Coração de Porcelana

3 Capítulo 3 - Conhecendo-a e conhecendo-o.


Derek correu o raio entre a secretaria e o refeitório, direto para a mesa onde poderia encontrar Melissa e Sophia almoçando. Elas eram duas manchinhas que iam se estendendo enquanto ele chegava mais e mais perto. Sufocante. Ele estava agitado.
O garoto que estou citando, era um pouco diferente. Era totalmente uma mistura de criança com adulto, "burro" com inteligente, brincalhão com sério... Não dava para lê-lo. Tinha a pele bem bronzeada, em um tom alaranjado, mas bem bonito. Os cabelos e os olhos eram castanhos, com um toque de preto. Era alto o bastante para não o chamarem de baixo – e isso já era bom o suficiente para jogar no time de futebol da escola – e tinha os músculos bem feitos sobre o corpo.

- Adivinhe – a voz saiu do fundo da garganta enquanto ele lutava para encher os pulmões – Adivinhe Mel!
— Adivinhar o que? – Melissa parou de conversar e se virou para o namorado que mantinha o sorriso de orelha a orelha. Sophia encarou o nada e prestou atenção na conversa.
— Comprei os ingressos para a formatura! – Sorriu e ergueu os ingressos, balançando-os no ar.
— Ah! – Melissa engasgou e arregalou os olhos para ele. Mesmo sem ver, Sophia pôde imaginar a cara que a amiga tinha feito – Jura? Ah! Derek eu te amo! Ah meu Deus! Isso quer dizer que já estamos garantidos! Oh Derek... – ela tentou pegar o ingresso, mas o garoto os levou para trás.
— Primeiro, quero minha recompensa – fez um biquinho mal feito, mas que fez a namorada rir e o beijar sem mesmo contradizer.

O estomago de Sophia embrulhou. Como se fosse vomitar. Mas ela tinha certeza que não era a comida – mesmo a essa hora a deixando de lado por precaução — e nem mesmo o casal de namorados ao seu lado. O “embrulho” no estômago era por não poder sentir o que a amiga sentia, ou mesmo nem saber o que era. Fez-se um silêncio.
E mais silêncio.
Sophia juntou as sobrancelhas no meio da testa.
Ainda se fazia um silêncio insuportável na mesa em que estava, ela desejou violentamente poder ver ou – pelo menos – ouvir algo.

- Só tem dois – Afirmou Melissa murmurando baixo, mas Sophia podia ouvir. Alias, ela não era surda não é mesmo?
— Desculpe? – Derek parou como se tivesse perdido metade do que a namorada acabara de dizer. Depois que entendeu, se virou para falar mais baixo – Pensei que ela não iria.

Sophia quis rir, ela achou engraçado eles não notarem que ela estava escutando. Era o que sua mãe sempre dizia: Que ela tinha os outros sentidos mais avançados que os de outra pessoa. Era o que todos os cegos pareciam “ter”. Mas não era o momento oportuno para rir, soaria estranho – tanto para ela como para os de seu lado.
Sophia engoliu o bolo de risada em sua garganta e mordeu os lábios. Nada de rir.

- Derek! – Mel falou mais alto agora do que antes. Era perigoso esse tom em sua boca.
— Mel eu...

- Olha aqui Derek... – Foi a ultima coisa que Sophia ouviu. Ela de repente se levantou e puxou a bandeja de comida para si. Ela não estava brava, mas também não havia mais a vontade de rir, ela só queria deixar os dois a sós.

Sophia andou por entre as mesas barulhentas, com uma mão sem segurar a bandeja – só estava um pouco elevada ao lado do corpo -, ela sabia muito bem o caminho e havia decorado onde estavam cada coisa do refeitório. Sua mente decorava bem. Anos em uma mesma escola servia de grande ajuda para imaginar desenhos com trajetos certos.
Ela chegou perto de um canto do refeitório e jogou a casca de banana no lixo – ou foi o que ela havia pensado -, mas o som que ela ouviu não foi o que sempre ouvia quando se jogava algo no lixo. Foi como se acabasse de ouvir o ar sustentar a casa até ela cair no chão frio e liso do refeitório.
Sophia levantou uma sobrancelha. O lixo sempre estava lá, naquele canto, sempre. Ela chegou a pensar que estava errada, que havia errado o caminho... Mas podia sentir que estava no canto entre as paredes.
Ela hesitou um pouco quando sua mente a ordenou abaixar e pegar a casca do chão. Mas e se fosse uma brincadeira idiota das garotas populares da escola? Se elas tivessem tirado o lixo dali só para ver Sophia apalpar o chão como se tivesse perdido os óculos?
Sentiu um arrepio, ela podia sentir o calor que estava quase ao seu lado. Passos invadiram seus ouvidos e ela ficou parada. A pessoa – que agora ela podia ouvir – fez um movimento em que ela não pode decifrar, mas mesmo assim prestou atenção.

- Acho que deixou cair isto – A voz soou como sinos sendo tocados pelo vento fresco de uma manhã. Ela não respondeu, não queria quebrar o som da voz que acabara de ouvir. Ouve um silêncio – Oh! – ele reclamou como se acabasse de descobrir algo e ela podia chutar o que era – Bem, acho que não vai usar isso mesmo...

Ela não ligou se ele só havia percebido que era cega agora, o que a incomodou foi que o barulho que tanto esperava o garoto fez em questão de segundos – alias, tinha os olhos em seu favor -, e ela suspirou. “O lixo estava aqui Sophia!” – pensou ela consigo.

- Não sabia que era... – o garoto tentou se desculpar, mas foi como se não conseguisse achar as palavras certas. O bolo de risada voltou para a garganta da garota.

- Cega? – Sophia passou as mãos por sobre a bancada que estava ao lado para ter certeza que não jogaria a bandeja no chão – Tudo bem.

- Parece que tiraram o lixo e não colocaram no lugar.

Ela se calou para ouvir.
Ele a olhou e soltou uma gargalhada. Ela não podia imaginar que a risada dele podia ser até mais bonita que a voz.

- Meu nome é Stefan – ele pegou a mão da garota e balançou gentilmente, encarando os olhos dela.
— Meu nome é Sophia.

Foi como levar um murro no estômago. Sophia se inclinou ao ouvir sua voz muito mal feita em comparação com a de Stefan. Mas ela gostara de conhecê-lo.