Coração ao Vento
5 Pandora
—Ela já está assim há 2 horas! Você deveria ter atirado uma somnum menor! — disse uma voz estranha.
—Não tive escolha, eram muitas crianças humanas! — disse uma voz mais familiar.
—Calem a boca, ela está acordando! — ralhou uma terceira voz.
Lentamente abri meus olhos. Minha visão turva avistou três borrões coloridos que pareciam me encarar. Levei as mãos ao rosto e esfreguei os olhos, como se tivesse acabado de despertar de uma longa noite de sono.
Ainda morosa, olhei para os lados, os olhos semiabertos, procurando por Kris. Pensei estar no quarto dele, mas quando minha visão se tornou nítida descobri que eu não poderia estar num lugar mais distinto do quarto da minha criança.
Com o susto, caí do lugar onde estava sentada. Procurei à minha volta por algo que pudesse explicar por que eu me encontrava num lugar que parecia uma caverna sem saída. Antes de despencar, eu estava sentada numa cadeira que parecia ter sido esculpida por um amador no tronco de uma árvore que nascera bem ali. Não havia nenhuma saída, a não ser por uma porta de tamanho humano feita de troncos, atrás de um grande trono feito de cristais brilhantes e multicoloridos. O lugar era muito bem iluminado, não por lâmpadas ou archotes, mas por dezenas de pequenas chamas que queimavam no nada, flutuando a uns 4 metros de altura, ziguezagueando lentamente pelas estalactites. Fora isso, alguns feixes de luz passavam por pequenos buracos entre muitos galhos, trepadeiras, cipós e troncos que cobriam a parede oposta a porta, e mesmo esta sendo a única dose de luz solar que aquele lugar recebia, plantas e hortaliças cresciam muito saudáveis ao pé da parece à minha esquerda e, acredite ou não, até mesmo entre as estalagmites. À minha direita, uma pequena fonte de barro tosca jorrava água a uns 50 centímetros de altura, e julgando pela falta de eletricidade que poderia alimentar uma bomba d'água, a fonte não tinha uma, fazendo parecer que a água que jorrava por meio de magia.
Tentando ignorar completamente o fogo flutuante, as plantas que brotavam da rocha e sem sol, e a água com vida própria, me virei mirando os três borrões que me encaravam, agora com a forma de três leedwees. A que estava no meio era, sem dúvida alguma, Freya. À direita dela estava uma leedwee de rosto lívido, nariz pequeno e lábios rosados, que me olhava expressando um leve sorriso. Ela tinha cabelos azul piscina, que caiam nos ombros como uma cachoeira muito bonita. O outro, à esquerda de Freya, tinha um rosto fino cheio de sardas e queixo pontudo. Seus cabelos arrepiados para trás eram uma mistura de vermelho e amarelo vivos, dando a parecer que sua cabeça estava em chamas. Ele me olhava como se suspeitasse de algo.
Como Freya, os dois eram muito pálidos e, em vez de emplumadas, tinham asas de membrana. A de cabelos azuis usava um vestidinho de couro como o de Freya, velho e remendado, porém consideravelmente mais limpo. O de cabelos de labareda usava somente uma calça, igualmente de couro e igualmente velha e remendada, mas um pouco chamuscada. Não usava nada para cobrir a parte superior do corpo, deixando a mostra seu peitoral e a barriga sarada cheia de gominhos, o que era absolutamente estranho e incomum, visto que leedwees não tinham uma barriga como a dos humanos, muito menos mamilos.
Deixei uma exclamação de espanto sair quando vi aqueles três me encarando. Logo em seguida saiu da minha boca a primeira coisa que pensei:
—Onde o Kris está?
O leedwee de cabelos de labareda deu uma risadinha desdenhosa.
—Ele está bem. — disse Freya se aproximando. Ela estendeu o braço para me ajudar a levantar, mas não me mexi.
—Você...! O que você fez?! Que lugar é este?! — disse eu, sentindo a raiva fluir ao notar melhor Freya.
Freya recolheu o braço e desviou o olhar parecendo envergonhada.
—Desculpe, mas foi a única maneira de te trazer.
—Então foi você quem atacou o ônibus?!
Antes de Freya poder responder, a leedwee de cabelos azuis se precipitou dizendo:
—Não precisa se preocupar. — Ela tinha a voz quase tão doce quanto a de Jujuba — nenhuma pessoa humana foi ferida durante nossa interceptação. Freya admite o erro ao abordar o veículo daquela forma, mas fora ele ter ficado um pouco avariado, nada de mais grave aconteceu.
—Mas eu vi...! E aquela fumaça vermelha?! Envenenaram aquelas crianças?!
—Aquilo foi pólen vermelho da noite. Vem do interior da flor de somnum. Um sonífero natural. Garanto que não houve qualquer dano ou reação alérgica em nenhuma criança ou adulto.
Continuei olhando fixamente para todos eles, ainda raivosa e querendo mais explicações.
—Agora me digam, quem são vocês? O que querem comigo? Que lugar é este? Onde está minha criança?
A leedwee de cabelos azuis respirou fundo.
—Muito bem. É mais do que justo. Você merece respostas. Por favor sente-se e nós responderemos tudo o que você perguntar.
Eu estava em um local isolado e em desvantagem numérica, não sabia o que estava acontecendo, então resolvi cooperar. Me levantei alçando voo e me sentei na cadeira de madeira.
A leedwee de cabelos azuis tornou a sorrir acolhedora.
—Meu nome é Ran. Acredito que já conheça Freya, e aquele ao seu lado é Surt. Esta é a nossa casa, um pequeno santuário onde podemos hibernar e planejar coisas maravilhosas para os nossos irmãos desamparados! — Ran mirou o nada, sonhadora, depois tornou a me olhar — Te trouxemos porque você é uma de nós, e sua criança a essas horas deve estar em sua casa.
As únicas coisas que entendi foram os seus nomes e que Kris provavelmente estava em casa.
—Como assim sou uma de vocês? — perguntei.
—Creio que posso responder a essa questão. — disse uma voz ao fundo.
Da porta atrás do trono de cristais surgiu outra leedwee. Tinha cabelos negros, encaracolados e volumosos, pele âmbar e sardas abaixo dos olhos de pupilas azul celeste. Ao contrário dos seus companheiros, tinha asas das mais brancas e fofas plumas e não trajava nada, pois tinha uma cobertura de queratina quase da mesma cor que sua pele cobrindo boa parte do seu corpo. Ah claro, sem mencionar o detalhe de que, ao invés dos 8 centímetros que sempre foi a altura padrão de um leedwee, ela tinha nada mais que cerca de 1 metro e 60 centímetros de altura. Não pude conter uma segunda exclamação de espanto, desta vez me segurando para não despencar novamente da cadeira. A leedwee gigante sorriu para mim solidariamente.
—Saudações querida irmã. — disse ela gentilmente — Meu nome é Pandora.
Eu continuei de boca aberta, tamanho era meu espanto com sua altura.
—Compreendo. É estranho, não? Você de repente acordar num lugar desconhecido e se deparar com uma irmã do porte que tenho. Surt, Freya e Ran tiveram as mesmas reações quando me viram pela primeira vez.
Pandora caminhou até o trono de cristais e se sentou graciosamente. Ela estendeu a mão me chamando.
—Não tema, por favor se aproxime.
Minhas asas se agitaram e eu levantei voo, me aproximando lentamente da Pandora.
—Você... Você... é... — Tentei falar mas as palavras não saíram da minha boca.
—Grande? — disse Pandora, o sorriso mais largo.
—...linda... — disse eu.
Pandora fez cara de espanto, mas ainda sorrindo.
—Ora, fico muito agradecida pelo elogio. Você também é muito bonita, querida irmã. Agora creio que explicações tem de ser dadas. Querida, te trouxemos até aqui pois você é especial, você tem um dom único que te faz um dos seres mais poderosos do mundo.
—E-Está d-dizendo que eu s-sou... — gaguejei.
—Uma fada. — Completou Pandora — Assim como eles. — Ela apontou para Ran, Freya e Surt.
—F-Fada...? Como assim fada?
—Você é parte de uma profecia que diz que quando as cinco fadas do poder da Omnistone se juntarem, Gaia reaparecerá para libertar todos os seus filhos. Ran é a Fada da Água, Freya a da Natureza, Surt do fogo, e você, minha querida, é a Fada do Ar.
Mais uma vez não consegui dizer nada. Estava chocada. Pensei ser alguma pegadinha, mas como poderia ser? Eu... Uma fada?
—Fada... do Ar?
—Exato. — disse Pandora.
—M-Mas não pode ser! C-Como? Espera... Não! Eu sou só uma leedwee comum. Como você pode ter certeza de que sou uma fada?
Pandora não me respondeu. Ela se voltou para Ran e falou.
—Ran, por favor providencie um reflexo para nossa irmã.
—Com prazer. — disse Ran. Com um gesto da mão, ela fez um pouco da água que jorrava da fonte flutuar em minha direção. Em uma fração de segundo a água parada diante de mim se solidificou, tornando-se gelo, e eu pude ver meu reflexo.
—Veja por si mesma. — disse Pandora.
Meu queixo caiu. Não parecia eu. Meus longos cabelos já não eram mais azuis, mas prateados. As plumas em minhas asas desapareceram. Eu usava um vestidinho de couro como o de Ran e Freya, porém menos remendado e mais novo, parecendo ter sido feito às pressas. Minha pele se tornou muito mais pálida e eu adquiri formas mais femininas.
—Meu corpo...!
—Esta é a sua forma verdadeira. Sua forma de Fada do Ar.
O olhar de Pandora se voltou para Freya.
—Por favor, abra a entrada. Ela merece saber onde estamos.
Freya acenou em concordância e se virou para a parede coberta de troncos, galhos, trepadeiras e cipós entrelaçados. Ela estendeu os braços e juntou as mãos, separando-as logo em seguida. As plantas que cobriam a parede serpentearam entre si, se desentrelaçando, diminuindo, fazendo um som de madeira raspando, até que não sobrou nenhuma. Acabou que não havia parede alguma ali, mas uma abertura suficientemente grande para passar um microônibus, que dava para o lado de fora da caverna.
Voei até a saída, meus olhos semiabertos até que se acostumaram com a claridade da tarde.
Ao que parecia, a caverna onde estávamos ficava à meia altura de uma montanha rochosa. Ao pé dela, uma floresta de imensos e verdes pinheiros se estendia quase até o horizonte, onde eu pude ver uma cidade. Reconheci imediatamente uma torre espelhada que se erguia no meio dela.
—Estamos em Jotun? — perguntei apreensiva.
—Mais especificamente na reserva natural do Centro Histórico Monte Ébano, a alguns quilômetros de Jotun.
—Então... Kris está por aqui?! — perguntei exasperada.
Surt bufou.
—Pela última vez, ele está bem e em casa! Já te dissemos isso! — disse ele irritado.
—Mas não pode ser. Jotun fica a mais de 70 quilômetros de Vetch! Como é possível que eu esteja viva, estando tão distante do meu humano?
—Querida, venha, sente-se. Vou lhe contar uma história que acho que vai lhe ajudar a compreender tudo. Mas antes poderia nos fazer o favor de dizer em qual ano estamos? Não sabemos com exatidão.
—Estamos na vigésima-terceira semana do ano 1199. — respondi me acomodando na minha cadeira.
—Ha! — exclamou Surt — Eu disse que não estamos em 1175!
—Bom, o seu palpite não foi melhor que o meu! Você errou por mais de 40 anos! — disse Freya de braços cruzados.
A discussão sobre quem chegara mais perto de adivinhar o ano correto seguiu quando me voltei para Pandora.
—Deve se perguntar por que sou tão alta, certo? Você sabe o que é o Hipominimalismo? — perguntou Pandora.
Concordei com a cabeça.
Já ouvi falar dessa doença antes. Muitíssimo raro, o Hipominimalismo era o nome dado a uma condição em que um humano nascia com o tamanho de um leedwee, e seu leedwee do tamanho de um bebê humano. Não havia absolutamente nenhum caso conhecido de alguém que sobrevivera a isso, visto que o humano morria por ser muito pequeno, e seu leedwee virava cinzas por não poder sobreviver sem sua criança.
—Meu humano nasceu com essa doença. — disse Pandora — Morreu horas após nascer, há quase 800 anos. Naquela época leedwees eram tratados como uma doença por si só. Quando nasci com um tamanho humano, minha família foi perseguida. Diziam que meus pais deviam ser grandes pecadores para merecerem um castigo divino como eu. Meus pais eram bons, gente humilde e trabalhadora, mas as pessoas eram religiosas cegas e não viam nada além do bebê com asas que saíra do ventre de minha mãe. Dezenas de moradores da vila exigiram que meus pais me entregassem para que eu fosse torturada, diziam que só isso poderia aliviar seus pecados. Meu pai não atendeu. Ele conseguiu fugir comigo quando atearam fogo à nossa casa e mataram minha mãe.
—Como você sobreviveu? — perguntei ansiosa.
—952! Foi o que você disse da última vez! — Berrou Surt.
—Foi com isto. — disse Pandora, ignorando a discussão e me mostrando uma pedrinha multicolorida pendurada por um cordão no pescoço dela — Isto, minha jovem, é um pedaço do Cristal das Fadas.
Meu queixo tornou a cair. O Cristal das Fadas, o lendário artefato que armazenava a essência vital de todas as fadas, perdido há quase 1 milênio, pendurado no pescoço daquela leedwee.
—O-Onde...? C-Como...? — gaguejei incrédula.
—Meus antepassados. Vim de uma linhagem de curandeiros que encontraram estes fragmentos em suas viagens de aprendizado. Pequeno, porém com um poder além da imaginação. Foi sabiamente passado de pai para filho e usado secretamente para curar os mais profundos ferimentos e as mais terríveis pestes que assolavam nosso vilarejo. Minha família era muito querida e respeitada na região, mas nem mesmo isso foi suficiente para amenizar a ira daqueles que me viam como uma aberração que cometeu o imperdoável crime de nascer. Foi o Cristal que me salvou quando meu humano morreu. Meu pai me deixou em um barco com o fragmento pendurado no pescoço e permitiu que a correnteza me carregasse para longe daquela vila. Na última vez que vi meu pai ele estava sendo encurralado por aldeões à margem do rio.
Meus olhos estavam vidrados em Pandora. Sua expressão triste mostrava o quanto ela era grata por aqueles humanos bondosos que enfrentaram seus semelhares por um leedwee. Me senti feliz por saber que mesmo naquela época haviam pessoas tão boas, e ao mesmo tempo chocada por haver outras tão ruins quanto.
—Mesmo com apenas um dia de vida e o tamanho de um recém-nascido — continuou Pandora — meu corpo era proporcional à minha altura e eu conseguia caminhar e pensar como um humano adulto, eu era uma leedwee afinal de contas. Decidi me esconder por um tempo. Encontrei uma gruta, a qual chamei de lar por um tempo. Eu não sabia o que fazer, não consegui imaginar um futuro para uma leedwee sem humano. Sem nada para fazer, deprimida e sem ideias, eu dormi. Não sei ao certo quanto tempo dormi, apenas sei que quando acordei eu tinha o corpo de um humano adulto. Descobri que eu havia hibernado próxima a uma pequena vila que crescera consideravelmente nesse meio tempo. Essa vila se chamava Hardek. Algo, não sei o quê, me levou a aquela vila. Com o couro de animais que cacei fiz um vestido para cobrir minhas asas e uma touca para cobrir minhas orelhas pontudas. Foi então que me ingressei na vila e na sociedade humana. Encontrei um emprego como criada de um homem rico que vivia sozinho, construí uma casinha para mim nos fundos do casarão dele e... Por que não? Me apaixonei! Ele era um homem considerado esquisito pelos outros aldeões, o meu senhor, fissurado por histórias e passando a maior parte do tempo produzindo papel e tinta para escrever. Todas as tardes eu servia chá no gabinete dele, sempre ouvindo todas as histórias que ele me contava sorrindo como uma criança sonhadora. Eu não havia pensado num nome para mim quando me apresentei para o emprego, mas ele disse que eu tinha cara de Pandora, então eu falei que esse era exatamente o meu nome. Um homem bom, o Senhor Corduroy.
—Espera! — a interrompi pois de jeito nenhum eu conseguiria segurar aquela pergunta por muito tempo — Está falando se Enderson Corduroy? Você o conheceu?!
—Se o conheci? — Pandora sorriu — Ele foi o meu marido. Claro, um tempo depois dele descobrir que eu era uma leedwee. Me flagrou na minha forma original numa noite. Eu achei que aquele seria o meu fim. Por melhor que Corduroy fosse ele não poderia aceitar ser enganado por um ser como eu... mas para a minha grande surpresa, quando eu lhe contei minha história e pedi perdão por tê-lo enganado, ele apenas sorriu e me afagou os cabelos. Disse que não faria nada de mal comigo nem contaria meu segredo aos outros.
"Não só Corduroy não era como os outros humanos, como, eu descobri depois, era um fanático por leedwees, escondendo isso de todos. A descoberta da minha verdadeira forma fez Corduroy ficar fascinado por mim. Ele permitiu que eu me mudasse para dentro do casarão e, todas as noites com a minha permissão que ele sempre pedia, me fazia muitas perguntas para um livro que ele estava escrevendo sobre leedwees. Decidi mostrar-lhe o fragmento de Cristal que herdei do meu pai."
Pandora riu.
"Até hoje me lembro da expressão que ele fez quando viu a pedra. Eu não a conhecia, o Enderson me contou sobre uma lenda obscura transmitida de boca em boca ao longo de gerações. Essa lenda dizia que o Cristal das Fadas um dia seria encontrado pelo mais corajoso dos filhos sobreviventes de Gaia, e usado para encontrar outros 5 leedwees especiais cada um dotado de um dos poderes originais da Fada-Mãe, o poder dos cinco elementos. Seus nomes eram Surt, Njord, Zeus, Freya e Ran. Juntos, combinados com o poder do cristal eles trariam Gaia de volta para libertar todos os leedwees e matar a humanidade. Os humanos mortos seriam divididos em dois grupos. Os que acreditaram e adoraram Tyr iriam para junto dela, para um lugar paradisíaco onde não existiria dor. Os hereges que se recusaram a agradecer a ela teriam suas almas capturadas por Gaia, revividas em formas imortais e transformados em escravos até o fim dos tempos. Eu não acreditava nessa lenda, parecia uma baboseira criada para amedrontar aqueles que não acreditavam ou não eram gratos à humana Tyr. Porém, deixava Corduroy entusiasmado, pelo motivo dele amar histórias, diferente de outros humanos que se achavam especiais por acreditar numa lenda antiga."
"Enderson me contou como a leedwee dele havia se matado quando ele era apenas uma criança. Pandora era o nome dela. Os pais dele infernizaram tanto a vida da pobrezinha que ela fugiu e se tornou pó. Corduroy amava Pandora e sentiu muito a perda dela, por isso se dedicou a estudar leedwees. Ele passou os anos seguintes estudando a história da humanidade e dos leedwees, interrogou estudiosos, conversou com idosos que ouviram histórias de seus antepassados e em poucos anos ele tinha um manuscrito pronto."
A expressão de Pandora logo se tornou chorosa. Na minha opinião era horrível que um rosto tão bonito e inocente fosse capaz de expressar tão tristemente.
—Eu... Eu nunca gostei que Corduroy escondesse suas paixões do mundo por medo de ser julgado. Me entristecia vê-lo com medo de se expressar. O livro sobre os leedwees, o trabalho da vida dele corria o risco de nunca ser publicado, tudo por que ele tinha medo. Foi então que cometi meu maior erro. Estávamos casados há alguns anos e ninguém havia descoberto o meu segredo. Resolvi me revelar para mostrar ao Enderson como ninguém se importava. Eu fui muito burra. Devia ter me lembrado como meus pais foram mortos, mas conhecer um humano tão bom como o Enderson me fez pensar que haviam muitos mais como ele. Oh, como eu estava enganada. Naquela mesma noite o casarão foi invadido, Enderson conseguiu me esconder antes dos aldeões o arrancarem de casa. Ele foi acusado de traição contra a humanidade se aliando à uma criatura maligna e deformada, e foi queimado numa fogueira. Tive que fugir pois o casarão foi incendiado logo em seguida. Documentos, textos, registros, tudo do Enderson foi destruído... Tudo, exceto o manuscrito que ele mantinha guardado num cofre blindado.
"Eu estava arrasada, mais uma vez havia perdido tudo. Eu não queria enfrentar a realidade, estava cansada dos humanos, mas não podia fazer nada, a não ser esperar... E esperei. Dormi por muitas décadas nesta mesma caverna em que estamos, que encontrei depois de muito vagar. O que me despertou foi o cristal. Estava brilhando, e no momento eu soube para onde ir. No caminho descobri que o livro de Enderson havia sido publicado com o nome de Contos de Fadas. Ao que parece, o manuscrito fora encontrado nos destroços vários anos depois e publicado por uma editora iniciante. O primeiro best-seller da história, foi o que foi. O que não foi, foi como o autor havia sido brutalmente morto, isso eles não puseram no livro. No fim, o livro sobre leedwees que meu marido escreveu ficou famoso pela parte que falava sobre Tyr. Resolvi não me incomodar com essa afronta ao legado do Enderson pois não era aquilo que me guiava. Era ela!"
Pandora apontou para Freya, que travava uma discussão fútil com Surt.
—Freya havia nascido numa cidade chamada Hasg, sob o nome de Margarida, perto do ano 600. Demorei anos para encontrá-la. Aconteceu apenas quando o humano dela tentou se matar em um imenso abismo. Ele saltou e deixou ela para trás. Ele morreu a mais de 3 quilômetros de distância dela.
"E é isto minha querida Bluey. Fadas não demonstram seu verdadeiro poder quando estão na presença de seus humanos. Apenas quando Margarida foi afastada, seus cabelos brancos se tornaram verdes, sua cobertura de queratina derreteu e suas plumas caíram. Margarida se espantou com seu corpo de fada da natureza, mas eu lhe expliquei tudo e a trouxe para cá. Rebatizei-a com o nome de Freya, um dos 5 nomes da lenda. Freya e eu dormimos por mais alguns séculos, até que no ano 800 o Cristal brilhou com maior intensidade e encontramos Labareda. O resgatamos de seu humano cruel e lhe dei o nome de Surt. Seguindo mais 200 anos nasceu Carpa, que fez o Cristal brilhar mais ainda, e se juntou a nós com seu novo nome sendo Ran. E agora você, minha pequena. Você, Njord, a Fada do Ar, que há cerca de uma década fez o Cristal brilhar mais do que nunca."
—Njord?
—Exato. Este foi o nome designado ao detentor do poder de controlar o ar. Este é o seu novo nome.
—Desculpe, senhorita Pandora, mas não quero mudar meu nome.
Surt, que cessou sua discussão com Freya, riu desdenhosamente.
—Você não pode negar seu nome! — disse já se tornando rude — Não pode preferir continuar com a marca de escravidão que um humano nojento lhe impôs, a receber tamanha honraria como um título de Fada!
—Meu humano não é nojento! — retruquei.
—Todo humano é nojento! Eu queimaria um por um se não fosse matar todos nossos irmãos, condenados a ficar presos a criaturas tão insignificantes! Mas um ou outro... Ah, sim! Eu sacrificaria um leedwee ou dois para fritar um humano!
—Surt. — disse Pandora, interrompendo o momento de excitação da Fada do Fogo — Não seja inconveniente. Bluey tem todo o direito de escolher como deseja que se dirijam a ela.
—Mas, senhorita...!
—Não vamos discutir.
Porém eu havia encontrado outro motivo para descobrir, pois me lembrei de uma situação tensa pela qual passei alguns dias antes.
—Um momento! Você pode criar fogo do nada, certo? Foi... Foi você quem atacou o Centro de Domesticação na última segunda-feira?
—E se fui eu?
—Você quase matou Kris e eu!
—Eu não sabia que você era uma fada. Vi um humano dando mole e eu não podia perder uma oportunidade assim.
Eu estava prestes a explodir num berreiro, mas Pandora falou:
—Surt, você andou depredando uma cidade humana?
—Senhorita, eu depredei aquele lugar horrível que aliena leedwees!
—E no processo matou humanos, consequentemente matando leedwees, não?
—Foi um sacrifício necessário!
—Surt, já conversamos sobre isso. Durante nossa busca não podemos matar ninguém. Lembre-se de que, segundo a lenda, se uma fada estiver na sua forma leedwee quando seu humano morrer ela também morre. Se você tivesse assassinado o humano da Bluey, perderíamos ela e seu poder, e então teríamos que esperar 200 anos a mais para concluir a profecia. Bluey — Pandora se dirigiu a mim — desculpe. Não me entenda mal, não quero dizer que você é descartável, mas estamos procurando Fadas há séculos, perder uma seria perder tempo, tempo em que mais e mais leedwees sofrem.
—Eu entendo.
—Bom, mas se eu não tivesse ido destruir aquele lugar não teríamos encontrado ela, não? Eu a vi usando seu poder!
Naquele momento eu me lembrei da rajada de vento que desviou a língua de fogo que Surt atirou contra Kris. Fui eu quem fez aquilo!
—Os fins não justificam os meios, querido. Por favor não repita isso sem nos consultar. É imprudente e perigoso. Bluey, perdoe Surt, ele tem um motivo para odiar humanos, e pra ser justa aquilo que chamam de Centro de Domesticação não parece o melhor lugar do mundo.
Eu não disse para Pandora, mas perdoar alguém que tentou te matar não me parecia tão simples assim.
—Acho que deveríamos tentar ver se você consegue controlar seus poderes conscientemente, querida Bluey. — disse Pandora — Surt...
Surt ficou de frente para mim e estalou os dedos. Sobre sua mão surgiu uma pequena chama flutuante.
—Tente apagar o fogo. — disse Pandora.
Com esse pedido enchi meus pulmões e soprei a chama, apagando-a.
—Não com a boca! — Surt tornou a estalar os dedos e outra chama surgiu — Com seus poderes, imbecil.
Aquilo me ofendeu, mas tentei manter a calma. Me concentrei na chama e repeti os movimentos que Freya fez para usar seus poderes. Nada aconteceu e Surt riu.
—Nem uma brisa? — caçoou.
Com raiva, eu foquei minha concentração no rosto de Surt e em como ele me enfurecia. Repeti o gesto com mais rapidez e uma rajada de vento não só apagou a chama como atirou Surt para longe, fazendo-o bater de costas contra a parede da caverna. Ver isso me deixou consideravelmente mais feliz.
Pandora sorriu ao notar meu sucesso. Percebi que Ran estava sentada, vidrada em tudo o que acontecia. Ela tinha ouvido a história da leedwee gigante, como se fosse a primeira vez.
Eu ainda tinha muitas perguntas para fazer, minha mente borbulhava, mas naquele momento notei que meu estômago doía como nunca. Pressionei as mãos contra minha barriga e gemi de dor. Pandora me olhou acolhedora.
—Dor de barriga?
—Sim... — respondi produzindo uma careta de dor.
—Sabe o que isso significa?
—Que meu humano está com muita fome.
—Não, querida, você está com fome. Sua barriga dói tanto pois você nunca comeu. Hoje será no dia em que você experimentará alimento direto pela boca.
Com um gesto, Pandora fez um grande caldeirão muito velho flutuar em direção ao centro da caverna. Freya fez alguns troncos secos surgirem no chão e Surt, já recomposto e me olhando feio, incendiou-os. Pandora pousou o caldeirão sobre os troncos em chamas e Ran com um gesto fez a água da fonte de barro flutuar para dentro. Pandora olhou para a pequena horta e fez alguns tomates, cebolas, pimentões, cenouras, além de outros legumes e hortaliças flutuarem até ela. Pandora sussurrou algumas palavras estranhas e com a mão livre fez surgir um círculo de luz verde translúcido repleto de runas e que girava lentamente. Os legumes e hortaliças atravessaram o círculo e do outro lado saíram na forma de um caldo multicolorido que caiu dentro do caldeirão de água fervente.
—Isto é Alquimia, a arte da transfiguração e transmutação. — disse Pandora vendo a minha curiosidade — Apenas transfigurei a comida para uma forma líquida, mas mantive os nutrientes e o sabor. Alquimia serve para muito mais do que cozinhar, mas ajuda. Conforme eu descobri com o tempo, o Cristal das Fadas acabou me dando alguns poderes além de poder viver sem um humano, como a Alquimia, a capacidade de levitar objetos sólidos não muito grandes e o conhecimento para criar alguns cristais mais fracos, como este — Pandora me mostrou uma pedrinha vermelha do tamanho de um limão com uma runa escrita em tinta branca — este é um cristal de locomoção rápida, eu o chamo de Pedra Portal. Como o próprio nome diz, ela cria portais em qualquer lugar que tenha outra Pedra Portal. É desta forma que conseguimos viajar por todo o mundo em nossas buscas. Passamos os últimos séculos espalhando essas pedrinhas pelo mundo, sempre escondidas para parecerem pedras normais. Hoje há pelo menos uma em quase todas as cidades do mundo.
—Isso é impressionante! — exclamei.
Estando pronta a comida, 4 tigelas minúsculas e uma de tamanho humano flutuaram, uma para cada um de nós. Ran fez o liquido da sopa ir para cada tigela.
Todos começaram a beber a sopa quase ao mesmo tempo, mas eu fiquei com receio. Se leedwees tentassem ingerir qualquer alimento sempre se engasgavam ou vomitavam.
Soprei o vapor quente da sopa, e tomei um gole. Foi uma sensação incrível. A sensação do liquido quente descendo pela minha garganta e chegando ao estômago, o sabor da comida, era tudo mais intenso do que apenas sentir Kris comendo. Perdi a conta de quantas vezes repeti a comida. A fome era horrível, mas a sensação de barriga cheia era surreal.
Terminada o jantar, Pandora notou minha expressão pensativa.
—Quer me perguntar alguma coisa, querida? — disse Pandora.
—Eu estava pensando... A libertação dos humanos aconteceu no ano 200. A senhorita nasceu perto do ano 400. Freya foi encontrada em 600, Surt em 800, Ran em 1000, e agora vocês me encontraram próximo ao ano 1200. É impressão minha ou esses eventos ocorrem a cada 200 anos?
—Você está pensado naquilo que pensei quando encontrei Ran. De fato, parece que os eventos importantes da lenda acontecem em um intervalo de 2 séculos, ainda que haja mais ou menos de 200 anos entre um evento e outro. Na época previ que a quarta fada nasceria por volta de 1200, e eu estava certa, você nasceu!
—Então se tudo continuar assim a última fada vai aparecer em 1400?
—Creio que sim.
—Oh...
—Bluey, pode me dizer o que te incomoda? — disse com um sorriso acolhedor.
—Meu humano não viverá até o próximo evento. Eu gostaria de viver com ele até o fim da vida dele, afinal eu sou a leedwee dele.
—Quê?! Ela não pode! E se o humano dela morrer?!
Pandora ergueu a mão para Surt.
—Se é isso o que deseja, irmã, não podemos te impedir. Por favor, não me leve a mal pelo que vou dizer, mas quando seu humano morrer vá para longe dele. Existe um tempo limite de 6 minutos para uma fada se tornar pó quando seu humano morre. Precisamos muito de você.
Não consegui deixar de me incomodar com isso, mas concordei.
—Muito obrigada pela informação, pelas vestes e pela comida, mas acho que devo ir. Minha família deve estar muito preocupada.
—Entendo. Pode ir, é claro. — Pandora sorriu, mas não consegui deixar de notar uma certa decepção em sua voz — Por favor, leve isto com você — ela ergueu uma Pedra Portal do tamanho de uma ervilha — Venha nos visitar de vez em quando. Se você puser seu indicador sobre o cristal e descrever um círculo em sentido anti-horário 3 vezes eu saberei que você quer vir e abrirei um portal para você.
—Muito obrigada. — disse pegando a pedrinha.
—E, por favor, peço que não conte nada sobre o que te dissemos ou sobre o que você viu aqui hoje. É para a nossa própria segurança.
—Não contarei.
Pandora esfregou a pedra que ela tinha em mãos e atirou-a no chão. A Pedra Portal brilhou e um portal no formato de um triangulo invertido surgiu sobre o cristal. A borda brilhava muito e dentro do triangulo eu podia ver o outro lado.
Me despedi de todos e, com receio, atravessei.
O portal se fechou às minhas costas, como se as bordas de luz fossem sugadas pela pedrinha vermelha no chão em meio a tantas outras. Arbustos e árvores ficavam em volta daquela pequena clareira. A Escola Nacional Príncipe Benito ficava do outro lado da rua.
Há alguns quarteirões de casa me senti estranha. Plumas cresceram nas minhas asas, senti um formigamento pelo corpo (era a cobertura de queratina voltando) e meus cabelos eram novamente um tom de azul royal. Significava que Kris estava a 3 quilômetros dali, sem dúvida em casa.
A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi guardar a Pedra Portal e o vestidinho de couro no barracão de ferramentas nos fundos. Escolhi um bom lugar para esconder meus pertences e voltei voando pela janela do quarto de Kris. Minha criança não estava lá, mas a mochila com os materiais escolares se encontrava sobre a cama.
Cuidadosamente deixei o quarto e fui em direção à sala de estar no andar térreo. No caminho ouvi um pranto que identifiquei na mesma hora. Kris estava chorando. Ao chegar na sala me deparei com a família em volta da minha criança, consolando-a. Eu entendi: Kris estava chorando a minha perda, pois todos se espantaram quando me revelei bem. Kris correu até mim e me pegou abraçando-me contra seu ombro. Me contaram que todas as crianças foram levadas com seus pertences por ambulâncias que chegaram ao local após o ataque ao ônibus escolar, e como os paramédicos não me encontraram, levaram Kris sem mim, e ele pensou que eu tivesse sido deixada para trás, consequentemente virando pó. Todos me perguntaram o que havia acontecido comigo após o ataque. Mesmo cheia de vontade de contar a Kris sobre as Fadas e sobre meus poderes, prometi a Pandora que manteria segredo. A história que inventei foi que quando o gás vermelho tomou o ar, eu me escondi na mochila de Kris, mas não adiantou pois mesmo assim o gás havia me atingido com força, e quando acordei eu estava no quarto, ainda dentro da mochila. Achei uma história plausível pois todos pareceram acreditar.
Kris me contou que todas as crianças e leedwees estavam bem, e ninguém, nem a polícia, nem os repórteres bisbilhoteiros do noticiário da noite souberam explicar o que havia acontecido.
A noite estava calma e silenciosa, a não ser pelo som da respiração lenta e profunda de Kris, que dormia na cama ao meu lado.
Eu não conseguia dormir. Não parava de pensar em tudo o que acontecera naquele dia.
—Sou uma fada... — eu sussurrava pra mim mesma, ainda tentando digerir essa informação.
Eu era uma fada, uma das 5 que traria de volta Gaia para libertar todos os leedwees. Minha mente não conseguia processar o quão importante era essa responsabilidade que o universo havia designado a mim.
Mais acordada do que nunca, puxei minha coberta para o lado e alcei voo. Atravessei a janela semiaberta, sentindo a brisa gelada da noite. Passei no barracão de ferramentas nos fundos da casa e apanhei o vestido de couro remendado que ganhei das fadas.
Tomando cuidado para não ser vista (o que foi desnecessário pois as ruas da área residencial estavam desertas), continuei avançando sem direção, imaginando o momento que fosse acontecer. Verificava a todo tempo se minha pele não estava ficando acinzentada.
Já estava a mais de 20 quarteirões de distância de casa quando minhas asas vacilaram e eu caí em cheio de barriga no asfalto da rua, seguida por centenas de plumas que flutuavam lentamente em direção ao chão.
Meus arranhões se curaram imediatamente. Levantei-me e quando olhei por cima do ombro notei que minhas asas haviam desaparecido. No lugar delas, novas asas como as de borboleta (mas transparentes) cresceram rapidamente. Meu cabelo, percebi puxando uma mecha para a frente do rosto, se tornou prateado. Me assustei quando olhei para baixo. Eu estava completamente nua! Não nua como um leedwee geralmente sempre fica, eu tinha um corpo humano feminino. Pele macia e muito branca, mamilos rosados apareceram onde cresceu um par de seios. Eu possuía um órgão sexual feminino, tirando o fato de que ele não era sexual, mas era igual ao de uma mulher. Pondo a mão um pouco acima da coxa senti duas nádegas. Desisti da ideia de verificar se um orifício traseiro teria surgido como os outros, imaginando que sim.
Olhando para todos os lados, verificando se estaria sendo observada, vesti o vestidinho de couro antes de iniciar o teste final. Me concentrando completamente, ergui minha mão como se estivesse chamando alguém para perto. Nada aconteceu. Me concentrando mais, repeti o movimento e senti uma rajada de vento me projetar para cima. Bati minhas asas para me equilibrar no ar. Meus poderes... Eles realmente existiam, eu conseguia controlar o ar!
Tomada por uma felicidade nunca antes sentida eu voei pela noite. Subi o mais alto que pude tendo uma vista espetacular da cidade. Os pontos luminosos que eram os postes, as pequenas luzes amarelas e vermelhas dos carros-formigas que cortavam as ruas. Estava a quilômetros do solo quando me deixei cair de costas. De braços abertos senti a liberdade como eu nunca havia experienciado, e bradei para o mundo. Eu era uma fada! Antes de me estatelar no chão bati as asas e cortei o ar voando tão rápido quanto eu podia imaginar.
Logo cheguei à avenida principal. Voei na contramão como um jato, desviando dos carros por cima, por baixo, pelos lados. Por centímetros eu não colidia contra os veículos em alta velocidade.
Quando notei, eu já chegara próxima ao Palácio Real, uma grande construção semelhante a um castelo, repleta de torres, com paredes de marfim e telhados dourados. Uma gigantesca estátua de bronze da Humana Tyr se erguia sobre um grande pedestal no centro do jardim. Guardas vestindo uniformes blindados nas cores vermelho e preto, com capacetes pretos e longos cajados patrulhavam o perímetro da imensa propriedade. Voei até o topo da torre maior, o ponto mais alto da cidade, e me sentei contemplando a vista. Todas as sensações se tornavam mais fortes na forma de fada, era incrível.
Feliz como nunca, ciente do tempo que passei fora, tomei o caminho de volta para casa.
Não consegui dormir naquela noite, a adrenalina ainda tomava conta de mim. Continuaria alegre até o dia seguinte, mas o sentimento não durou muito, pois logo cedo recebi a notícia de que Jujuba havia se tornado pó.
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