Coração de Porcelana
14 Capítulo 13 - Meios da Magia
Notas iniciais
Capítulo 13 – Meios da Magia
Quando saíram da casa de Luiza, já era quase de noite, porém a casa de Marc era mais próxima do que a escola da garota. Assim que desceram, porém, a adolescente ligou para o padrinho por algum motivo que não deu para entender devido às respostas. Ele apenas disse que teria que voltar à casa de Luiza, deixando os três sozinhos.
Literalmente, apenas pisaram na casa e o tempo de Near acabou – pela segunda vez, já que tivera que reativá-lo no estúdio do apartamento de Luiza. – assim ele logo se tornou um boneco. Claire olhou-o por um instante, antes de pegá-lo e foi rapidamente ao seu quarto, pondo-o em sua caixa. Quando saiu, Vincent encontrava-se sentado no sofá, passando os canais da televisão paga.
— Hm... Oi? – Claire chamou e Vincent a olhou.
— Sim? – respondeu prontamente.
Ela se sentou ao seu lado. Parando para pensar, nunca havia tentado manter uma conversa com Vincent, havia? Na verdade, o chamara na maior aleatoriedade, sem qualquer plano de como iniciar ou manter uma conversa.
“Ótimo Claire.” Pensou de maneira desgostosa, então decidiu começar pela parte que mais a intrigava por enquanto, e que Vincent poderia responder – ou pelo menos assim esperava.
— Você pode... Explicar-me sobre como são essas coisas? – o rapaz a olhou em tom de dúvida. – Magia, bruxaria, essas coisas.
— Ah... Tudo bem. – Vincent desligou a televisão, e a garota não fazia ideia se fora porque ele não encontrara nada que lhe interessasse ou se fora apenas para conversar com ela. – O que você quer saber?
— Eu não sei... Quer dizer, eu não faço a mínima ideia de como nada funciona, então...
— Do começo?
— É.
— Ok, vejamos... A magia em si, muitas das vezes funciona como se vê normalmente: conjurações, feitiços, maldições e tudo mais. Mas tem uma diferença: Cada bruxo normalmente pode ser regido por um “elemento”. Mais de um, na verdade, mas isso é outra história.
— Como assim?
— Bom, — Claire quase pulou quando ele pegou sua mão que estava pousada do lado do corpo. – Atualmente são dez ao todo. Ar, água, terra, fogo, luz, escuridão... – a cada elemento, ele abaixava um dedo seu, contabilizando. Quando se utilizou de seus cinco, seguiu para a sua própria mão. – Mental, natureza, tempo e eletricidade.
— Nem todos os poderes são elementais. – constatou.
— Verdade, mas são chamados assim há tanto tempo que... Bom, ninguém contesta mais.
— E... Qual você controla?
— Eletricidade. – quase pulou de novo, dessa vez ao sentir o choque em sua mão. Não fora o suficiente para machuca-la, mas definitivamente a assustara. Puxou a sua mão da de Vincent e para a sua surpresa ele riu.
Fora... Estranho. Desde que havia conhecido o jovem bruxo ele parecia manter a mesma expressão, e as poucas outras que ele apresentara qualquer outro tipo de emoção, não fora nada exatamente espontâneo. Tédio ou aversão, surpresa aqui e ali. Mesmo que se conhecessem muito pouco, fora um fato realmente surpreendente para a garota.
Mas ao mesmo tempo sentiu as faces queimarem.
— Isso não teve graça!
— Desculpe, não resisti. – ele comprimiu os lábios ao ver a expressão emburrada de Claire. – Sério, desculpa.
— Tá, continua.
— Certo. – Vincent pareceu reprimir o riso mais uma vez. – Continuando, na verdade, os bruxos podem dominar mais de um elemento com maestria, mas isso depende de sua... Classe, por assim dizer.
— Classes? Existem essas coisas no mundo bruxo?
— Bem mais do que se espera, na realidade. Um bruxo comum pode controlar até três elementos. Um bruxo da aristocracia, quatro.
— Aristocracia?
— Sim. Da baixa nobreza, cinco. Da alta, seis. E há, as famílias da realeza, cada uma é regida por um elemento, por assim dizer: A família El-Amin é conhecida por seu controle de vento, a Bessa, água; Onwatuegwu, terra; Hino, fogo; Iñuksuk, luz; Tenov, escuridão; Guiscard, mental; Deasún, natureza; Niévre, tempo e Dalca, eletricidade. Obviamente eles podem controlar outros elementos, mas estes sempre serão...
— Seus principais.
— Sim. E havia a família real... – Vincent parou por um instante, antes de continuar. – A família Rockstone. Eles eram os únicos capazes de controlar todos os tipos de magia.
— Os “Avatares” do mundo bruxo?
— É uma boa analogia.
— Você assistia?
— Todas as temporadas mais a Lenda de Korra, mas isso é outra história. – ele pigarreou.
— Certo. – Claire riu. – Mas por que você se refere aos Rockstones no passado?
— Por que... Há treze anos, todos foram assassinados.
Olhou-o surpresa.
— Mas se eles eram os... Todos poderosos, como puderam ser assassinados? E por quem?
— Essa é a questão. Havia um artefato... Ninguém sabe exatamente o quê. Dizem que era capaz de tirar, pelo menos momentaneamente, os poderes de um Rockstone, e esse artefato foi roubado. Nisso, mataram a família. Ou quase ela toda. Dois sobreviveram, e ainda há os príncipes desaparecidos: Alastair, Raphael, e Christian.
— O mundo deve ter virado uma bagunça.
— Virou e ainda está. Há uma ordem, O Tratado de Stonehenge, que diz que em casos como esse, se há até dezoito anos para o surgimento de um herdeiro, senão outra família real deverá ser escolhida. – ele suspirou. – E quanto a quem os matou... Eles são quase uma lenda urbana. São chamados por Amabosar. O símbolo deles é uma fênix matando dois dragões, e, curiosamente, o símbolo dos Rockstones são dois dragões. Até a época da morte da família real, acho que é seguro dizer que havia o dobro de casas na realeza, assim como o dobro de tipos de magia.
— Eles... Foram mortos?
— Sim. E foi como as pessoas passaram a perceber que a realeza em si tem importância. Quando essas casas desapareceram, as magias que elas representavam desapareceram do mundo. Não sei lhe dizer quais eram, pois elas desapareceram quando eu era muito pequeno, antes de eu realmente utilizar magia muito bem para explorá-las, e... Bom, nunca fui atrás delas mesmo.
— Essa... Amabosar, uma lenda urbana... Nunca conseguiram pegá-los?
— Não. Eles deixaram símbolos na propriedade real e nos locais onde a realeza foi assassinada que os responsabilizaria pelos atos, mas chegar a pegá-los... Jamais.
— Você parece saber bastante sobre a família real.
— Hã? Ah... – Vincent pareceu ficar sem graça, desviando o olhar. – É... É que chama a minha atenção.
— Aham.
— Estou sendo nada convincente, não é?
— Aham.
— Certo... Mas realmente chama minha atenção.
— Você sabe se havia algo que diferenciasse os Rockstones dos outros bruxos além dos poderes?
— Dizem que eles tinham “coroas” em seus olhos. Coroas douradas envolta da pupila. Todos eles. Era o método de reconhecê-los.
— E você mencionou príncipes... Devem estar todos atrás deles, não é?
— Com certeza. – desviou o olhar, o que chamou a atenção de Claire.
— Você está agindo estranho.
— Não estou.
— Está.
— Certo, eu estou.
— Mas por quê?
— Porque você está dizendo que eu estou estranho.
Claire o lançou um olhar cético, mas também foi acometida por uma súbita vontade de rir. Respirou fundo afim de não dar o braço a torcer, voltando-se novamente para Vincent que a observava calmamente com seus olhos verde-água. Vendo de perto, ele possuía cílios relativamente espessos e compridos, e a cor de suas íris era a perfeita mistura de verde com azul. Não havia reparado antes, mas... Eles pareciam tão calmos...
— O que mais eu poderia dizer...? – ele continuou, fazendo com que Claire acordasse do transe que sequer havia percebido que havia se posto enquanto observava os orbes. – Qualquer bruxo tem alguma telecinésia, habilidade de conjuração, transfiguração, capacidade para realização de poções e alquimia... Mas esses todos você tem que treinar, portanto há bruxos melhores que outros nessas áreas. Além de que se treinarem telecinésia demais, acabam se tornando bruxos de poderes mentais... Não que seja de todo ruim, é bem útil, mas há várias restrições.
— Restrições? Por quê?
— Porque dependendo do uso, pode acabar se tornando magia negra.
— Ah, então há realmente essa divisão entre magia branca e negra.
— Sim. Se controlarem uma pessoa mentalmente, sobrepujando sua vontade sobre a dela, isso já é considerado magia negra. Na realidade, qualquer coisa que retire o livre-arbítrio de um ser pensante, ou seja utilizado para fins de tortura e tormento, é considerado magia negra.
— Então... No caso de poderes mentais, seria algo como aquela maldição imperdoável, o “Imperio” de Harry Potter.
— É... Parando para pensar, realmente.
— Falando em Harry Potter, sendo você um bruxo, qual a sua visão da saga?
— Não diria que é a visão mais realista, mas há várias coisas que condizem mais ou menos com a realidade.
— Sério?
— Sim... Não precisamos de varinhas para realizar magia, mas elas existem. São usadas principalmente para aumentar a potência da magia em si, ou concentrá-la. Há as comunidades bruxas, Conselhos, governo, escolas... Claro, assim como há famílias reais, tradicionais e tudo o que já citei antes.
— Escolas de Magia?!
— Sim. Não são Hogwarts, mas são escolas. E não há essa coisa “Só pode fazer magia fora da escola com dezessete anos”. Há muitas espalhadas pelo mundo, mas tem duas principais. Instituto Lady Enguerrand para Jovens Bruxas e Instituto Lord Alphonsus para Jovens Bruxos.
— Sempre achei que a palavra “Instituto para alguma coisa” soava chique. E algo me diz que esse é o caso.
Vincent pareceu rir da maneira que Claire se posicionara.
— Bem, é o caso. Elas são academias reais. No caso, os dois Rockstones sobreviventes que mencionei antes são os respectivos diretores: Elysandra e Seth. – deu de ombros. – Membros da Realeza são mandados para lá em sua juventude. E os membros da família real, obviamente. Para os outros, é uma dificuldade para entrar. Ou é se pagando muito caro, ou fazendo um teste de admissão.
— Que tem cara de ser extremamente difícil.
— Deve ser. Mas até onde sei, quem passa ganha uma bolsa.
— Pelo menos. E você? Já pensou em tentar entrar em alguma escola ou nessa Lord Alphonsus?
O rapaz pareceu ter sido pego com a guarda baixa. Ele a olhou surpreso, o que deu a certeza à Claire de que ele realmente não havia pensado no caso.
— Não. – Vincent lhe respondeu, apenas lhe confirmando o que já tinha certeza. – Até por que... Eu não tenho tempo para isso.
Tempo? A cabeça de Claire quase pendeu, olhando-o em tom de dúvida, fazendo Vincent perceber que havia falado demais. Ele desviou o olhar, desconfortável, e antes que a garota fosse capaz de falar qualquer coisa, o celular do rapaz tocou, talvez o salvando, talvez não, porém o suficiente para que desse uma desculpa esfarrapada para que não precisasse responder.
Vincent entrou em seu quarto, deixando Claire sozinha, refletindo tudo o que lhe fora revelado. Bom, agora já sabia mais ou menos com o que estava lidando.
Havia magia negra e branca, e era até um pouco engraçado pensar em coisas como elementos mágicos. Algumas perguntas eram criadas em sua mente, como quais foram os critérios para haver alguma remota divisão de habilidades mágicas – uns só poderiam usar três enquanto uns pouquíssimos outros, todas? Poderia parecer injusto, mas parando para pensar, como estaria o mundo se todos os bruxos pudessem fazer qualquer coisa?
E também o modo como bruxo havia ficado quando falara sobre o fato de não possuir tempo para atender uma escola de magia. Ele havia mencionado anteriormente o fato de possuir dois irmãos dependentes dele, entretanto havia ficado no ar o fato de haver algo bastante errado – seria errado a palavra certa? – na vida de Vincent.
Deu um suspiro exasperado ao se pegar pensando naquilo. Novamente, mal o conhecia, então não deveria ficar pensando em algo que invadia seu espaço pessoal. Não deveria nem estar tão curiosa assim com ele, só...
Era constrangedor admitir até para si mesma, mas Vincent possuía uma aura que nunca vira nem em pessoas mais velhas, quanto mais em jovens mais ou menos de sua faixa etária e nada parecia ter a ver com magia. Ele parecia possuir uma elegância nata, uma aura de mistério e um magnetismo natural que pareciam ter sido confirmados apenas naquele momento quando finalmente conseguira manter uma conversa com ele.
Além de ele ser assombrosamente belo, algo em Vincent parecia ser terrivelmente interessante. E havia algo naquele “terrível” que lhe davam a impressão de que conhece-lo poderia não ser necessariamente “seguro”.
— Mas o que eu estou pensando...? – Claire murmurou, pressionando as próprias bochechas, sentindo-as quentes. – Argh, talvez seja melhor eu ativar Near e conversar sobre qualquer outra...
Um “tump!” alto a fez pular, olhando para a direção do som num sobressalto, vendo um gato alaranjado, com diversas listras pretas em suas costas, contra a porta de vidro da sala. Sua cauda bambeou, de um lado para o outro, e ele pareceu encará-la diretamente com olhos azuis sagazes.
E então ele atravessou a porta como se ela fosse água.
— Vincent?! – acabou gritando num reflexo assustado. O gato correu como um raio até o sofá, a assustando e fazendo-a se levantar num pulo, porém foi como se uma corrente elétrica houvesse tomado conta do móvel de tal forma que apenas sentiu a dor lancinante na costa da perna em que ainda se encontrava encostada no tecido.
Aquilo foi tão repentino que suas pernas perderam a força e seus olhos se fecharam com força quando sentiu o impacto contra o chão, depois tudo o que sua mente conseguia registrar era a dor insuportável em sua perna esquerda e um cheiro de queimado alarmante.
A porta do quarto do rapaz foi aberta num rompante, que pegou o gato em pleno ar enquanto ele literalmente tentava pular nas costas da moça. Ele soltou a descarga elétrica que ele certamente soltaria nela em Vincent, porém ele mal sentiu, fazendo com que o gato arregalasse os olhos. Era bom demais com aquele tipo de magia para ser atingido pelo nível daquele...
— Você não é um bruxo. – constatou num grunhido e o gato chiou. Vincent viu claramente quando as faíscas começaram a passar por seu pelo, e mal teve tempo de perceber que ele planejava causar uma pequena explosão que não afetaria o rapaz, mas poderia ser mortal para Claire.
Sua mão voou para a cabeça do felino, girando-a. A girou de forma que o queixo parou nas costas e um estalo nauseante se fez quando quebrou o pescoço do bicho. Um grito foi ouvido, um grito humano, grave, como se fosse um grito do além, antes do animal se tornar pó entre seus dedos.
A respiração de Claire saía em ofegos rápidos, assustados e dolorosos, e estes certamente estariam piores se vissem a fumaça desprendendo de sua perna, que se encontrava arqueada, o joelho dobrado para impedir que a pele dobrada encostasse-se a qualquer coisa. Sua visão encontrava-se embaçada com as lágrimas de dor que já escorriam por seu rosto enquanto não encontrava voz para vocalizar o que estava sentindo.
— Não vou perguntar se você está bem, – Vincent disse simplesmente enquanto se abaixava ao seu lado. – já que estou vendo seu estado. Aqui.
Ele a suspendeu, girando-a antes de pegá-la no colo, tomando cuidado para não tocar na perna machucada. Entrou pela porta aberta de seu quarto, pondo Claire deitada em sua cama enquanto ela continuava com a perna retraída, e sentou-se próximo ao membro machucado.
Tocou com o máximo de leveza que pode, porém foi o suficiente para que Claire encontrasse voz, emitindo um som que nem mesmo ela reconheceu. Sua perna já pulsava, e parecia que o toque de Vincent era mais quente no inferno que havia se formado em sua perna.
Ele arrancou sua sapatilha e rasgou a perna de sua calça sem dificuldade, liberando a região machucada até o joelho. Fez uma careta ao ver a vermelhidão nauseante de sua pele, além do membro já estar inchando.
— O que eu faço, o que eu...? – ouviu-o murmurar, antes do olhar dele se prender em sua própria mala.
Ele correu até lá, revirando as suas coisas antes de voltar com o que, se Claire estivesse pensando com clareza, teria reconhecido como o que parecia ser um frasco de loção. Ele abriu-o e despejou uma boa porção de um óleo na extensão da perna da garota, que por um segundo quase gritou, antes de a dor começar a sumir quase milagrosamente.
Piscou os olhos ainda molhados, antes de se apoiar nos antebraços para ter uma melhor ideia do que estava acontecendo. Vincent agora estava espalhando um óleo de uma cor estranha, um azul rosado, por toda a sua perna e as queimaduras estavam desaparecendo a olhos nus.
—... Se Markus estivesse aqui, talvez eu fosse capaz de dar um beijo nele – Vincent deu um suspiro aliviado. – Está melhor?
—... Sim. – A voz de Claire quase não saiu. Sua respiração ainda se encontrava descompassada, estava certamente assustada. Como não estar? Tudo ocorrera rápido demais! – O... O que foi aquilo?
— Um demônio. – foi a resposta.
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