Notas iniciais
Oi... Eu sei, eu sei, me desculpem, de todo o meu coração, eu sinto muito. Imagino a raiva que todos estão sentindo de mim e sei que meia duzias de palavras não é o bastante para me justificar. De todo modo, tenho que tentar. Foi muito duro deixar de escrever, eu sofri muito por isso, sofri mais ainda só em saber o quanto isso magoaria vocês, pessoinhas que tanto amo e que já estavam introduzidas em minha rotina. Escrever, falar com vocês, sempre foi uma das minhas coisas preferidas no mundo e largar isso me doeu bastante. . Sei o que estão pensando, mas antes que muitos se animem, tenho que explicar. Esse capítulo eu escrevi há muito tempo, muito tempo mesmo. Vocês devem estar pensando, então porque logo agora decidiu postar? Bom, é impressionante, mas até hoje em dia, eu recebo mensagens lindas pedindo para que essa fic sege atualizada, isso me deixa muito feliz, mas também faz eu sentir uma dorzinha no peito, porque me sinto de mãos atadas diante desse pedido. Até hoje, isso era impossível, mas finalmente vejo esperança no final do túnel. Acontece que eu voltei a escrever, bem, ainda não é Coração Valente, mas um dia eu chego lá. Eu estava muito animada quando comecei essa história, tinha certeza que iria até o final, então não quero dar falsas esperanças a ninguém, mesmo assim tenho que dizer, é bom estar de volta, é bom ser capaz de realizar o que mais se gosta na vida. Amo as palavras, e parece que elas e eu estamos interagindo novamente. . Eu tenho esse e o próximo capítulo escrito, estarei postando essa semana mesmo, mesmo que não receba comentários. Eu entendo a amargura que sentem por mim, ninguém é obrigado a conversar comigo depois do que fiz. Depois do capítulo sete, não sei quando essa história será atualizada, eu só espero que não demore muito. . Como eu disse, faz tempo que eu escrevi esses dois capítulos, e só o que lembro é que fiquei insegura em relação a eles, porque não sabia dizer se ficaram bons. Eles trazem uma nova perspectiva, de um outro personagem, e isso pode não agradar a todos, ainda assim, vou postar, na fé e na coragem (e na maior cara de pau, porque é a única que eu tenho, afinal, rs). . Esse capítulo é dedicado a Joicy e a todas as pessoas maravilhosas que me mandaram mensagens durante esse longo período. Mesmo aquelas pessoas que me odeiam, espero que gostem e depois podem jogar pedra, porque eu mereço. . Boa leitura. PS: Para quem quiser ouvir a música: https://www.youtube.com/watch?v=IVxxBcIMl_w

CAPÍTULO 6

"Que importa é se sentir bem

Viver, viver e ser livre

Saber dar valor

Para as coisas mais simples

Só o amor constrói

Pontes Indestrutíveis"

Trecho da música: Pontes Indestrutíveis. — Charlie Brow Jr.

*.*.*.*.*.*

A água quente caía suavemente, deslizando pelo corpo jovem como uma velha amiga que o abraçava firmemente e o confortava, se espalhando pelo banheiro em sua forma gasosa, o vapor esbranquiçando todo o ambiente, igual a uma densa neblina que cega a visão.

Fechou os olhos, a respiração ficando lenta e o coração se acalmando. Nada no mundo poderia ser mais relaxante do que um bom banho quente, pensou consigo mesmo, sorrindo, enquanto sentia a enxaqueca, que tanto o havia incomodado no decorrer do dia, diminuir, como num passe de mágica. Se esforçou para não pensar em nada estressante durante o restante do banho, abandonando os problemas naquele que, para ele, era um momento sagrado.

Quando terminou, desligou o chuveiro, pegou a toalha, se secou, a enrolou na cintura, saiu do box, e em seguida do banheiro.

— Até que enfim! — Barbara disse, ranzinza, levantando as mãos pro céu, um tanto dramática. — Pensei que tinha criado raízes dentro desse banheiro! — continuou, enquanto via o outro seguir para o guarda-roupas. — Eu não sei porque não posso tomar banho com você — resmungou, contrariada, com uma pontada de lamento na voz. — Já fazemos tudo juntos, porque não tomar banho também? Iríamos economizar água. Sabe, o planeta necessita disso — argumentou, cruzando os braços, virando de posição na cama. — Você não quer salvar as plantinhas? Os animais? As ararinhas azuis? — disse debochada.

Se vestindo, Artur respondeu:

— Nunca pensei que você se importasse tanto com o planeta — ironizou. — Mas, sinceramente, não sei o que tomarmos banho juntos iria ajudar na preservação das ararinhas azuis. Se você quer mesmo ajuda-las, ao invés de arquitetura, poderia fazer faculdade de biologia, se especializar, e depois ir trabalhar como voluntária na Amazônia, o que acha? — Já vestido, caminhou até a cama e se sentou na beirada. — Assim, você estaria o tempo todo em contato com a natureza, espécies novas de animas, plantas... Seria incrível! — provocou, descontraído. — Sem falar que seus pais iriam adorar. Você seria a heroína da família — disse debochado.

Barbara levantou uma sobrancelha, ficou o encarando sem resposta por alguns segundos até que caiu na gargalhada, um riso alto e agudo. Estava sentada na cama do namorado, no pequeno apartamento deste, vestindo apenas calcinha e sutiã, metade do corpo escondido pelo edredom. Quando parou, disse pausadamente:

— Aiai, essa é boa. — Balançou a cabeça. — O que deu em você? Eu só quis dizer que seria bom tomarmos banho juntos, para variar. Não aja como se fosse o fim do mundo.

Artur segurou uma das mãos da namorada e a olhou no fundo dos olhos.

— Eu entendi, só não acho que fazer amor no banheiro vai ajudar o planeta, só isso — falou com tranquilidade, levantando-se levantando e indo terminar de se arrumar para sair.

A morena sorriu faceira. Era incrível como o namorado parecia conhece-la melhor do que qualquer outra pessoa no mundo.

— O planeta talvez não. Mas com certeza iria me ajudar — murmurou com malícia, baixinho, sem abandonar o sorriso.

Quando Artur terminou de se arrumar, Barbara foi tomar seu banho. Na cozinha, ele preparou um lanche, comeu, depois voltou para o quarto, arrumou a cama, organizou o material para a aula que daria dali a uma hora e meia, e aproveitou para afinar seu violino, sentado na varanda.

A morena apareceu minutos depois, já vestida.

— Estou pronta. Vamos? — Abraçou os próprios braços desnudos, quando foi atingida por uma brisa fria. — Nossa, o tempo mudou... Está frio — comentou, se encolhendo. — Você vai-me deixar na casa da Sandra, antes de ir dar aula aos ladrõezinhos-mirins?

A música cessou. Artur virou-se para a namorada, a fitando num olhar tão atravessado que a incomodou.

— Que foi? — Barbara ergueu as sobrancelhas. — Por acaso eu falei alguma mentira? — disse ela, sem muita paciência.

— Meus alunos não são ladrões, você sabe muito bem disso — reprovou, sem esconder a decepção por parte do comentário da morena. — Não sei o porquê de você ainda insistir em chamá-los dessa forma tão preconceituosa. É justamente esse tipo de comportamento que faz do nosso país um lugar tão desfavorável para artistas viverem, principalmente os artistas cuja situação financeira não é tão boa assim.

Barbara revirou os olhos. Porque as atitudes do namorado tinham que ser tão puritanas? Até parece que estavam vivendo um romance inglês.

— Você quer dizer desfavorável para “favelados”, não é? Ou será que seria mais adequado chamá-los de moradores de comunidades? Afinal, “favelado” é um termo muito duro, que pode ofender seus alunos... — declarava com ironia, o fitando um tanto cética, não acreditando que estava mesmo tendo aquela discussão.

O moreno respirou fundo, balançando a cabeça, sem perder a paciência. Barbara não tinha culpa de ter sido criada pelos princípios tão arcaicos dos pais.

— Ser morador de favela não é vergonha nenhuma. Você se surpreenderia se visse a quantidade de pessoas que conseguem ser felizes, mesmo tendo pouco. Para eles, a felicidade está nos laços que constroem entre si, e não nos bens materiais. Até porque, Barbara, não é todo mundo que consegue ter uma mansão, estudar em escola particular, ter o carrão do ano, como você e sua família — decretou a última parte num tom quase acusatório, fazendo-a franzir o cenho.

— Até parece que ter dinheiro é um crime — disse indignada. — Fique sabendo que só meu pai é de uma família com posses. Minha mãe nasceu pobre, estudou em escola pública, e só conseguiu fazer faculdade porque correu atrás de uma bolsa de estudos. O escritório que eles têm não foi aberto num passe de magia. Meu pai não aceitou o dinheiro do meu avô, ao invés disso ele foi à luta e arranjou o dinheiro com o próprio esforço. Todo mundo diz que as pessoas precisam batalhar para conquistar um espaço no mundo, mas na hora do vamos ver, tratam aqueles que já conseguiram como se fossem lixos, ladrões e um bando de abutres mesquinhos nascidos com as bundas viradas para o céu! — Respirou fundo. — Não pense que a mansão, a escola particular ou o “carrão”, como você mesmo diz, foram dados de mãos beijadas pela minha família. Só somos ricos porque eu tenho pais que não pensam duas vezes em correr atrás dos sonhos deles. Então pare de agir como se eu fosse uma garotinha idiota que não sabe nada sobre as coisas da vida. Eu até posso ser mimada e desumilde, mas se tem uma coisa que eu não sou, essa é cega ou ingrata. — Colocou as mãos nas cinturas, a expressão ficando mais séria. — Tenho total noção do quão é importante correr atrás dos nossos sonhos e vontades, e admiro os seus alunos por isso, porque mesmo sendo pobres eles continuam correndo atrás dos seus desejos. Mas eu sou realista. Sei bem que a pobreza e a falta de oportunidade é o maior diabinho que uma pessoa pode ter como companhia, e que esse diabinho pode sussurrar coisas horríveis em nossos ouvidos, ainda mais quando se mora já tão perto da violência. Mas não foi por isso que eu os chamei de ladrões. — Encarou Artur no fundo dos olhos, parecendo sincera. — Eu os chamei de ladrões porque eles te estão roubando de mim — murmurou, a voz perdendo um pouco da dureza.

Artur demorou alguns instantes para conseguir tomar alguma atitude depois da explosão de franqueza da namorada.

Levantou-se, colocou o violino e o arco em cima da cadeira, sentindo aquela necessidade de aproximação domina-lo, e caminhou calmamente até a namorada, ficando de frente a ela. Ele balançou a cabeça, um sorriso aparecendo no belo rosto. Levou a mão ao rosto feminino e o tocou com suavidade, olhando-a diretamente.

— Desculpe. Não te quis ofender — falou num tom baixo e firme.

Barbara cruzou os braços, ainda com a expressão enfezada, fazendo um bico.

— Não ofendeu ninguém, fique tranquilo. — Mas sua face contrariava sua declaração. — Agora, vai- me levar ou não?

O sorriso do outro aumentou. “Tão linda e tão surpreende”, pensou.

— Vou. — Se afastou, pegando seu violino e entrando no apartamento.

Antes de ir para a ONG, onde trabalhava como voluntário e daria aula para cerca de quarenta jovens, entre eles crianças e adolescestes, levou a namorada de carro para à casa da amiga dela. No trajeto, conversaram sobre diversos assuntos, até que o moreno começou a falar sobre um passeio que estava planejando dar no dia seguinte.

— Poderíamos ir ao parque — sugeriu, sem tirar os olhos da avenida. — Eu vi que vai estar sol amanhã.

Barbara trocou a estação do rádio.

— Não sei, amanhã é domingo, tenho que ir para a igreja, e os parques estarão lotados.

Houve instantes de silêncio, até que pararam em um farol.

— Podíamos ir de tarde. — Ele olhou para ela. — É até melhor, porque eu estava querendo levar minha irmã e tenho certeza que ela prefere dormir até tarde nos finais de semana, já que acorda cedo nos outros dias.

A morena segurou o ar por alguns segundos, sentindo como se estivesse pisando em ovos, até que o carro voltou a se movimentar. De repente, estava desconfortável com o rumo daquela conversa.

— A Sandra comprou um cachorro novo — mudou de assunto, automaticamente. — É daquela raça do filme dos 101 cachorros... Esqueci o nome.

— Dálmatas?

Por dentro, a jovem ficou feliz pelo namorado não se ter incomodado com a mudança da conversa.

— É! Isso mesmo. — Olhava para as calçadas, onde pessoas zanzavam como formigas em um formigueiro, sem parar, nem por um segundo, concentradas demais em suas vidas insignificantes. — Bichos nojentos — resmungou baixinho, sem saber se se referia aos cachorros ou às pessoas. Talvez se referisse aos dois.

Aparentemente, o namorado não a ouviu.

— Ouvi dizer que é uma raça bem dócil. Isso é bom, especialmente para a Sandra que tem filho pequeno — dizia o mais velho. — Qual a idade dele?

— Como assim? Você sabe que o Bruninho tem três anos.

Artur riu.

— Perguntei do cachorro — explicou.

— Ah! — Também riu da própria confusão. — Sei lá. Mas não é um filhote. Já deve ser velho. Ela o pegou num abrigo para cães, você acredita?

O esportivo virou uma esquina, percorreu mais alguns metros e parou em frente a um prédio branco, de doze andares, onde Sandra morava em seu apartamento.

— Qual é o problema? — questionou sem entender, fitando a namorada.

— Hellooo! Já ouviu falar de doenças caninas? Esses cachorros que foram abandonados devem ser cheios delas. E essas coisas são transmitidas para as pessoas. Tem gente que morre por causa disso. Se eu fosse a Sandra, jamais arriscaria a vida de um filho meu para abrigar um pulguento fedido que está com os dias contados. O bem-estar de uma criança é mais importante do que o de um animal — ressaltou a última parte.

Artur abriu a boca para contradizê-la, mas mudou de ideia, falando sobre outra coisa:

— Mas você ainda não me respondeu. Que tal sair comigo amanhã?

O jeito como ele a olhou, todo meigo e carente, fez o coração da morena acelerar.

“Sair com você e com a sua irmãzinha satânica, você quer dizer, né?” Lembrou a si mesma.

— Tá, ta legal, eu vou. — O mais velho sorriu. — Só porque você é um gostoso e porque eu não consigo resistir ao seu charme — brincou, se aproximando para beijá-lo.

Quando se separam, o moreno disse:

— Bom, tem mais uma coisa — começou, meio hesitante. — Eu estava pensando, já que eu vou levar a minha irmã, acho que seria legal você levar o seu irmão também...

Barbara arregalou os olhos.

— Como é que é? Meu irmão? Por quê? Porque eu levaria o Abnorme para sair com a gente?

Os dedos das mãos do Artur apertaram inconscientemente o volante, uma pontada de incerteza se misturando aos pensamentos deste. No fundo, não tinha total convicção se aquela era realmente uma boa ideia.

— Pelo mesmo motivo que eu vou levar a minha irmã. — Desviou o olhar da namorada, encarando as mãos no volante, que começavam a transpirar, provavelmente pelo calor ou nervosismo. — Sabe, eu já consegui aproximar-me de toda a sua família, menos do seu irmão. Essa seria uma ótima maneira dele me conhecer e ver que eu sou um cara legal.

Barbara afunda as costas no banco, meio frustrada. “O que de tão especial as pessoas viam no idiota do Nick que as faziam querer ser amigas dele?” Perguntou a voz em sua cabeça.

— Mas você não acha que já passa tempo demais com o meu irmão? Digo, você até está dando aula para ele — justificou.

Encarou-a novamente.

— É diferente. Eu quero ser visto pelo seu irmão como um amigo, não como um professor.

— Acredite em mim, só o fato dele te ter notado já é uma grande vitória. Você não vai conseguir mais que isso. Então, porquê tentar?

— Sei lá. — Deu de ombros, sorrindo fraco. — Talvez… Talvez, porque se eu nunca tentar, jamais saberei.

Barbara respirou fundo, refreando o instinto de falar mal do caçula.

— É perda de tempo, confie em mim. Nick nunca teve amigos, não é agora que vai começar a ter. Eu não entendo o motivo de você fazer tanta questão de se aproximar da minha família. É a mim que você tem que agradar, não a eles, espero que isso esteja bem claro para você. Mas isso não faz diferença, visto que o Abnorme jamais vai aceitar ir passear conosco. Ele morre de medo de gente, e principalmente de andar de carro — diz rápido, mostrando seu ponto de vista.

— Pode ser. Mas não custa nada tentar. Além disso, tem ótimos parques perto da sua casa. — Tocou os cabelos curtos da namorada. — Faz isso por mim, que depois eu te recompenso.

A morena sorriu debochada. Beijou o namorado, tirou o cinto, pegou sua bolsa e em seguida saiu do carro, mas antes de fechar a porta falou:

— Eu não sou uma cadela adestrada para quem você ensina truques e depois recompensa com biscoitos. Mas como eu estou de bom humor, vou pensar no seu caso. Tenha um bom dia — disse seca, batendo a porta e andando em direção ao prédio sem olhar para trás.

Artur suspira, seguidamente sorrindo um sorriso cansado. Carregou no pedal, logo arrancando com o esportivo. No meio do caminho, pensou para si mesmo:

“Completamente maluquinha” referindo-se a namorada. Completou: “Perfeita para mim”

***

— Ele era de longe o bebê mais lindo do berçário. E pensar que eu quase o tive na avenida... — A lembrança arrepiou os pelos dos seus braços. — No meio do trânsito. — Inspira profundamente. — Naquele tempo o nosso carro era simples, porque todas as nossas economias haviam sido aplicadas na compra de um ponto comercial, para o escritório. Mas não foi nele que eu fui levada para o hospital, foi em um táxi... — Tomou um longo gole do chá gelado. — Eu lembro-me muito bem daquela noite. Acho que nunca me senti tão assustada, nem mesmo quando eu tive a Barbara. O que é estranho, porque normalmente é o contrário. Normalmente, é no primeiro parto que as mães ficam afetadas pelo medo de algo dar errado. Eu não. O parto da Barbara foi tranquilo. Engraçado — sua feição não demonstrava diversão, apenas um semblante reflexivo —, desde o nascimento, a Barbara nunca me deu trabalho. Foi tão simples criá-la. Ela sempre foi uma criança muito... Desenvolta. Apegada demais a mim e ao Masaki. Além de carinhosa. Minha filha desde pequena sempre demonstrou muito respeito e carinho por mim. Na verdade, admiro muito isso nela: essa facilidade em demonstrar o que sente, em ser tão transparente, isso é raro nas pessoas. Eu por exemplo não tenho isso. Já o meu marido, possui essa facilidade, principalmente com quem é mais íntimo dele. — Suspirou. — Acho que o Nick puxou essa indiferença de mim — concluiu melancólica.

Rita — uma senhora de uns quarenta anos, de olhos verdes, casada com um empresário, vizinha e melhor amiga de Katia — colocou a xícara com o chá na pequena mesinha de vidro em frente ao sofá, e lançou um olhar terno a amiga.

— Não se culpe. O pequeno Nick também herdou muitas das suas qualidades, e é nelas que você deve focar — tentou consolá-la.

A noite de sábado havia chegado e Katia decidira fazer uma visita à amiga, aproveitando para deliciar-se com seu maravilhoso chá gelado e de sua companhia reconfortante.

A loira sorriu sem humor, agradecendo o consolo.

— Eu sei — admite —, mas é difícil. Eu amo o meu filho, você bem sabe, mas como mãe, fico tão apreensiva por ele. O destino foi cruel, não o poupou do sofrimento de ser diferente. Pobrezinho, já não bastasse ter nascido em um mundo tão preconceituoso, ainda vai ser vítima deste preconceito — sussurra numa voz entrecortada, a fisionomia dolorida. — Eu sofro de antecipação, só em imaginar. — Levou uma mão fechada ao peito.

Rita se comoveu.

— Esse é um sofrimento compartilhado por todas as mães, independente se o filho nasceu “especial” ou não. Qualquer mãe está propensa a sentir medo pelo futuro de um filho. É normal.

— É, minha amiga, essa é uma grande verdade — concordou a loira. — Mas, às vezes, eu penso que nenhuma mãe sente mais medo do que eu.

— Isso porque você é extremamente protetora. — Não havia nenhuma acusação no tom, apenas uma observação saudável.

— Você acha que isso é um defeito? — indagou, aparentemente preocupada.

A outra sorriu, para que a resposta soe com maior veracidade.

— Claro que não! Seus filhos têm sorte.

Katia suspira, meio aliviada, meio cansada.

— Gostaria que o meu marido também concordasse com você. Ele me acha muito paranoica e controladora. Vive dizendo que tanta preocupação e nervosismo vão acabar afastando-me dos meus filhos — desabafou.

Normalmente, Katia não abria seus problemas para terceiros, mas estava se sentindo especialmente mais sensível naquela noite, a ponto de passar por cima de algumas convicções.

— Masaki pode até ser um gentleman, mas continua sendo homem, e em matéria de educação dos filhos, eles não sabem de nada.

A loira bebericou o último gole do chá, para depois pousar a xícara sobre a mesa.

— Pode ser — concordou em parte, dando uma longa pausa antes de continuar. — Eu só gostaria mesmo era de ter mais tempo para passar com eles, mas meu emprego exige tanto de mim... Nick está crescendo tão rápido e a Barbara... Ah, a Barbara! — gesticulou, como se não encontrasse palavras para se expressar. — Imagino que não vá demorar muito tempo para se casar. Você acredita? — soou perplexa.

Rita riu alto.

— Pois é, querida. Depois que aprendem a andar, ninguém mais os seguram — comentou com ar de especialista no assunto.

— Mas eu estou muito feliz — confessou a loira. — Ela realmente encontrou um bom partido, apesar de ser um músico. Pelo menos, ele não pensa pequeno. Ouvi dizer que ele está tentando entrar para uma grande companhia musical brasileira e que tem boas chances de conseguir. O que é uma ótima notícia, afinal, eu jamais deixaria minha filha se casar com um professorzinho de violino cabeça-de-vento qualquer.

— O ruim é que essa gente viaja bastante. Mas o salário não é pequeno, pelo menos não para aqueles com real talento. Todavia, é difícil prever se o músico realmente conseguirá ingressar no meio musical da alta. Sua filha precisa de avaliar se é um bom investimento.

Katia olhou-a indignada.

— Rita, não se trata de um negócio, se trata de amor — repreendeu. — Claro que eu não sou tola de pensar que o dinheiro não é importante, mas ainda assim, a prioridade é sempre o amor.

Rita franziu o cenho.

— Amor. Negócios. Qual a diferença?

A loira encarou a amiga, sem palavras.

***

Quando voltou para casa, Katia encontrou uma cena, no mínimo intrigante, se passando no meio da sua sala de estar.

Em cima do sofá, estava uma Barbara com um sorrisinho maldoso no rosto, enquanto segurava um grosso livro nas mãos, os braços esticados, mantendo o objeto o máximo de distância possível do chão.

Nick estava parado a sua frente, parecendo prestes a ter uma crise nervosa.

Olhava para a irmã com ar de choro, mesmo que nenhuma lágrima pudesse ser vista de onde Katia estava parada, fazendo-a supor que o menor usava de toda a sua força de vontade para segurá-las, tamanho seu orgulho. Os lábios eram comprimidos, formando uma linha reta na face, ao mesmo tempo em que uma pequena ruga de interjeição pairava entre as sobrancelhas negras. Seus orbes transbordavam um misto de aflição e medo, mirando a irmã de um jeito surpreso e temeroso. Vestia a calça branca de estampa de miúdos cachorrinhos espalhados pela extensão do tecido do pijama que ganhara da madrinha e uma camiseta verde-mar, de algodão, sem estampa. Não calçava chinelas, tendo os pés em contato direto com o grande tapete.

Não muito distante sentado na poltrona, Masaki lia distraído seu jornal, sem dar importância alguma ao que acontecia bem a frente de seu nariz.

Katia cruzou os braços, continuando a observar calada, sem ser percebida.

— Por favor — implorou baixinho o garoto, a voz saindo falha —, me devolve.

Barbara, vendo o outro a sua mercê, tão frágil e incapaz, fez o que sempre lhe era habitual nestes momentos: alargou o sorriso.

— Então prometa! — exigiu, levantando ambas as sobrancelhas.

— Mas eu já disse!

Katia franziu o cenho, curiosa e confusa. Seria algum tipo de brincadeira o que estava presenciando? Duvidou, porque mesmo a expressão de Barbara alegando muito humor, a do menino era puro desconforto.

Sabia bem que os sábados à noite eram especiais para o garoto, pois dedicava-os exclusivamente para a releitura dos seus livros antigos. Normalmente só o via no sábado de tarde e depois no domingo pela manhã. Então o que estaria ele fazendo ali e não enfurnado em seu quarto?

— Quero ouvir de novo! E dessa vez mais alto, de preferência. Vai! Quero ouvir! Desembucha. — Como não obteve resposta, continuou: — Ou eu começo a rasgar — ameaçou pausadamente, a voz saindo entre os dentes trincados pela impaciência.

Os olhos do menino se arregalaram, em puro horror. Abriu a boca, mas não conseguiu dizer nem uma única palavra, sem desviar o olhar do livro nas mãos da mais velha.

— Está duvidando? — Barbara vociferou, parecendo aceitar o silêncio como um desafio. — Vou contar até três. Se você não prometer, eu juro que faço confete das páginas desta velharia. — Abriu o livro e segurou a primeira folha, aparentemente bastante decidida. O coração do moreno acelerou — Um... Dois... — Uma pausa mais demorada — E...

— O que está acontecendo aqui?! — Katia fez-se notar, questionando alto, as mãos na cintura, enquanto se aproximava com passou pesados.

A morena parou no ato, encarando a mãe com surpresa. Nick não se mexeu. Já Masaki abaixou o jornal e fitou a esposa por cima dos óculos de grau, com um semblante distraído.

— Ah, querida, o que faz aqui? Pensei que iria ficar até tarde na casa de Rita — perguntou o japonês, sem realmente parecer interessado.

Katia suspirou.

— Nem me lembre daquela desmiolada. Hoje percebi que os princípios dela são completamente controversos aos meus.

— O que ela fez? — Retirou os óculos, limpando-os na blusa e em seguida devolvendo-os ao rosto pálido.

— Isso não vem ao caso — cortou o assunto. — Eu era quem deveria perguntar o que vocês estão fazendo!

— Não entendi. — Dobrou o jornal.

— Não entendeu?! Olhe para os nossos filhos! — Apontou. O japonês obedeceu, continuando indiferente. — Barbara, desça já desse sofá! — A filha mais velha desceu sem pensar, a fisionomia impassível. Katia coçou as têmporas, respirando fundo, em seguida, voltou a fitá-los. — Agora se expliquem. — Voltou a cruzar os braços, um dos saltos batendo ansioso no tapete.

— Mãe, eu... — começou a primogênita, sendo interrompida pelo pai.

— Querida, as crianças estão apenas brincando — tentou livra-lhes as caras.

— Quando foi que você percebeu isso? Enquanto lia o jornal? Entre os classificados e os quadrinhos? — indagou descrente, alfinetando. Foi até a filha e pegou o livro em suas mãos. — Isso é seu?

— É só um livro, mãe — a mais baixa da família justificou, argumentando em seguida. — Não é como se eu tivesse roubado um pedaço da alma dele.

— Mas é seu? — voltou a enfatizar a pergunta.

Barbara rolou os olhos, fazendo um bico.

— Não — admitiu depois de algum tempo.

— Foi o que eu pensei — ironizou a mãe. Deu-lhe as costas e entregou o livro para o caçula, que nada disse, apesar do alívio óbvio em seu rosto. — Agora, o mais importante — virou-se novamente para a morena —, comece a falar.

— Falar o quê? — perguntou, fazendo-se de desentendida.

— O motivo. Porque tem que ter um motivo para uma moça tão esperta quanto você agir como agiu agora há pouco.

— Era só uma brincadeira, desculpe se não foi o que pareceu. Eu só estava tentando interagir um pouco com o Nick. É sério, mãe, foi só uma brincadeira entre irmãos, mas eu acho que eu exagerei, me desculpe — seu tom era arrependido, mesmo que seus olhos não dissessem isso.

Katia parou, avaliou bem a expressão desolada da filha e seguiu o mesmo olhar para o filho.

— Isso é verdade, Nick?

O garoto olhou o chão, segurando o livro com força contra o peito. De alguma forma, sentiu a necessidade de defender a irmã.

— É — sussurrou baixinho.

Barbara tentou disfarçar a surpresa que a atingiu. Não sabia se ficava feliz ou com raiva. “Ele sempre tem que agir como se fosse melhor do que eu, mas no fundo deve estar querendo me matar.”

Katia suspirou aliviada, sorrindo em seguida.

— Fico muito aliviada em saber. Por um momento, pensei que você fosse mesmo rasgar o livro do seu irmão — confessou, meio envergonhada, por ter tido uma ideia tão surreal.

Barbara negou com a cabeça.

— Eu jamais faria uma coisa dessas. Era só uma brincadeira mesmo, que por sinal, foi de muito mau gosto.

— Concordo, péssimo gosto. — Barbara abaixou a cabeça, parecendo tão arrependida que comoveu a matriarca. — Mas não se preocupe, meu anjo, foi eu que entendi mal. Culpa minha.

— Eu avisei. — Masaki se intrometeu.

Katia sorriu novamente.

— É, eu sei. O que você quer que eu faça, te dê parabéns?

— Eu não me importaria de ouvir — disse o japonês.

Os quatro passaram mais algum tempo conversando, a televisão ligada, sem ninguém assistir. Passam-se quase duas horas até que Katia e o marido decidem recolher-se para dormir. Deram boa noite aos filhos e subiram as escadas, as mãos entrelaçadas uma na outra, de um modo carinhoso e fraternal.

Barbara parece distraída com o programa musical na televisão durante alguns minutos, até que Nick se levantou do sofá em que estava sentado e repentinamente ela também. O garoto a olhou receoso por uns três segundos, desviando o olhar quando sentiu os olhos verdes penetrá-lo.

— Espera — pediu ela, sem ser rude. Suspirou, passando as mãos pelos cabelos lisos — Eu não sei por que você fez aquilo. Espero que saiba que se fosse o contrário, eu não faria o mesmo por você. Na verdade, eu ficaria muito contente em te entregar. Mas, não é sobre isso que eu quero falar. Como você já sabe, amanhã o Artur vem aqui e você não vai sair do seu quarto, como me prometeu. Depois de chegar da igreja, eu espero que você soe bem convincente quando disser para a mãe que está passando mal. Invente uma gripe ou uma dor de barriga, por mim tanto faz, contanto que você suma. Acho que não vai ser muito difícil, até porque você é um especialista em fingir crises quando te é conveniente.

Barbara deu uma boa olhada para o irmão caçula, para ver se este tinha entendido. Nick estava cabisbaixo, os ombros encolhidos, segurando com força o seu livro idiota e velho, mas que era tão especial para ele. Repentinamente, ela sentiu algo dentro do peito, parecendo inchar e aquecer. Foi uma sensação estranha, mas passageira. “Repulsa” deu nome à sensação, apesar de no fundo saber que repulsa não tinha nada a ver com aquilo.

— Agora sai da minha frente. Já cansei dessa sua cara — ordenou, voltando a se jogar no sofá e focando-se na televisão.

Nick caminhou até as escadas e subiu rápido, sentindo-se sufocar. Entrou no quarto e caminhou até a escrivaninha, sentando-se na cadeira. Colocou o livro em cima da madeira escura da escrivaninha e o abriu.

“Às vezes, basta uma única palavra dita no silêncio dos seus olhos.” — Leu mentalmente a primeira frase do livro, tocando-a com o dedo indicador.

No último cômodo do corredor, onde ficava a suíte do casal, Katia terminava seu banho. Demorou mais uns vinte minutos, até que se sentiu satisfeita. Vestiu-se — trajando sua linda camisola de seda, num tom rosa claríssimo — e saiu. Aproximou-se da cama, onde seu marido já ronronava baixinho, saiu dos seus chinelos e deitou-se em seu lado habitual de costas para o colchão. Ajeitou-se, afundando a parte de trás da cabeça no travesseiro francês e cobrindo o corpo com o cobertor macio. Ficou alguns

minutos olhando o teto, perdida em seus pensamentos, até que o som do marido ficou alto demais, desconcentrando-a.

— Masaki, você está dormindo? — O tocou de leve no ombro, já que o outro estava de costas para ela, deitado de lado. Usou de seu truque rotineiro de questioná-lo se já está dormindo para acordá-lo sem parecer grosseira. — Querido?

— Hein? — Masaki balbuciou, meio dormindo, meio acordado. — O que há? — Se virou na cama, os olhos semiabertos.

— Eu não consigo dormi.

— Obrigado por compartilhar.

— Estou falando sério. — Sentou. — Estou um pouco preocupada.

Masaki, percebendo que não havia escapatória, obriga-se a prestar atenção, mesmo que sem muito tato. Tocou o antebraço da esposa com suavidade, massageando de leve a pele branca.

— Qual o problema? — Se apoiou em um cotovelo, deitando de lado, desta vez de frente para ela. — Ainda desconfiada dos nossos filhos? — supôs, já com bastante conhecimento sobre o assunto. Isto é, por qual outro motivo sua esposa ficava preocupada? Tantos anos de casamento serviram para alguma coisa, no fim das contas.

— Você me conhece bem — confirmou, como se ouvindo os pensamentos do japonês.

— Pensei que as dúvidas tivessem sido esclarecidas mais cedo. Foi só uma brincadeira boba. As crianças às vezes fazem esse tipo de coisa.

— Masaki, meus filhos já não são mais crianças há muito tempo! Até mesmo o Nick, o meu menino de cristal, já não pode mais ser chamado assim.

O outro sorriu, maravilhado.

— Me admira muito vê-la dizendo algo do tipo. Que noite surpreendente!

— Pois é. — Expirou fortemente. — Nem eu acredito. — Alguns instantes de silêncio. — Você sabe o que aconteceu? Quero ouvir a verdade.

— Não confia em nossos filhos?

— Sinto em dizer que não. — Olha o marido de um modo pensativo — Barbara é uma garota meiga, porém muito geniosa e esperta, e nenhuma santa, e o tadinho do Nick... Bem, é fácil de ser manipulado. Além de ser incapaz de entregar alguém, principalmente a irmã. Lembra-se daquela vez quando ele era pequeno e o encontramos todo sujo de tinta de canetinha segurando a blusa que eu ganhara da minha mãe, que também estava manchada? Acho que ainda hoje, se eu o questionar, vai dizer que foi ele que rabiscou a blusa, como fez quando criança, mesmo depois de eu ter encontrado as canetinhas debaixo da cama da Barbara.

Masaki se sentou.

— O que está querendo insinuar?

— Você estava lá, me diga você. O que aconteceu?

— Eu não sei.

— E o que de tão extraordinário você fazia que não prestou atenção em nossos filhos? Ah é, lia o jornal, como se eu já não soubesse! Os acontecimentos do mundo são mais importantes do que o bem-estar da nossa família.

— Katia, não faça uma cena disso, ok? Tudo que eu vi foi a Barbara descendo as escadas depressa, com o Nick atrás dela. Eles brincaram de cão e gato pela sala por algum tempo, enquanto ela dizia para ele prometer alguma coisa.

— Prometer o quê?

— Eu não sei, amor. Provavelmente não é nada demais.

— Você acha? — Por um momento sentiu dúvida. Será que estava sendo paranoica?

— Claro. — Sorriu abertamente. — Agora vamos dormir, sim? Amanhã acordaremos cedo. — Voltou a se deitar.

Katia assentiu de leve com a cabeça

— Essa é uma boa ideia. Você deve estar certo — se deu por vencida.

Mas dentro de si, sabia que algo estava errado.