Coração de Porcelana

25 Capítulo 24 - Candeias


Capítulo 24 — Candeias

O irmão mais novo de Vincent poderia muito bem se passar por seu irmão gêmeo, dada a semelhança gritante entre ambos. Jim era mais franzino e seu cabelo era mais arrumado, mesmo que até os cortes fossem parecidos – os dois até usavam franja -, e tinha olhos azul gelo. Ele equilibrava um rapaz árabe inconsciente em sua sela, e estava sendo seguido por outros três adolescentes, duas garotas e um garoto loiro de cabelos ondulados que além de guiar o próprio cavalo, guiava uma égua branca pelas rédeas, provavelmente do rapaz desfalecido.

Sentiu as pequenas ondas elétricas passando por seus braços. Vincent estava ficando nervoso.

— Opa! – Gitmak parou, olhando os dois. – Reunião de família! De novo! Alô primo Dhukdrom Ashmace!

O anão de armadura sobre um pônei assentiu, e ele parecia pálido como se houvesse visto um fantasma.

Near olhou para Claire. Até um cego veria que Jim e Vincent eram irmãos.

— Eu irei avisar Dhonugret Hugechest. – Dhukdrom disse. – Enquanto isso, vá os levando para lá.

— Ei, mas... – Jim começou, mas o anão disparou em seu pônei. Ele suspirou, antes de dar uma olhada nervosa para seu irmão mais velho. Claire estava quase para pular para o cavalo de Near diante o clima tenso.

— Ei, sem-barbas, podem continuar fazendo esses seus cavalos gigantes andarem! – Gitmak exclamou, ignorando o que acontecia. Ele foi dar uma olhada no garoto desmaiado, o qual Claire percebeu que trazia a sua mão direita em um dourado pálido como se fosse metal. – Hmmmm... Mordida de anjo. Isso não é bom...

Vincent olhava fixamente na direção deles e o irmão dele não parecia muito à vontade.

Havia brigado com Joshua no barco, então agora estavam numa espécie de tratado de não agressão, ignorando um ao outro. Era coisa demais para sua cabeça nesse momento e seu irmão não havia explicado o que estava fazendo ali, mas no momento estava com mais raiva por algumas coisas que ele acabara dizendo no caminho. Aparentemente, ele era um bruxo desde... Sempre. E Joshua surtara quando a vira lá, o que lhe deixava extremamente irritada pelo fato dele tê-la praticamente ignorado por dois anos, e agora queria vir lhe dizer que não era para ela ficar lá, que era para ela voltar para casa e coisas do tipo.

Quando havia decidido ignorar o seu irmão e não lhe dar nenhuma, prestara atenção – em parte – no que acontecia com Vincent no outro lado do navio. Não se aproximou pois vira que era um assunto particular entre os três, mas vira a expressão dele mudando a cada palavra que Markus dizia, e agora que via um de seus irmãos ali – pelo que entendera, eles não eram bruxos e deveriam estar ainda em Atlanta. -, entendia que havia ainda mais coisa errada. Questionou-se onde estava o terceiro então.

— Isso é ruim como? – uma menina ruiva cheia de sardas questionou. Percebeu que todos estavam com equipamentos de equitação adequados, mesmo que não conhecesse muito sobre o assunto.

— Hã, bom... – O anão loiro começou a passar a mão nervosamente na barba.

— Bom...? – Jim questionou. Percebeu que seu tom de voz demandante era o mesmo de seu irmão.

— Vai ter que amputar.

Silêncio. Viu Near fazendo uma careta em sua direção, não sabiam o que estava acontecendo direito, mas ouvir que teriam que amputar um membro de alguém era sempre ruim. Foi um pouco antes de todos começarem a falar ao mesmo tempo, perguntando se não havia outra maneira, ou se era uma brincadeira sem gosto.

— Ei, parem, eu sou só um! – Gitmak exclamou. – E isso é uma infecção. A mão dele já era. Ou vocês tiram ela, ou vocês deixam ele virar um daqueles anjos mordedores! É tipo licantropia, sabe? Se a pessoa for mordida no braço e vocês não tirarem, ela vira um lobisomem. Só que nesse caso, é um pouquinho pior... Mas olhem pelo lado bom, a Dhonugret é limpinha e...

Os quatro ficaram em silêncio de novo enquanto ele continuava falando. Vincent estava com os olhos pregados em seu irmão. Claire quis se afastar quando percebera a energia estática envolta do moreno.

“Eles são gêmeos?” Near lhe questionou silenciosamente, formando as palavras com a boca. Negou com a cabeça, pois Vincent comentara no dia interior com ela que possuía um irmão de dezesseis e um de treze. Jim era claramente o do meio. “Poderiam ser”.

Ela assentiu em concordância, e acabou dando uma olhada para Joshua contra sua vontade. Ele havia virado um corvo – mal humorado – e estava empoleirado no ombro de Marc, que parecia não se importar.

Os outros três também haviam virado animais. James era um imenso lobo cinzento que trotava quase ao lado deles – novamente ele não parecia muito feliz. -, Markus era um Husky – ainda albino – e Lilith era uma ursa marrom. Eles acompanhavam o passo dos cavalos sem problemas.

Passaram pelas pontes, que estava repleta de anões, que não lhes davam muita atenção. Era como se repentinamente houvesse passado para um filme de fantasia: havia muitas, muitas ferrarias, havia armeiros, oradores sobre palanques que davam a notícia do dia. Viu uns cinco anões puxando um grifo, que lutava ferozmente contra eles, e viu uma mulher levando um jarro enorme na cabeça, que parecia conter um jardim em miniatura dentro dele, com pessoas de quinze centímetros dentro. Os gnomos batiam no vidro e fizeram cara feia para Claire enquanto ela passava.

Foram para um grande portal que trazia diversas luzes penduradas por ele. À medida que passavam por dentro, percebeu que eram fadas sentadas em cristais suspensos, e algumas estavam próximas como se estivessem numa festa do pijama em miniatura.

Chegaram a uma área que era claramente onde a pedra da montanha se ligava a uma densa floresta, e havia duas mulheres junto com Dhukdrom, claramente Nambra Faedove e Dhonugret Hugechest.

A anã era uma idosa já, gorda e sua roupa apertava seu corpo como um corpete, fazendo os seios já avantajados saltarem. Seus cabelos grisalhos estavam puxados para trás em um coque formado por uma rede de complicadas tranças, os olhos pretos severos. Sua roupa era feita basicamente por lã tingida de azul, trançada e presa com anéis de ouro, com ombreiras de argila e um cinto de uma junção de vários tecidos, repletos de moedas de ouro. Ela usava um cajado dourado com um imenso cristal na ponta para andar e havia uma pintura em sua testa com um estranho símbolo, que certamente representava sua posição.

Nambra, a elfa, era o contrário. Parecia jovem, com cabelos castanhos e compridos, trançados com diversas contas e na ponta de cada trança havia uma pena de uma ave diferente ou uma folha, com pele clara trazendo pinturas na região de seus olhos extremamente verdes e de sua testa. Suas roupas eram simples e reveladora, de tecidos diáfanos e esvoaçantes, com as mangas se assemelhando a asas. O que surpreendeu mais a Claire era o fato que em quase todos os livros que lia que representavam elfos, eles eram ditos serem altos, mais que humanos normais, mas Nambra deveria ter sua altura.

— Kisaiya está os esperando. – Dhonugret falou com um forte sotaque, e Gitmak engasgou. – Ela sabia que eles viriam. Todos eles.

— Hã?

— Você, “Marc”. – Ela apontou com seu cajado para Marc, que pela primeira vez na vida de Claire o via remotamente acuado. Por uma mulher de um metro de altura. – Ela vai falar com você depois. Tem contas demais para acertar com você depois de... – A própria anã se interrompeu. – Do que você fez cinco anos atrás.

— Ela quer que aqueles com laços familiares venham juntos.

A garota pensou então que ela mandaria Jim, Vincent, Lilith e Markus para onde quer que fosse, mas para a sua surpresa, ela apontou para Claire, para Joshua, a menina ruiva e o loiro que estavam no grupo de Jim, e... Markus? Os quatro se entreolharam e viu claramente as penas de seu irmão se arrepiando, mas ele saltou do ombro de Marc, voltando a sua forma humana.

Vincent a ajudou a desmontar com o cenho franzido, mas as duas mulheres saíram antes que ele pudesse lhe dizer qualquer coisa. Assim, teve que praticamente correr para alcança-las.

Joshua andava arrastando os pés. Era o que ele fazia quando ia para algum lugar sem a mínima vontade. Os outros dois seguiam, mas Claire quase conseguia ver os pontos de informação na cabeça deles, e um silêncio desconfortável havia se instalado enquanto seguiam as xamãs. Markus parecia meio verde.

Elas os guiaram para um local onde as árvores formavam um longo corredor. Havia fitas presas em seus galhos, e literalmente, havia cristais crescendo neles, e inacreditavelmente, seus troncos eram brancos, quase translúcidos, e as folhas aparentemente de vidro mudavam de cor a toda hora.

— Hã... René... – A ruiva chamou o rapaz loiro, que a olhou. Talvez fosse o colar que Marc lhe dera, ou ela havia realmente falado em inglês, mas trazia um forte sotaque escocês. – Sua mãe... Era uma Allaway, não era?

— Sua tia. – Ele respondeu quase secamente com um sotaque francês.

— Hã... Eu nunca parei para pensar que você era o meu primo...

Nambra parou quase abruptamente e olhou para trás.

— Sem segredos, vocês dois. – Ela apontou tanto para Markus quanto para o irmão de Claire. – Vocês sabem por que estão aqui.

E voltou a andar. A garota quase ouvia Joshua gritando de exasperação.

O albino soltou um suspiro cansado.

—... Eu sou filho do Marc. – Claire o olhou surpresa. Markus não parecia nada com ele. – Se ele sabe ou não... Não sei. O nome verdadeiro dele é Gwenael Guiscard. – dessa vez René o olhou surpreso. – Ele é irmão mais velho de Gaston, no caso, o ancião da família Guiscard... Mas quando o pacto do Rei foi selado, ele não aceitou entrar para a realeza, então... Ele é um bruxo comum. E eu também.

— Agora isso foi surpreendente. – Joshua finalmente falou. Até sua voz saía arrastada. – Você tem quase um milênio de vida também?

— Digamos que eu fui um dos motivos para ele ter virado um bruxo.

— É, você tem.

— Joshua? – Claire chamou seu irmão, também de má vontade. – E nós?

Dhonugret deu uma olhada feia para o seu irmão.

—... Eu... Nós...

— Desembucha logo garoto.

Ele grunhiu.

— O nosso pai não se chamava Abner Hayles. – falou finalmente, cedendo, e enquanto isso, Claire sentiu algo estranho dentro de si. Algo... Despencando. – O nome dele era Acelet Guiscard.

— Mas... – surpreendeu-se quando foi René falou. – Esse era o nome do meu tio... O...

— Banido. – Joshua desviou o olhar. – Longa história. Muito longa. Ele se casou primeiro com uma mulher chamada Deoirith Allaway, e... Eles me tiveram. Minha mãe foi outra Allaway a morrer no parto, e o meu nome mesmo não é Joshua. – Ele chutou umas folhas ao chão. – É Bertrand Guiscard. Eu nasci na França mesmo.

— Ai meu Deus... – René pressionou suas têmporas. Enquanto Claire não sabia como reagir, parecia que ele estava ouvindo algo que lhe dera muita dor de cabeça no passado.

—... Algum tempo depois, ele conheceu a sua mãe. Ela estava de férias em Paris, e... Teve toda aquela história, paixão e tudo mais, mas indo direto ao ponto. Nosso avô Cesaire presava a pureza de sangue, os Guiscard são os únicos da realeza que, no mundo “normal”, não vinham de uma família nobre.

— Somos originários de uma família de vilões. Que depois viraram burgueses. – René falou novamente.

— É. Pelo que nosso pai contava, ele achava que os outros nobres olhavam nossa família de forma diferente por causa disso, então achava que era o dever de todos os membros se casarem com outros bruxos da maior estirpe possível. Assim, os dois filhos dele casaram com duas Allaway. O papai ficou viúvo e depois conheceu sua mãe... Que não era bruxa.

— Você está brincando...

— Claro que o nosso avô não aceitou. Então, como o papai insistiu nessa história, ele o baniu. E Claire, ser banido de uma família bruxa é...

— A pior coisa que pode acontecer. – Victoria respondeu. Ela parecia prestes a ter alguns calafrios.

— O... O que acontece?

— É como se “retirassem” o sangue nobre da pessoa. Ela pode virar um bruxo normal, ou ainda, perder toda sua capacidade de utilizar magia. É um processo muito doloroso, pelo que... Ele me contou. Então foi expulso de casa, e eu seria criado pelos nossos avós, agora os Guiscard ou os Allaway... Eu não sei. Eu sei que ele conseguiu me, hã...

— Pegar?

— Nosso avô chamava isso de sequestro. – René respondeu.

— Chame como quiser. Então ele foi para os Estados Unidos com sua mãe, mudou nossos nomes e tudo mais. Aí tudo...

— Você não vai contar tudo. – As duas xamãs falaram ao mesmo tempo. Joshua empalideceu.

— Você sabe por que veio ao santuário. – Dhonugret disse.

— Conte a ela.

— Eu... – A voz de seu irmão começou a tremer. Claire se questionou o que havia ao fim para deixa-lo tão nervoso.

— Conte. – As duas falaram. O queixo dele tremia.

— Joshua, o que mais você está escondendo?

Ele a olhou. Seus olhos verdes estavam quase desesperados, como se estivesse num assunto ainda mais proibido.

—... Você já ouviu que... A sua mãe sofreu dois abortos antes de lhe ter não é?

— Claro que já.

— Então... Cesaire nos encontrou da primeira vez que ela engravidou. Mesmo tendo banido papai, talvez ele não suportasse alguém do mesmo sangue dele se misturando com um não bruxo. Ele causou um acidente que a fez perder o primeiro bebê. E de novo, o segundo. O segundo... Eu lembro, mesmo sendo pequeno. Foi horrível.

— Ele já tinha sete meses.

— Sim, aí, quase um ano depois, ela engravidou de novo. Nosso pai estava com medo do que aconteceria com ela caso nosso avô a fizesse perder mais um bebê. Então nós nos mudamos para uma casa de campo. Pelo menos, por hora. Ele nos escondeu, ia a cidade trabalhar e despistava qualquer coisa a maior parte do tempo. O parto foi em casa, e... Aí veio o problema.

— Que problema Joshua? – A sua voz já saía quase esganiçada.

— Eram... Dois. Gêmeos. Você, a mais velha e um menino mais novo.

Claire pensou que fosse cair.

— É de família, não é? Você e Éloi... – Victoria começou a falar com René.

— Shh! – ele a repreendeu.

Seus pés pareciam pesar toneladas e suas pernas haviam se transformado em gelatina.

— Dois... – Começou.

— Claire e Corbin. – Viu claramente seu irmão engolindo o seco.

— Mas... Mas só eu... – era demais. Sua cabeça estava pesando e começou a parecer querer chorar. Aquilo era loucura. – Só éramos eu e você, então onde ele...

— Vocês nasceram bem... Normais. Nosso pai conseguia esconder a todos e estava tudo bem, mas com uns seis meses... Vocês dois se tornaram bombinhas de magia.

Claire o olhou, incrédula.

— Eu também me lembro disso. Às vezes, eu entrava no quarto de vocês e estava tudo voando, ou vocês mesmo saiam flutuando de seus berços. As versões vivas do Zezé dos Incríveis. – Ele deu uma risada sem graça, enquanto Claire balançava a cabeça, incrédula. – Mas chegou ao ponto em que o papai não conseguia mais esconder todos.

— Ele...

— Ele teve que desistir de um. No caso, foi o Corbin.

— Mas...! – sua voz subiu algumas oitavas. – Como... Como eu nunca ouvi nada sobre isso todos esses anos? Como nem a mamãe pareceu se importar nem nada do tipo?! E o que ele fez com o...

— Ele alterou as memórias da sua mãe. Fez ela pensar que só teve você. A fez esquecer a magia de vocês. Não foi algo que ele se orgulhava. Quanto a você... Um dia ele a pegou e a levou para algum lugar, quando voltou, você estava... Normal? Não saiu mais fazendo berço voar ou ficava girando no ar. Quanto ao Corbin... Ele o trouxe para cá. Para o santuário.

Dhonugret soltou um grunhido de aprovação por Joshua estar finalmente falando.

— Só que no caminho, ele encontrou nosso avô. Que atacou, e atingiu o bebê.

René desviou o olhar. Dava para ver que ele conhecia seu avô o suficiente para saber que aquilo não era um absurdo para o garoto, e que parecia ser totalmente possível. Victoria olhava para ele, então para Joshua, então para Claire. Markus estava quieto.

— Corbin não morreu. Ele conseguiu chegar aqui a tempo, mas Cesaire fez alguma coisa a ele, só não dava para ver o quê. Pelo menos, não em curto prazo. Papai o entregou para um povoado de fadas. Uns quatro anos depois ele tentou voltar para ver como ele estava, e eles disseram que uma mulher havia o levado. Eles também disseram que logo no começo, ele gritava muito, com força, por medo, por saudade e talvez tudo que um bebê pudesse sentir por ser separado da família, então haviam mudado seu nome. Para Drake.

— E...

— Ele me contou isso um pouco antes de ir naquela viagem que ele morreu. Ele... Ele estava muito animado, pois aparentemente, ele havia encontrado a tal mulher que levara o nosso irmão. Ela trabalhava num orfanato e levava crianças abandonadas no Santuário para poderem ser adotadas. E que, Drake, no caso, havia sido adotado por um casal aos cinco anos. E mora em Atlanta.

Claire se sentia tonta.

— Ele ia tentar entrar em contato, mas... Ele morreu antes. E não deixou nada quanto às buscas nem nada que pudesse ajudar, só encontrei umas coisas escondidas no porão de casa...

— Nós não temos porão.

— Temos. É escondido, papai usava como uma espécie de recanto para ele. Ele guardava as fotos que tinha de vocês dois e algumas das coisas de bebê do Corbin lá. – Joshua pôs a mão no bolso e tirou uma foto dobrada do bolso. A mão dele tremia tanto quanto a dela, quando pegou o papel.

Desdobrou-o, quase não conseguindo. Seus dedos pareciam dormentes. No fim, a foto pareceu ainda demais para si.

Era o seu pai, com um sorriso, carregando dois bebês que deveriam ter em torno de seis meses. Reconheceu-se, mas havia o garotinho do lado, que era principalmente o motivo daquilo ser demais. O cabelo dele era da mesma cor que o dela, que lhe caía ligeiramente na testa, mas ele tinha os olhos amarelados de seu pai. Ele estava com um macacão – aparentemente um pijama – azul, e Claire estava com um lilás.

— Quando ele morreu... Isso tudo me perturbou muito mais do que já perturbava.

— O que quer que o papai tenha feito comigo... Não dava para ele fazer com... Ele? O Corbin, Drake, sei lá?

—... Parece que não.

— Chegamos. – Dhonugret anunciou, e Claire sentiu como se houvesse saído de um banho de água fria.

Havia duas árvores cujos galhos se entrelaçavam, formando um portal, e suas raízes formavam escadas. As portas pareciam vitrais, pintadas com diversas imagens do que pareciam ser anjos e representações de festas, danças e magia.

— Tenham muito respeito com Kisaiya. – Nambra falou. – Ela só lê o futuro e aconselha apenas aqueles que podem fazer a diferença em alguma coisa.

— Mas porque nós estamos... – René começou, mas as duas o ignoraram e começaram a ir embora. – Muito obrigado. – falou ao fim, frustrado.

Markus tirou seus óculos. Seus cílios eram brancos e os olhos eram de um estranho tom de violeta, que Claire sabia ser por que havia apenas uma finíssima camada de pigmentos azuis sobre o sangue natural que passava pelos globos oculares. Suas pupilas eram vermelhas. Ele deveria ser muito sensível à iluminação...

Uma garotinha pôs a cabeça para fora. Ela deveria ter uns quatro anos, e de longe, era uma das crianças mais adoráveis que Claire já vira. Ela tinha os cabelos quase brancos, lisos e presos em duas tranças grossas que lhe caíam até a cintura, presas com fitas azuis. Seus olhos eram prateados, e sua pele era cor de canela, contrastando com tudo mais. Ela usava um vestido branco com renda, e estava descalça.

Ela soltou uma espécie de exclamação de surpresa e admiração, antes de literalmente pular em cima de Markus, que se assustou, recuando. Ainda assim, ela o agarrou pela mão, que pareceu deixa-lo desconfortável.

— Você é todo branco! Que lindo!

Ele certamente não parecia à vontade com uma criança pendurada no braço.

— Lumi, solte o rapaz.

Como o “ataque” da garotinha havia atraído a atenção de todos, Claire voltou-se para ver quem havia falado. Bom, era claramente a mãe de Lumi. Era uma mulher de estatura média, com a pele da mesma cor de canela que a filha. Seus olhos eram verdes, e seu cabelo preto caía como tinta até os quadris. Seu vestido era de seda, um amarelo passando para o dourado, simples e liso até o chão, parecendo quase os vestidos genéricos medievais que já vira, seus braços traziam braceletes e estavam pintados com hena.

Ela parecia jovem... Uns vinte e poucos anos. Mas já aprendera que deveria ter um pé atrás quando um bruxo parecesse remotamente “jovem”.

— Desculpe mamãe. – Ela soltou Markus e saiu correndo para dentro.

Kisaiya então se voltou para eles.

— Desculpem por isso, ela se empolga com “estranhos”. Entrem.

Sem qualquer alternativa, a seguiram.

As paredes pareciam ter sido formadas naturalmente pelas pedras. Havia um corredor largo, uma espécie de sala com almofadas ao chão, e uma porta que ainda deu tempo de ver Lumi correndo por ela.

— Vocês podem esperar aqui, mas você, – ela indicou Claire. – venha comigo.

Claire estava com a cabeça tão cheia que acabou a seguindo sem dizer uma palavra. Na verdade, nem olhou para trás, para ver se Joshua tinha algo a dizer ou protestar.

No final do corredor havia uma porta semelhante à da frente, que dava para um recinto bem maior que a sala. Era um tanto escuro, devido às paredes de pedra, mas ainda assim, era aparentemente confortável devido ao modo que havia sido decorada. Havia uma prateleira escura cheia de frascos de vidros, uma bancada claramente usada para alquimia, e o chão estava coberto por um imenso tapete ricamente bordado, com imensos travesseiros que serviam como sofás. Entre eles havia uma mesa extremamente baixa, do nível que se encontraria quando sentasse, e mais atrás, havia um acortinado que dividia a sala.

Sentou-se quando percebeu que podia, e ainda segurava a foto que Joshua lhe dera. Acabou soltando um suspiro cansado.

— Dhonugret e Nambra não são muito empáticas. – Kisaiya disse enquanto trazia um bule de porcelana com dois copos, pondo-os exatamente entre ela e Claire. – Sei que você acabou de receber notícias não muito boas de seu irmão.

— Você... Contou para elas, para que fizessem isso?

— Não. Elas são sensitivas, então o perceberam. Mas consigo ver que veio de maneira abrupta.

Deu mais olhada na foto, para então guarda-la. Não sabia o que fazer. Correu o olhar pelo recinto, mas não conseguiu relaxar.

— Marc disse... Que você vê o futuro.

— Ele está certo.

— Então eu vim aqui para... Que você visse o meu futuro?

— Admito que eu apenas vejo os que me trazem algum interesse. – Ela lhe respondeu. – E normalmente, são os que podem mudar alguma coisa numa maneira geral.

Não soube dizer exatamente o que sentiu quando ela lhe disse aquilo.

— Quanto a todas as pessoas que chegaram aqui hoje, parece que todos vocês estão destinados a algo grande. Mas saber o quê, exatamente... Precisaria ver um por um.

— Mas você não vai dizer exatamente tudo o que vai acontecer.

— Claro que não. Pois o futuro se realiza com mais sucesso quando não se espera cada passo dele. Como vidente, posso dizer isto, pois já saber cada passo que você dará pode lhe fazer sofrer por antecipação, e sofrer mais ainda quando perceber que cometeu, talvez, um erro que já sabia que cometeria.

Claire olhou-a em dúvida.

— Por exemplo: Eu sabia que o pai de Luminitsia, minha filha, me abandonaria. Mas isso não me impediu de me apaixonar por ele, e muito menos de sentir a dor que sentir quando ele se foi sem qualquer explicação. Mas não é sobre mim que iremos falar agora.

Algumas coisas vieram à mente de Claire quando Kisaiya dissera aquilo, como um quebra cabeça. Gitmak dissera que Marc não aparecia há mais ou menos cinco anos, o mesmo agira como se fosse difícil falar sobre a mulher ao seu lado, no momento. Dhonugret parecia guardar algum rancor dele e dissera que ele devia explicações... Lumi tinha cabelos quase brancos e olhos prateados...

— O pai da sua filha é o Marc. – constatou.

— Sim. Não é difícil perceber quando se liga os pontos.

— Ele... Sabe...?

— Não. Ainda não. – o tom de voz dela obrigou a Claire completar com um mentalmente “Mas vai saber”. – Porém, novamente, não estamos aqui para falar de mim, Marc, ou nossa filha. É sobre você.

Não fazia a mínima ideia do que poderia dizer sobre si mesma, mas Kisaiya estendeu a mão, e de sua estante, algumas coisas flutuaram em direção à mesa. Era uma sacola de linho, que não sabia exatamente o que representava.

— Irei facilitar um pouco as coisas para você. De origem, sou do povo cigano, mesmo que já tenha os deixado há muito tempo. E aprendi outros métodos de ver o futuro além de minha própria intuição. – Ela fechou os olhos. – Runas, por exemplo. Mas... O que acha do tarô?

—... Por mim tudo bem. Eu realmente não sei o que fazer...

Kisaiya pareceu rir, desembrulhando as cartas enquanto Claire começava a tomar o chá. Era doce pareceu acalmá-la, o que foi bem vindo para si, e enquanto isso, a mulher embaralhava as cartas do tarô, então as separando em três montes.

— Esta é uma leitura simples, e é o suficiente. – anunciou. – Você irá virar a carta do topo de cada pilha, e ela representará cada uma das fases de sua vida. A da esquerda é o passado, a do meio seu presente, a da direita seu futuro.

Claire fez o que ela pediu, girando cada uma das cartas.

A da esquerda era representada por um homem, de pé, tendo na mão esquerda um bastão que lhe servia de apoio, enquanto que com a direita levantava uma lanterna até a altura do rosto. Estava representado de três quartos, com o rosto voltado para a esquerda. Trajava uma grande túnica e um manto azul com o forro amarelo. Seu capucho, caído sobre as costas, parecia continuar a túnica e era arrematado por uma borla amarela. A lâmpada, aparentemente hexagonal, tinha apenas três de seus lados visíveis, sendo o central vermelho e os restantes amarelos.

O fundo da gravura era incolor, e o chão de um amarelo estriado de listas negras, muito semelhante ao reverso do manto. Estava representado pelo número IX, e sob a gravura estava escrita “O Eremita”.

A do centro trazia uma mulher coroada, sentada num trono, mantendo contra si, com sua mão direita, um escudo ornado com uma águia amarela, enquanto que com a esquerda sustentava um cetro que termina por um globo encimado pela cruz. Estava representada de frente, com os joelhos separados e com os pés ocultos nas dobras da túnica. A cintura encontrava-se marcada por um cinto, que se une a uma gola dourada. A coroa levava florões amarelos e permitia que os cabelos da figura se derramem sobre os ombros. O trono estava bem visível e seu espaldar sobressai à altura da cabeça da mulher. No ângulo inferior esquerdo da estampa cresce uma planta. A águia desenhada no escudo olha para a direita.

Ela trazia o número III, e estava denominada “A Imperatriz”.

E a última era uma mulher sentada, com um livro aberto sobre a saia e uma coroa tripla na cabeça, olhando para frente, veste uma túnica vermelha sobre a qual se desdobrava um manto azul. Duas partes da sua tiara estão ornadas de florões, mas a parte superior é uma simples abóbada. Um véu, que lhe caia sobre os ombros, cobrindo totalmente os seus cabelos; na mesma altura desse véu, por trás, aparece uma cortina cujos pontos de fixação não são visíveis. Tampouco se podia ver os pés da mulher, assim como a base do trono.

Seu número era o II e trazia o nome de “A Papisa”.

— Combinação interessante. – Kisaiya disse por fim.

— O que... Significam?

— O Ermitão pode significar muitas coisas. – foi a resposta – Esclarecimento, meditação... Timidez, isolamento, obscuridade. Depressão.

Claire sentiu-se engolindo o seco ao ouvir a última parte. Nos últimos dois anos, mesmo tendo a presença de suas duas amigas, se sentia isolada. Sua mãe e Joshua praticamente a ignoravam quando tentava falar com eles, e parecia que os dois haviam se fechado em seus próprios mundos e esquecido de deixa-la entrar.

— Ele também pode representar um segredo descoberto. – os olhos da mulher praticamente queimavam.

— Num passado recente.

— Muito bem. O seu presente é o agora, e tudo o que seu irmão lhe contou já se encontra no passado, porém, ele não deve ser ignorado. Assim, chegamos à Imperatriz. – O dedo dela foi até a carta do meio. – Há altos e baixos nesta carta. Compreensão, inteligência, instrução, encanto, amabilidade. Elegância, distinção, cortesia. Domínio do espírito, abundância, riqueza. Gravidez, criatividade, sucesso. Estes são os altos.

—... Gravidez? – questionou, incerta.

A outra riu.

— Não estou dizendo que você vai gerar uma criança hoje, ou amanhã. Apesar de seu namorado ser uma gracinha.

— Hã... – Claire sentiu o rosto ficando vermelho. – Eu e o Vincent, nós...

— Tudo bem, não precisa ficar assim. A gravidez refere-se à fecundidade de novas ideias. Tudo o que aconteceu no passado mudou sua visão de mundo, assim, você o vê de outra forma. Mas assim como há altos, há também baixos: Desavenças, discussões. As coisas podem embaralhar e ficar confusas. Atraso na realização de um acontecimento que, no entanto, ocorrerá. Resta a você agir e decidi quais as duas faces da carta se revelarão para você daqui para frente.

— Muito animador.

— E agora... A Alta Sacerdotisa. Ela será fortemente influenciada pelas suas ações presentes. Será ela misteriosa, sábia e paciente, ou dissimulada, hipócrita e mesquinha? Rancorosa e hostil, talvez?

— Ainda mais animador. – gemeu.

— O futuro pode ser lido, mas uma ação do seu presente é capaz de muda-lo inteiramente. Saiba disso. Não estou lhe dizendo que você será de certo modo, mas sim as mais prováveis que podem influencia-la a se tornar uma das duas faces da figura. – Kisaiya suspirou. – Nós bruxos ainda somos muito influenciados pela ação da natureza, pelo cosmo. Os não mágicos são de certa forma, mas tendem a ignorá-lo. Signos podem influenciar uma pessoa...

— Signos? Nasci em dezesseis de junho, então sou de gêmeos... – Acabou se travando quando dissera aquelas palavras. Gêmeos. Ó, infâmia!

A sacerdotisa riu.

— Até que combina, contando com seu irmão. E combina com sua família. Segundo a tradição, Gêmeos é um signo regido pelo ar, e o ar é o plano da mente. Você é uma bruxa de talento mental. Segundo tudo que já eu estudei, você também seria uma filha de Ísis, a mãe universal e senhora da magia egípcia. Seus filhos são ditos terem dons telepáticos... – ele deu uma boa olhada em Claire. Seus olhos pareciam duas turmalinas verdes. – Li em algum lugar que os celtas diziam que os nascidos nessa data eram regidos pelo carvalho, a árvore mais sagrada.

— É... Muita coisa.

— E segundo os ciganos, eles diriam que você é do signo das Candeias.

— Candeias?

— É uma lanterna. – respondeu. – Em nossa visão, você poderia ser a sabedoria que ilumina o caminho, ou... Pode ser a portadora que a apagará.