontade de apertá-lo como um bichinho de pelúcia.

— Nova magia? Hã... Então, o que você inventou?

— Morte.

Silêncio. Vie deu uma cheirada em Claire.

— E vida. E dor. É o que se mantém nessa esfera, por assim dizer. – deu de ombros.

— Essa coisinha fofa pode matar?!

Vie guinchou.

— Ele não gosta de ser chamado de “fofo”. Mas sim, ele pode. Só que ele não gosta nem desgosta de você, então ele não lhe causa nenhum mal. Mas não é sobre isso que eu quero falar... – o bichinho escalou para o colo de Claire. Ele era realmente macio como um bichinho de pelúcia e não resistiu a começar a coçar uma de suas orelhas. – Eu vi que você tem um grande talento para magias mentais mas não tem muito foco.

— Vincent te contou isso?

— Não, eu vi na mente dele. – respondeu com naturalidade. – Claro que ele não sabe disso.

Um pássaro pousou na beirada do navio.

— Então...?

— Eu acho que posso lhe ajudar. Eu sou bom com esse tipo de magia. É uma das coisas que mais tenho controle, afinal.

— Oh, então...

— Já ouviu falar na transferência de experiência?

— Hã, não... Mas soa algo como transferência de dados...

— É algo como isso. – respondeu. – Eu posso lhe passar o que sei sobre isso, o que lhe daria a experiência, mas você teria que continuar então treinando no campo físico. Deve melhorar em alguma coisa.

—... Não poderiam ter feito isso antes? – murmurou.

— Não. Vincent é bom em espionar mentes e manipula-las. – respondeu, a surpreendendo.

—... Isso não é magia negra? Pelo que ele me explicou...

— É. – respondeu. – Mas se tornou essencial para ele sobreviver e manter... Certas companhias indesejadas longe. Marc também faz isso, mas a especialidade dele é magia de luz. E eu diria que é bom que você aprenda isso também.

Claire engoliu o seco com um “gulp”.

— Estamos no Santuário, e devemos estar preparados para o pior. Se não pudermos lutar, deveremos ao menos ser capazes de manipular as coisas ao nosso favor.

— Hã...

— Então, o que diz?

— Acho que... Acho que está tudo bem. Eu realmente tenho que ter algum controle.

Markus riu, e mais dois pássaros pousaram no navio.

Ele tocou a própria têmpora, e de lá saiu um globo de luz que lhe recordou muito do que Vincent havia feito no dia em que ele a salvara no beco. Ele estava manipulando aquele homem, como Markus dissera como ele poderia?

Ele lhe estendeu aquela coisa, e Claire o pegou. Ela se dissolveu em sua mão, e seus olhos explodiram em luz, sua cabeça parecendo encolher com centenas de milhares de imagens e informações que a deixaram tonta por alguns segundos antes de voltar a si.

— Ai meu...

— Eu avisei que era muita coisa.

— Não avisou não.

— Eu falei que era uma das minhas especialidades. Fica subentendido.

— É... – sacudiu a cabeça. – Quantos anos você tem mesmo?

— Oitocentos anos e alguma coisa. Tudo certo...

Mais pássaros pousaram no casco, e ele com certeza percebeu que havia algo errado, pois franziu o cenho. Já havia uma plateia de pelo menos uns quarenta pássaros, grandes, pequenos, largos... Mas quando ele prestou atenção neles, Claire também fixou seu olhar. Eram etéreos, suas penas pareciam chamas ou miragens, extremamente coloridos.

Vie guinchou em seu colo e apontou para eles. Alguns se assustaram, suas penas se tornando cinzentas e começando a cair.

— Ei vocês! – se assustou quando Gitmak abriu a porta do nível inferior, gritando. – Pra cá pra dentro antes que vocês ativem uma punição do Santuário!

— Quê?

— Esses pássaros são segredos. Pra dentro!

Assustada, levantou e foi para dentro, com o bichinho ainda guinchando para os pássaros. Não demorou muito para os outros descerem. O anão resmungava alguma coisa.

O interior era amplo, com pelos menos umas seis cabines. Havia uma mesa de controle no centro de uma imensa sala com uma mesa semicircular envolta dela, e o interior era todo de bronze. O anão havia deixado seu corpo artificial e puxou algumas alavancas, o que a fez sentir a vibração do barco que indicava que ele estava acelerando.

— Então os segredos são pássaros? – Near questionou assim que desceu.

— Não só eles. Podem ser qualquer coisa. Pássaros, folhas, cachorros, minhocas... Depende de quem põe.

— Então é por isso que estamos indo pela água? – Lilith questionou.

— Não... Estamos indo pela água pra evitar as Filhas da Floresta.

— E... Quem são as Filhas da Floresta? – Claire questionou logo depois.

— Mulheres guerreiras. Dizem que elas são os remanescentes das amazonas da... Grécia, é isso? Enfim, o que sei com certeza que elas são caçadoras. Elas não mexem com você a menos que mexam com elas ou seus animais protegidos, que podem ser qualquer coisa também. – Ele puxou mais uma alavanca. – Elas têm um bando principal com a sua Rainha, e ela representa uma estação. A atual se chama Caillech, e representa o inverno. Pra onde aqueles garotos tão indo, dizem que é por lá que ela caça. – estalou a língua. – Mas algumas formam bandos menores, ou andam sozinhas. Então, podem estar em qualquer lugar. E se meter com elas é muito problema.

— Oh nossa...

— Então só de estarmos aqui atraímos as coisas, nossa... Mas e quanto à memória que eu, no caso, como poderia saber que é o que estou atrás? – Near questionou.

— Ora, quando você olha para ela, você sabe que é. – respondeu. – Cê tá atrás do quê mesmo?

— Uma memória de Haydée Niévre.

— Haydée Niévre, hmm... – Gitmak pôs a mão no queixo, pensativo. – Niévre é uma das casas dos bruxos, não? A do lobo? – os outros assentiram. – Então provavelmente é um lobo. Cê chegou a conhecer ela pessoalmente?

— Sim. – Near respondeu num tom quase frustrado.

— Bem?

— Relativamente bem, eu acho.

— Então pensa nas características dela. Nas coisas, cores e jeitos dela. Com certeza vai ser assim que vai saber que é ela.

Notas finais
O Vie foi inspirado nesse bichinho aqui: http://66.media.tumblr.com/f8960ef8481b938db50f1694ac9a0488/tumblr_mt2me4otZl1rvfh0po6_r1_1280.jpg E nesse aqui: http://65.media.tumblr.com/8dc43f92deaf443e631157615d455b6d/tumblr_mt2me4otZl1rvfh0po1_r1_1280.jpg E... É isso.