Coração de Porcelana
15 Capítulo 14 - Passado Branco
Notas iniciais
Capítulo 14 – Passado Branco
— Demônio...? – a voz de Claire quase não saiu, contrariando as suas expectativas. Pensava que um guincho esganiçado sairia de sua garganta.
Vincent ergueu os olhos para ela, percebendo então o que havia falado. Mas não havia o que esconder, depois daquela criaturinha dos infernos causar toda aquela bagunça.
— Bom, sim... Ele era um familiar de algum bruxo ou bruxa. E pela energia que exalava dele, era um demônio. – Ele franziu o cenho. – Mas mesmo que seja um demônio... Eles não costumam atacar do modo que ele atacou.
A respiração de Claire já estava descompassada o suficiente sem saber daquilo.
— Existem anjos e demônios agora?
— Sempre existiram. – foi a resposta. – Os principais são os sete anjos e os onze demônios bruxos. Mas creio eu que esses nunca aceitariam se submeter aos caprichos de um bruxo mortal, então há outros espécimes mais... Fracos.
— Ai meu Deus... – Claire tapou o rosto com ambas as mãos, não acreditando na naturalidade em que Vincent proferia aquelas coisas. Sua cabeça girava. Até pouco tempo atrás, a garota não acreditava sequer na existência de bruxos, agora já havia anjos e demônios no meio. O que mais faltava, dragões e alienígenas?
— Ei. – Vincent a chamou, e quando retirou as palmas do lugar pensou que seu coração fosse dar um grito e pular do peito ao perceber o quão próximo o bruxo se encontrava. – Está tudo bem agora, ok?
Ela não conseguiu encontrar voz para responder, portanto apenas assentiu, torcendo para que não se tornasse um pimentão de tão vermelha, porém o calor concentrando-se em sua face lhe dizia que era o que estava acontecendo. Ele a olhava como se demandasse uma resposta, enquanto Claire sentia-se tão embaraçada que sabia que se abrisse a boca para dizer algo, tudo o que sairia seria um gaguejar sem sentido.
Porém não soube o que se passou por sua cabeça quando se esticou um pouco para frente, abraçando o pescoço do rapaz. Não era do feitio de Claire abraçar alguém que acabara de conhecer, mas fora quase um reflexo. Sentiu-o se tencionar por um segundo, antes de retribuir o gesto, passando os braços por sua cintura.
Era estranho... Não sabia por que aquilo passara em sua cabeça, mas talvez fosse a palidez e a frieza constante de Vincent para com os outros que fizera Claire se surpreender com o quão quente seu corpo era, além do fato óbvio de o quão grande ele era, principalmente comparado a ela. Mesmo que não estivesse grudada nele, era impossível não perceber os músculos firmes, fazendo-a perceber que estava errada em sua ideia inicial que ele e Near tinham aproximadamente o mesmo tamanho. Vincent era esguio, era aquilo que havia enganado seus olhos inicialmente.
Você pode confiar nele.
Claire se enrijeceu, o que fez o bruxo se afastar e olhá-la em um tom de dúvida. Aquilo... Fora uma voz? Dentro de sua cabeça? Suas mãos ainda encontravam-se apoiadas nos ombros largos de Vincent que estava ajoelhado em frente à cama, as mãos grandes dele ainda em sua cintura.
Ele é meu filho.
Novamente. Uma voz feminina, melodiosa como a de uma cantora lírica, que parecia vir das profundezas de sua mente.
Ele é seu.
— Claire?
E você é minha.
— Claire?!
O corpo da garota amoleceu, e mesmo que ele já estivesse a segurando, foi pego de surpresa quando ela simplesmente foi para frente, caindo sobre o bruxo. Preocupado, Vincent sentou na cama e a girou, vendo o rosto inconsciente e branco, como se todo o sangue houvesse fugido de uma hora para a outra.
— Ah não, não... – Vincent murmurou. Aquilo fora repentino. Entendia que a garota estivesse assustada, mas no fundo de sua mente sabia que aquele desmaio repentino não fora normal.
O som da porta de vidro abrindo num rompante o acordou para o mundo, e por um reflexo, virou-se em direção à porta do quarto, já na defensiva, as faíscas de eletricidade surgindo por seus braços enquanto deixava a garota atrás de si.
— Vincent?! – Marc o chamou, fazendo-o levar algum tempo até lembrar que havia o outro bruxo ali.
—... Aqui. – respondeu, deixando os braços caírem ao lado do corpo enquanto reprimia a magia. O mais velho apareceu na porta aberta, o brilho já começando a surgir por sua pele, como era comum aos bruxos de luz.
— O que aconteceu aqui?!
Fora rápido. Contou rapidamente do acontecimento com o familiar até a parte em que a garota desmaiara, carregando-a e a levando até o quarto que Claire usava. Ela era leve e Vincent era forte, então não fora problema nenhum até mesmo para abrir a porta.
Sentiu a mente do boneco se agitando quando entrou com a moça desfalecida, porém o ignorou, apenas depois de perceber que a mente dele continuava funcionando mesmo naquela forma incapaz. Não lhe importava o que ele pensava.
Pousou Claire na cama, e Marc se sentou ao lado dela, pegando o rosto da garota delicadamente. Vincent desviou o olhar quando ele começou a brilhar. Mesmo que fosse amigo de um – Markus, o que era uma ironia -, por algum motivo aquele brilho sempre o incomodava, fazia algo dentro de si se revirar.
— Ela está bem... O que você fez com a perna dela?
— Usei uma poção que um amigo meu me deu. – respondeu e Marc olhou-o com uma sobrancelha erguida. – Você sabe que tenho uma grande propensão a me machucar.
— Impossível não perceber. – ele murmurou. – Bom, o desmaio dela não tem nada a ver com o ataque. Acho então que o que aconteceu foi um pouquinho demais para ela.
— “Pouquinho”? Até um tempo atrás ela nem sabia que bruxos existiam, e hoje um familiar quase matou ela. Acha mesmo que é só um “pouquinho” demais?!
— Se acalme. – o tom de voz de Marc lhe passou um calafrio, como nunca havia feito antes. Era calmo.
Mortalmente calmo.
— Certo. – respirou fundo, reprimindo a vontade de morder os lábios. – O que fazemos então?
— Deixe-a descansar. – foi a resposta – Agora, se não quiser deixa-la com essa roupa rasgada, você pode trocá-la.
— Quê?! – a voz de Vincent saiu mais alta do que ele queria.
Marc emitiu um som nasal enquanto se levantava. Ele era um pouco mais baixo que Vincent, mas sempre houvera algo nele que o fizera calar a boca.
— Eu não sou cego, “Prince”. – novamente sentiu os calafrios lhe subindo a espinha ao perceber a ironia com que o outro o chamara. – Você conhece essa garota de algum lugar, não sei onde.
— Eu... – começou, mas foi logo interrompido.
— Se quiser me enganar, comece disfarçando a forma que você olha para Claire. – Vincent sentiu algo despencando em seu interior e o sangue correndo para o seu rosto. – Você pode até enganar os outros, mas eu... – Marc deu outra risada irônica. Vincent odiava quando ele fazia aquilo. Quando ele não fingia ser o “doutor idiota” que ele fingia ser a maior parte do tempo. – Eu tenho quase o dobro da idade que o seu pai tinha, é fácil perceber as coisas.
— Você não sabe quem é o meu pai.
— Há! – de novo aquela risada, enquanto levantava. – Claro que sei quem é o seu pai, “Vincent”. Você é a cara dele, qualquer um que tenha o visto uma vez na vida veria isso. E vá por mim, eu não vi Richard “uma vez na vida”.
Vincent abriu a boca para tentar dizer mais alguma coisa, mas novamente Marc o cortou.
— E quem quer que tenha feito esse seu colar, fez um bom trabalho. Mas... Eu conheço retensores, ok?
— Marc? – o chamou quando ele passava a porta.
— Hm?
— Eu tenho “Vincent” no meu nome.
— Não o primeiro. – foi a resposta, para então sair.
Quando a porta fechou, o nobre deixou-se cair no chão, as forças sumindo de suas pernas, desta vez esquecendo-se totalmente do olhar constante do boneco posto sentado sobre a mesa, bem de frente para si.
Marc subiu as escadas que levavam ao seu quarto. Era o único que ficava no segundo andar da casa, porém aquilo não lhe prevenia de obter visitantes indesejados, como o que se encontrava sentado sobre a sua cama, de pernas cruzadas.
— O que você quer, Gaston?
O homem emitiu um som nasal muito semelhante com o que havia soltada minutos atrás.
— Sua hospitalidade é sempre comovente, Gwenael.
— Você insiste em me chamar assim. – bufou.
— É o seu nome, afinal.
— Faz a porra de oito séculos que eu não uso esse nome.
Para irritá-lo ainda mais, seu irmão mais novo riu.
— Seu humor continua leve e suportável como sempre... – ele parou para ponderar. – Ou quase sempre. Mas você é um bom ator, tenho que admitir.
— Então aquela cena lá embaixo foi feita por você?
— Não. – Gaston respondeu simplesmente. – Cheguei quase na mesma hora que o familiar, mas ele não era o meu... Mael odeia gatos. E ele é um anjo, não um demônio.
Os olhos de Marc foram até o corvo que se encontrava empoleirado na cabeceira de sua cama. Claro, Mael, como não recordar daquela adorável figura que quase arrancara seus olhos umas cinco vezes em duzentos anos? O olhar de desgosto foi retribuído pelo animal.
— Bom, você saiu daquela sua mansão em que você insiste em viver com os seus descendentes que eu nem sei mais como chamar. Tetranetos? Enfim, o que você quer?
Gaston revirou os olhos. Ele e Marc mal pareciam irmãos. O mais velho, o primogênito do pai vilão de ambos, sempre fora dito que ele parecia ter sido gerado apenas pela mãe, uma mulher – na época era considerado, afinal – de treze anos que morrera no parto, e isso sempre fora visível, com os cabelos loiros e os olhos que um dia haviam sido azuis.
O outro era filho do segundo casamento, mais precisamente, era o sexto filho. Era mais baixo que Marc, com cabelos castanhos e olhos verdes, rosto quadrado e comprido, o corpo de construção naturalmente mais forte. Com o passar dos séculos e a ação da magia, não era mais visível que o loiro era dez anos mais velho.
— Você continua nessa sua busca louca por Morgane...
— Busca louca? – Marc disse entredentes.
— Meu mal. Sei os seus motivos. Como não esquecer? – Gaston suspirou. – Sei no que está se metendo agora também.
— Bisbilhotou a minha mente, como um bom Guiscard?
— Mas é claro. – Marc voaria em seu pescoço, mas novamente, não estava com muita vontade de perder os olhos com o corvo ali. – Assim como os três jovenzinhos lá embaixo... – Uma sombra passou por seu rosto, e Gaston perdeu totalmente seu tom de zombaria, ficando irreconhecível. A seriedade nunca combinara muito com ele. – Principalmente aquele rapaz que você fez questão de humilhar.
— Eu não estava o humilhando, sinto muito se minha sinceridade dói em você.
— Continuando... Vocês estão mexendo com as coisas de Haydée Nièvre. Não considero isso a melhor das ideias.
Marc cruzou os braços. Antes dele responder, seu irmão continuou.
— Ela está com o Amabosar.
— Eu sei.
— É claro que você faz isso de propósito. – o mais novo deu um suspiro. – Você é louco.
— Vêm me repetindo isso há séculos.
— Literalmente. Gwenael, você não tem tido uma vida há oito séculos por causa dessa sua vingança obsessiva. Você poderia ter aproveitado este tempo de muitas outras...
— Certo Gaston, então um filho da puta não aceita o fato de você ter recusado uma proposta dele, acusa sua esposa grávida de bruxaria, ela é morta na fogueira e tudo ficará bem. Claro, porque é todo dia que você perde uma mulher e filho assim.
O corvo se moveu na cabeceira, irrequieto, e Gaston soltou um suspiro, também mudando de posição, desconfortável. Marc já havia dado aquela conversa como terminada – inferno, ele vinha com aquilo literalmente, praticamente todos os anos! Sua paciência já havia se esgotado no século 14!
Voltou-se para a porta, pretendia descer, comer alguma coisa, fazer alguma coisa para que Gaston se tocasse e fosse embora, porém quando tocou a maçaneta, seu irmão o chamou mais uma vez.
— Gwenael.
Sua cabeça latejou. Não suportava mais ser chamado assim. Não quando Belina havia gritado aquele nome tão intensamente enquanto queimava.
— Sobre o seu filho com Belina... Ele está vivo.
— Não diga besteira. – foi a resposta. Como haveria de estar vivo? Ela estava no começo da gravidez quando tivera de se ausentar, e deveria ter em torno de cinco, seis meses quando morrera. Sabia que ela havia dado a luz antes da execução, mas, ora, Idade Média, condições sanitárias horrorosas, medicina supersticiosa, fanatismo religioso. Se um bebê tão prematuro já era complicada de se criar nos dias atuais, quanto mais há oitocentos anos! O destino da criança já estava selado.
Outro suspiro cansado.
— Markus Durant. – Gaston disse apenas.
— Quê?
— Markus Durant. É o nome do seu filho. Bom, já se percebe que é um homem. – escutou a movimentação atrás de si, indicando que o outro se levantava. – Idade indefinida. Já passou por cidades como Paris, Amsterdã, Budapeste, Viena, Berlim e Istambul. Atualmente vive em Atlanta com uma moça chamada Lilith King. Vive de lutas na Arena, onde é conhecido simplesmente como o “Sol”.
Sol...? Aquela palavra se passou rapidamente por sua cabeça, indo ao dia que fora à Arena em busca de um cachorro da Amabosar. De um anúncio que o locutor fizera, anunciando a chegada de alguns desafiantes.
— Como ele sobreviveu nas condições da época é uma ótima pergunta. Como ele viveu também. Não encontrei mais muita coisa, já que ele parece ter o seu costume de não deixar muita informação pra trás... Mas acredite se quiser, eu encontrei a condenação de Belina, já que os inquisidores eram bruxos. Ironia, não?
— O que voc...
— O parto foi a condenação, já que o filho de vocês foi considerado “uma cria do demônio”. Totalmente sem cor, olhos avermelhados. Uma coisinha que berrava além do que o tamanho permitia. Essas foram as palavras do inquisidor quando... Bom, eu “questionei”. Não se preocupe em perguntar quem é e ir atrás dele, ele não está mais por aqui.
— Isso eu já sabia Gaston. – interrompeu-o impacientemente. – Sei também que as ordens foram de se livrar da “cria”. Agora como diabos você sabe que ele está vivo com tanta propriedade.
— Bom... Talvez porque ele saiba que é seu filho.
Fale com o autor