Coração Vago
43 Capítulo 42
"Como cheguei, não sei explicar
Não planejei, tão oposto olhar
Que me salvou da monotonia"
Forasteiro — Tiago Iorc
–Preparada para amamentar a Beatriz, mamãe?
–Hn, preparada eu não estou, mas vamos lá. –Fatinha respondeu nervosa.
–E essa é a nossa deixa. –Marta disse.
–Nós voltamos depois. –Disse Vilma.
–Voltamos mesmo, viu?! –Falou Ju. –Agora eu vou lá fora exibir as fotos que eu tirei da minha afilhada. Marcela vai morrer de inveja porque eu já a carreguei e ela não.
Eles riram do comentário da it-girl. Rapidamente o quarto estava novamente vazio, restando apenas Bruno, Fatinha, Beatriz e a enfermeira.
–Então vamos lá? –Convidou a mulher. –Meu nome é Natália, e eu estou responsável por auxiliar nas primeiras mamadas da Beatriz. Caso tenham qualquer dúvida é só falar comigo, ok?!
–Certo. –A loira respondeu.
–Bom, acho melhor nós começarmos. É de partir o coração ver a pequena chorando tanto. –Disse Natália, se referindo a Bia que ainda chorava. –Papai, me passe a Beatriz, por favor.
Bruno obedeceu de imediato.
–Agora ajude a Maria de Fátima a se sentar. –Ela instruiu. –A mamãe precisa estar na posição mais confortável possível. A amamentação pode demorar mais que o esperado, por isso é ideal se sentir bem.
O moreno a obedeceu indo até a namorada e ajudando-a a encontrar uma posição confortável.
–Ótimo, agora é hora da ação. –Disse Natália.
Seguindo as instruções da enfermeira, Bruno ajudou a sua loira a desamarrar a parte de cima da roupa hospitalar. Natália passou Bia para o colo da mãe, ajudando no posicionamento do bebê.
O moreno prestava toda a atenção, assim como Fat, nas dicas que a enfermeira dava.
–Pronto. Agora leve a Beatriz ao seu seio. –Ela disse. –Isso, nada de levar o seio até o bebê. O ideal é levar o bebê ao seio.
Fatinha aproximou a filha que ainda chorava do peito. A recém-nascida estava tão inquieta, que não percebeu que está perto do que tanto queria.
–Agora ajude ela mamãe. A Bia está tendo dificuldade em encontrar o bico do peito, e você precisa direcioná-la. –Natália disse.
Com a ajuda da enfermeira, a loira conseguiu que a filha abocanhasse o mamilo. E foi então que ela sentiu.
–Ai, calma aí! Isso está doendo. –Fat reclamou. –O que eu faço? Ai meu Deus, Beatriz isso dói.
Bruno não sabia o que fazia. Olhava para a namorada, para a filha e para a enfermeira, desesperado.
–Maria de Fátima... –Começou a enfermeira.
–Fatinha. –A loira corrigiu.
–Pois bem Fatinha, eu sei que depois do parto a última coisa que você quer é mais dor.
–Verdade. –Ela interrompeu a enfermeira novamente.
–Infelizmente as primeiras mamadas são dolorosas, mas como eu disse são só as primeiras mesmo. Creio eu que antes de você deixar o hospital, a dor passará a ser só um desconforto. –Natália explicou.
–Alguém podia ter me avisado antes. –Ela resmungou.
–Que tal nós conferirmos se a pega está certa? Esse pode ser o motivo da dor está sendo tão aguda. –Sugeriu a enfermeira.
–Tá, e como nós vamos fazer isso? –Fat perguntou.
–Começando tudo de novo.
Natália novamente ajudou Fatinha. Ela também colocou um travesseiro debaixo de Beatriz, prevendo que os braços da mamãe logo estariam cansados.
A recém-nascida não gostou nada de ter a sua amamentação interrompida, abrindo a boca a chorar.
Dessa vez, a dor que a loira sentiu foi mais fraca, indicando que a pega havia sido um problema.
–Está melhor? –A enfermeira perguntou.
–A dor ainda está aqui, mas já deu uma aliviada. –Fatinha respondeu.
–Ótimo. Sempre que você sentir que está doendo demais, procure começar de novo. O ideal é que o bebê abocanhe o máximo possível da auréola. –Ela disse. –Outra coisa, a gengiva inferior da Bia não tocará o seu seio. Como você deve ter percebido a língua sempre fica entre os dois. Caso isso não esteja acontecendo...
–Começar de novo. –A loira completou a fala.
–Exato. Quando a pega está incorreta, além de doloroso para você, é também ruim para a sua filha, que pode acabar fazendo muita força para mamar, e machucando a gengiva. –Ela alertou.
–Certo. –Fatinha concordou.
–Ótimo, agora é com vocês. Vou continuar aqui como observadora, ajudando sempre que necessário, mas o pesado é com vocês. –Natália disse se afastando da cama.
–Espera, eu tenho uma dúvida. –A loira disse. –Tem um tempo que eu devo deixar a Bia amamentando? Tipo, quinze minutos em um seio, e quinze no outro?
–Não. Deixe a sua filha mamar o quanto ela quiser nesse seio, e só depois faça a troca. Caso ela já esteja satisfeita, vai recusar aí só na próxima mamada. –Ela explicou.
–É Bia, você é quem manda. –Fatinha disse para a filha, que estava concentrada na amamentação.
Foram necessários quase trinta minutos no seio direito para que a recém-nascida se sentisse saciada. A mãe tratou de oferecer o seio esquerdo, que ela recusou.
Natália então auxiliou na hora de arrotar, pois Fatinha não sabia nem por onde começar.
–Pronto, agora essa pequena vai dormir por um tempinho. –A enfermeira disse. –Vou deixar vocês a sós.
Logo que a mulher deixou o quarto, a loira passou a filha para Bruno. Ela já havia escorregado na cama, não estando mais em uma posição confortável.
–Preciso ir ao banheiro. –Ela anunciou.
–Você pode ir ao banheiro? –O moreno perguntou inseguro.
–Acho que sim, mas é melhor prevenir do que remediar, certo?! –Ela disse acionando o botão que chamava uma enfermeira.
Em pouco tempo uma senhora apareceu.
–Algum problema? –Ela perguntou.
–Preciso ir ao banheiro. Posso? –A loira perguntou.
A senhora deu uma olhada rápida na ficha médica da paciente e depois assentiu.
–Eu vou te ajudar. –Ela disse ficando do lado da cama para ajudar Fat deixar a cama. –É importante você ter auxilio para se levantar nesses primeiros dias. Você perdeu muito sangue durante o parto, o que pode causar queda na pressão e até desmaios.
–Certo, não me levantar sozinha. –A loira anotou na sua listinha mental.
Com a ajuda da enfermeira, ela foi caminhando lentamente até o banheiro.
Bruno se sentou em uma poltrona, ninando a filha que estava sonolenta.
–Hey Jude, don’t make it bad. Take a sad song, and make it better. Remember to let her into your heart, then you can start to make it better. –Ele cantarolava para Bia, cujas piscadas eram cada vez mais longas.
A recém-nascida adormeceu antes que ele terminasse a música.
–The Beatles? –Fatinha perguntou voltando ao quarto. –Poxa moreno, eu tinha planejado que a primeira música que a Bia escutaria seria “Debochada” do MC Romário.
A senhora ajudou a loira a se acomodar na cama, e logo se retirou.
–Ainda bem que eu me apressei então. –Ele brincou.
–Chateada. A música seria o nosso tema de mãe e filha. –Fatinha fez um drama, para logo começar a rir da cara espantada do namorado. –Estou brincando amor. “Hey Jude” foi a música que eu mais escutei na minha pré-adolescência, tem um valor especial para mim.
–De uma coisa eu tenho certeza: a Bia vai crescer ouvindo todos os tipos de música. –Bruno disse rindo.
Raquel então apareceu, dizendo que tinham alguns impacientes na sala de espera querendo conhecer a Bia. Fatinha pediu que eles entrassem.
Marcela e Nélio foram os primeiros a entrar. Por serem padrinhos, tinham certa preferência.
–Como essa menina é linda! –A professora exclamou, estendendo os braços para pegar a recém-nascida adormecida.
Bruno passou a filha para o colo da mulher com todo o cuidado, para que Bia não acordasse.
–Oi pequena, eu sou a Marcela, sua dindinha. –Ela se apresentou sussurrando.
O padrinho tirava várias fotos com o seu celular.
–Assim você me fode, Nélio. Acabei de passar por um parto e você vem com fotos? –Fatinha reclamou ajeitando o cabelo.
–Comadre, você está linda como sempre. Não tem porque reclamar. –O rapaz disse. –Ninguém diria que você acabou de dar a luz.
–Ei, pode parar de saliência pra cima da minha mulher. –Bruno disse.
–Poxa Brunão, você já está compartilhando a filha comigo, não vejo problema algum em compartilhar a namorada. –Nélio provocou.
–Eu vou compartilhar a minha mão na sua cara. –O moreno entrou na brincadeira. –Maldita hora em que eu escolhi você, e não o Rasta para padrinho.
–Eu vou fingir que não escutei isso. –Disse o rapaz.
Fatinha pediu que Bruno a ajudasse a inclinar um pouco mais a cama, pois estava cansada de ficar sentada, o que ele rapidamente fez.
–Quer pegar? –Marcela perguntou a Nélio, que olhava para a afilhada com os olhinhos brilhando.
–Será que eu consigo? –Ele perguntou inseguro.
–É claro que consegue Nélio! –Fatinha incentivou.
–Vê se não deixa a minha filha cair, ok?! –Bruno pressionou.
Com um pouquinho de dificuldade, Marcela acomodou Beatriz no colo do rapaz, que preferiu fazer isso sentando.
A professora já havia tomado a câmera da mão do rapaz, e agora era ela quem tirava as fotos.
–Olha para a câmera padrinho babão. –Ela pediu.
O rapaz obedeceu, mostrando a afilhada, todo orgulhoso.
Os dois puderam curtir a afilhada por alguns minutos, antes da porta ser aberta novamente.
–Sinto informar que o tempo de vocês acabou. –Lia disse. –A fila lá fora está gigantesca, eu estou supercuriosa para conhecer a Bia, e tenho preferência por ser filha de dois médicos desse hospital.
Eles riram dos motivos da roqueira, mas concordaram que precisavam sair. Nélio colocou a afilhada no berço que havia no quarto.
Os padrinhos se despediram, prometendo mais uma visita quando eles estivessem acomodados em casa.
–Vitor, é a nossa vez. –Lia anunciou no corredor.
A garota entrou no quarto, seguida pelo namorado que carregava balões e um urso de pelúcia gigante.
–Meu Deus! O que é isso? –Fatinha perguntou assustada.
–Isso é obra da sua cunhada psicótica. De acordo com ela esse quarto estava muito sem graça. –Lia respondeu.
–Coitado do Gil. –Vitor disse sorrindo. –E como você está mamãe? Pronta pra outra?
–Opa anjo, muita calma nessa hora. Estou me sentindo muito bem sim, mas pronta pra outra não tão cedo. –Fat disse. –Vou precisar de alguns anos para pensar no próximo.
–Concordo minha loira. Agora nós temos que cuidar da Bia, trabalhar, e você ainda tem faculdade. –Bruno falou.
–Ai moreno, assim você me desanima legal. Ainda bem que eu tenho quase sete meses de licença maternidade. –Ela suspirou.
–Sete meses? Que folga! –Lia comentou, já ao lado do berço. –Meu Deus! Que menina linda. Tem certeza de que é sua filha Fatinha?
–São sete meses porque eu vou juntar as minhas férias, mais a licença. Isso sem falar que eu trabalhei praticamente até o dia do parto. –Ela explicou. –E “haha” Lia, essa beleza toda aí, a Bia puxou da mãe.
–Tá mais pra ter puxado do pai. –Ela comentou e recebeu uma cotovelada do Vitor.
–Não sei se você reparou, mas o seu namorado está aqui. –Ele a repreendeu.
–Eu sei amor, não estou tarando o Bruno. A Ju não exagerou quando disse que ela é a cara do Bruno.
–Cuspida e escarrada. –Fatinha concordou. –Não, espera. A Isabella falou sobre isso há pouco tempo... Ah, lembrei! O correto é dizer “esculpida em carrara”.
–Só faltou o “Como diria Clarice Lispector”. –A roqueira provocou.
–Ih, nem adianta. Agora eu só faço citações verdadeiras da minha musa, ok?! –A loira deu a língua.
–Bom mesmo. A pobre mulher se revirava no túmulo cada vez que você dizia que uma música do “É o Tchan” era frase dela. –Lia continuou a provocação.
Fatinha ignorou as brincadeiras da roqueira, que observava o namorado brincar com o neném adormecido.
–E aí anjo, quando vocês vão encomendar os seus? –A loira perguntou.
–Talvez daqui a dez anos, ou quinze. –Lia respondeu de imediato. –Estou correndo de dor, e de responsabilidade.
–Quinze anos é muito tempo amor. –Vitor reclamou. –Me diz se não dá vontade de ter um bebê depois de ver essa fofura aqui.
–Vontade de ter um bebê? Zero. Adotar um ou roubar a Bia me parece mais tentador. –A garota respondeu.
–Já estão querendo roubar a minha filha, assim fica difícil. –Fatinha reclamou. –Moreno, a partir de hoje as visitas da Lia são vigiadas, ok?!
–Acho melhor proibir as visitas, isso sim. –Bruno disse.
–Nossa, como vocês são chatos. Eu não ia roubar ela indefinidamente! Quando ela ficasse chata e começasse a chorar, eu devolveria.
–É claro, sendo assim eu concordo. –A loira ironizou.
–Dona encrenqueira, agora nós devemos dar licença para os outros que estão esperando lá fora. –Vitor sugeriu.
–Mas já? Ainda nem pude beliscar a Bia! –A roqueira resmungou.
–Beliscar a Bia? Lia Martins, sai daqui AGORA! –Fatinha mandou, jogando um travesseiro na roqueira.
A garota deixou o quarto correndo, e rindo da amiga, sendo seguida pelo namorado.
As visitas continuaram por mais uma hora. Gil, Rasta, Pilha, Fera, Rita, Orelha e Morgana também apareceram. Todos estavam encantados com a sobrinha de coração que haviam ganhado.
Raquel por fim, pediu que as próximas visitas fossem adiadas para o dia seguinte, e todos obedeceram.
Fatinha e Bruno puderam enfim descansar.
Quer dizer... Um alarme exigente, chamado Beatriz, tocava quase que de uma em uma hora, mas eles não se importaram.
Valia a pena.
Notas finais
Comentários, leitoras amadas?
Ps: o próximo é o último :(
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