Notas iniciais
A fic foi inspirada no filme White Frog, um longa americano que conta a história de um adolescente autista chamado Nick Young (Sim, o nome do personagem principal da minha fic é uma homenagem ao personagem do filme) que entra em crise depois da morte do irmão mais velho. Porém, o que tem me inspirado a escrever e a compor a atmosfera da história (desde o enredo até a composição dos personagens) tem sido um curta chamado "Eu Não Quero Voltar Sozinho" (disponível no Youtube), um curta-metragem que conta a história de Leonardo, um adolescente cego que se descobre apaixonado por um amigo de classe. Me baseio na delicadeza e sensibilidade deste curta para escrever. Não faz muito tempo descobri que transformaram o curta num longa chamado "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho". Eu ainda não assisti, mas pelo que eu vi esse filme tem tudo a ver com a minha fic, por isso faço questão de recomendá-lo. Quem puder, dê uma passadinha no cinema e confira essa obra prima do diretor Daniel Ribeiro, tenho certeza que não irá se arrepender. O filme estreia hoje, porém, não em todos os cinemas. Entre na página no facebook (https://www.facebook.com/hojeeuquerovoltarsozinho) que lá vocês encontrarão a lista dos cinemas. Este capítulo é dedicado ao diretor Daniel Ribeiro, ao elenco (principalmente aos atores Fabio, Ghi e a Tess) e a toda a produção deste filme incrível! Amo vocês! . OBS: Este é o primeiro capítulo da história que foi betado (e espero que não seja o último!). Minha beta (que também responde por anjo da guarda) se chama Luna, e ela foi uma querida comigo, então sejam com ela também! Muito obrigado Luna, nem tenho palavras para te agradecer. . Enfim, espero que gostem do capítulo. Boa leitura.

CAPÍTULO 3

Os dias de domingo eram os mais demorados e turbulentos. Ninguém parecia ligar, mas as mãos pálidas e pequenas tremiam sem controle, enquanto as lágrimas brigavam para escapar por aqueles olhos tão expressivos, mas o menino era forte e as segurava, provavelmente por vergonha de ser visto chorando, orgulho que herdara da mãe. "Não era certo fazer escândalos na igreja." — Katia lhe dizia frequentemente, como se ele pudesse escolher. Havia gente em todos os lados, que o fitavam com curiosidade e pena, mas ninguém parecia realmente enxerga-lo.

Aquela era uma igreja católica, tradicional e muito bem conservada. Seu estilo era Gótico, com paredes grossas, janelas largas, torres pontiagudas, iluminação especial e fachada detalhada e esculpida, copiando o estilo das famosas Catedrais de Notre-Dame e Barcelona.

Como em todos os domingos, a família Young acordava cedo e ia assistir a missa. Era rotineiro vê-los sentados perto do altar, com suas roupas sociais e expressões bondosas, compondo a família mais perfeita que qualquer um já teria visto.

Katia e Masaki teriam gostado de viver de aparências suas vidas todas. Era bom servir de bom exemplo para os conhecidos. Entretanto, existe uma grande diferença entre parecer e ser. Acontece que há muitos anos atrás a "Dona Realidade" lhes bateu a porta, e trouxe um embrulhe de presente para o casal, um embrulhe com nome e sentimento, que desmitificaria toda farsa tecida pelos dois. Por mais que eles tentassem evitar, aquele pequeno embrulho chamado filho seria a ruína de suas mentiras.

A missa já estava quase acabando quando os músicos começaram a cantar "Noites Traiçoeiras" e não demorou muito para que todos os acompanhassem. De repente, toda a igreja estava cantando e aquele clima de confraternização contagiava a todos. As vozes em coro eram como uma multidão cantando o hino de sua luta. Altas e entregues. Mas então, em meio às vozes apaixonadas dos fiéis, houve um grito. Um som tão alto e perturbador que foi suficiente para fazer grande parte do salão se silenciar. Era um grito de desespero, de quem sofre. O som se prendeu no ar por vários segundos, até que a pobre criança não tivesse mais forças para continuar.

Todos o olharam chocados, mas ele nem se deu conta disso, tudo que conseguia pensar era que seus ouvidos pareciam querer sangrar. Tapava as orelhas com as mãos delicadas, desesperado em busca do silêncio, os olhos húmidos liberavam lágrimas que escorriam sem permissão pelas bochechas coradas. Sua expressão não poderia ser mais perturbada. Ele nem parecia enxergar, como se tudo que pudesse sibilar fosse a dor que sentia.

Katia fechou os olhos por dois segundos. Não acreditava que aquilo estava acontecendo outra vez. De repente, não eram mais a família perfeita que todos invejavam, eram apenas... Eram apenas os coitados que tinham um filho autista.

Sons altos machucam os seus ouvidos, mas a dor que sentimos não é nada se comparada com a dor que uma pessoa autista sente quando ouve um som muito alto. Era quase como se fosse uma tortura.

Masaki se virou na direção do filho e tentou acalma-lo. Nick estava sentado, olhos arregalados e dilatados, respiração ofegante, mãos tampando as orelhas e se balançando para frente e para trás nervosamente, balbuciando palavras desconexas.

— Não acredito! De novo! — Barbara resmungou, cruzando os braços, como quem diz: "Não contem comigo!"

Katia foi até o filho, ignorando os olhares em sua direção e ajudou o marido a leva-lo para fora da igreja.

— Vocês precisam de alguma ajuda? — perguntou um conhecido pelo caminho.

— Não Jorge, muito obrigada — disse Katia, sorrindo constrangida.

O casal de advogados quase suspiraram quando chegaram do lado de fora da igreja, aliviados por não terem mais toda aquela atenção voltadas para eles.

Ficaram alguns minutos murmurando palavras de conforto para o menino, até que decidiram ir embora. Não adiantaria nada obrigar o garoto a assistir o final da missa naquele estado. Afinal, já receberam atenção demais por um dia.

Entraram no carro e voltaram os quatro para casa. Barbara resmungara qualquer coisa pelo caminho, sobre não ser obrigada a passar a vida toda submetida a pagar micos por causa do irmão, enquanto Nick sentia-se triste e patético.

*************

Quando criança, certa vez, Nick estava brincando no jardim de sua casa quando sem perceber um cãozinho se aproximou de si e tentou pegar sua bolinha, que era grande demais e não cabia em sua boca. Era um filhote de labrador, de poucos meses de idade, de um tom amarelado e olhos grandes e castanhos. Quando o menino o percebeu, tentando furtar um de seus brinquedos, não fez nada além de observá-lo. O cachorrinho parecera animado com a atenção e começou a balançar o rabo freneticamente, quase se rebolando todo ao fazê-lo, deixando a bolinha para trás e se aproximando do garotinho, interessado em fazer um novo amigo, mas Nick não viu nada demais no seu interesse e simplesmente se virou e continuou a brincar com seu carrinho, que na verdade era só a metade de um, porque ele havia brincado de oficina mais cedo e acabou quebrando-o ao desmontá-lo.

Entretanto, o cãozinho não desistiu e ainda mais decidido a conquistar um novo amiguinho, começou a mordiscar o seu tênis, desamarrando o seu cadarço, tentando chamar atenção. Nick o fitou frustrado, colocou o carrinho sobre a grama verde e pegou o cachorrinho no colo, caminhou até o portão, o abriu, colocou o filhote na calçada e o fitou por um instante, lançando-o um olhar que dizia "Agora vá embora". Em seguida, fechou o portão e voltou para o seu carrinho, se agachando no chão.

Alguns minutos depois, sentiu um peso em suas costas. Assustou-se quando constatou que era o cachorrinho outra vez, apoiando as patas dianteiras sujas em sua camisa branca. Irritado, se levantou, pegou o labrador e voltou a leva-lo para a calçada.

— Sho! — ordenou.

O filhote o fitou, sentado sobre as patas traseiras, inclinando a cabeça para o lado.

— Sho! — repetiu.

Então o labrador latiu, parecendo entender a expulsão como um convite para uma brincadeira. Se levantou e tentou passar por entre as pernas do garoto, mas Nick o pegou antes que ele conseguisse.

— Não! Vai embora!

Depositou o filhote na calçada e fechou o portão. Bufou. Mas que cãozinho abusado! Então sentiu um aperto no coração. Era só um filhote. O que aconteceria se ele fosse para a avenida e fosse atropelado? Não podia deixar isso acontecer.

Agoniado com a ideia, abriu o portão e procurou pelo labrador, mas não encontrou nada ali. Será que alguém o havia levado?

Suspirou com tristeza e então fechou o portão. Porém, quando se virou, lá estava ele, o pequeno cachorrinho, o encarando como quem diz: Então? Quando a brincadeira começa?

Nick sorriu e se agachou, começando a fazer carinho no filhote sem nome, que começou a se rebolar tamanha força balançava a cauda.

Ficaram brincando por vários minutos, até que Katia apareceu, parecendo muito surpresa e irritada. Nick estava com o filhote no colo e este lhe lambia o rosto, arrancando gargalhadas do garoto.

— Nick! O que você está fazendo com esse pulguento? Não vê que ele pode-te passar uma doença? Ponha já essa coisa no chão! — gritava, sem perceber que, pela primeira vez naquele ano, o filho rira.

— Ma-mas, mamãe...

— Sem mas nem meio mas! Vai logo! Põe esse animal no chão!

O cãozinho latiu, parecendo ofendido. Mesmo que a contragosto, Nick obedeceu, parecendo triste.

— Eu... posso ficar... com ele? — tirou coragem para perguntar.

— Não! Claro que não! Até parece que eu vou querer um fedorento como esse em minha casa! Você não pode ficar com ele. Primeiro, como foi que ele entrou? — ela olhava para o filhote como quem olha um monte de lixo.

— Não sei...

— Você deixou o portão aberto? — perguntou, desconfiada.

— Não.

— Então ele deve ter passado por debaixo do portão — concluiu. — Mas tudo bem, amanhã eu mesma resolvo isso. Agora, o mais importante, temos que sumir com esse animal.

— O quê?

— Vou leva-lo para o canil. Lá é que é o lugar dele.

— Mas...

— Não, Nick, não adianta insistir, você não pode ficar com ele.

— Por quê?

— Por quê? Você quer saber por quê? Bom, é simples. Porque... — nesse momento, a campainha tocou. Katia pareceu perdida por um momento. — Já terminamos esta conversa — disse ao filho. Caminhou até o portão e o abriu, melhorando a expressão ao ver uma garotinha de uns doze anos de idade. — Sim?

— Olá, boa tarde. Desculpe atrapalhar. Eu me chamo Sindy, e estou procurando o meu cachorro. Alguns vizinhos disseram que o viram entrando nessa casa... Eu queria saber se a senhora o viu. Ele é filhote, e de raça.

— Um cão sem coleira é como qualquer outro cão, querida — Katia disse, em um tom doce. — Mas sim, acho que posso te ajudar. Meu filho encontrou um cãozinho com essas mesmas características. Acho que pode ser o seu. Veja — saiu da frente para que a menina pudesse ver o filhote no chão. Naturalmente, o labrador reconheceu a dona e correu para pular em suas pernas.

— Bob! — ela o abraçou com força. Katia torceu o nariz. — Mas que susto que você me deu!

— Você teve sorte, porque se fosse outras pessoas que o tivessem encontrado ele poderia estar num canil a uma hora dessas — Katia disse, fingindo que aquilo não se estendia a ela também.

— Nem me lembre! Eu realmente fiquei muito preocupada. Nunca mais deixo ele fugir. Muito obrigado — Se levantou com o labrador no colo. — Muito obrigado mesmo.

— Não foi nada. É sempre bom ajudar.

Nick observou a dona do filhote leva-lo embora com um olhar triste, sentindo um aperto no peito, mas não disse nada, apenas se virou e entrou para dentro de casa, subindo para o quarto.

**************

Os dias seguintes se passaram preguiçosos, tragando o tempo como um velho sentado em sua varanda fumando um charuto, desapressado e descompromisso, focado apenas em aproveitar o momento. As noites eram frias e o silêncio acolhia o menino acordado em sua cama, como uma mãe acolhe o filho em seus braços, ninando-o para dormir, mas ele tampouco se incomodava, gostava do som do silêncio, apreciando como se fosse a mais bela das músicas.

Deitado com as costas sobre a cama, os olhos bem espertos fitando o teto, ele sonhava acordado. Não costumava perder o sono, porque sempre que a noite chegava se sentia tão exausto, como se tivesse carregado um peso enorme durante todo o dia, que não conseguia evitar desmaiar na cama. Mas naquela semana estava mais inquieto do que o normal, dando espaço para que a insônia o abraçasse com carinho, fazendo-o companhia. Não que ele apreciasse a companhia de terceiros, porém, daquela vez, abriria uma exceção.

Quando o sol nasceu havia dormido apenas duas horas e por isso olheiras enormes marcavam o belo rosto. Se arrumou e foi para a escola. Tentou se concentrar na aula de educação física, mas era atrapalhado e desprovido de muita coordenação motora, e por isso sempre o último a ser escolhido entre os times. Caiu algumas vezes e foi acertado várias outras pela bola, que parecia adorar seu rosto. Claro que a boa mira de alguns alunos ajudava nisso também.

Quando finalmente voltou para casa estava cansado e apesar de faminto, quase não comeu nada no almoço. Tomou banho, vestiu uma roupa confortável, fez a lição de casa e então foi para a sala, sentou-se sobre o tapete e começou a observar o relógio. Era sexta-feira. A mãe e o pai estavam no trabalho. Barbara provavelmente estudava para alguma prova da faculdade no quarto, deixando-o praticamente sozinho com exceção das empregadas espalhadas pela mansão, ocupadas demais para pensar em qualquer coisa que se não em seus serviços e obrigações.

Mais de uma hora se passou até que Nick escutou o som da campainha e muito antes que qualquer pensamento seu pudesse ser formado, a empregada já corria para abrir a porta.

O garoto nem se mexeu, apenas se acomodou melhor sobre as pernas — que já começavam a ficar dormentes — e voltou a se concentrar a encarar o relógio.

— Eu irei chama-la, aguarde um instante, por favor. Sente-se, fique à vontade — Nick ouviu a empregada dizer com educação, subindo as escadas logo em seguida.

Porém, só uma pequena parte de sua mente se preocupava com o que estava acontecendo naquela sala. Tinha a leve impressão de que não estava só, mas isso era tão irrelevante para ele que não quis nem se preocupar, focando-se apenas no relógio.

— O que está tentando fazer? Parar o tempo com o poder da mente? — perguntou uma voz curiosa, indagando sobre algo que nem Nick saberia responder.

Os olhos do garoto se arregalaram. Não era bom a recordar vozes, mas aquela lhe soou tão familiar que se assustou. Pela primeira vez desde que se sentara desviou o olhar do relógio e fitou Artur parado a um metro de distância de si, sorrindo, como se estivesse se divertindo. Nick não gostou de saber que o outro se divertia às suas custas.

Aquela fora a segunda vez que Nick fitava aquele rosto diretamente — e não só algumas partes —, mas na primeira vez estava escuro e o garoto estava assustado por ter sido surpreendido, então era como se estivesse vendo pela primeira vez.

Olhos grandes e doces, da cor do céu num dia de sol, cabelos curtos e negros, cortados num estilo moderno que ficava bem para o seu formato de rosto. A boca parecia um tufo de carne macia, de lábios rosados e dentes branquíssimos e perfeitos. A pele era branca como giz e decorada com duas ou três pintinhas pequenininhas, uma no nariz que as vezes parecia um piercing. O nariz era bonito e proporcional, e quando ele sorria duas covinhas apareciam nas bochechas, deixando-o ainda mais belo. Era um rosto jovem, envelhecido apenas pela rala barba que começava a nascer, mas que lhe dava um certo charme.

Nick desviou o olhar, baixando-o até o chão. A mão foi até o peito, agarrando levemente a camisa. Se perguntou porque o coração parecia dançar dentro de si. Aquilo era normal?

Artur observou o menino franzir a testa, parecendo preocupado com alguma coisa. Achou engraçado que uma pergunta tão boba tenha o deixado tão perturbado. Afinal, não é como se ele realmente estivesse tentando parar o tempo. Ou é?

— O tempo não vai parar só porque nós queremos... Ele passa com ou sem nós. Sugiro que você passe menos tempo correndo atrás dele e simplesmente aproveite cada segundo, essa é a única forma de parar o tempo: Torná-lo parte de nós, eternizarmos em nossas memórias — disse como quem comenta o clima, se esquecendo de guardar seus devaneios para si mesmo.

Nick pensou no que acabara de escutar com muita atenção. O que Artur queria dizer com "correr atrás" do tempo? Como isso é possível? Nick não é cachorro para correr atrás das coisas.

O garoto abriu a boca, talvez fosse dizer alguma coisa, mas neste momento um som chama sua atenção. Um som que vinha lá da rua. Olhou o relógio rapidamente, confirmando suas suspeitas. Se levanta apressado e corre até a janela, vendo Lucas — seu vizinho — na calçada com sua mãe, e mais adiante, virando a esquina, o ônibus que o deixara em casa momentos atrás.

Os olhos de Nick ficam húmidos e sua expressão entristeceu. Como conseguira ser tão tolo a ponto de se distrair? Passara tanto tempo esperando o ônibus passar, e quando aconteceu ele não estava lá para ver.

Artur observa Nick sem entende-lo, e ainda assim, em seus olhos azuis algo parecido com curiosidade e fascinação começava a nascer.

A primeira vez que ouvira falar seu nome foi em um passeio no parque com a namorada. Ele e Barbara já estavam juntos há algumas semanas quando de repente Artur percebeu que não sabia quase nada sobre a família dela. Então fez a pergunta:

— Amor, estou curioso, você tem irmãs ou irmãos?

Barbara ficou em silêncio por algum tempo, como se não tivesse escutado a pergunta, mas em seguida respondeu:

— Não — pausa. — E sim.

Continuaram andando de mãos dadas, sentindo o sol tocar-lhe a pele, numa carícia aconchegante e cúmplice.

— Quantos? — teve que insistir no assunto para conseguir mais respostas.

— Um — respondeu indiferente.

— Só?

— Você não diria isso se o conhecesse.

Artur pensou no que ela disse, tentando imaginar o significado daquelas palavras, imaginou-o como um rapaz encrenqueiro, que não vai a escola e briga com os pais.

— Qual o nome dele? — de repente sentiu uma necessidade absurda de saber.

— Ai amor, eu não quero ficar falando sobre o chato do meu irmão. Vamos mudar de assunto, por favor — pediu, manhosa.

Artur sorriu.

— Tudo bem — seu sorriso desapareceu —, mas é que você conhece toda a minha família e eu não sei nem o nome do seu irmão... Parece que você me está escondendo dos seus parentes. Você tem vergonha de mim é?

— Não! Claro que não! É que… É complicado! Falar do Nick é complicado para mim. Eu prefiro não falar sobre ele.

— Então o nome do seu irmão é Nick? — sorriu sem motivos.

— É, mas vamos mudar de assunto, por favor.

— Tá bom.

Naquela noite, deitado em sua cama, em seu pequeno apartamento, Artur ficou pensando sobre a conversa que teve com a namorada sobre o seu irmão e toda vez que o nome dele vinha em sua mente sentia algo esquisito no peito, que ao mesmo tempo o fazia sentir medo e interesse.

Nick era diferente, Artur soube disso no momento que o viu pela primeira vez. O que o fez perceber não era nada de anormal na sua aparência e sim algo no seu olhar. Artur nunca viu nada parecido com aqueles olhos carvão. Tão expressivos e sufocantes... Como dois buracos negros capazes de sugar todas as forças de quem os olha. Ele poderia ter um corpo pequeno e frágil, mas havia tanta força em seus olhos que Artur não conseguiu vê-lo como alguém fraco, digno de pena.

Mesmo na velhice, a lembrança daquela tarde permaneceu fixa em sua mente. Não importa quanto tempo se passe, sempre quando lembra daquela tarde de junho, Artur sorri, o mais belo dos sorrisos, ao imaginar-se jovem fitando com cara de bobo aquela adorável figura plantado ao lado da janela, de chinelos, moletom cinza, camiseta branca e um olhar tão tristonho capaz de fazer o mais frio dos homens se compadecer. Nunca entendeu o que viu de tão belo naquela imagem. Era apenas um menino olhando algo pela janela. O que poderia de haver de especial nisso? Não sabia, mas ainda assim sentiu o coração acelerar. Era uma pintura triste, mas ainda assim uma linda pintura.

Imaginou como seria belo o quadro daquele momento. Ou pelo menos uma foto, Artur pensou, sentindo uma necessidade imensa de guardar aquele instante para sempre.

Nick olhou com frustração a rua deserta, os dedos da mão direita tocando o vidro da janela inconscientemente. Ficou se lamentando por alguns segundos. Isso nunca havia acontecido antes. Então entendeu. Aquilo não era sua culpa e sim culpa daquele sujeito intrometido, foi ele quem o distraiu.

— Você tem certa fascinação em observar coisas, né? — o mais velho perguntou, tentando puxar assunto.

No começo o garoto pareceu ignorá-lo, mas depois de um tempo se virou e com dificuldade, lançou um olhar ao outro. Foi rápido, mas não precisou de mais que isso para que Artur entendesse.

Os olhos azuis passaram a mirar o chão e por isso só soube que o outro subia para o segundo andar pelo barulho apressado dos seus passos pelas escadas. Nick encontrou Barbara no meio do caminho, descendo com a expressão fechada quando o viu.

— Hey, pra quê correr desse jeito? Por acaso está tendo um incêndio no sanatório onde você vive? — disse a última pergunta um pouco mais baixo, de modo que apenas o irmão escutou.

Quando terminou de descer as escadas foi até o namorado e o beijou nos lábios.

— Demorei? — perguntou, com charme.

— Não... — respondeu distraído, olhando na direção da janela.

— O que há? — questionou, não gostando de receber apenas parte de sua atenção.

— Nada...

— Oras, conte logo! Tá na cara que aconteceu alguma coisa.

— Nada, é que eu acho... — a fitou — Acho que seu irmão não gosta muito de mim. Só isso — lembrou-se do olhar cheio de ódio que recebera há poucos segundos e se arrepiou.

Barbara se irritou, mas tentou disfarçar.

— A Vossa Majestade não gosta de ninguém. Ele se acha bom demais para querer nossa companhia. Mas não se preocupe, você não tem culpa, ele que é um idiota.

— Você não deveria falar assim do seu irmão.

— Estou dizendo a verdade. Gostaria de dizer que ele é um cara legal e sensível, mas isso seria mentir, e você sabe que eu não minto, nunca. Não me culpe por ele ser o que é. Meu irmão é problemático, eu sei. Ele tem o defeito de ter nascido, você sabe, meio retardado, mas isso não é desculpa para ele agir como um mostro. No fundo, eu acho que ele nem tem coração — sussurrou a última parte, como quem conta um segredo.

Artur considerou o que ouviu. Nick parecia ser um bom garoto. Porque não conseguia vê-lo como o mostro impiedoso que Barbara pintava? Então se lembrou daquele olhar e novamente sentiu um arrepio pelo corpo.

— Talvez você esteja certa — disse por fim, arrancando um sorriso de aprovação da namorada. — Que tal um filme? — mudou de assunto.

O sorriso da morena aumentou.

— Só você pra me fazer tão feliz com esses convites caretas. Impossível uma prova maior do meu amor por você do que esta.

Artur riu, achando que fosse uma piada. Barbara tinha um humor diferente que o fazia ver tudo por um outro ângulo e ele adorava isso nela.

Saíram de mãos dadas, se separando apenas para entrar no carro esportivo do moreno, sem perceber que no segundo andar olhos negros os observavam pela janela, num olhar profundo e compenetrado, mostrando um interesse anormal em entender o sentimento que unia aquelas duas pessoas.

Nick baixou os olhos quando o carro virou a esquina. Sentiu algo no peito, uma dor diferente de tudo que já sentira antes.

O que há de errado comigo? — perguntou a si mesmo.

Notas finais
Sua opinião é e sempre será muito importante para mim, então por favor comentem dizendo o que achou. Postarei o próximo capítulo em breve. Obrigado a todos que estão comentando. Beijos.