Coração de Porcelana
24 Capítulo 23 - Anjos Dourados
Notas iniciais
Capítulo 23 – Anjos Dourados
Victoria acordara cedo o suficiente para ver os empregados desesperados por não encontrarem Jim, e permaneceu o suficiente para ver pela janela de seu quarto emprestado ele chegando num cavalo preto sem sela, equilibrando um escudo, um arco, uma aljava presa a cintura e uma espada comprida nas costas, pingando de suor, antes de Bonaccorso e Aalis literalmente pularem encima dele.
Percebera que ele não era alguém normal quando o conhecera, mas ele ser um dos príncipes desaparecidos estava muito além de qualquer expectativa que poderia ter para ele.
O rapaz hibernou a manhã toda – como se já não houvesse desmaiado e assustado a todos no dia anterior -, assim, ninguém exatamente falou com ele ou conseguiu perguntar onde esteve.
Por volta do meio dia, seus pais lhe mandaram uma bolsa mágica, portanto, cabiam muito mais coisas ali do que aparentava, completamente abastecida com roupas e mantimentos, seu arco, que havia deixado em casa E seu cavalo Clydesdale, Sweeney, completamente estressado por viajar várias quilômetros por meio de magia. Demorou um bom tempo para ele se acalmar.
Ele era um cavalo baio escuro, com a área entre os olhos totalmente manchada de um branco até o focinho, assim como a região inferior de suas pernas, de onde os pelos caíam sobre os cascos. Sua cauda e crina eram pretas.
Os pais dos outros também tinham enviado basicamente as mesmas coisas, uma arma que o filho apresentasse mais aptidão e desse para usar naquele santuário, roupas e mantimentos e o cavalo que eles possuíssem.
O cavalo de René era um Poitevin cinza claro com crina e cauda brancas e os pelos relativamente compridos de suas patas pretos, que chegara bem mais calmo que Sweeney. Dava para ver que ele gostava de contato visual, já que o francês murmurava alguma coisa enquanto mexia em seu focinho e ele o observava atentamente.
O de Anastasiya era uma égua Kabarda preta cujo pelo reluzia no sol. Ela estava sentada na grama perto do lago e o animal rolava nela, se sujando todo.
E havia o de Ameen, que não era nenhuma surpresa ser um Puro Sangue árabe branco. Na realidade, branca, era uma égua também. Aparentemente todos ali tinham algo quanto a terem uma raça de cavalo nativa de suas terras natais.
Todos os cavalos ficariam por hora nos estábulos dos Rockstones – havia um espaço considerável -, e o que lhe chamou a atenção foi que todos — literalmente todos — se aproximaram do cavalo de Jim para lhe dar uma cheirada. O animal ficou balançando a cauda e comendo feno, ignorando o mundo, e então Victoria notou o modo que seus pelos flutuavam.
—... Um elementar? – Ameen questionou o que a garota ia questionar.
— É o que parece, mas, minha nossa... – Anastasiya respondeu antes de Victoria também. – Ele parece ser feito de escuridão.
— Ele lembra o Shadowmere. – comentou finalmente.
—... Quem? – a russa questionou de cenho franzido.
— Um cavalo de um jogo. – o árabe respondeu. – Só que esse aí consegue vencer até ele no quesito estranheza.
— Ora, pra ganhar o Shadowmere você só tem que realizar uma série de contratos de assassinato e ele sai de dentro de um lago, tem olhos vermelhos brilhantes e você só tem que usá-lo para matar um bobo da corte assassino louco. Super normal.
— É, só que...
— Voltando a uma língua que eu entenda – a morena se intrometeu novamente. -, o que eu queria perguntar desde mais cedo: vocês não acham estranho um príncipe ter aparecido do nada?
— Quando fomos parar na mansão, ele já estava...
— Ele era o nosso vizinho de cima.
Os dois olharam para a ruiva.
— Quê? – Ameen questionou.
— No prédio de Atlanta, ele morava na cobertura. – respondeu. – Lembram-se do gato que entrou no meu quarto? Era dele. Parece que ele foi trazido para cá junto com o irmão dele um pouco antes de nós, só não sei exatamente quando.
—... Se tudo houvesse corrido como o planejado, será que saberíamos que os príncipes estavam vivendo no andar de cima?
— Não sei... – olhou para o cavalo de René que literalmente havia se jogado de lado no chão. Até onde sabia, cavalos dormiam em pé, mas não tinha certeza do que ele estava fazendo. – Só acho que... Sweeney!
Seu cavalo parecia ter chegado um pouco perto demais do cavalo de Jim, que relinchou. Sweeney relinchou de volta e se empinou, assustando também a outros cavalos em suas baias no estábulo, antes do cavalo negro literalmente se desfazer em trevas.
— Ai meu Deus.— Anastasiya disse num tom aterrado.
— Sweeney... – Victoria foi em direção ao seu cavalo, tentando fazê-lo se acalmar. Foi devagar, estendendo a mão e tentando pegar as rédeas enquanto ele empinava. Conseguiu pega-lo e mantê-lo ao chão, mas sua calma foi para o lixo quando o cavalo negro saiu de uma sombra bem ao lado de seu cavalo, aparentemente pronto para uma mordida.
A mão de Jim tocou o pescoço do seu cavalo quando seus dentes já estavam literalmente a um centímetro de distância do pescoço de Sweeney, as marcas negras pulsaram em tons dourados e verdes. O cavalo preto congelou, então pareceu desistir e andou de ré, afastando-se.
— Seu cavalo tem algumas tendências violentas... – Ameen murmurou.
— O meu?!
— Eu estava falando o dele. – apontou para o cavalo de Jim. – Ia ser A mordida.
— Desculpem por isso. Ele ainda é novo, então não está muito acostumado com outros animais se aproximando ainda.
Victoria bufou antes de puxar seu cavalo para sua baia, o Clydesdale se movendo ainda nervosamente, mas acatando segui-la. Uma coisa era mexerem com ela, outra era tentarem morder Sweeney. Obrigou-se também a não perceber que ele estava lindo – para variar – com aquela camisa polo verde esmeralda – sua cor preferida, urgh — e o cabelo bagunçado e úmido que indicava que ele havia saído da cama e não dado muito atenção a ele. Droga, era para se manter brava com ele ao menos um pouco, não ficar babando como ficara em Atlanta.
— Certo... Mas... O que é esse cavalo? – o árabe questionou. – Quer dizer, ele é lindo, mas dá para perceber que não é um animal normal.
— Estávamos achando que ele é um elementar. – Anastasiya completou.
— Ele é um elementar. – afirmou. – Parece que... Ele nasceu por causa da magia nova. – deu de ombros. – Eu gosto de Gypsy Vanners, então parece que é por isso que ele fica dessa forma.
Victoria o olhou.
— Ele assume a forma que você prefere?
— Basicamente. – Ele olhou para o cavalo e franziu o cenho. Num piscar de olhos, ele havia sumido e se tornado um basset preto de olhos azuis iridescentes. – É, ele faz isso mesmo.
O animal voltou a ser um cavalo e Victoria tinha certeza que ela estava fazendo a mesma expressão de Ameen e Anastasiya. Ele bateu os cascos, resfolegando e olhando para Jim de um modo como se estivesse brigando com ele por torna-lo num cachorrinho.
— Certo... — Ameen murmurou, ignorando que sua égua parecia estar tentando comer seu cabelo.
— Então... Qual o nome dele? – a russa questionou claramente para quebrar o gelo.
— Niflheim.
— Sério? O seu cavalo tem o nome do reino das trevas e da névoa. Tipo, sério?— Victoria questionou. – Sem contar da simpática Hel.
— Foi por isso que eu dei esse nome para ele. Tipo, os Rockstones são originalmente nórdicos, então me pareceu certo dar um nome mitológico nórdico para ele.
De novo, pareceu que os três franziram o cenho ao mesmo tempo.
— Eu tinha ouvido dizer que eles eram celtas. – a ruiva disse. – Tipo, ele são chamados até de Cloch Carraig que parece que significa “Rocha e Pedra” ou coisa do tipo.
Jim franziu o cenho, então balançou a cabeça.
— O pai do rei Alphonsus estava no ataque viking ao monastério de Lindisfarne em 793. Foi como a família se estabeleceu na Inglaterra. O rei Alphonsus era chamado de Brynjar pela família e o túmulo dele é num drakkar. É tudo nórdico.
— Você sabe bastante coisa sobre a sua própria família para quem não sabia nada de bruxaria até algum tempo atrás. – Se assustou diante o comentário de René. Tinha esquecido que ele estava lá.
— Digamos que eu sou bombardeado por informações o tempo todo. – Jim murmurou e fez Niflheim voltar para sua baia.
— Como você sabe que o túmulo do rei Alphonsus é num drakkar? – Ameen questionou. – Ninguém sabe onde é, e bom... Deveria ter sido queimado, não?
— Fica aqui.
— Hã?
— No terreno. O túmulo é aqui. Passei a madrugada lá.
Jim estava sendo tão franco que nem parecia mais ligar de ficarem o encarando a todo o momento com olhares questionadores.
— Você passou a madrugada num túmulo. – René comentou. – Muito saudável.
O príncipe deu de ombros, parecendo não ligar. Logo após, Bonaccorso apareceu para chama-los para o almoço.
Todos os outros que não iriam participar daquela loucura de entrar no santuário haviam ido embora, então a mansão estava novamente relativamente vazia. Era suntuosa até para Victoria, que havia crescido numa.
A casa do rei, afinal.
Quem quer que cozinhasse havia feito comida pensando que havia vinte pessoas ali, não quatro. Havia uma variedade de saladas, molhos, carnes e massas quase absurdas, mas era algo para todos os gostos. Só fora desconfortável porque todos comeram em silêncio. Victoria sentia-se ainda menos a vontade devido ao fato de que nenhum de seus amigos mais próximos estava lá, então ela estava com os rapazes que mal conhecia e Anastasiya, com quem falava vez ou outra.
No fim da refeição, o mordomo aconselhou que dormissem a tarde, pois o santuário abria apenas à meia noite, portanto teriam uma longa noite. E Victoria não sentia nenhuma vontade de dormir.
Ainda assim, foi ao seu quarto e demorou umas boas horas até conseguir adormecer. Acordou às dez da noite com aquela velha de mais cedo – Aalis? -, batendo na porta com força o suficiente para lhe causar um ataque cardíaco. Desceu, jantando com os outros, todos parecendo ter sofrido um mini ataque do coração também, e voltou para tomar um banho, escovar os dentes, e vestir-se.
Seus pais haviam mandado quase apenas equipamentos de equitação, já que passaria a maior parte do tempo sobre Sweeney, mas ainda havia bastante coisa. Havia até o seu casaco, xale e cachecol com o padrão de tartan de sua família – ou clã, como seria chamado corretamente na Escócia.
Vestiu um suéter verde esmeralda, mantendo-os dentro das calças de equitação marrons escuras com remendos de pele na zona do assento e joelheira de pele, suas botas de equitação de mesma cor, pegou então as luvas, o capacete, a bolsa – sem esquecer o arco com a aljava — e desceu para ir selar seu cavalo.
Era quase irônico que suas roupas fossem quase da cor dos equipamentos de Sweeney. A manta – que trazia discretamente o brasão dos Allaway em um dos cantos, o infame ganso -, a cabeçada e as rédeas eram verde esmeralda, enquanto a sela era marrom, com diversos desenhos de folhas e homens. Pôs até o protetor de orelhas verde que parecia um gorrinho em seu cavalo, tanto porque ele até gostava, pois impedia que mosquitos pousassem ali, por exemplo, e também porque ele ficava bonitinho com aquilo. Em sua sela havia um espaço onde prendeu a casa – na falta de palavra melhor – que lhe permitia seu arco e aljava ficarem presos na sela. Então calçou as luvas, pôs o capacete e montou.
Foram até o jardim, o qual trazia um monólito de pedra com uma abertura na qual já escapava o brilho da lua, dando para um círculo de pedras com uma linha reta ao chão.
Jim e Anastasiya já estavam lá, assim como René. Ameen chegou logo atrás de Victoria.
As mantas dos cavalos deles também eram da cor das cores de suas famílias, percebeu. A de Jim era púrpura quase negra, o de Anastasiya era cinza, o de René preto e o de Ameen prateado. Mas sem dúvidas, a sela do Rockstone chamava-lhe um tanto mais a atenção pois além do arco preto com aljava, havia uma espada relativamente longa presa também, assim como o escudo que ele usava em suas costas quase como uma mochila. A sacola de mantimentos que haviam dado a ele estava presa na sela.
Ele parecia bem... Diferente da primeira vez que o encontraram. Não era como se o fato de ser um príncipe subisse a sua cabeça e o fizesse ficar metido ou coisas do tipo, era o ar que ele levava. Era quase como se estivesse mais centrado. Talvez até um pouco mais régio.
Seth estava lá, que disse que a diretora ainda estava doente. Desejou-os boa sorte, antes de abrir o santuário. A lua estava exatamente no centro do monólito, e a linha deu um giro no sentido horário, a chão se juntando como hélices e revelando uma larga escadaria.
Parecia escutar apenas a própria respiração quando Niflheim começou a descer as escadas, seguido pelo cavalo de René. Foi logo atrás.
A primeira coisa que pensou ao chegar ao final foi que o santuário era diferente do que imaginara. O chão fechou-se sobre eles e formou... O céu.
Prendeu a respiração, olhando ao redor, percebendo então que eles se encontravam no tipo de lugar que atualmente só existiria em contos de fadas. Era um campo extenso, verdejante com arbustos de flores, que trazia diversas construções de pedra pura entalhadas como pequenos altares, seguindo um caminho ao horizonte. Havia luzes próximas a eles semelhantes a Ignis Fatuus, aparentemente como espíritos dançantes envolta das pedras. Mais a frente havia uma floresta enorme, cujas as árvores mais próximas estavam cobertas por guirlandas.
—... Eu esperava... Paredes, sabe? – Ameen comentou, enquanto um veado passou correndo por seu cavalo. – Tipo, estamos num templo, então...
— Qual seria o seu plano? – René questionou. – Se é que você tem um.
— Veem esses altares? – Jim apontou para as pedras. – Eles levam aos anões, que não ficam tão longe. Meus tios disseram que leprechauns poderiam nos ajudar, caso conseguíssemos capturar um. Mas os anões são uma melhor escolha, pois eles conhecem todos os recantos do santuário, só é preciso pagar um tributo.
—... E que tributo seria esse? – Victoria questionou.
O moreno abriu a boca, só que a ruiva ouviu um zunido. Algo passou voando por Jim, indo parar literalmente ao lado do pé de Sweeney. Arregalou os olhos quando o viu piscando, um fio de sangue escorrendo por sua bochecha. Os olhos verdes foram para o que havia caído, e viu uma flecha, aparentemente feita de luz.
Os Ignis Fatuus sumiram com gritinhos.
— Mas o q...
— Já? – Jim rosnou. – Temos que ir!
Ele nem esperou a resposta dos outros, Niflheim já saíra correndo à toda velocidade. E outra flecha disparada deu o gás para que fossem atrás dele. Victoria tentou olhar para trás, tentando ver alguma coisa, mas não havia nada a vista, mas os projéteis de luz de vez em quando surgiam para lembrar a eles que havia sim algo atrás deles.
— O que é isso?! – gritou para Jim quando conseguiu parear Sweeney com Niflheim.
— Anjos de luz. – respondeu. – Servos de Enguerrand.
— Espera, mas a Enguerrand não é a sua bisavó e uma anja mega boazinha? – Anastasiya gritou atrás deles quando algo se chocou a um dos altares, que começou a tremer. – A senhora da renovação, dos opostos, dia e luz?!
— Ela é a minha bisavó e uma anja. – ele continuou. Uma flecha passou voando por entre ele e Victoria. – Só não é boazinha. Até onde eu sei ela odeia Rockstones.
— Mas ela não era casada com o rei Alphonsus Rockstone?!
— Eles se odiavam. Agora o porquê disso, acho que vamos descobrir. E ela está um tanto furiosa comigo.
— Como você conseguiu deixar uma anja furiosa?! – René gritou.
— Vamos encontrar um lugar seguro e eu explico tudo o que aconteceu nos últimos dois dias! – gritou de volta.
Eles seguiam a direção opostas às árvores, e Victoria viu que aqueles altares levavam a enorme encosta de uma montanha que antes não podia ser vista, mas ainda demoraria um tempo considerável para chegar lá, mesmo com os cavalos correndo a toda velocidade. Escutou o som de asas claramente atrás de si e sentiu o nervosismo aflorando em si de tal forma que sem prestar a mínima atenção ao que fazia, pegou o seu arco preso à sela.
— O que você pensa que está fazendo?! – Anastasiya questionou, mas já atirava.
Obviamente pensou que sua flecha sairia voando para o nada, mas assim que atirou, relativamente perto de Ameen, houve uma explosão de luz e um guincho furioso, e conseguiu ver claramente a confusão de asas douradas e brilhantes caindo ao chão.
O problema se tornou maior quando os anjos pareceram desistir de ficar invisíveis, se tornando globos brilhantes. Perceber que havia mais de uma dúzia atrás deles não foi muito tranquilizante.
— Ótimo, eles só nos perseguiam, agora você os deixou furiosos!
A luz de um tocou um dos altares. E ela realmente não esperava o que aconteceu em seguida.
O chão começou a tremer e todos os altares começaram a vibrar. Sweeney relinchou e Victoria se desesperou quando ele pareceu ficar cada vez mais nervoso, temendo que ele parasse de correr e a jogasse ou começasse a se empinar.
Então com um estrondo, todos os altares se levantaram.
Terra voou para todos os lados, os cavalos se assustaram, os bruxos se assustaram e deu para ver que os anjos se assustaram, pois eles começaram a dar meia volta, mas não foi o suficiente. Viram as pedras com um estranho formato humanoide empurrarem-se para fora do chão, e deveriam ter em torno vinte metros de altura, os pés sendo maiores que os cavalos. Havia entalhes em toda sua extensão, que começaram a brilhar, e a ruiva sentiu tanta magia vinda deles que sua pele esquentou.
— Tentem continuar!
As explosões começaram a ocorrer enquanto as pedras gritavam coisas numa língua esquisita, e toda vez que eles andavam, o chão tremia. Viu que um perdeu a cabeça e viu um globo dourado passar voando com um soco que recebera.
Todos os altares pareciam ter se levantado. Alguns se moviam lentamente em direção os anjos, outros se mantinha em guarda com escudos de dez metros e armas que iam de machados a martelos. Eles pareciam ignorar os bruxos e manter sua atenção apenas nos anjos.
As mãos de Victoria tremiam. Mal haviam chegado e já haviam sido recebidos a flechadas. Um gigante de pedra pisou demasiadamente próximo de si, tirando Sweeney do chão momentaneamente, e acabou perdendo seu arco, pois ele foi desaparecer justo sob os pés do ser.
Escutou a égua de Ameen relinchando.
— Sai! – ele acertou um anjo com uma cimitarra que ela não havia percebido. O ser se agarrou em seu braço, fazendo-o soltar sua espada, puxando-o para baixo, mas o rapaz conseguiu se manter sobre a sela, e conseguiu ver claramente o rosto do anjo.
Era um homem. A sua pele brilhava com uma luz amarelada e os olhos eram totalmente dourados, a boca arreganhada revelando os dentes afiados. Ele parecia ser mais magro e leve do que um humano, pois ele claramente tentava puxar o bruxo da sela com todo o seu peso e não conseguia. Suas asas estavam caídas e viu que Ameen acertara a esquerda, que estava literalmente se desfazendo como poeira brilhante.
— Ameen! – René gritou quando o anjo deu uma puxada que vergou o árabe perigosamente para baixo, cravando os dentes no pulso do rapaz, fazendo-o gritar. Victoria tentou ver se tinha algo que poderia fazer, mas estava sem seu arco e percebeu que nenhuma planta lhe respondia próximo ao anjo, como se tivessem medo dele. Plantas com medo de um anjo. A égua de Ameen parecia estar se desesperando também, pois ela estava correndo de maneira quase desgovernada.
Algo acertou a cabeça do anjo, que o fez soltar Ameen. Fora... O escudo? Piscou quando o escudo de Jim voltou voando para a mão dele. Aparentemente, ele havia jogado como um frisbee.
— Você está bem? – ele gritou por cima dos estrondos dos anjos se chocando contra os gigantes.
Ameen aparentava estar mole sobre sua sela, então ergueu o braço que o anjo agarrara como se pesasse uma tonelada. Sua mão estava dourada e iridescente, a partir de onde fora mordido, quase como... A pele da criatura.
— Oh não...
— Não sei o que está acontecendo, mas isso me parece péssimo... – René murmurou, então se virou para frente, arregalando os olhos. – Muralha!
Victoria não entendeu, mas olhou para frente vendo imensos portões de pedra na encosta da montanha que já estavam quase para bater com a cara. Puxou as rédeas de Sweeney antes que batessem, freando furiosamente. Jim foi para trás e puxou as rédeas da égua de Ameen por ele, mas ela estava tão nervosa que jogou os quadris para cima, e seu cavaleiro literalmente voou pelo ar como uma boneca de pano e foi bater num dos portais com um estrondo que pareceu reverberar na alma da garota.
— Ele morreu. – René começou enquanto desmontava correndo. – Ah, ele morreu, ou com esse barulho, ele quebrou alguma coisa. Como a coluna.
Os portões se abriram lentamente com um rangido ainda mais alto que os passos dos gigantes de pedra enquanto corriam em direção a Ameen, e Victoria viu claramente quando uns vinte homenzinhos barbudos de 1,20 de altura saíram correndo, montados em pôneis, com armaduras vikings, machados, martelos e lanças, com gritos de guerra em direção aos anjos. Jim e René mal tiveram tempo de tirar o rapaz inconsciente do caminho.
No fim, um ficou para trás. Ele tinha uma comprida barba vermelha, trançada com anéis de ferro, e seu capacete possuía asas. Ele gesticulou para que o seguissem, e voltou para dentro da montanha.
Jim jogou Ameen sobre seus ombros como um bombeiro, indo atrás dele com seu cavalo seguindo-o como um cachorro. René montou novamente em seu cavalo e puxou a égua árabe, que embora mais calma, ainda movia-se nervosamente.
O interior inicialmente era escuro, e ficou mais ainda quando os portões se fecharam. Andaram alguns metros na escuridão, Victoria usando os olhos de Niflheim como guia. Após uns dez minutos, luzes começaram a surgir. Elas eram avermelhadas e surgiam de entalhes geométricos dispostos no chão, que iam em direção às paredes. Só então o anão começou a falar, com um forte sotaque que a garota não reconheceu.
— O que cês fizeram, hum? Pros anjos de Enguerrand tarem atrás de vocês não deve ter sido pouca coisa.
— Magnetismo animal. – Jim murmurou, fazendo-a quase querer rir, apesar da adrenalina que ainda corria em seu sangue. Ele havia montado novamente, e equilibrava Ameen próximo a ele, algo mais confiável do que deixa-lo inconsciente sobre a sela, sozinho.
— Engraçadinho, eu escutei isso. Falem a verdade.
— Digamos que eu tive a opção de escolher entre Ailith e Enguerrand, e eu escolhi Ailith. Enguerrand não gostou.
Victoria franziu o cenho para ele, sem entender.
— É, parece que vocês, bruxos da superfície, podem ser inteligentes às vezes. Mas porque ela te deu uma abertura pra ser um Agraciado?
Agraciado?
— Eu não sou um Agraciado. – argumentou. – Eu sou um filho de Ailith. E eu tive essa opção porque eu sou um scientia.
Anastasiya olhou para a ruiva em dúvida, mas ela fazia tanta ideia quanto à russa sobre o que estava acontecendo. René não parecia estar entendendo nada também, dado o seu cenho franzido.
O anão puxou as rédeas com tanta força que seu pônei reclamou.
— Cê é um o quê?!
— Um scientia. – ele respondeu novamente. – E filho de Ailith. E olha, acho que Ameen está com um problema grave, então não poderíamos ir um pouco mais rápido?
O anão o olhava com olhos esbugalhados, como se estivesse vendo algo impossível, como um porco com asas na bunda.
— É, venham comigo.
Ele esporeou seu pônei, que disparou pelos corredores. Sem muitas alternativas, todos foram atrás, Victoria com os olhos pregados nas costas de Jim. Ele falara com tanta propriedade que dava para ter certeza que ele sabia muito bem o que dizia, então esperava que tudo realmente fosse explicado, a começar pelo que causara serem perseguidos por anjos.
Foram para numa cidade, e teve que parar para admirar o local. Era enorme, os prédios construídos em estalagmites, ou por colunas naturais que seguiam até o alto da montanha. Haviam rampas por todo o local, que levavam a pontes que levavam à plataformas que formavam ruas suspensas. Havia estátuas gigantes de anões com armaduras e machados de guerra, cabeças barbudas entalhadas nas paredes rochosas. Cinco rios azuis iridescentes corriam por baixo da cidade, caindo em um abismo que levava às partes baixas, e havia também cinco barragens, e em pelo menos duas viu anãs conversando com sereias.
Aquilo era surreal.
Havia também sete túneis como os quais saíram, e um grupo de quatro pessoas, dois cavalos, um lobo, um cachorro e um urso seguindo um anão loiro, dentro de um corpo artificial de bronze parecido com um robô, saíram do imediatamente à sua direita. Os outros também os notaram, e Jim soltou uma exclamação de susto tão alta que a assustou.
Então foi prestar a atenção no grupo. Havia um cara loiro praticamente idêntico ao cantor Will do Magick – sim, gostava de boybands -, num cavalo cinza, uma garota visivelmente pequena, de cabelos castanhos, franja reta e grandes olhos castanhos. Primeiramente pensou que ela tivesse uns onze anos por algum motivo, mas prestando um pouco mais de atenção, chegou à conclusão que ela tinha pelo menos a sua idade.
Só no final foi ver quem estava guiando o cavalo em que ela estava. Um rapaz alto de cabelo preto, e olhos verdes-águas incrivelmente expressivos. Mas não era só isso, ele era quase idêntico a Jim, tirando que era pouca coisa menos pálido, a óbvia diferença de cor dos olhos, o cabelo mais bagunçado e ele parecia ser bem atlético, em contrapartida a...
— Jim?!
—... Er... Oi Vincent.
É, estavam atrás do Príncipe Christian, e tinham acabado de encontrar o Príncipe Alastair por acidente. Ops.
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