"Mil coisas eu deixei
Só pra te falar
Largo tudo
Se a gente se casar domingo
Na praia, no sol, no mar
Ou num navio a navegar
Num avião a decolar
Indo sem data pra voltar
Toda de branco no altar
Quem vai sorrir?
Quem vai chorar?
Ave Maria, sei que há
Uma história pra sonhar"

Pra Sonhar — Marcelo Jeneci

Fatinha acordou com o barulho irritante do despertador. Sem se levantar, ela parou o alarme e se aconchegou mais ao travesseiro sem querer perder aquele calor gostoso. Com toda a movimentação o travesseiro ficou inquieto, e só então a loira percebeu a posição na qual se encontrava. Ela não entendia muito bem como havia acontecido, mas ela estava com a coberta enrolada debaixo da barriga, as costas coladas ao abdômen definido de Bruno, sendo rodeada por braços fortes. Fatinha tentou sair da posição imediatamente – ela queria a todo custo evitar tentação – no entanto, a saída foi impedida pelas suas pernas, que estavam entrelaçadas as de um certo moreno.

Com muito custo ela conseguiu se levantar sem acordar o Bruno, e correu para o banheiro atrás de um banho gelado. Em menos de quinze minutos ela já estava pronta para ir para a escola, e decidiu não tomar café da manhã em casa. Sim, ela estava evitando encarar o moreno.

Fatinha desceu até o apartamento 302 atrás de Juliana, comendo uma banana.

–Oi querida, tudo bem? –Marta a cumprimentou assim que abriu a porta.

–Oi Marta, eu estou ótima e você? –Ela respondeu entrando no apartamento.

–Muito bem também. –A mulher respondeu e depois se abaixou até ficar na altura da barriga. –Oi Bia, a vovó está ansiosa pra te conhecer, sabia?

–Fatinha, chegou cedo. –Ju comentou quando a viu.

–Oi Ju, resolvi compensar o atraso de ontem. –Disse a loira.

–Ótimo, mas eu ainda tenho que tomar café. –A it-girl disse sentando-se a mesa.

–Eu espero, só preciso jogar essa casca de banana no lixo. –Fat disse.

Marta pegou a casca e se desfez dela.

–Por que você não toma o café da manhã conosco? Você chegou tão cedo que nem deve ter tido tempo de comer direito. –A mulher convidou.

–Eu comi banana Marta.

–E desde quando banana dá alguma sustentação? Coma conosco. Não aceitarei um “não” como resposta. –Ela insistiu.

–Ok, você venceu. –Fatinha cedeu sentando-se a mesa.

Por fim, a loira comeu bastante, a banana realmente só serviu para forrar o estômago. Olavo apareceu quando as duas já estavam de saída, e ficou muito feliz com a presença da ex-nora que de acordo com ele estava cada vez mais bonita.

–Você dormiu com o Bruno, não foi? –Ju perguntou assim que elas deixaram o prédio.

–Como você sabe? –Fatinha perguntou escandalizada.

–A principal evidência é a sua boa aparência, que obviamente vem de uma boa noite de sono. Assim, eu fiz o um mais um e olha o que eu achei...

–Com essa soma você só pode ter achado dois. –Lia comentou interrompendo a conversa.

–Engraçadinha você, hein? –Ju implicou mostrando língua.

–Bom dia Fatinha, bom dia Ju. –A roqueira cumprimentou.

–A Lia está se sentindo uma comediante, então não reparem. –Gil disse indo até a namorada para um beijo.

–Como vocês são chatos! Reclamam do meu mau humor todos os dias, e quando eu estou bem humorada continuam reclamando, assim fica difícil. –Lia reclamou.

–É marrentinha, como diria Clarice Lispector: “Nem Jesus agradou a todos”. –Fatinha disse e eles riram.

–Agora voltando à matemática, o que, além do dois, você achou somando um mais um, Juliana? –Lia perguntou.

–Descubra você mesmo. Olhe para a Fatinha e me diga o que há de diferente nela. –A it-girl pediu.

Lia e Gil observaram Fatinha atentamente, atrás de uma grande mudança. Depois de alguns segundos Lia comentou:

–Bom, tirando o fato dela não estar dormindo em pé, eu não vejo muita diferença.

–É exatamente esse o ponto! Maria de Fátima dos Prazeres pela primeira vez em dias não está quase desmaiando de sono. E olhem para o rosto dela: sem os três quilos de corretivo. –Apontou Ju.

–Nossa, eu estava tão acabada assim? –Fatinha perguntou.

–Estava. –A it-girl respondeu. –Agora tentem adivinhar de onde veio essa disposição!

–De uma boa noite de sono, ué. –Gil respondeu.

–De uma boa noite de sono com o meu irmão! –Ju praticamente gritou, saltitando no meio da rua.

–Meu Deus! A gente só dividiu a mesma cama, Juliana. Não precisa fazer esse escândalo. –A loira disse.

–Só dividiram a mesma cama? Sei... –A ex-cunhada lançou um olhar malicioso.

–Nossa, que mente maliciosa. Eu vou para a aula fazer algo de útil, e vocês continuem acreditando no que quiserem. –Fatinha disse apressando o passo.

Os amigos seguiram a loira fazendo várias piadinhas, que ela fez questão de ignorar.

O resto da manhã correu tranquilamente. Isabela tinha levado o livro prometido para Fatinha, mas ao invés de emprestar, a professora decidiu dar a obra para a aluna. No livro tinha até dedicatória, que dizia assim: “Fatinha, que esse seja apenas o inicio de uma vida repleta de citações da Clarice Lispector”.

A loira ficou emocionada diante de tanto carinho e teve que conter as lágrimas, reclamando dos hormônios descontrolados.

Já no Hostel a tarde foi uma correria. Ela e Pilha decidiram ensinar a alguns hóspedes como se dançava o funk e a aula fez o maior sucesso. De inicio Michel não gostou muito da ideia, mas por fim acabou entrando na dança também.

–Michelito, agora eu não estou com muita disposição, mas assim que eu voltar da licença maternidade nós vamos fazer esses gringos descerem até o chão. “Aulas de funk com Little Fátima e MC Pilha” o que você acha? –Fatinha sugeriu.

–Eu acho que vai fazer o maior sucesso. –Ele concordou.

–Ótimo, vou adorar esse extra. –A loira comemorou.

Depois do expediente, Fatinha foi para casa apressada. Ela queria começar a ler o livro imediatamente.

(...)

Bruno chegou mais tarde do que o normal em casa. Ele havia ficado preso no estágio por causa de um projeto que a empresa estava desenvolvendo.

O moreno ficou surpreso ao encontrar a casa silenciosa. Geralmente Fatinha estava na cozinha nesse horário, mas hoje ela não parecia estar em lugar algum. Ele a encontrou no quarto, deitada na cama com as pernas para cima, lendo um livro. Bruno ficou observando a garota por alguns instantes tentando controlar a saudade que sentia de estar com ela. Ele havia ficado decepcionado por encontrar a cama e a casa vazia quando acordou.

–Fatinha? –Ele a chamou.

A loira largou o livro em cima da cama e se levantou rapidamente.

–Bruno? Você chegou cedo. –Ela comentou.

–Cedo? Já são mais de oito horas da noite.

–Sério? –Ela estava espantada. –Eu perdi a noção da hora enquanto eu lia.

–Que livro você estava lendo? –Ele perguntou curioso.

–Que livro? Eu tenho alergia a livros Bruno. Eu estava lendo uma matéria sensacional que a Capricho fez com o Robert Pattinson, quero até assistir Crepúsculo de novo. –Ela disse para a decepção do moreno.

–Capricho? Eu jurava que era um livro. –Ela comentou confuso.

–Acho que você estava sonhando acordado Brunito. Vou para a cozinha agora, porque eu estou morrendo de fome. –Ela comentou o empurrando para fora do quarto. –E o senhor vai tomar banho.

Bruno foi tomar banho tentando entender como pode confundir uma revista com um livro. Ele não chegou a nenhuma conclusão então decidiu pensar em outras coisas.

Quando ele saiu do banho, já vestido com a calça de pijama, o moreno foi até a cozinha ver o que Fatinha aprontava. Ele ficou observando enquanto ela lavava a louça e cantarolava dançando.

–Toda produzida, ah... Te deixo quente. Meiga e abusada faço você se perder, e quem foi que disse que eu estava apaixonada por você. –A loira cantava.

Bruno ficou observando aquela cena encantando. Aquela garota era totalmente o oposto dele, fazia coisas que ele sempre criticou, e ele agora estava assim: perdidamente apaixonado por ela.

Não, você não leu errado. Naquele instante, o moreno percebeu que não conseguia imaginar um futuro sem ela. Sempre que ele pensava na vida daquele momento em diante, ela sempre estaria presente.

A casa era grande, mas ao mesmo tempo bem simples. O jardim era enorme, cheio de flores. Na parte de trás da casa havia uma área de lazer com piscina, sauna e churrasqueira.

Bruno entrou na casa encantado, ouvindo risos de criança. De repente apareceu um cachorro grande no jardim da frente. Era um São Bernardo cheio de espuma.

–Thovi, volta aqui! –Gritou uma menina de mais ou menos quatro anos que corria atrás do cachorro.

Quando ela viu Bruno, parou de correr atrás do cachorro e correu em direção a ele.

–Papai!

A menina era branquinha, com os cabelos loiros descendo em cachos até a metade das costas. Ela era uma versão miniatura da mãe.

Bruno se abaixou para pegar a menina, que pulou nos seus braços.

–Papai, o Beethoven fugiu de mim enquanto eu dava banho nele. –Ela reclamou fazendo biquinho.

–Que tal se o papai te ajudar a pegar ele? –Ele sugeriu.

–Tá, mas a gente não pode fazer muito barulho se não a mamãe vai perceber que eu perdi o Thovi. –Ela disse.

Os dois bolaram um plano e começaram a correr atrás do cachorro, que ficou encurralado entre eles.

–Pegamos! –A menininha gritava vitoriosa.

–Bia? Cadê você? –Uma voz conhecida gritou de dentro da casa.

Ela foi correndo com o pai até a área dos fundos levando o cachorro.

–To aqui mamãe! Olha quem chegou. –A menina disse.

A mulher saiu da casa indo em direção à voz da filha. Bruno ficou encantado quando a viu.

Fatinha não havia mudado muito. Ela continuava usando um micro short com uma bata branca que realçava a gravidez avançada. Os cabelos loiros dela estavam cortados pouco abaixo do queixo em um corte Chanel repicado.

–Que bagunça é essa? –Ela perguntou.

Os dois estavam sujos de lama e espuma.

–É culpa do Thovi. –Bia disse apontando para o cachorro.

Bruno só riu da cena.

–Bia. –Ele chamou a filha e trocou um olhar significativo com a menina, que entendeu.

–3, 2... –Eles começaram a contar juntos.

Quando chegaram ao um, os dois correram para abraçar Fatinha, sujando-a toda.

–Minha blusa branca! –Ela reclamou, mas logo começou a rir entrando na brincadeira.

Para aumentar ainda mais a bagunça, Beethoven se sacudiu todo, jogando sabão e lama para todos os lados.

–Vocês são terríveis. Ninguém vai entrar em casa nessa sujeira. Todo mundo para a ducha. –Fatinha mandou.

A menina já ia sair correndo mais foi interrompida pela mãe.

–Bia, leva o Beethoven com você e termina de dar o banho nele. –A loira mandou.

Beatriz obedeceu a mãe e levou o cachorro para a ducha com ela.

–E você Bruno, não deveria permitir que a sua filha fizesse toda essa bagunça. –Ela repreendeu.

–Você está brava? –Ele perguntou abraçando a esposa.

–Estou. –Fatinha respondeu tentando controlar o sorriso.

Bruno beijou a loira que retribuiu imediatamente. Os dois ficaram assim: sujos e se beijando, escutando ao fundo as risadas da filha.

–Bruno, acorda! –Fatinha chamou o tirando do transe.

–Oi? –Ele perguntou confuso.

–Achei que você tinha tido um derrame. Põe a mesa que o jantar já está pronto. –Ela mandou.

O moreno obedeceu, ainda relutante por voltar a realidade.

Quando a mesa já estava posta, Fatinha apareceu com uma travessa.

–Macarrão de panela de pressão, a especialidade da minha avó. –Ela anunciou.

A loira comeu com vontade, e Bruno se dividia entre comer e observar a garota.

Depois do jantar, ele foi lavar a louça e ela se preparou para dormir. Quando ele chegou ao quarto, ela já estava deitada mexendo no telefone. Ele deitou na cama ao lado dela, que já foi deixando o telefone de lado e apagando a luz.

–Boa noite. –A loira disse se apoiando no braço dele.

–Boa noite. –Ele respondeu.

Fatinha adormeceu rapidamente, e Bruno continuou acordado pensando no que faria para reconquistar o amor da mulher da vida dele de volta. Ele queria aquela casa grande, aquele cachorro, aquela filha, e principalmente aquela esposa, e ele estava disposto a correr atrás do que queria.

Notas finais
Esse capítulo ficou um pouquinho mais curto, mas saiu mais rápido também, né?!
Quero comentários!
Ps: FELIZ DIA DO AMIGO PARA TODOS!!!