Coração de Porcelana

11 Capítulo 11 - Minha luz, a que posso ver.


- Não pode vê-la ainda! – Melissa gritou pelo corredor, enquanto subia as escadas correndo atrás do garoto de terno escuro – Vai dar má sorte!
— Não estamos nos casando – riu ele enquanto caminhava despreocupado até o quarto da garota que queria ver.

Era sábado, o dia da formatura. Eu só ficava esperando. Vendo acontecer. Até ir embora... E eu nunca – na maioria das vezes – ia sozinha.
No dia anterior – na sexta – Sophia e Melissa correram para pegar o vestido alugado, ele estava mais lindo, bem lavado, brilhante e cheiroso. Mas uma coisa fazia Mel quase se descabelar: não havia encontrado um vestido para a amiga. A sorte – se existisse, porque eu não acreditava nela – era que a mãe de Stefan tinha algo guardado há algum tempo; um vestido em ótimo estado. Além do mais, ela o deu para Sophia, como presente. “Nunca o vi tão feliz.” – disse ela, se referindo ao filho, para a garota. E eu sabia muito bem como ele estava.
Fiz uma careta inesperada em meu físico invisível.
Então lá estava Sophia, com o vestido da mãe de Stefan – ele sabia que era de sua mãe, mas nunca o tinha visto — animada, mesmo sem saber como a roupa lhe pareceu perfeita.
Sophia ouviu os passos pararem quando se aproximavam da porta de seu quarto. Ela virou o corpo, tendo cuidado para não cair do banquinho em que estava em cima. Sorriu. Mesmo não vendo nada ela sabia que ele estava na porta.
Mas novamente o silêncio insuportável tomou os ouvidos de Sophia.

- O que? – ela sussurrou.

Eu acho que pude rir.
A cara de bobo apaixonado que Stefan fez foi realmente brilhante. Era como se ela fosse a única coisa que ele via nesse mundo. E era a única coisa que ele queria ver.
Sophia realmente estava perdendo sem vê-lo assim. Imagine no casamen...
Engoli o comentário.

- Nossa! – foi a única coisa que saiu dos lábios do garoto depois de longos minutos.
— Ok, Romeu – Melissa interrompeu – Saia! Preciso terminar de arrumá-la!
— Terminar? Arrumar o que?

Sophia engoliu a risada.

— Ora Mel – a amiga murmurou – Deixa disso, estou pronta! Você mesma disse.

Melissa olhou para Stefan e depois para Sophia, voltando e indo, repetitivamente.

- Ok, Julieta... se quiser ficar sozinha com ele é só pedir!
— Não quis dizer exatamente isso – Sophia mordeu o lábio.
— Mentirosa — cantarolou.
— Ugh! – reclamou para si mesma – Preciso parar com isso.
— Até parece. Já ouviu falar que "velhos hábitos nunca mudam"? Pois eu acredito muito nisso. – bufou Mel e se virou para o espelho.

Melissa estava muito bonita.
O vestido vermelho combinava com os cabelos loiros – alisados com a chapinha -, lindos realmente, compridos até as costas, somente um pouco abaixo do ombro.
Ela arrumou o cabelo, pegou a agulha enfiada em seu vestido e o rolo de linha de trás de sua orelha.

- Não demorem, crianças – murmurou e saiu.

O silêncio voltou e Sophia gemeu baixo. Ela odiava não ouvir nada, isso era a perfeita escuridão.

- Diga algo – implorou.
— Você está linda.

Sophia sorriu.

- Não isso — ela balançou a barra do vestido — Mas, acho... Talvez... Que sim.
— Acha? Talvez? Não está sendo justa, sabia? – disse em um biquinho e se aproximou um pouco da garota em cima do banco.
— Hum, está bem. Diga-me.
— Dizer...?
— Diga-me. Diga como você me vê... Eu preciso saber como... Como eu sou – sussurrou ela com a cabeça baixa – Como eu sou... Para você... Principalmente.

Stefan engoliu a saliva antes de começar. Ele estava feliz, mas não sabia ao certo como dizer a ela. Preferiu começar do seu jeito.

- Ok, mas primeiro terá que dar um sorriso pra mim, girl!

Sophia não conseguiu sorrir, mas tentou descer descontroladamente do banquinho, com as mãos para frente.
Stefan não precisou pensar e já se aproximou dela, pegando sua cintura, ficando com a cabeça na altura da mesma. Ele olhou para cima e deu de cara com os olhos perdidamente tristes de Sophia. Isso fez seu coração doer profundamente. Como um tiro.
Sua bonequinha de porcelana estava triste.
Ele sentiu seus braços formigarem, prontos para pegá-la e abraçá-la, protegê-la do que quer que estivesse pensando de ruim. Ele queria isso mais do que tudo naquele momento. Queria ver os olhinhos dela brilhando como sempre.

- Hey – chamou – Venha cá!

Ela pousou as mãos em seus ombros e ele a desceu, ainda segurando sua cintura.

— Quer que eu diga como você está linda e encantadora? Tudo bem, eu digo – ele suspirou e fingiu pensar, mas passou os olhos por ela enquanto avaliava – Realmente, não tem palavras. Você tem os cabelos mais negros que já vi. Como a noite. E eles têm uma forma.... ondulada sobre o seu rosto, como uma moldura. Sua pele é tão clara que me lembra a porcelana – ele tocou o queixo dela — e seus olhos são acinzentados, claros e me perco neles, como se tivessem um encanto muito forte – ele riu – vou ter que tomar cuidado – brincou – mas claro, o vestido branco te deixa tão perfeitamente angelical. Você está linda! — tomou fôlego — Soa idiota, eu sei. Mas acredita em mim, não acredita?

Stefan falou com tanta clareza, amor e delicadeza que não tinha como alguém duvidar de algo que saia de sua boca. Mas mesmo assim, algo incomodava Sophia.
Era aquele pensamente estúpido de novo! Que eu mal sabia qual era.

- Como... Como é o branco, Stefan? – suplicou com os olhos pesarosos, que circulavam o local, sem nada ver.
— O branco? – ele suou frio – Bem...

Sophia esperou.

Stefan teve uma ideia.


— O que é que você vê agora Sophia? – perguntou.
— Não vejo.
— Claro que vê. Concentre-se. O que é que você enxerga?
— O escuro?
— Muito bem! Pense em algo mais claro, mais iluminado... Que faça com que esse escuro suma! Uma luz!
— Oh! – exclamou ela com um novo brilho nos olhos.
— Conseguiu?
— Sim Stefan! Sim! Sei do que está falando! Eu sei que luz é essa! – disse sorridente, feliz como uma criança – É luz que eu vejo quando te imagino!

Stefan parou.
Sua respiração, seus batimentos cardíacos, seu sangue correndo pelas veias, tudo parecia ter parado naquele exato momento. Nada mais importava.
Ele não tinha palavras para descrever o que sentiu quando ouviu aquilo.

- Você... Você me imagina como uma... luz?
— Sim! – disse com a mesma alegria. Transbordava – É diferente quando decoro outras coisas. Esqueço-me da escuridão quando estou com você.

Ele não sabia o que dizer, como falar o que sentia por ela e como retribuir. Era ruim com as palavras, como todo garoto é. Realmente.

- Ah – suspirou ela docemente – Então o vestido que estou usando é a cor que você disse? É a sua cor?
— É-é – gaguejou.
— Que lindo Stefan! – passou as mãos pelo vestido, como se o acariciasse. Estava mais que satisfeita com as palavras do garoto. E com o que estava vestindo — Diga a sua mãe que agradeço.

A coisa que Stefan mais gostava nela era sua humildade, sua simplicidade e inocência. Ela não era uma criança, somente não deixava as coisas ruins da vida acabarem com as boas e criava expectativas.

- Soph – levantou seu queixo – Eu...

Não houve muitas palavras, nem mesmo o que se podia dizer.
Sophia fechou os olhos – sem mesmo precisar daquilo – e sentiu a respiração quente-gelada que saia da boca dele, inundando seus pensamentos. Ela só conseguia respirar aquele ar, como se seus pulmões reagissem bem melhor com o novo ele.
Sentiu que sua garganta queimava com um liquido ácido que passava por ela até o estomago, seu coração estava tão acelerado que era como se o mesmo estivesse em seus ouvidos. As mãos começaram a tremer um pouco e sentiu que estava queimando por dentro. Como se alguém estivesse queimando-a viva. Só que não doía, era prazeroso.
Nenhuma palavra saiu da boca dos dois.
A respiração ofegante de ambos invadiu o ambiente, e Sophia estava achando que iria desmaiar. Seus sentidos estavam borbulhando em suas veias, ela sentia o corpo dele tão perto dela, os lábios, o amor... Ouvia o coração dele acelerado como o dela, batendo em compassos iguais, formando uma música. A mais bela melodia que já ouvia. Tudo isso sem precisar vê-lo.
Sentia tudo muito mais intenso que ele. Sophia estaria ficando louca. Ela estava pensando que teria que parar de respirar. Naquela altura, sua respiração se tornara de ofegante para sufocante.
Foi aí que passos no corredor fizeram ambos voltarem à realidade.
Sophia se encolheu de raiva e tristeza.
Stefan riu baixo.
Ele pegou o rosto dela com as mãos – os dois ainda com os olhos fechados – e puxou um pouco para baixo.
A garota sentiu a respiração dele, agora em sua testa, gelada de mais. E logo depois os lábios macios e sedutores tocaram a mesma e um estalo baixo.
Foi tão amoroso o gesto que Sophia relaxou, se concentrando no único ponto em que ele havia tocado com os lábios.