Coração Vago
32 Capítulo 31
"Eu não vou mudar não
Eu vou ficar são
Mesmo se for só
Não vou ceder
Deus vai dar aval sim
O mal vai ter fim
E no final assim calado
Eu sei que vou ser coroado rei de mim."
De Onde Vem a Calma — Los Hermanos
A noite foi difícil, como o esperado. Fatinha, que inicialmente havia dormido facilmente, acordou trinta minutos depois sem encontrar uma posição confortável para dormir. Bia parecia sentir a inquietação da mãe, e começou a mexer incessantemente. A menina chutava e remexia, mas a loira não se importou muito, apenas ficou acordada pensando e sentindo a festa que a filha fazia.
Bruno também não dormiu direito, o olhar sem vida de Fatinha dizendo que eles não estavam mais juntos o assombrou durante toda a noite. Ele estava bravo por essa briga ter acontecido. Estava tudo tão bem que ele já até havia se esquecido da amnésia da garota.
Quando o despertador de Fatinha tocou, ela acordou mais cansada do que nunca. Se ela tivesse dormido duas horas, seria muito. Assim, ela foi até o banho, torcendo para que a água fria a despertasse o suficiente. Desde que o café havia sido abolido da dieta dela, os métodos de espantar o sono eram mais criativos.
Como todos os dias ela preparou o café da manhã. Fatinha estava se esforçando para agir naturalmente. Ela havia decidido não dar ao Bruno o gostinho de saber o quanto ele a afetava. Assim, quando o moreno sentou-se à mesa dando “bom dia”, ela respondeu naturalmente e depois voltou a comer.
Os dois estavam em silêncio, até que Fatinha se lembrou de uma coisa.
–Bruno, acho que vou dar uma passada no hospital hoje.
–Aconteceu alguma coisa? Você está se sentindo mal? –Ele perguntou preocupado.
–Não. Estou indo para conversar com a Raquel e o Lorenzo sobre o fim da amnésia, afinal, eles são os meus médicos.
–E você está pensando em ir que horas?
–Assim que terminar o meu turno no Hostel, mas antes eu vou ligar para a Raquel.
–Você me liga para avisar do horário?
–Posso até ligar, mas você não precisa ir. Afinal, a consulta é sobre mim, e não sobre a Bia.
–Você não quer que eu vá?
–Eu simplesmente acho que não há necessidade. Tenho certeza que você tem coisas mais importantes para fazer. Se der algum problema eu te ligo. –Ela disse, sendo a mais educada possível. –Tenho que ir para a escola agora.
Quando ela levantou da mesa e foi pegar a mochila que estava jogada no sofá, Bruno não acreditou no que viu.
–Você vai para a escola assim? –Ele questionou irritado.
Como os uniformes da loira não mais serviam, ela não precisava usá-los para ir ao colégio. Assim, Fatinha optou por um vestido de estampa tribal que ia até a metade das cochas. Você deve estar pensando que mal há nisso, certo? O problema para Bruno era que o vestido era justo no busto, além de decotado. Já na altura da barriga, o vestido era largo, realçando a gravidez.
A gestação havia realçado a beleza da loira. A pele estava mais brilhosa, e o cabelo também. Quando Bruno a viu toda arrumada, teve certeza que vários homens a cobiçariam na rua e no Hostel. Isso o deixou muito irritado.
–Nem adianta implicar Bruno. Eu gosto de roupas assim, e vou usá-las se quiser. Agora com licença, porque eu não posso me atrasar.
Fatinha saiu antes que o moreno tivesse tempo de dizer alguma coisa.
Bruno terminou o café da manhã irritado. Depois lavou a louça e decidiu passar na casa dos pais.
–Meu filho! Que surpresa boa você por aqui. –Marta o abraçou, assim que o viu.
O rapaz também cumprimentou o pai e se sentou com eles à mesa, onde eles faziam o desjejum.
–Já tomou café? –Olavo perguntou e Bruno assentiu.
–E aí filho, como está a minha nora favorita e a minha netinha? –Marta perguntou.
–A Bia está ótima, a cada dia cresce mais. –Ele respondeu evitando falar de Fatinha.
–E a minha nora? –Marta insistiu.
–A sua ex-nora vai bem também. –Ele respondeu servindo um copo de suco, a fim de ter uma distração.
–Ex-nora? Como assim? Vocês terminaram? –Marta perguntou espantada.
–Terminamos. –Ele disse, tomando o suco.
–Bruno, caso ainda não tenha ficado claro para você, a sua mãe não vai desistir enquanto ela não tiver detalhes. E eu também. –Disse Olavo.
O moreno suspirou, deixando o copo de lado.
–A memória da Fatinha voltou. –Ele disse simplesmente.
–Mas essa é uma notícia ótima! Sinal de que ela já se recuperou totalmente do acidente. –Olavo comemorou.
–É verdade, eu estava preocupada com o tempo que a amnésia estava durando. –Marta concordou.
–Vocês não entendem. –Bruno disse exasperado.
–O que nós não entendemos? –Olavo perguntou.
–O que essa recuperação representa! –Ele respondeu como se fosse óbvio.
–Seja mais claro, por favor. –Pediu Olavo.
–Eu não sei mais quem ela é. A Fatinha que eu conhecia antes da amnésia é totalmente diferente da que me encantou nesses últimos meses.
–Bruno, o que você acabou de falar não fez o menor sentido. –Disse Marta.
–Sua mãe está coberta de razão. Não existem duas Fatinhas, Bruno. –Concordou Olavo.
–Eu sei que ela é uma só, mas são duas personalidades tão diferentes!
–Personalidade diferente ou não, você é louco por ela. –Marta disse
–Não. Eu sou louco pela Fatinha que eu conheci nos últimos meses, agora a Fatinha pré-amnésia... –Bruno ia completar a frase, mas foi interrompido por Olavo.
–Você a engravidou. Eu sei que não estava aqui no Rio quando tudo aconteceu, mas pelo que eu soube você já era louco pela Fatinha desde que vocês ficaram.
Bruno bufou e levantou da mesa, irritado.
–Vocês continuam sem entender. Eu vou embora porque não posso chegar atrasado à faculdade.
O moreno saiu de casa e Olavo começou a rir.
–Do que você está rindo Olavo? Estou achando essa situação preocupante. –Falou Marta.
–Eu também estou preocupado, mas você viu como o Bruno saiu daqui? Me lembrou das birras que ele fazia quando era criança. –Olavo explicou e Marta o acompanhou na risada.
–É verdade. Desde pequeno o Bruno sempre foi teimoso.
Já no Quadrante, Fatinha estava sendo o centro das atenções.
–Minha Deusa, você está espetacular. –Pilha comentou assim que a viu.
–Com todo o respeito ao Bruno, eu tenho que concordar. –Gil disse, recebendo uma cotovelada de Ju.
–Falando em Bruno, o meu irmão deve ter surtado quando te viu sair de casa assim. –Comentou Ju. –Adorei o vestido, você está uma grávida maravilhosa, mas eu sei como o quanto o meu irmão é ciumento.
–É ele até tentou palpitar, mas eu não dei ouvidos. –Fatinha pensou um pouco e decidiu compartilhar com todos o que havia acontecido. –Bom, eu vou contar a verdade para vocês, que vão ficar sabendo de um jeito ou de outro.
Todos pararam o que faziam curiosos para saber o que a loira tinha a dizer.
–Eu estou recuperada da amnésia. –A galera comemorou.
Fatinha teve que provar que se lembrava das coisas que tinham acontecido, mas não se importou. Os amigos estavam felizes por saber que a loira estava recuperada.
Depois de muita festa, Robson fez uso do apito e mandou todos os alunos para a sala de aula. Ju aproveitou da distração do inspetor com os meninos, e puxou Fatinha para um canto.
–Meu irmão já sabe que você está recuperada? Ele deve estar muito feliz! –A it-girl comentou.
–Olha Ju, saber ele até sabe, mas não está nem um pouco feliz com a novidade. –A loira contou.
–Como assim ele não está feliz? –A menina não estava entendendo nada.
–Seu irmão é um babaca Ju. Estou aliviada por nós não estarmos mais juntos. –Fatinha comentou.
–Como assim? Vocês terminaram? –Ju estava escandalizada.
–Maria de Fátima e Juliana, o professor Jorge já está na sala de aula! Se apressem! –Robson interrompeu a conversa, e encaminhou as duas até a sala.
Ju tentou prestar atenção na aula, mas isso foi impossível, foi então que ela teve uma ideia genial.
Fatinha estava com a cabeça abaixada, concentrada no desenho que ela fazia. Ju levantou repentinamente e quase pulou em cima da loira, envolvendo-a pelos ombros e levantando-a.
–Jorge, a Fatinha está passando mal! –A it-girl gritou, e Fatinha olhou para ela sem entender nada. –A pressão dela está baixa e ela está quase desmaiando! Vou levá-la na enfermaria!
Ju arrastava Fatinha com ela, impedindo a loira de dizer qualquer coisa. Elas já estavam na porta quando o professor se pronunciou.
–Peça ajuda ao Robson, ok?! –Jorge orientou.
Quando as duas já estavam no corredor, Ju largou o braço da amiga.
–O que foi isso Juliana? –A loira questionou.
–Te explico no banheiro. Agora vamos rápido antes que o Robson apareça e você tenha que ir para a enfermaria.
Fatinha acompanhou a it-girl, ainda sem entender muita coisa.
–Que história é essa de que você e o meu irmão não estão mais juntos? O que aconteceu? –Ju perguntou assim que elas entraram no banheiro.
–Nós não estamos mais juntos e ponto. –Fatinha disse na defensiva.
Podia até não parecer, mas a loira estava com medo de perder as amizades que havia conquistado. A reação de Bruno ao descobrir o fim da amnésia, fez com que ela ficasse cautelosa com o que dizia, como se qualquer palavra errada pudesse levá-la ao isolamento.
–Por que vocês terminaram? –Juliana insistiu.
–Eu não quero falar sobre isso. –Fatinha disse se sentando de costa para a it-girl.
–É por causa da sua recuperação? –Ju continuou a insistir.
Fatinha abaixou a cabeça e deixou que as lágrimas escorressem pelo rosto dela. Ju deu a volta no banco e se ajoelhou de frente a loira.
–Fatinha, por que você está chorando? O Bruno fez alguma coisa com você? Eu vou matar aquele idiota! –Ju disse exasperada.
–O que o Bruno fez não foi nenhuma novidade. Eu já devia imaginar que isso aconteceria. –Ela disse limpando as lágrimas que ainda escorriam. –Eu não quero perder tudo Ju.
A loira parou de tentar limpar as lágrimas e chorou abertamente. Ju a abraçou sem entender o que ela queria dizer.
–Por que você perderia alguma coisa?
–Eu estou cansada das pessoas não me aceitarem do jeito que eu sou. Não dá mais pra ficar mudando de personalidade para agradar os outros. Eu fiz isso tantas vezes que acabei me esquecendo de quem eu era de verdade, sabe? –Fatinha tentou explicar, entre lágrimas.
–Ei, mas você não precisa mudar para ser aceita. Olha quantas pessoas que te querem bem.
–Pode até ser, mas você, por exemplo, só passou a gostar de mim quando eu fui a Fatinha de Carambolas.
–Não é bem assim. Eu admito que nós nos tornamos amigas durante a sua amnésia, mas foi porque só então houve uma oportunidade para eu te conhecer de verdade. Além do mais, você sabe que a história é muito mais complicada do que isso né?!
–Eu sei, mas se você não gostava de quem eu era antes, você provavelmente não gosta de quem eu sou agora.
–Mas a essência sempre foi a mesma Fatinha. Sempre. Você pode interpretar vários papéis, mas isso não faz com que você mude por dentro.
–Eu queria que o Bruno pensasse assim. –Fatinha murmurou.
–Então foi isso o que aconteceu! Por isso vocês terminaram?
–Nós terminamos porque o seu irmão nunca vai conseguir me aceitar de verdade. Ele nunca vai conseguir deixar de lado o preconceito estúpido que ele tem, para me conhecer. E eu não vou fingir ser quem eu não sou só para agradá-lo. Na verdade, eu vou parar de pensar nos outros e vou focar um pouco em mim. Só espero que no final dessa jornada ainda reste algum amigo do meu lado. –Fatinha desabafou.
–Você pode contar comigo sempre. –Ju disse.
–Obrigada Ju. Você não faz ideia do quanto isso significa para mim.
Quando as lágrimas de Fatinha cessaram, e elas finalmente deixaram o banheiro, a aula de Jorge já havia terminado. Robson estava procurando as duas feito um louco pelo colégio, pois havia sido informado da saída das duas, e de que nenhuma delas havia dado entrada na enfermaria.
–Fatinha e Ju! Vocês não sabem o quanto eu procurei por vocês! –Exclamou o bigodudo assim que as viu.
–A Fatinha não estava se sentindo bem Robson. –Ju disse.
O inspetor ia questionar o fato de a enfermaria do colégio não ter sido procurada, mas ao olhar para Fatinha percebeu que o mal que a afligia não era físico.
–Eu vou acompanhar vocês até a sala. –Ele disse simplesmente.
Quando elas entraram na aula de Sônia, foram recebidas com olhares curiosos, mas não se importaram. Cada qual se dirigiu para a própria carteira e se concentraram na aula. Bem, Fatinha pelo menos tentou.
(...)
A noite já estava começando quando Fatinha chegou do hospital. A conversa com Lorenzo e Raquel foi muito agradável, e alguns exames foram feitos, mas eles acreditavam que já não havia nenhuma sequela do acidente. Eles também estranharam a ausência de Bruno, mas Fatinha não aprofundou no assunto e eles entenderam a indireta.
–Obrigada. –Fatinha agradeceu o taxista, depois de ter pagado a corrida.
–Little Fatima! What a nice surprise. Fatinha! Que surpresa boa! –Paolo, um dos hóspedes do Hostel, se aproximava.
–Paolo, how are you? I haven’t seen you for the last few days. Paolo, como você está? Eu não te vi nos últimos dias. –Fatinha o cumprimentou.
–I’m fine. Miss me? I was visiting Angra. A beautiful place, but the girls are not as beautiful as you are. Eu estou bem. Sentiu saudades? Eu estava visitando Angra. Um lugar bonito, mas as garotas não são tão bonitas quanto você. –Paolo tinha uma paixonite por Fatinha.
–Always a gentleman, right? Sempre um cavalheiro, certo?
–It’s the truth, even the stars are ugly next to you. É a verdade, até as estrelas são feias do seu lado.
Fatinha ficou corada com o elogio e tentou disfarçar, mas o italiano insistiu.
–Sposami? Marry me? Casa comigo? –Ele pediu nos três idiomas.
A loira riu. O rapaz era um fofo, pena que não era por ele que ela estava apaixonada.
Falando em paixão, Bruno apareceu antes que Fatinha pudesse responder Paolo. Ele havia ficado até mais tarde no estágio, e não gostou nem um pouco de ver a loira sendo cantada na porta de casa.
–Ela não vai casar nem com você, e nem com ninguém. –Bruno disse para o rapaz e puxou Fatinha pelo braço para dentro do prédio.
–I talk to you tomorrow. Scusami! Eu falo com você amanha. Me desculpe. –Fatinha disse a Paolo, que não estava entendendo nada.
Bruno a arrastou até o elevador, e mesmo com a porta fechada ele ainda não havia soltado o braço dela.
–Será que dá para me soltar? –Ela pediu sentindo que o aperto a deixaria com o braço roxo.
–Você faz isso para me provocar, só pode! –Ele exclamou exasperado, soltando o braço dela.
–Eu faço o que? Converso com um dos hóspedes do Hostel? Sinto lhe decepcionar, mas o meu mundo não gira ao redor do seu umbigo.
–Ele estava te pedindo em casamento! Não era um simples diálogo. –Bruno disse.
A porta do elevador abriu e Fatinha saiu pegando a chave do apartamento. Já dentro de casa ela respondeu.
–Ele estava me pedindo em casamento como já fez milhares de vezes! Não é nada demais.
–Um pedido de casamento não parece ser nada demais.
–Bruno, se eu fosse levar a sério todas as cantadas que eu recebo no Hostel, já estaria casada com no mínimo oito homens e duas mulheres, cada qual de nacionalidade diferente.
O comentário de Fatinha ao invés de amenizar a situação, deixou o rapaz ainda mais nervoso.
–Você não vai mais trabalhar lá! –Ele decretou.
–Oi? Você perdeu o juízo?
–Você não pode trabalhar em um lugar onde você é assediada sempre! –Ele disse como se fosse o óbvio.
–Então eu não vou trabalhar nunca, né?! Bruno, para com esse surto porque eu não vou largar o meu emprego por sua causa. Caso você esteja se esquecendo, nós temos uma filha para sustentar e eu não posso me dar ao luxo de ficar em casa assistindo TV.
–Você não vai largar o seu emprego? Tudo bem. Mas você não vai ficar saindo com esses projetos de roupa.
–Eu já te disse uma vez e vou repetir: eu uso a roupa que eu quiser Bruno. –Ela disse irritada.
–Ah é? Então vamos ver. –Ele disse dando as costas e indo até o quarto dela.
Fatinha o seguiu e quando entrou no quarto viu que ele revirava todo o guarda roupa.
–O que você está fazendo? –A loira perguntou.
–Estou fazendo uma limpa no seu guarda roupa.
O moreno pegou a saia de couro encurtada com fita crepe e a esticou até que ela rasgasse ao meio.
–Bruno não faz isso! –Fatinha gritou, mas ele não deu ouvidos e pegou a camiseta “I love hot boys” e a rasgou também.
O moreno já estava com um vestido estampado nas mãos quando Fatinha reagiu tomando a roupa da mão dele.
–Para com isso agora Bruno! Você está destruindo todas as minhas roupas! –Ela gritava impedindo-o de rasgar mais blusas.
–Eu vou acabar com essa palhaçada. –Ele disse pegando uma saia.
Fatinha tentou impedir, mas antes que pudesse fazer alguma coisa ela sentiu uma pontada na barriga e se jogou na cama gritando. O berro atraiu a atenção do moreno.
–Fatinha, o que está acontecendo? –Ele perguntou preocupado.
A dor durou mais alguns segundos e foi só então que a loira conseguiu falar.
–Eu acho que a Bia vai nascer.
Notas finais
Novamente peço desculpa pela demora, mas estou fazendo várias provas e só estarei liberada no final da semana que vem.
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