Coração de Porcelana

13 Capítulo 12 - Vozes na Escuridão


Notas iniciais
E.... ADIVINHEM QUEM ESTÁ VIVA?? Pessoas, desculpem a demora! D: Além de eu estar sob os preparativos para o Enem (já que eu estava no terceiro ano), provas finais, formatura, eu passei por um bloqueio criativo absurdo + o fato de ter arranjado um emprego :'D Literalmente, só consegui voltar a escrever agora. Bom, mas agora temos capítulo novo, espero que gostem!

Capítulo 12 – Palavras na Escuridão

Os olhos azuis foram até a porta, parando ali por um mísero segundo. A maçaneta da porta girou por um momento, tentando abri-la, antes de parar e aparentemente desistir.

Era isso toda noite. Jim nem se assustava mais, fazia parte de seu dia. Apenas tomava cuidado para Michael não estar pela sala de estar às três da manhã. Rangeu os dentes, olhando um pouco mais atentamente para a porta, esperando qualquer outro movimento.

Sinceramente, desde o que ocorrera há dois anos, arrombarem portas se tornara algo muito assustador. Mas não sabia o que Vincent fizera, só sabia que aquela porta de madeira era – ironicamente – mais forte do que ferro. Recordava de ter visto o mais velho mexendo nela pouco depois de terem chegado à Atlanta, numa madrugada. Ele não vira Jim, e Jim não fazia a mínima ideia do que eram as coisas que ele estava usando na porta.

Não era nenhum segredo para Jim ou Michael que o irmão mais velho estava metido com alguma atividade ilícita. O estilo de vida deles comprovava isso. Vincent sumindo quase toda noite também. Só não sabiam o que ele fazia.

Bom, mas sabia que deveria ser algo ruim o suficiente para terem matado a mãe deles, afinal.

A maçaneta girou mais uma vez. E dessa vez, Jim estranhou. Todos os dias, ela girava apenas uma vez.

RAPHAEL!— quase sentiu o coração saindo pela boca quando a voz gritou de repente. O susto foi tão grande que quando deu por si, a cadeira em que estava sentado bambeou e caiu com um estrondo no chão, levando o adolescente junto.

— Jim? – Mike saiu do quarto, já que certamente ainda estava jogando videogame. – O que...

RAPHAEL!— A porta foi atingida por um ruidoso golpe que normalmente teria a feito pelo menos tremer, mas novamente, ela sequer tremeu. O mais novo recuou num pulo, assustado, enquanto Jim tentava recuperar um pouco da dignidade e se levantar.

— Entra no quarto, entra no quarto! – grunhiu enquanto levantava, as costas e cabeça doloridas com o baque. Michael não pensou duas vezes antes de girar os calcanhares e correr pro seu quarto. Por via das dúvidas, Jim correu atrás dele enquanto mais uma vez a voz gritava pelo tal Raphael.

— O que é isso?!

— Não sei. – Jim fechou a porta e só por uma questão de manter ao menos uma ilusão de segurança, a trancou.

Mesmo dentro do quarto de Michael, com a música do jogo ligada, ouviu ainda alguns estrondos na porta.

—... Você acha que isso tem a ver com o Vincent? – Michael sussurrou.

— Não sei. – respondeu no mesmo tom.

Escutou um miado de Hades, e exatamente nesse momento, tudo se apagou.

Jim jurou que o ar se prendera por conta própria em seus pulmões, recusando-se a sair. Tudo fora tomado por uma escuridão tão profunda que sequer sabia dizer qual seria a direção que deveria tomar para sair da porta de onde estava encostado para a cama do mais novo.

E aquilo era assustador, considerando que as cortinas estavam abertas e no momento em que entrara no recinto era capaz de ver as luzes da cidade.

— Jim...?

— Estou aqui. Que escuridão é essa?

Escutou diversos estrondos da sala de estar, indubitavelmente de coisas caindo. Ou sendo derrubadas. Mas se tinha certeza de uma coisa, era que definitivamente não escutara o som da porta sendo arrombada ou qualquer coisa do tipo.

Recuou, afastando-se da porta, e literalmente tropeçou em Michael. Tudo estava tomado por um breu denso que jurava ser capaz de tocá-lo. A respiração dos dois irmãos tornara-se barulhenta, o ar parecia demasiadamente pesado, entrando com dificuldade em seus pulmões.

Os sons continuaram na sala de estar. Ou pensava ser na sala de estar. Mais um miado de Hades, e então uma voz completamente diferente da que vinha gritando desde então. Um sussurro baixo e gutural, que pareceu ecoar nos ouvidos de Jim ainda mais alto do que os gritos.

Meus...

— RICHARD! VOCÊ ESTÁ VIVO, SEU...

O clarão quase cegou Jim, não ouviu mais nada – se é que ouve alguma outra palavra –, apenas sentiu Michael agarrando seu braço com tanta força que doera absurdamente.

Porém, preferiu prestar atenção ao fato de o chão haver sumido sob seus pés.

— Mas o q... – ia começar a dizer, porém o que Michael fazia – gritar – naquela queda livre pareceu ser algo muito mais sensato a se fazer do que tentar entender, por enquanto, o que estava acontecendo.

Tão rápido quanto começou, bateram num chão com um baque deveras doloroso.

— Ai... – Michael gemeu choroso. Jim sentia sua cabeça girando de maneira nauseante, o que até mesmo lhe impedia de captar a dor. Só sabia que respirava como se houvesse corrido uma maratona. Parecia que só então as palavras se repetiam em sua mente “eu vou morrer, eu vou morrer, eu vou morrer”, ao invés de fazê-lo enquanto estavam caindo.

Grogue, tonto, ergueu-se um pouco, apoiando-se em seus antebraços, a fim de verificar onde se encontravam. Sentiu sua garganta se fechando quando se viu num lugar totalmente estranho.

Era um corredor, para começar. Gigante, parecia se estender infinitamente. Suas paredes eram cobertas com papéis de parede vermelho sangue com seus rodapés negros. Jim reconheceu que aqueles revestimentos eram muito provavelmente da Era Vitoriana. Havia uma série de lustres de cristal que possuíam um tamanho considerável no teto, todos idênticos. Suas luzes amareladas refletiam nos cristais que lançavam formas bruxuleantes sobre as paredes, expondo as portas de madeira enegrecida, cada uma constando com entalhes que variavam entre prateado e dourado.

— Ai caramba, eu sabia que eu não deveria ficar jogando Layers of Fear, nem Silent Hill, nem...

— Michael, se acalma.

— Como você quer que eu me acalme?! A gente estava em casa e agora veio parar aqui... Do nada!

Jim respirou fundo, tentando pensar com clareza enquanto arranjava forças para se levantar. O chão era de madeira e estava perfeitamente encerado e coberto por um longo tapete vermelho com diversos desenhos que não prestou muita atenção. Olhou envolta, e percebeu que havia uma curva indicando a outro corredor atrás deles e outra à frente.

— Certo... Precisamos ver se tem alguém em casa, porque... Como vamos explicar que simplesmente caímos aqui?

Michael choramingou alguma coisa que não entendeu. Para onde deveriam ir...? A cabeça de Jim parecia começar a pesar uma tonelada de uma hora para a outra. Bom, alguma coisa havia acontecido, alguma coisa bizarra. Seu cérebro parecia se recusar a aceitar o que havia acontecer.

— Para onde vamos...?

— Não sei Mike. – soltou um suspiro exasperado. Parecia que só então estava lembrando de ficar nervoso.

Olhou para o lado, vendo uma das portas. Os seus entalhes eram fios prateados e formavam a imagem do que parecia ser um céu estrelado, com um filhote de felino enroscado sobre a neve. A maçaneta era retorcida, da mesma cor dos fios, com uma pedra violeta se desprendendo da ponta.

— O que você está fazendo?! – Michael sibilou quando abriu a porta, espiando o recinto.

Era um quarto de bebê. As paredes eram de um azul tenro, tão claro que era quase um azul-gelo, e os rodapés eram de um marrom claro, quase cor de mel. Havia diversos quadros nas paredes, porém por algum motivo Jim não conseguia discernir as imagens de longe. O berço era de modelo antigo, branco, remetendo quase a um cesto sobre sua base recurvada que o permitia ser balançado. As cômodas pareciam ser semelhantes ao berço, e havia uma lareira cor de marfim acoplada à parede da extrema esquerda.

Entrou no quarto com cuidado. Bom, não parecia haver nenhum bebê ali – no momento, ao menos -. Como Michael estava assustado demais com o que estava acontecendo, não suportou ficar sozinho naquele corredor demasiadamente longo e entrou logo atrás do mais velho.

Agora vendo de perto, o de olhos azuis viu que os quadros na parede eram de imagens fantasiosas. Fadas, unicórnios, anjos e... Bruxas. Não velhinhas recurvadas com verrugas no nariz, mas sim mulheres de aparência etérea em meio a bibliotecas, lendo livros enquanto praticavam magia ou à beira de caldeirões. Olhando melhor, havia homens também.

O berço em si tinha entalhes dourados, e percebeu que os padrões formavam dragões e no centro de seu suporte, além na ponta do dossel, as criaturas cruzavam seus pescoços formando flores de lis.

Olhou para a cômoda ao lado, de mesma cor, e com os mesmos entalhes. Sobre ela havia uma estatueta de um dragão com um longo pescoço, além de algumas tapeçarias que remetiam aos mesmos desenhos da criatura espalhados pelo quarto. Identificou um papel dobrado, e o pegou. Era grosso, e algo lhe dizia que era relativamente caro. Abriu-o, vendo o conteúdo escrito numa letra elegante, em tinta violeta.

A família Dalca parabeniza o rei Angus e a rainha Natasha pelo nascimento saudável do príncipe Christian,”

Parecia haver mais, porém a carta estava resgada. Ela datava treze anos antes do tempo presente. Leu o conteúdo em voz alta, e Michael olhou-o, a confusão em seus olhos dourados.

— Rei e rainha?

—... Acho que estamos num problema maior do que esperávamos...

— Você lembra de algum rei recente chamado Angus?

— Não. – respondeu. – Mas se está aqui, deve haver em algum lugar, certo?

— Bom, sim...

A porta aberta fechou-se com um estrondo, fazendo com que ambos pulassem – e Michael num reflexo se agarrasse ao irmão mais velho -. Os olhos de Jim pareceram captar uma sombra, porém ela literalmente pareceu passar voando por um segundo, antes que uma musiquinha começasse a tocar.

Sentiu um arrepio tenebroso subindo por sua espinha. Parecia o tipo de música que tocaria em um móbile ou numa caixinha de música. E uma coisa que certamente havia aprendido com filmes e jogos de terror era que por vezes, as coisas mais inofensivas e infantis por vezes poderiam ser as mais perturbadoras quando se estava assustado.

Seus nervos pareceram ficar piores ainda quando um bebê começou a chorar.

E não havia bebê nenhum naquele lugar.

Virou-se rapidamente, procurando por onde poderia estar a criança, caso não a houvesse visto, talvez sentada ao chão com brinquedos ou algo do tipo, mas não havia nada. Aquele quarto estava tão vazio quanto pensara estar no momento em que entrara. Sem bebês, nem qualquer tipo de brinquedo ou objeto que pudesse emitir música.

Passos começaram a soar do lado de fora. Eram lentos e barulhentos contra o piso de madeira, e Jim teve certeza de que começou a suar frio. Certo, como sairiam daquela situação? Algo de bizarro havia acontecido em seu apartamento, transportado os dois para... Uma mansão? Havia um bebê invisível chorando E alguém a caminho. Obviamente algo que seria capaz de explicar para qualquer um.

Ouviu o som de uma porta sendo aberta com força, e só então deu pela falta de seu irmão mais novo.

— Michael? – olhou envolta, avistando uma porta aberta próxima ao berço. E tinha certeza de que há meio minuto aquela porta não estava ali. – Mike?!

A maçaneta girando atrás de si não o deu muito tempo de raciocínio. Girou os calcanhares, passando pela porta aberta próxima a si antes que entrassem no quarto, e mais uma vez teve um sentimento extremamente desagradável quando se virou para fechá-la e deu de cara com uma parede, a porta tendo simplesmente desaparecido.

Um miado atrás de si chamou sua atenção. Conhecia-o, pois era o “miado entediado” de Hades. Engoliu o seco antes de ver melhor por onde entrara.

Estava agora numa sala de estar. Ela era bem menos sinistra que o corredor de antes, com as paredes sendo cor de creme. O teto era de gesso, branco, assim como parecia ser a lareira. Os móveis eram elegantes, de estofado branco e suporte dourado, e o tapete um céu estrelado. Literalmente. Os pontos brilhavam numa escuridão disposta sobre o chão de maneira assustadoramente realista.

Outro miado e localizou o gato sobre a banqueta de um piano que ainda não havia visualizado, à sua esquerda. Ele estava deitado de maneira elegante, com uma das patas pendendo para frente enquanto a sua cauda balançava de um lado para o outro, os olhos violetas parecendo ainda mais penetrantes que o normal.

— Hades...

Quando deu o primeiro passo à frente, se arrependeu. Foi tão repentino que só foi se dar conta do que estava acontecendo quando já estava engasgando por ar, depois de cair pesadamente ao chão. Levou as mãos ao pescoço, parecendo haver uma série de cordas enroladas em torno dele. Estavam tão apertadas que por mais que tentasse, nem mesmo o mínimo de ar entrava por suas narinas.

— INTRUSO, INTRUSO, INTRUSO, INTRUSO! – Uma voz aguda gritava enquanto o arrastava pela corda numa velocidade absurda. Jim engasgava, tentando desesperadamente respirar. Chutava o ar, se debatia, tentava puxá-las de seu pescoço, sem sucesso.

Quem quer que estivesse o arrastando começou a subir as escadas, e depois bater com a cabeça três ou quatro vezes contra os degraus, somados com a falta de oxigênio, foi o bastante para que perdesse a consciência.