Coração de Porcelana

27 Capítulo 26 - Preparativos


Capítulo 26 — Preparativos

— Você não vem conosco?

Vincent abaixou o olhar. Claire sabia que havia algo errado, obviamente, mas não pode deixar de sentir um misto de surpresa e desapontamento quando ele dissera aquilo.

Ambos haviam se afastado um pouco do resto do grupo, e estavam sentados num tronco que servia muito bem como banco. O rapaz girava a espada que ele havia ganhado quase nervosamente, apoiando a ponta da bainha roxa ao chão. Estava quase gritando para ele parar de sujar o material caro.

— Não, me...

— Não peça desculpas. – o interrompeu. – Você tem um motivo para isso, então só diga o que aconteceu.

Ele suspirou.

— Meu irmão mais novo sumiu. – respondeu, e contou boa parte do que seu irmão mais novo havia contado. – Por isso que Jim está aqui. – sua expressão então passou para a má vontade. – Near percebeu que nós estávamos brigando e veio falar comigo.

— Ele parece saber exatamente o que passa na nossa cabeça. E sabe quando estamos mentindo.

— Sim, mas... Ele me fez desembuchar e contar o que estava acontecendo, e disse que a melhor coisa a se fazer era ir com o Jim. Ele é responsável e tudo mais, só que...

— Você não ficaria em paz.

— É. – admitiu. Ele pegou sua sacola que era idêntica a dela, pondo a espada dentro. – E Michael, como eu poderia dizer... Ele é alto, mas só tem treze anos. Vive no mundo da lua. E parece que ele está desaparecido há... Três dias?

— Você não ia ficar mesmo em paz. Na verdade, fico surpresa que Near ainda teve que falar com você sobre isso...

— Não é só por isso, é que eu me preocupo com você no Santuário. Aqui não é exatamente o lugar mais seguro do mundo.

— Ah... – sentiu o rosto esquentando. Queria conseguir ser tão franca quanto ele. – Mas acho que está tudo bem. Marc vai...

— Ele não vai.

Olhou-o incrédula.

— Como assim?!

— Eu falei com ele. – suspirou. – Ele não pode sair daqui, parece que ele fez alguma coisa e precisa se manter por perto. E foi algo grave.

Recordou-se de Lumi, a filha de Marc. Será que seu nascimento fora algo tão grave, ou havia outra coisa ainda? Se bem que Kisaiya era claramente uma figura importantíssima para aquele local, mas... Algo lhe dizia que não era só aquilo.

— Aquele anão, Gitmak, irá leva-los amanhã, mas ainda assim... Acho que pedirei para Markus e Lilith a irem com vocês.

Continuou olhando-o. Vincent estava diferente de quando o conhecera, parecia milhares de vezes mais vulnerável. Tocou seu cabelo, tirando-o de sobre os seus olhos, o que o fez olhá-la em dúvida.

— Acho que... Você está certo. E acho que Josh... Não sei se isso irá desviá-lo muito, mas posso pedir para ele vir também.

O canto da boca dele se torceu. Parecia que ele queria rir de lado.

— É, acho que é uma boa ideia. – respondeu, pegando sua mão, então olhando para a foto que ainda estava em sua mão esquerda. -... Eu reparei que vocês receberam um terceiro pacote. Vocês têm outro irmão, ou irmã?

Mordeu os lábios, mas acabou o contando sobre seu pai ser um nobre banido, e sobre Corbin/Drake. Vincent ouviu tudo em silêncio, acariciando sua pele com o polegar distraidamente, o que quase distraiu Claire no processo, e no fim, ficou calado quando terminou.

— Eu não vou dizer que realmente censuro Joshua. Eu fiz praticamente a mesma coisa com os meus irmãos. Escondi a verdade deles por anos. Mas não deixa de ser chocante saber tudo isso, e também explica como você conseguiu virar uma bruxa tão depressa.

— É... – ela olhou para a sacola que Vincent havia prendido em seu cinto. – Posso?

Ele percebeu o que ela indicava, e tirou-a, entregando-a sem problemas.

— Dhonugret disse que essas sacolas darão tudo o que precisarmos. Espero que seja verdade...

Ele se calou abruptamente quando Claire tirou uma coroa. Era um diadema prateado, que parecia platina, e era como uma coroa nórdica. Estava toda desenhada com entalhes em baixo relevo de dragões, que formavam detalhes como ondas ou se enroscavam em nós. Seus olhos brilhavam em vermelho.

— Não. – Ele falou com tanta veemência que se assustou. – Eu não preciso disso.

— Ora, é bonita. E você é um príncipe, não é? – ele desviou o olhar. – Deixe-me ver...

— Claire, é sério... – Começou, mas não se desviou a tempo o suficiente para que a impedisse de passa-la por sua cabeça, abaixando-a até a sua testa. Como o cabelo do rapaz era extremamente negro, a coroa se destacava maravilhosamente.

— Olha, fica bonito. – Disse, e Vincent parecia congelado, como um gato assustado, o que a deu uma vontade absurda de rir. – É verdade!

— Eu... – ele tirou o diadema rapidamente, bagunçando os cabelos mais do que o normal no processo. – Eu acho que passei o tempo demais fugindo dessa parte da minha vida para ficar totalmente confortável por ser um príncipe, pelo menos por enquanto.

— Claro.

— Eu...

— Não, é sério, eu acredito em você. – respondeu. – Mas então... Nós vamos amanhã de manhã?

— Parece. – Vincent baixou o olhar. – Sabe, eu estou com um mau pressentimento.

— Por quê?

— Esses presentes dos anões. Eles são conhecidos por se recusarem a comercializar com povos que não são... Bem, anões. Só presenteiam. E isso em si, é muito raro, ao ponto de que muita gente mataria só para por as mãos em qualquer coisa que eles deem. Vira relíquia de família, muitas das vezes.

— E nós... Ganhamos um, cada um...

— É. Algo grande vai acontecer.

Claire tentou reprimir o seco, olhando então para a sua própria sacola. Aquilo soara como um agouro, somado ao que Kisaiya lhe dissera, e sinceramente, não estava preparada para aquilo. Vendo a de Vincent novamente, retirou a espada que ele havia acabado de por. Era mais leve do que esperava.

Ele a pegou, desembainhando-a. Sua lâmina era vermelho sangue, repleta de padrões geométricos que eram mais escuros do ela, e no centro havia algumas runas douradas. O rapaz franziu o cenho com aquilo.

— Nossa... – a garota murmurou, mas logo depois ele a pôs de volta rapidamente e com certa força. – Você não gosta dessas coisas.

— Não é isso. É só um pouco demais para mim.

— Você sabe o que significam.

— Sei. – respondeu, mesmo não sendo uma pergunta. – E o que você tem?

Ele questionou quando ela ia perguntar o que significavam, e como não havia ainda aberto a sua, decidiu dar o braço a torcer – pelo menos, por hora. Quando pôs a mão e retirou a primeira coisa que encontrou, tirou uma caixa de madeira.

Era larga, o suficiente para ser surpreendente que o tecido fosse capaz de ceder tanto. Era de um marrom escurecido, e algo lhe dizia que aquela madeira era carvalho. Parecia um pequeno baú, e seu topo estava entalhado com o que parecia ser uma mandala em formato de flor – o fecho era exatamente no meio -, prateada, suas pétalas inferiores se assemelhando a asas de dragão. Havia oito esferas no circulo ao redor dela: Uma rosa, uma lua, uma raposa e uma pena, do lado direito. Algo semelhante a um olho cuja pupila era uma fenda, uma espada, um escudo redondo e um barco viking no esquerdo. A parte inferior era pintada com galhos da mesma árvore, também prateada.

— Nossa... Que lindo. – Vincent estava quieto ao seu lado quando disse aquilo, o que a fez olhá-lo. – O que foi?

— Nada. – respondeu. Poderia ser convincente se já não houvesse aprendido o modo de agir dele. – Veja o que há dentro.

— Sério, o que foi?

— Esse símbolo é a junção dos de meus bisavós.

Claire olhou-o, surpresa, e ele continuou.

— As asas de dragão e as imagens do lado esquerdo são de meu bisavô Alphonsus, no caso, o primeiro rei. A flor, e as da direita, são da minha bisavó Ailith.

Ficou ainda mais surpresa.

— Você é bisneto de Ailith?! Mas... Ela não é considerada uma anja?

— Bem, sim. Segundo o Jim, sim. E Alphonsus também.

— Hã?

— Ele é considerado o anjo que rege a capacidade de transpor qualquer obstáculo, a abundância e os presságios, seja bom ou ruim. – Vincent coçou a nuca, parecendo sem graça. – Como Ailith a imagem e seu culto normalmente é endemonizado, ele é considerado o marido divino de Enguerrand... Minha outra bisavó. Mas parece ser o contrário.

— Você tem três anjos na família.

— Claire, sério, abra essa caixa. Lembrar as bizarrices da minha família não é pra mim.

Acatou o pedido, abrindo-a, prendendo a respiração logo depois. Era como se abrisse um armário, as duas metades indo uma para cada lado, e estava repleto de gavetas e alguns espaços vazios, que se iniciavam na metade inferior de cada um. No do centro havia um espelho redondo, sua moldura eram rosas azuis de folhagens prateadas, e era subdividido em três gavetas e compartimentos que se assemelhavam a três prateleiras em pé. Havia dois livros ali, o terceiro espaço em branco.

No da esquerda havia uma adaga de dois gumes cujo punho preto, e um sino com apenas a rosa. Na da direita trazia uma colher de pau – por quê? – que o cabo parecia mais um galho, com um desenho em sua face de uma lua, e uma pena. Parecia ser de coruja.

— Nossa... O que é tudo isso? – questionou impressionada, já abrindo uma das gavetas. Havia ali cinco cristais: Um quartzo claro, um rosa, um citrino, uma turmalina negra e uma ametista.

— Um kit bem completo. – foi a resposta, e Vincent também parecia bem impressionado.

Abriu uma gaveta que havia vários frascos transparentes tampados com rolhas, vazios, e uma outra que trazia um pilão e um socador, brancos.

Pegou os dois livros que estavam no centro. Eram relativamente grossos. Um parecia amadeirado, revestido em couro negro, com um corvo de prata brilhando ao centro e diversos entalhes ao redor, em cada uma das extremidades havendo uma pedra do que parecia ser ônix. O outro era do mesmo jeito, mas o couro se assemelhava a escamas, e era violeta. No centro trazia uma rosa ladeada por duas asas penosas. Ambos eram fechados à chave, que encontrou em suas devidas prateleiras.

— Acho que são um grimório e um livro espelho.

— Eu já ouvi falar de grimórios. Não são onde os bruxos procuram feitiços e coisas do tipo?

Ele sacudiu a cabeça.

— O grimório é um livro de rascunhos, pensamentos, testes, receitas de feitiços que começaram seu processo de criação, símbolos, nomes de anjos e demônios, formas de evocação e invocação, esse tipo de coisa. É onde você vai anotar sua criação. A ideia comum que se tem dele, na verdade é de um livro das sombras, com receitas de feitiços, rituais, poções, óleos e afins já prontos, testados e garantidos sua eficácia. Podem conter também informações sobre estudos teóricos já refletidos e meditados, palavras de invocação e evocação, hinos... Você pode ter o seu, que acho que é por isso que há um terceiro espaço, ou, caso entrar num coven, ter acesso ao deles.

— Basicamente, o grimório é um esboço de algo que ainda não está pronto, enquanto que o Livro das Sombras já traz o conhecimento efetivo do bruxo e pronto para uso.

— Isso mesmo.

— E o livro espelho que você mencionou?

— Dizem reflete exatamente sua essência por ser aonde você anotará as sensações que teve durante certa meditação, seus sonhos, suas preocupações, visões e essas coisas. Um diário. Há lendas que dizem que aquele que possuir o livro espelho de outro bruxo detém poder total sobre ele. – ele a olhou e Claire tinha certeza que estava parecendo uma criancinha impressionada. – Claro, se você quiser acreditar. Caso queira, é dito que ele não deve sequer ser visto, a não ser por seu dono.

— Hã... – ela olhou para os dois em suas mãos, a caixa equilibrada em seu colo. – Como eu com certeza tenho liberdade para escolher, eu ainda não decidi qual é o meu livro espelho. E você?

— O quê?

— Tem essas coisas? Livro espelho, grimório...

— Tenho. — admitiu. – Enfiados em algum canto da minha mala que eu me recuso a ir procurar no momento.

Teve que rir daquilo. Abriu o do corvo, e suas páginas eram amareladas, como se antigas, rígidas e completamente em branco. O outro era igual, então guardou a ambos e volta em seus lugares.

Mexeu naquela caixa durante algum tempo com Vincent, até Dhonugret ir enxotá-lo com Jim para ver Kisaiya, constrangendo Claire ao manda-lo “parar de namorar” em alto e bom som, e ir rápido.

Assim, continuou mexendo nas coisas sozinha, até seu irmão ir sentar ao seu lado logo após de tirar uma gaveta do lugar, revelando uma caneta tinteiro prateada de pena negra, com seis pontas que poderiam ser trocadas. Na gaveta de baixo via claramente nove frasquinhos de tinta.

— Seu namorado é um Rockstone. Isso pode ao mesmo tempo ser ótimo ou péssimo. – começou.

—... Eu não sei se posso dizer que Vincent é o meu namorado.

— Sério Claire? – o tom de Joshua era cético. – Eu vi vocês dois juntos por no máximo duas horas e já deu para ver que ele é louco por você. Vocês não se ajudaram muito vindo aqui para trás.

— Hã... – tinha que parar de ficar vermelha tão rápido. Tinha!

— Continuando... Por que exatamente está aqui?

— Hã?

— No Santuário. E... Fugiu de casa?

Acabou explicando sobre a caixa de Near e todo o resto: Como conhecera – “conhecera” – Vincent, fora parar na casa de Marc, a explicação da situação e os últimos dias loucos.

— Você fez tudo isso por uma pessoa que mal conhece?

Ficou quieta, fingindo que continuava mexendo em seu baú. Na verdade, estava mexendo, só que um tanto ausente. Seu irmão deu um suspiro cansado.

— Você não queria ficar sozinha, não é?

Não respondeu. Encontrou algumas velas. Havia oito ali, assim como as tintas de antes.

— Pode me responder, Claire?

Só para contrariar, continuou em silêncio. Joshua mudou de posição, apoiando o queixo na mão, o cotovelo apoiado no joelho.

— Estar sendo ótimo falar com você.

— Claro, foi o que você fez comigo nos últimos dois anos.

— É, eu sei que eu fui um irmão de merda neles.

— Você consegue falar com tanta naturalidade...

— Eu acho que é melhor não brigarmos de novo. – Josh pegou a sacola de Corbin, a sua, assim como Vincent fizera, estava presa em seu cinto. Ele pôs a mão dentro. – A questão é: O santuário é perigoso. Você acha que vale a pena se arriscar tanto por ele?

— Near é uma boa pessoa. – respondeu. – E se ele foi parar no meu quarto, deve ter um motivo.

Ele tirou uma balestra delgada e de aparência antiga, que parecia ser totalmente feita de prata. Via algumas imagens em baixo relevo de corvos.

— Olha só... Parece que o Corbin vai ser um arqueiro. – murmurou, antes de continuar. – Agora... Você tem certeza?

— Ele é bem sincero, e não deve ser muito bom ser transformado em boneco por alguém que diz... Quer dizer, ela não disse, mas ainda assim, diz te amar.

Joshua pareceu ponderar antes de concordar, achando os dardos logo depois. Também eram prateados. No fim, ele pôs tudo de volta no lugar.

— Antes que você pergunte, eu provavelmente vou com vocês.

— É, eu ia perguntar isso. Mas... Você não estava atrás de alguma coisa do papai, ou da sua mãe e coisa do tipo?

— Estava. Mas isso pode esperar.

Olhou para o seu irmão em dúvida, mas ele não disse mais nada.

Um pouco depois, Gitmak apareceu com uma anã, e disse que ia levar todo mundo para algum lugar onde pudessem ficar e comer. No fim, os levou a uma espécie de estalagem, mas tudo era de um tamanho condizente a humanos, então provavelmente era reservada a bruxos que apareciam por ali. A dona do lugar usava um corpo mecânico para alcançar o balcão e andar de um lado para o outro.

Depois de receber um prato gigantesco – que provavelmente dava para ela e Joshua, mas ele recebeu um também. E Claire sabia que seu irmão não comia pouco – de uma torta de carne com cogumelos e umas coisinhas brancas que algo lhe dizia que era melhor perguntar o que era. Como não recebeu talheres, o fato de ser uma torta ajudou a manter as coisas limpas, e a comida era tão apimentada que a cada mordida tomava um gole de água.

Não conseguiu chegar nem à metade de seu prato, feito que seu irmão conseguiu, mas desistiu de comer logo depois, e a anã ficou os olhando feio, como se mandasse que continuassem a comer e não desperdiçassem nada, mas simplesmente não entrava mais nada. René e Victoria, depois de retornarem, assim como Markus, não tiveram melhor sucesso do que eles.

Assim, ficaram beliscando a comida de tempos em tempos para dizer que não estavam desperdiçando nada. Depois que todos voltaram, quem de longe teve mais sucesso foi James e Near, seguidos relativamente de perto por Vincent e Jim – o que foi surpreendente, considerando como Jim era magro. Questionou o tamanho do estômago deles.

Reparou também que Marc estava em lugar algum.

Enquanto isso, a anã que aparecera com Gitmak, cujo nome era Nerboubo Snowhelm, tagarelava algo sobre estar sendo enviada uma mensagem para um lugar chamado Sombra da Asa sobre haver membros da família real e casas nobres indo para lá. Via os olhos de Vincent pedindo socorro com aquilo.

— Ei vocês!

Ela e Joshua olharam para o anão, fora de seu corpo mecânico. Sua roupa era toda feita de couro e ele estava com um copo enorme, semelhante a um pequeno barril, em sua mão esquerda. Sua barba estava suja de espuma.

— Amanhã cedo nós saímos. – avisou. – Ajeitei umas comidas para levarmos, nós vamos para a floresta. Ninguém merece aquelas fadas que só comem frutinhas e verduras. – ele sacudiu a cabeça. – Todo mundo tem presente, todo mundo tem as suas coisas, vamos beeem cedo, estão ouvindo?

Assentiram, e ele saiu cambaleando e xingando alguns anões que haviam entrado ali.

Nem reparou que Near com certeza deveria ter voltado a ser um boneco quando fora dormir. Deitou-se na cama do quarto que dividia com Victoria e Anastasiya e adormeceu milagrosamente rápido.