Coração Valente
6 Capítulo 5
Notas iniciais
CAPÍTULO 5
O quintal e a casa de Paulo eram grandes, mas ainda assim foram convidadas tanta gente que às três e meia da tarde, Barbara já duvidava que fosse possível receber mais alguém. Havia convidados espalhados por todos os espaços da casa, todos muito animados e falantes. Às vezes, as suas vozes ecoavam mais alto do que a música. Os convidados eram, como em qualquer festa de família, desde crianças acompanhadas de seus pais, até a idosos bem-humorados que arriscavam um ou dois passinhos de dança ou ficavam sentados a maior parte do tempo nos sofás, cercados por amigos, enquanto contavam algum conto engraçado. Mesmo assim, a maioria se tratava de jovens adultos, pessoas de vinte a cinquenta anos.
Uma mesa com travessas com comidas e garrafas de bebidas fora posta ao lado da churrasqueira, para as pessoas se servirem. No meio da tarde todos já haviam almoçado, e antes haviam cantado parabéns para o aniversariante, que já se encontrava um pouco mais "alegre" do que o normal, mesmo que fosse difícil perceber o efeito da bebida nas suas ações já tão naturalmente animadas.
Masaki ainda estava sentado sob a sombra da árvore conversando com o vizinho de Paulo, quando alguns convidados começaram a se despedir. Katia estava dentro de casa, falando alguma coisa sobre cortinas com uma tal de Amélia, ex-colega e ex-namorada de Paulo da faculdade. Barbara estava conversando com Artur, que cortava um pedaço de carne sobre a tábua de corte, enquanto concordava com algo que ela dizia, um tanto distraído. Nick estava parado perto do pai, as costas apoiadas no tronco daquele grande limoeiro, apenas observando as pessoas, sem realmente focar nos seus rostos.
Um vento frio bateu contra o rosto do garoto, fazendo seu corpo se arrepiar e os galhos da árvore balançarem e algumas folhas planarem junto ao vento, libertas, num ato tão gracioso que prendeu toda a atenção do garoto. Mas foi só ele piscar que seus olhos se focaram em uma cena que se passava na mesma direção da dança das folhas. Um beijo. Um beijo delicado e rápido, mas cheio de sentimentos e significados.
Por mais estranho que pareça, seus olhares se encontraram, os azuis parecendo tristes enquanto os negros tremiam de perturbação.
O coração do menino se apertou e ele sentiu uma sensação tão devastadora percorrer o corpo e a mente que precisou sair dali. Precisou fugir.
Correu para dentro da casa sem olhar para trás, sentindo algo preso na garganta e uma dor no peito, a visão embaçar, apesar de toda a sua luta para não demonstrar fraqueza. O coração dançava num ritmo alucinado, um bailar desesperado e doentio. Fugiu dali não pela força da tristeza que sentiu pela cena — que, aliás, fora enorme —, mas por medo do que isso poderia significar, mesmo que não conseguisse dizer o que isso significaria, sentiu que era algo errado, e por vergonha correu para esconder.
Artur viu a pressa do menino em sair dali e por alguma razão se sentiu culpado. Aquela foi a primeira vez que o cunhado viu alguém beijar sua irmã, ele supôs, por isso o desconforto tão natural. Sentiu uma compaixão crescente pelo garoto, ao mesmo tempo que seu extinto paternal parecia se aflorar.
— Com licença, Barbara — disse em seu habitual tom rouco, sem olhá-la nos olhos.
— Onde você vai? — perguntou ela, segurando seu braço.
— Eu já volto — foi tudo que ela recebeu em resposta. Ele olhou para a mão que o segurava e a morena automaticamente o soltou.
— Tudo bem. Só não demores.
Artur atravessou o quintal e entrou dentro da casa. Viu Katia perto da escada e foi até ela.
— Oi, você viu o Nick? — perguntou.
A loira franziu o cenho.
— Ele não está com meu marido?
— Acho que ele deve ter entrado aqui para procurar a senhora — inventou, para não preocupa-la.
— Eu não o vi.
— Tudo bem, eu vou procura-lo.
— Eu vou consigo.
— Não, não precisa. Certamente ele está aqui dentro, deve ter ido pegar refrigerante na cozinha. Eu vou encontra-lo.
— O meu Nick não bebe refrigerante, mas talvez ele possa ter sentido sede e quis beber água. Dê uma olhada na cozinha, se não o encontrar fale comigo, que eu ajudarei a procurá-lo.
— Tá bom. Quando eu o encontrar eu avisarei, para a senhora não ficar preocupada.
Katia sorriu.
— Obrigada, meu anjo.
Artur se afastou e foi para a cozinha. Encontrou seu tio Paulo conversando com um amigo.
— Tio, você viu o irmão da minha namorada por aqui?
— Iiiii, tem tanta gente aqui... Como ele é?
Artur coçou a cabeça, sorrindo sem perceber.
— Baixo, magro, tem cabelo curto e bem pretinho... É bem branco, está usando uma blusa azul...
Paulo parou, pensou, e disse:
— Não, acho que não vi não, Arturzinho.
Artur suspirou.
— Ah, então...
— Eu vi — falou Ricardo, amigo de Paulo. — Ele acabou de passar pela gente, não lembra? — indagou ao aniversariante. — Estava todo assustado, sei lá eu porquê. Parecia que tinha acabado de ver Michael Jordan só de cueca dançando Lady Gaga no quintal.
A expressão de Paulo se acendeu.
— Ah, é. Agora eu lembro do guri, passou que nem um furacão, por isso que eu nem reparei em como ele é, só deu para ver as faíscas no chão — brincou, rindo da própria piada. — Mas o que você quer tanto com o figura? Por acaso ele está a dever-te dinheiro?
Artur riu.
— Não, é coisa minha. Mas para onde ele foi?
— Acho que ele foi para o quintal dos fundos — disse Ricardo.
— Deve ter ido brincar com o Gambá — completou Paulo.
— Entendi. Obrigado. — E saiu da cozinha.
Ao voltar para a sala, reparou que a porta que dava para o quintal dos fundos estava aberta. Passou por ela e sorriu pela cena que viu. Nick estava agachado em frente ao enorme Pastor Alemão preto de Paulo — preso por uma grossa corrente —, que balançava a longa cauda enquanto cheirava o pescoço do garoto, fazendo-lhe cosquinhas. Os sons das risadas do menino provocaram arrepios pelo corpo do mais velho, que apenas achou engraçado.
Aproximou-se sem ser percebido, até que não se conteve e comentou:
— Acho que ele gostou de você.
Nick deu um pulo e caiu para trás, sentado, ao ouvir o som da voz do moreno. Olhou para trás automaticamente, os olhos arregalados de surpresa.
"É estranho como eu sempre pareço assusta-lo." Artur pensou com seus botões, um tanto melancólico com a conclusão.
Toda a felicidade se esvaiu do rosto do pequeno, tornando a sua fisionomia dura e seca. Com cuidado se levantou e tirou a sujeira da calça.
— O nome dele é Gambá. — Artur continuou a tentar puxar assunto, apesar de estar embaraçado por sempre ser ignorado sua determinação não diminuía nem um pouco. — Foi meu tio que deu esse nome, porque quando ele o encontrou na rua ele estava todo sujo e fedia como um gambá. — Sorriu com a lembrança. — Ele tem onze anos, cinco a menos que você. Nem parece né? Digo, ele parece ser bem novinho... — Esperou receber alguma resposta, ou pelo menos um sinal que provasse que o outro estava entendendo, mas Nick nem parecia estar escutando. — Você gosta de cachorros?
Nick virou-se e encarou-o por alguns instantes. Parecia aborrecido com alguma coisa, mas aos poucos sua expressão se suavizou, até que parece disposto a conversar. Abriu a boca para dizer algo, mas neste instante Barbara aparece dizendo:
— Ai amor, o que você está fazendo aqui? — Estava com as mãos nas cinturas e parecia chateada.
Nick encara a irmã e depois o seu namorado, respira fundo e sai, passando pelos dois sem se despedir.
Artur fica algum tempo encarando o nada, até que começa a rir.
— Qual é a piada? — pergunta Barbara, ainda mais irritada.
— É que o seu irmão...
— Eu sei que o meu irmão é uma piada, mas o que ele fez dessa vez? — interrompeu-o.
O moreno parou de sorrir e sua expressão se fechou.
— Não gosto quando você fala do seu irmão desse jeito — respondeu, sério.
A morena estranhou.
— Desse jeito como?
— Zombando dele. Não gosto de te ver debochada, não combina com você. Você é uma garota tão inteligente, mas quando faz isso não parece nem um pouco.
— Nossa, Artur! Eu só estou brincando! — disse alterada e ofendida. — Não posso mais brincar, é?
— Barbara, você sabe muito bem que só é brincadeira quando há graça.
— Você vai mesmo brigar comigo por causa disso? O que foi? Você não me ama mais, é? Por isso está inventando desculpa para brigar comigo? — perguntou chorosa, falando mais baixo, um tanto dramática.
Artur balançou a cabeça.
— Claro que não... — Sorriu fraco. — Eu te adoro, e é por te adorar tanto que eu não te quero ver agindo mal. Se eu não te adorasse eu nem me iria importar, não concorda?
— Tudo bem, mas promete que não vamos mais brigar por besteira, principalmente por causa do meu irmão? Eu não quero-te ver bravo comigo.
— É só você se comportar — respondeu e em seguida beijou-a.
— Então está combinado — disse quando se separam.
Artur sorri.
— Combinado.
****
— Porque mesmo sua mãe não pôde vir? — perguntou Katia, segurando uma mecha de cabelo entre os dedos e trazendo para perto do nariz, para verificar se cheirava a fumaça. Infelizmente, sim. — Eu queria tanto conhecê-la! — completou com sinceridade, lamentando.
Artur suspirou, uma melancolia profunda o dominando. Lembrar-se da matriarca às vezes o fazia sentir um vazio enorme dentro do peito, como um grande abismo que se abre aos seus pés. Apesar de todo o seu orgulho por tê-la como mãe, saber que é incapaz de ajuda-la e só pode observa-la afundar no próprio sofrimento sem conseguir fazer nada para mudá-la é agonizante demais. Afinal, Cintia, sua mãe, é como se fosse uma parte dele, por isso sua dor também faz-se sentir nele, só que duas vezes mais forte, porque ele sente por ela e por ele.
— Minha mãe não é de sair muito. — Foi simples na resposta, sem querer revelar muito. — Além disso, ela está de plantão hoje.
— No sábado? — Katia indagou genuinamente abismada, parecendo esquecer-se das várias vezes em que trancou-se em seu escritório durante dezenas de sábados e domingos ao longo dos anos para trabalhar em seus casos como advogada.
— Eles não a liberaram. Fazer o quê? — Deu de ombros. — Deixa para vocês se conhecerem numa próxima oportunidade.
— Oportunidades é que não vão faltar, eu espero — Barbara comentou alegremente. — Você vai adora-la, mãe, Cintia é um doce. Ela me adorou, não foi Artur?
O moreno sorriu meio embargado, se lembrando da declaração da mãe após a partida de Barbara no dia em que as duas se conheceram: "Cheira como rosas e possui espinhos iguais a elas. Cuidado, meu filho, para não se furar". No dia Artur se convenceu que fosse apenas implicância de sogra com a nova nora e que logo Cintia cederia ao charme irresistível de Barbara, mas o tempo passou e isso não aconteceu. No fundo, mesmo sem querer admitir, o moreno sempre soube que a mãe jamais seria a favor deste namoro. Porém, como estão apenas no começo do relacionamento, a opinião da família não possui muita relevância, apesar de que ainda assim parte do moreno tema que no futuro isso possa fragilizar a relação. Mas por ora, iria apenas aproveitar o momento.
— Ela te comparou a rosas — respondeu o moreno, sem deixar de dizer uma verdade, omitindo apenas a parte que não lhe convinha naquele momento.
Barbara pareceu encantada.
— Jura? Que amor! Eu achando que ela iria pensar mal de mim porque eu me neguei a comer aquela comida que ela fez com tanto carinho para mim, e ela compara-me a rosas! Mas é que, convenhamos, feijoada às oito horas da noite é só por Deus, né? Nem com muito suco isso desce! Não estou dizendo que a comida da sua mãe é ruim, é que feijoada é pesada demais para um estômago delicado que nem o meu. Nem ele, nem minha dieta aguentam feijoada em dia da semana! Digo, sinceramente, acho que em dia algum, né? Se eu estou economizando até na salada, imagina esse monte de calorias que ficam escondidinhas dentro de uma feijo... — dizia com cara de nojo.
— Já entendemos Barbara — cortou Katia.
Artur riu fraco.
— Minha mãe não liga para essas coisas. Para ela, comida boa é comida gorda, com sustância. — Deu de ombros. — Eu já falei para ela que faz mal, mas ela gosta. Só Deus sabe como aquela ali é teimosa...
Os três estavam em pé perto da caixa de som, que tocava uma música razoavelmente baixa e calma. Passava das sete da noite e muita gente já havia ido embora, a maioria pais com crianças pequenas. Mas a maioria dos convidados continuavam a festejar, muitos dançando em pares em ritmo lento.
— E sua irmã? — perguntou a Katia. — Como é mesmo o nome dela?
Barbara torceu o nariz ao lembrar-se do pequeno monstrinho de olhos azuis de cinco anos de idade que ficou a tarde inteira tentando arrancar a sua bota e pular em suas costas, enquanto a xingava de Grinch, uma criatura verde e mesquinha que odeia o espírito de Natal, o personagem principal do filme "How the Grinch Stole Christmas", no dia em que saíram os três num passeio pela pracinha próxima a casa da mãe do Artur. Definitivamente não havia gostado da pequena, e aparentemente o sentimento era recíproco.
O sorriso que se abriu no rosto do moreno ao ouvir a irmã sendo citada foi tão grande, que por um momento Barbara sentiu uma pontada de ciúmes. Cruzou os braços e tentou disfarçar o bico que se quis formar nos lábios.
— A Rafinha? Bom, a Rafaela está viajando. Foi passar as férias na casa do pai dela, no Mato Grosso. Ele tem uma fazenda lá. A essa hora, ela deve estar montada num cavalo, ou pegando manga do pé. — Riu ao imaginar.
— Montada num cavalo? — A voz de Katia saiu trêmula. Sempre odiou animais, preferindo os humanos.
— Parece divertido! — Barbara se intrometeu. — É selvagem. Gosto de coisas selvagens — disse num tom malicioso, sem vergonha aparente.
Artur a ignorou e mudou de assunto. Os três continuam a conversar por vários minutos sobre os mais diversos assuntos até que a tia de Artur, Susana, os interrompou, parecendo muito animada.
— Meninas, posso rouba-lo alguns minutinhos de vocês? — questiona sem esperar resposta. Encara o moreno com um olhar penetrante. — Querido, você prometeu. Toca uma daquelas pro seu tio no violino, do jeito que ele está é capaz de até chorar, coitado. Vem, o violino está na sala. A gente faz uma roda no quintal, você no centro, e aí você faz a homenagem. Vai ser super legal.
— Agora? Tem certeza? — disse meio hesitante.
— Claro que tenho certeza menino! Mas que pergunta mais besta! —falou impaciente, já o puxando pelo braço.
Não demorou muito e de repente todos os convidados se deslocaram para o quintal. O som foi desligado e um silêncio estranho dominou o ambiente. Artur sentou-se em uma cadeira e pegou o violino e o arco de madeira. Assim que suas mãos são ocupadas pelo instrumento todo o seu corpo se transformou, sua postura fica rígida e sua expressão concentrada. De repente, não é mais Artur, o jovem rapaz de vinte e seis anos, e sim, Artur, o dedicado amante de música clássica e apaixonado pelo que faz.
— Antes de começar, eu queria dizer uma coisa — diz alto, depois de afinar o violino, para que todos pudessem escutar. Paulo é sutilmente empurrado para fora da pequena "multidão", ficando mais próximo do sobrinho, ambos já um pouco emocionados. — Eu não sei se eu já te disse isso antes, mas se já disse, volto a dizer, porque é algo que não pode jamais ser esquecido. Obrigado, tio. Sou eternamente grato por tudo que o senhor me ensinou, principalmente pelos caminhos errados que evitou que eu pudesse vir a percorrer. Saber escolher foi o melhor dos seus ensinamentos. Sem você eu não seria essa pessoa que hoje eu me tornei. Sei que posso falar por todos aqui quando digo que você é incrível, tem toda essa fachada de durão, mas é um grande coração mole, apaixonado pela família e amigos. Estamos muito felizes por cada um dos seus anos aqui na Terra, e esperamos que possamos passar muitos outros ao seu lado. Essa é pra você Tiozão. Feliz aniversário!
Assim que terminou posicionou o violino e começou a tocar.
Foi como ver uma linda águia ganhar voo. Toda a sua magnitude, todo o seu esplendor expostos. O som saiu sem nenhuma dificuldade do instrumento, ganhando todo o espaço e iluminando os rostos dos ouvintes. Artur nem parecia pensar, apenas tocava, como se o próprio violino fosse uma extensão do seu corpo. Fácil como respirar. Natural.
Nick estava sentado no sofá, na sala, sozinho, brincando com os dedos das mãos quando parou, reconhecendo uma das suas músicas preferidas de Bach sendo tocadas com tamanha maestria. Mas estava diferente, diferente porque não vinha do computador ou de um celular, nem de um dos seus CDs. Era ao vivo, e perto, pelo que percebeu.
Foi se dando conta que estava sozinho aos poucos. Levantou-se, movido pela curiosidade, e saiu para o quintal. Estava de noite, mas o clima estava bom. Todos estavam no quintal, cercando algo, provavelmente aquilo que produzia aquele som tão bonito, apesar do menino não conseguir ver o que é.
Nick fechou os olhos e se permitiu desfrutar daquela música deliciosa. Sentiu o corpo relaxar, e sem perceber, começou a andar em direção a musica, lentamente, um passo de cada vez. Os convidados deram espaço para que ele passasse, alguns achando graça no jeito do garoto, mas sem fazer nenhuma objeção. Quando Nick reabriu os olhos estava perto o suficiente para ver Artur tocando com delicadeza seu violino.
Por um momento, ele sentiu simpatia por aquele sujeito, mas foi só um momento, que durou o tempo de Artur mirar alguém entre todas as pessoas — uma baixinha de cabelos curtos e língua afiada — e sorrir. Um sorriso rápido que logo foi encoberto pela sua fisionomia concentrada, mas que mesmo assim não fugiu aos olhos do garoto, que enxergou aquilo como uma afronta ao Bach, um deboche ao seu trabalho. “Tudo bem. Ele sabe tocar, mas toca para ficar flertando com a minha irmã!” Nick pensa enfurecido, fechando as mãos em punhos.
A música acabou e todo mundo aplaudiu.
Artur se levanta e agradece, um tanto tímido em meio aos aplausos e gritinhos empolgados de algumas garotas, e até senhoras.
— Ele toca bem. — Nick se assusta ao ouvir a voz da sua mãe próxima ao seu ouvido. Olha para trás e a vê.
— Mãe — murmurou, num tom quase inaudível.
— Eu vi que você ficou olhando ele tocar. Sabe, não era você quem queria aprender a tocar violino? O Artur é professor, ele podia-te ensinar. O que você acha?
Nick queria dizer não, na verdade ele queria era gritar mil vezes que não, que preferia comer olho de macaco a ter que ficar perto daquele cidadão, mas ao invés disse tudo que ele conseguiu foi balbuciar um "Eu..." engasgado.
Katia sorriu.
— Eu sei que você vai gostar. Vou combinar com ele. — Ela sorriu e afastou-se.
Desespero? Raiva? Não, talvez a palavra certa para descrever o que ele sentiu seja desesperança. Falta de esperança em si mesmo e na própria sorte. Até porque, nada na sua vida parecia dar certo.
Sua única esperança agora era que o pai não concordasse com aquilo. Certamente ele não concordaria.
********
Estava errado. Mais uma prova da sua total falta de sorte. Seu pai não apenas aceitou como também insistiu em pagar pelas aulas de violino, mas Artur se negou a aceitar o dinheiro, dizendo que seu pagamento seria ter uma desculpa perfeita para poder ir ver Barbara em sua casa sem parecer inconveniente. No fim, acabaram chegando num acordo de que fosse cobrado apenas a metade do valor normal pelas aulas.
— Começamos na terça, então, sem ser esta a próxima, porque minha agenda estará apertada nesta semana que se aproxima, mas na seguinte estarei com mais tempo livre. Eu costumo dar de duas a três aulas por semana para cada aluno, assim dá tempo de treinar o que se aprendeu. Já que o Nick estuda de manhã, as aulas podem ser de tarde, ou de noitinha se preferirem, eu só preciso olhar meus horários livres e encaixar. Fazemos assim, amanhã eu ligo para a Barbara dizendo os dias e horários que eu tenho vagos e você me diz se bate com os horários que ele pode disponibilizar. No começo eu posso emprestar um violino para ele, mas seria bom se ele tivesse o dele, porque com o tempo ele vai acabar se apegando ao instrumento e até criará um vínculo emocional com ele. É o que normalmente acontece. Também é importante ele ter um para poder estudar, sem ter que ficar dependente do meu.
— Perfeito, esperarei a sua ligação — concordou Katia.
— Fico muito contente que o Nick tenha demonstrado interesse por música, esse contato com a arte faz muito bem para os jovens, digo por experiência própria, quando eu comecei era um pouco mais novo que ele.
Estavam na calçada em frente à casa de Paulo, se despedindo.
— É, música é um ótimo passatempo — comentou Masaki, um tanto sádico.
Artur rebate:
— Mas para mim música é mais que um passatempo, senhor Masaki. A música é a minha vida, o meu alimento, aquilo que me move e que me faz respirar.
Masaki sorri.
— Você tem alma de artista, meu jovem. Eu sou apenas um advogado arrogante. Não dê tanta importância para o que eu digo, as palavras guardam armadilhas, eu sei bem, trabalho com elas.
— A música é a sua vida? Aquilo que te move? Oras, pensei que essa era eu! — Barbara brinca, cruzando os braços, afim de melhorar o clima do ambiente. — Então case-se com a música, ué, se gostas tanto desta rapariga!
Todos riram.
— Seria uma disputa desleal, a música não tem seus belos olhos — disse Paulo, sedutor.
Barbara sorri.
— Viu Artur, seu tio sabe como tratar uma dama, vê se aprende com ele! — Bate de leve no ombro do namorado, implicando. — Obrigado. Você é um cavalheiro, Paulo.
— Não me agradeça por dizer a verdade.
Katia cruzou os braços, a brisa fazendo os pelinhos descobertos dos seus braços se arrepiarem.
— Acho que já está ficando tarde, é melhor irmos logo — declara ao marido.
Passava das oito e meia da noite e quase todos já haviam ido embora.
Masaki concorda.
— É verdade, já passou da nossa hora. Foi um dia diferente. Obrigado por nos receber em sua casa e pela gentileza. Acabou sendo muito divertido, mas agora temos que ir.
— Tem a certeza que não querem dormir aqui? — Paulo sugere. — Tem lugar.
— Não, obrigado — Katia recusou. — Temos mesmo que ir, amanhã acordamos cedo para irmos à missa.
— Já estão indo? — Susana surge pelo portão.
— Já — Barbara respondeu, caminhado até ela e a abraçando. — Foi um prazer.
— O prazer foi todo meu, querida. Espero vê-la mais vezes. — Se separaram. — Leve-a há minha casa um dia destes, Arturzinho, eu preparo um bolinho.
— Vou levar.
Todos se despediram entre si e os Young entram no carro.
— Obrigado pelo relógio. É lindo! — Paulo agradece pela milésima vez, olhando pela janela.
— Que bom que gostou. Escolhi com carinho — Katia diz. — Tchau, até à próxima.
— Voltem quando quiserem. Serão sempre bem-vindos.
Masaki dá partida e arranca com o carro. Artur, Paulo e Susana acenam até que o Mercedes vira a esquina.
— E então...? — Paulo olha o sobrinho.
— Então o quê? — o moreno diz com o cenho franzido, sem entender.
— Você e a Barbara? É sério isso ou estão apenas brincando de namorar?
Susana ri da expressão do sobrinho e da franqueza do irmão mais velho. Dá uns tapinhas camaradas nas costas do mais novo e entra para dentro, deixando-os sozinhos.
— Eu gosto dela, tio. — Fita o mais velho com seriedade.
— Eu também gosto da minha dentista, mas nem por isso significava que vou casar com ela.
Artur se sente desconfortável.
— Quem disse que eu vou-me casar com ela?
— Não vai?
O mais novo suspira.
— Isso é só um namoro, não um contrato de compromisso. Estamos apenas nos conhecendo. Ainda é cedo para afirmar qualquer coisa. Tudo que eu sei é que eu me sinto bem estando perto dela.
— Quem não se sentiria? A pequena tem um charme e tanto! – O sotaque em sua voz fazia Artur pensar em Porto Alegre, a cidade onde seu pai e tio nasceram.
Artur sorriu orgulhoso.
— Tio, se eu não soubesse que você é gay, ficaria preocupado com toda essa admiração para com a beleza da minha namorada — comenta debochado.
— Sou gay, não cego — retruca, brincalhão.
Trocam um olhar de cumplicidade, resultado de anos de uma amizade sincera e desinteressada, mil palavras sendo segredadas no silêncio daquela noite sem estrelas. Artur sentiu aquela sensação boa de segurança esquentar o sangue. Paulo era como um pai, desde o acidente do pai biológico, tudo que o mais velho fez foi ajuda-lo. Palavra nenhuma seria suficiente para agradece-lhe. Sua gratidão seria eterna, como uma chama que nunca se apaga.
Paulo estica a mão e bagunça os cabelos do sobrinho, e em seguida entraram, fazendo companhia ao restante dos convidados.
*.*.*.*
A semana seguinte, a última semana de julho, portando fim das férias, passou sombria, acompanhada de dias frios, noites chuvosas e olhares angustiados vindo de todas as direções. Pouco se falou durante aqueles dias, pois à mesa apenas o mais importante era comentado. Diálogos sobre o clima, música, esporte, estavam fora de cogitação. Era quase um luto coletivo.
Havia sido uma semana difícil para os Young, principalmente para o casal de advogados, que ainda digeriam o acontecido. A notícia foi parar nos jornais impressos e toda a vizinhança já ficara sabendo. Seu último caso, o maior que seu escritório conseguiu naquele ano, terminara com resultado negativo. No entanto, perder no julgamento não foi o pior, o pior foi saber que seu cliente, um cirurgião plástico rico da zona sul, muito conhecido e prestigiado, não apenas mentiu sobre o fato de ser culpado pelo crime de assassinato a uma criança, filha da irmã do cirurgião, como também fugiu após o julgamento, depois de ter sido condenado a trinta anos em regime fechado. A pequena fortuna que o mesmo deixou sem ser paga ao escritório de advocacia não era nada, o que machucava mesmo era saber que haviam lutado na defesa de um monstro. Katia não acreditou quando as provas do crime foram expostas, de forma clara e objetiva, pela advogada da mãe da menina. Ficou tão chocada, que se não fosse uma profissional, teria perdido as estribeiras.
Nick não ficou a par dos acontecimentos, pois os pais acharam por bem preserva-lo, mas não demorou muito para perceber que algo estava errado, absorvendo a tensão que pairava em cada cômodo da mansão. Naquela semana ouvir o tom suave da sua voz ecoando tornou-se uma missão quase impossível.
Fez suas aulas com o professor particular, foi à natação, à academia, psicóloga, seguindo sua rotina com obediência, até porque também não queria aborrecer mais os pais. Barbara também se comportou naquela semana, sendo mais educada e gentil. Quando o final de semana chegou, saíram em família para um jantar em um restaurante cuja comida sempre lhes agradou. Pareciam uma família feliz para quem os visse, mas no fundo cada um estava ali apenas por conveniência, não porque realmente queriam estar.
Segunda chegou nublada. Nick foi para a escola, depois para a natação; Barbara foi para faculdade e seus pais para o escritório, aparentemente já recuperados dos últimos fatos nebulosos, afinal, a vida não podia parar. O dia passou sem complicações, até que terça chegou. A família acordou cedo, tomaram café juntos e em seguida saíram cada um para uma direção, Barbara tendo que passar na casa de uma amiga antes de ir assistir à aula na faculdade, Katia indo para o escritório, Masaki tendo um compromisso no centro da cidade e Nick a caminho do colégio, acompanhado de Sebastian.
O garoto assistiu às aulas em silêncio, prestando muita atenção em tudo que os professores diziam, não querendo perder nada, apesar da bagunça dos restantes alunos. Mesmo que às vezes ficasse com dúvidas em algum ponto da matéria, nada dizia, tímido como sempre.
Estava no segundo ano do ensino médio, não possuía nenhuma amizade e tudo o que fazia para se entreter, quando não estava copiando, lendo, respondendo questões ou ouvindo o professor, era observar, de modo discreto, seus colegas de classe. É incrível como adolescentes conseguem ser extraordinariamente surpreendentes e imprevisíveis. Quando Nick pensa na palavra adolescente, pensa não se incluindo como um. Estranhamente, não se sentia a vontade se imaginando igual ao restante dos alunos. Talvez estivesse tão acostumado em ser tratado como diferente, que acabou aceitando.
Na hora em que o sinal do intervalo bateu, se levantou, colocou as mãos nos bolsos da blusa de frio, e começou a caminhar para a saída. Percorreu o corredor, em seguida desceu as escadas que davam para o pátio. Andou até um grande palco, onde antigamente eram apresentadas as peças de teatro, pois perto havia lugares para se sentar, e ocupou um deles.
Passou o intervalo todo quieto, vendo a movimentação, até o fim do intervalo. Levantou-se e refez o caminho, de volta para a sala. Estava prestes a entrar quando alguém cruza seu caminho, o impedindo, ficando bem no meio da entrada.
— Onde você pensa que vai, esquisito? — diz o garoto, com certo desprezo misturado ao tom grave.
Nick recordou a voz.
Marc Willian, um loiro antipático, metido a engraçado, que adora implicar com os outros e se meter em brigas. Para ele, não existe nada mais engraçado do que caçoar dos — como ele mesmo apelidou — "fracassados" do colégio.
O moreno não respondu, por isso o loiro insistiu.
— Que foi? Além de retardado é mudo?
O coração de Nick acelerou. Alguns alunos pararam no meio do corredor para ver o que estava acontecendo. Marc cruzou os braços e deu um sorriso sacana, gostando da atenção.
— Não está-me escutando, idiota? — prosseguiu.
O mais novo fita o chão com os olhinhos apertados, sofrendo, enquanto encolhe os ombros.
— O único idiota que tem aqui é você! — alguém acusa, raivosamente. Uma voz feminina, alta e clara.
Pegos de surpresas, os dois garotos olham na direção da voz.
Foi quando Nick a viu. Talvez já a tivesse visto antes, mas aquela foi a primeira vez que realmente reparou. Era uma garota baixa, magra, de pele morena, cabelos escuros, compridos e ondulados, que iam até a sua cintura, alinhados com um arquinho branco, bem simples. Seu rosto era fino, os olhos de um castanho claríssimo, grandes e expressivos, com cílios enormes que só os embelezavam ainda mais. A boca estava decorada com um gloss brilhante, as sobrancelhas muito bem aparadas, as orelhas possuíam brincos grandes e chamativos, o nariz era redondinho e arrebitado, e as bochechas magras. Possuía um corpo com curvas generosas, que chamavam atenção, apesar do largo uniforme.
— Jessica? O que você quer? — Marc questionou, se engasgando com as palavras.
— Depois você ainda pergunta porquê eu vivo terminando com você? Como você pode ser tão imbecil,Wil? — Seu rosto era puro ódio. — Eu viro as costas um segundo e quando volto você está agindo como um verdadeiro boçal! Eu não sei por que ainda te dou trela! Você é um ridículo, humilhando esse pobre menino. — Olha para Nick, que desvia o olhar. — O que ele te fez, Wil? — começou a dizer sem parar, ficando vermelha de tanta indignação.
— Jess, eu só estou brincando. — Caminhou até ela, falando mais baixo, desta vez detestando toda aquela atenção por parte dos outros alunos — É só uma brincadeira — explica-se.
A menina respira fundo.
— Francamente, Wil! Francamente! Você deveria ter vergonha! — Saiu, a cara amarrada numa careta de raiva, indo para a própria sala. Marc bufa e a segue, se desculpando pelo caminho.
Nick suspira aliviado e entra para a sala, meio embaraçado, ignorando todos os olhares sobre si.
Após assistir as restantes aulas foi para casa. Tomou banho, se trocou, almoçou e foi para a sala de estar, onde se sentou sobre o tapete e começou a olhar o relógio.
Uma hora se passou, até que finalmente chega o momento. Levantou-se e foi até a janela. Dois minutos depois o ônibus escolar passa, deixando o pequeno Lucas em sua casa. Nick sorriu, satisfeito, mas seu sorriso se desmancha quando vê uma movimentação em frente a sua casa.
Ouviu a campainha, em seguida a empregada vai abrir o portão, o abre, Artur entra pelo portão, cumprimenta a empregada e em lança um olhar direto para a janela. Nick se afasta, escondendo-se rapidamente, temendo ser pego espiando, o coração pulsando agitado.
Não demorou muito até que empregada e visita aparecerem.
— Qualquer coisa, é só chamar — diz Elisa, antes de se afastar, indo terminar suas obrigações.
— Certo — o moreno respondeu, parecendo alegre, como sempre.
Nick está em pé ao lado do sofá, paralisado, os dedos das mãos entrelaçados com bastante força uns nos outros, ao que fita um canto qualquer do lugar, repentinamente mais atento do que o normal aos sons do ambiente. Artur o olha por um instante, se aproximando.
— Boa tarde, Nick — cumprimenta num tom casual. Em seguida, colocou seu material de trabalho em cima do sofá. — Espero que essa seja uma boa hora para você, pois foi a única que eu consegui disponibilizar. — Coçou os olhos, bocejando. A tarde estava apenas começando e já se sentia exausto de tantas aulas que já havia dado durante a manhã. — E então? Vamos começar? Sua mãe me disse que comprou um violino para você. O que acha de me o mostrar?
O garoto olhou o maior nos olhos de relance, suspirou, e então seguiu para as escadas. Foi ao quarto, pegou o violino e o arco e desceu. Quando está de volta à sala, Artur começa a aula.
— Muito bem, então vamos começar. Senta-te, por favor, finje que estás em tua casa — brinca. Nick se senta e Artur também, só que no sofá da frente. — Nas próximas aulas, eu vou trazer uma pequena lousa para passar as explicações, e por isso seria bom que você tivesse um caderno para fazer anotações. Mas essa aula vou apenas falar. Antes de começar a te ensinar sobre postura, os movimentos básicos e começar a falar sobre as notas musicais, você precisará conhecer primeiro o que constitui o instrumento e a sua história. Para mim não adianta nada tocar bem, se você não sabe o que está tocando, e não digo de saber o nome do instrumento, digo de saber a origem, o passado e de conhecer qual é a sua história e força cultural que este carrega. Para saber tocar, não é preciso obrigatoriamente gostar de música. Mas para saber tocar com a alma e com verdade, é. Por isso você terá que ouvir bastante música, isso treinará o seu ouvido e irá apura-lo. Sua mãe me disse que você é fã de música clássica... Isso é bom. Mas um músico de verdade não se limita a apenas um tipo de música, devemos estar abertos a todos os ritmos, sabendo absorver o melhor de cada um. — Nick ouvia tudo com muita atenção, apesar de não olhar na direção do outro, o que fazia Artur sentir dúvida se este estava realmente o ouvindo. — As pessoas pensam que violino é um instrumento ultrapassado e brega, exclusividade da classe alta, que não tem nada a ver com o restante da população mais pobre. Clássico demais para o gosto da maioria dos admiradores de música. Mas não é verdade. Nas mãos certas, o violino pode ser precursor de lindas e modernas canções, músicas populares que agradam a todos os gostos. — Ele parou por alguns segundos. — A palavra violino vem do latim médio, vitula, que significa instrumento de cordas. Sua origem vem de instrumentos trazidos do Oriente Médio e do Império Bizantino. Os primeiros violinos foram feitos na Itália, entre os meados do fim do século XVI e o início do século XVII, evoluindo de antecessores como a rebec , a vielle e a lyra da braccio. A sua criação é atribuída ao italiano Gasparo de Salò — continuou a dizer, cada palavra saindo com estrema facilidade e naturalidade.
A aula durou duas horas. Artur falou sobre a história do violino, explicou detalhadamente sobre cada parte que o constituía, contou sobre os cuidados que Nick deveria ter, enfatizando também que a impaciência é uma péssima amiga. Falou sobre músicos conhecidos, citando seus preferidos, listou alguns que ele deveria escutar — Nick percebeu feliz que já conhecia a maioria —, contou sobre o jeito certo de executar os movimentos, como a posição correta, posição do violino no corpo, como usar a mão esquerda e como pegar o arco e finalizou explicando-lhe um pouco sobre partituras.
— Acho que foi uma aula proveitosa. Deu para falar tudo que eu queria — Artur disse, aparentemente surpreso.
Normalmente, os alunos demonstravam tanta curiosidade e empolgação que faziam muitas perguntas, ansiosos para aprenderem tudo de uma só vez, muitas vezes atrapalhando o rumo das aulas. Foi uma sensação diferente ser o único a falar, fazia-o sentir como se estivesse ensinando música a uma estátua de cera.
— Bom, eu tenho que ir agora. Terei outra aula daqui meia hora. Como não dá para confiar no trafego de São Paulo, é melhor eu correr. — levantou-se. — A nossa próxima aula é quinta, certo? – perguntou, olhando o relógio no pulso. O garoto não responde. — Não sei se eu vou vê-lo antes disso, então até quinta, Nick. — Abre um dos seus incríveis sorrisos no mesmo momento em que o garoto o fita. Artur repara no modo como a pele do outro é iluminada pela luz que entra pela janela, seus olhos parecendo ainda mais brilhantes e intensos. Pisca meio que atordoado, pega seu pertences no sofá e começa a se afastar. — Tchau — diz antes de sair pela porta.
Os ombros do pequeno caiem, relaxados. Toda a tensão se esvaindo do seu corpo. Ficou alguns minutos parado, apreciando o silêncio.
“Como é possível alguém falar tanto sem ficar ofegante?” Era a pergunta que fazia a si mesmo. Artur não é apenas um tagarela de mão cheia, quando se trata de falar, este tem doutorado no assunto. Nick massageou as têmporas. Nem na escola os professores conseguiam ser tão irritantes.
“Ele se acha, só porque sabe tocar.” — continua, amargurado, olhando o violino em suas mãos. — “Não é possível que seja tão difícil.” — diz uma voz em sua cabeça.
Segurou o violino contra o corpo, meio sem jeito, mas totalmente decido. Pega o arco e começa a fricciona-lo contra as cordas do instrumento, imitando os movimentos dos violinistas famosos que assistiu em vídeos pelo computador.
O som que ecoou soou tão auto e cortante que até o próprio menino se assustou, parando no ato. Foi como um grito de um animal morrendo, totalmente longe de parecer uma música.
Suspirou, pousando-o no sofá, a expressão dececionada.
De fato, não teria como fugir das aulas de violino. Teria que ser forte e aguentar a tagarelice do namorado da irmã. Pelo menos, se esforçaria ao máximo para aprender e assim acabar logo com essa tortura.
Nick suspirou, cansado, se levantando logo depois, e indo para o quarto se arrumar para ir para a academia.
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