"Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco
Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco
Toda escolha é feita por quem acorda já deitado
Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado
E pinta o estandarte de azul
E põe suas estrelas no azul
Pra que mudar?"

Todo Carnaval Tem Seu Fim — Los Hermanos

Na terça-feira Fatinha estava exausta. Ela quase perdeu a hora de ir para a escola, sendo salva por Ju. No caminho até o colégio a loira teve que explicar o motivo do cansaço, o que fez os seus amigos rirem. Pastel de sorvete é a cara de um desejo da Fatinha.

Todos também ficaram sabendo da anemia da loira, ela agora tinha alimentação fiscalizada na escola, em casa e até no trabalho. A Tizinha fez questão de que ela desse uma passada no Misturama para tomar um suco que tinha pepino, maça, couve, laranja e beterraba. Não era nem um pouco gostoso, mas Fatinha tomou tudo.

Assim a terça foi e a quarta-feira veio com tudo. Logo no primeiro horário teve um teste surpresa de Literatura, e Fatinha acreditava ter ido muito bem. Sônia anunciou uma prova de Polinômios que seria aplicada na semana seguinte, e Leandro pediu um trabalho sobre a importância da teoria da relatividade no mundo atual. A única parte tranquila da manhã foi Marcela dando aula de ioga, o que relaxou a todos – os que conseguiram se concentrar, é claro.

No Hostel também estava uma loucura. Um grupo de rapazes belgas havia chegado, eles passariam duas semanas conhecendo o Rio, e Fatinha ficou encarregada de organizar o roteiro deles.

Depois de quase duas horas, o roteiro estava montado.

Little Fátima, not only a beautiful girl but also clever. Impressive. You should come with us tonight and show your favorite night club. Fatinha, não só uma garota bonita, mas também inteligente. Impressionante. Você deveria vir conosco hoje à noite, e nos mostrar a sua boate favorita. –Disse Calvin, que parecia ser o líder do grupo.

Yes Little Fátima, come with us! Sim Fatinha, venha conosco. –Os outros concordaram.

Sorry guys, but I can’t. I have an appointment tonight, but I'm sure you'll love Rio de Janeiro. Desculpa rapazes, mas eu não posso. Eu tenho um compromisso hoje à noite, mas tenho certeza que vocês vão amar o Rio de Janeiro. –Ela disse.

Oh! We'll stay here for more two weeks, other nights will come. Nós ficaremos aqui por mais duas semanas, outras noites virão. –Disse Jaimie.

Os garotos se despediram e foram dar uma volta pelas redondezas.

Fatinha logo se distraiu dando informação para outros hóspedes e assim a tarde passou rapidamente.

–Bruno, eu estou pronta. –Ela anunciou.

Eram mais ou menos cinco e meia da tarde e os dois estavam terminando de organizar as coisas para ir ao hospital.

–Pegou todos os livros que você queria? –Ele perguntou.

–Peguei sim. –Ela respondeu mostrando a sacola cheia.

–Dom Casmurro? Você realmente acha que lá as crianças gostam de ler a esse ponto? –O moreno perguntou quando viu o livro.

–É um hospital para crianças e adolescentes. E além do mais, um pouco de Machado de Assis nunca fez mal a ninguém.

–Ok, ok. Vamos então?

–Vamos!

Os dois foram juntos para a garagem, e de lá para o hospital.

–Oi, meu nome é Maria de Fátima. Eu e o Bruno viemos aqui para ver as crianças. –A loira disse na recepção.

–O horário de visitas já acabou. –Respondeu a recepcionista os ignorando.

–Eu sei, mas a doutora Raquel nos convidou. –Fatinha explicou.

–Pois eu não fui informada de nada. –Disse a mulher.

–Algum problema? –Perguntou outra recepcionista que havia chegado.

–Apenas esses dois que não compreendem que o horário de visitas é de dez da manhã até as quatro da tarde.

–Nós não estamos aqui para fazer visitas. A doutora Raquel nos convidou a vir aqui hoje. –Fatinha explicou para a outra garota.

–Ah, vocês são Maria de Fátima e Bruno Menezes?

–Exatamente. –Bruno respondeu ignorando a confusão com os sobrenomes.

–Eu fui informada da vinda de vocês. A doutora Raquel no momento está ocupada, mas se vocês quiserem eu posso mostrar um pouco do local para vocês. –Disse a garota.

–Se não for muito incomodo. –Fatinha disse.

–Não será incomodo nenhum. Meu nome é Sofia, eu sou enfermeira e trabalho com a orientação dos voluntários, é o caso de vocês, certo?

–Exato. –Fatinha concordou.

–Pois bem, antes de nós começarmos o tour eu preciso dar algumas instruções básicas a vocês. Venham comigo, por favor.

Sofia os levou até o jardim de inverno do hospital.

–Primeiramente eu preciso alertar a vocês que a situação nos quartos não é das melhores. Se vocês sentirem que não vão conseguir, me falem. Eu particularmente acho um trabalho muito gratificante, mas vai do emocional de cada um. Outra coisa, como o horário é meio tarde, nada de brincadeiras muito agitadas, do contrário eles vão ficar acordados até tarde. Bom, acho que é só. Agora eu vou mostrar o lugar para vocês.

A garota mostrou boa parte do hospital para eles. O lugar era bem alegre, e equipado. Os funcionários também eram muito gentis, todos os cumprimentavam com um sorriso.

–Ali é a sala de quimioterapia, mas é de acesso restrito. –Disse ela.

–Sofia, preciso da sua ajuda. A Sarah perdeu o livro que ela estava lendo e está em pânico. –Uma mulher disse.

–Qual livro? –Perguntou Sofia.

–O “Alice no País das Maravilhas” que eu trouxe para cá. Ela não para de chorar, mesmo eu dizendo que não tem nenhum problema.

A mulher que falava era alta e morena. Ela usava um jaleco branco, e um crachá a identificava como “Doutora Karine S”.

–Hn, sem querer intrometer, eu tenho esse livro aqui. Se vocês quiserem podem dar para a garota. –Fatinha disse.

Foi só então que a médica percebeu que estava interrompendo uma visita.

–Peço desculpas por estar atrapalhando a visita de vocês. Fiquei tão nervosa com o desespero da Sarah que acabei esquecendo os meus... –A médica interrompeu a frase e abriu um sorriso surpreso. –Fatinha! Meu Deus, como você sumiu! Já faz uns três a quatro meses que você não vem aqui, estávamos todos preocupados com você.

–Calma aí, ela é a famosa tia Fatinha? –Sofia perguntou para a médica.

–A própria! Nossa Fatinha, mas a cada dia que passa você está mais linda. E você está grávida! Que surpresa boa, meus parabéns! –A tal Karine abraçou a loira.

Fatinha não estava entendendo nada, mas retribuiu o abraço.

–A famosa tia Fatinha? –Bruno questionou curioso.

–Ih meu querido, essa garota é famosa por aqui. Desde que ela começou a frequentar o hospital há uns dois anos atrás virou a queridinha de todos os pacientes, pais e funcionários. Depois de tudo o que aconteceu eu nunca imaginei que a Fatinha voltaria ao hospital para ajudar as outras crianças, mas na semana seguinte ela estava aí. –A médica disse orgulhosa.

–Depois de tudo o que aconteceu? –Bruno perguntou.

–É, você sabe, a história do...

–Fatinha! Bruno! –Raquel interrompeu o que a outra médica dizia. –Fico feliz que vocês tenham chegado. Pelo visto já conheceram a doutora Karine e a Sofia.

–Pois é aí que você se engana Raquel. Conheço a Fatinha já faz anos. Ela era a voluntária mais assídua daqui até três meses atrás. –A médica disse. –Vai me dizer que você nunca ouviu falar da tia Fatinha por esses corredores?

–A tia Fatinha é a Fatinha? –Raquel perguntou mudando a expressão na hora. –Karine, você já está sabendo que a Fatinha sofreu um acidente há alguns meses?

–Não estava sabendo. Foi por isso que você parou com as visitas? –A médica perguntou para a loira.

–Hn, eu... –Fatinha tentou explicar, mas foi interrompida por Raquel.

–A Fatinha está com amnésia desde que ela caiu da escada do meu prédio. Ela não se lembra de nada que aconteceu nos últimos dois anos e meio. –Raquel disse dando um olhar significativo para a outra médica.

–Ah. –Karine entendeu o que a outra quis dizer. –Bom, é uma pena. Espero que você se recupere logo.

Bruno percebeu a mudança no ambiente, e principalmente na médica que antes estava extremamente feliz, e agora já estava mais pensativa.

–E o livro da Sarah? Você realmente tem um aí Fatinha? –Sofia perguntou quebrando o clima desagradável.

–Tenho sim. Trouxe outros também. –A loira respondeu.

–Ótimo, então vamos até as crianças. –Sofia disse puxando a loira pelo braço.

Bruno foi atrás, mas não pode deixar de ouvir um pedaço da conversa entre as médicas que ficavam para trás.

–Raquel, então ela não se lembra do que aconteceu com o Francisco? –Karine perguntava.

No entanto, Bruno não pode ouvir a resposta. Algo de muito grave havia acontecido com o irmão de Fatinha, e pelo visto todos estavam escondendo isso da loira.

–Oi gente, queria apresentar a vocês a Fatinha e o Bruno. Eles vieram aqui para brincar com vocês. –Sofia anunciou assim que eles entraram em uma sala.

–Tia Fatinha! –Um menino que aparentava ter uns dez anos gritou e correu para abraça-la.

A loira retribuiu o abraço mesmo sem se lembrar do garoto.

–Essa não é a tia Fatinha, João. –Disse uma garotinha que não tinha mais de sete anos e estava agarrada a uma boneca de pano.

–É sim Clara! –O menino disse mostrando a língua para a outra.

–Não é não. A tia Fatinha não usa essas roupas feias que ela tá usando. E ela também não é gorda. –Clara disse apontando para a barriga protuberante da loira.

–Clarinha, essa é a tia Fatinha sim. E ela não está gorda, ela está esperando um neném. –Disse Karine que havia acabado de chegar com Raquel.

–Um neném de verdade? –O menino, João, perguntou assustado se afastando da loira.

–De verdade. –A médica respondeu.

–Eu posso ver esse neném? –Clara perguntou.

Como que por instinto Fatinha aproximou da garotinha e se ajoelhou em frente a ela.

–Ainda não dá para ver o neném, mas você pode sentir. –A loira disse pegando a mão de Clara e conduzindo até a barriga elevada.

–Sua barriga mexeu! –A menina disse assustada.

–Não é a minha barriga, e a Bia que está mexendo. –Fatinha explicou.

–Bia é o nome do seu neném? –João perguntou.

–É sim, quer senti-la mexendo? –Fatinha perguntou.

–Dói? –O garoto perguntou ressabiado.

–Nem um pouquinho. Vem sentir. –A loira convidou.

João se aproximou cauteloso, mas confiando no que Fatinha dizia colocou a mão sobre a barriga dela. As outras crianças observavam com curiosidade.

–Eu senti! É legal, pede ela para fazer de novo. –O garoto pediu.

E essa foi a deixa para que as outras três crianças quisessem sentir a Bia mexer. De repente Fatinha sentiu várias mãozinhas cobrindo a barriga quase toda, e a Bia como que se sentisse o que todos queriam, chutou algumas vezes.

–Crianças, a tia Fatinha não pode ficar muito tempo ajoelhada. Que tal se nós a deixássemos sentar ali no sofá, e todos vocês vão poder brincar com ela. –Raquel disse e as crianças concordaram.

Bruno que até então só observava a cena encantado, foi ajudar a loira a se levantar.

–A cada dia você me surpreende mais. –Ele disse para ela.

–Eu sou uma caixinha de surpresas baby. –Ela brincou, piscando para ele.

–Ei, quem é você e porque está encostando na tia Fatinha? –João perguntou bravo.

–Oi, eu sou o Bruno, namorado da Fatinha. –O moreno explicou para o garoto.

–Tia, você está namorando com esse feioso aí? –João perguntou para a loira.

–João, não chame o namorado dela de feio. –Sofia o repreendeu.

–Mas ele é feio! Eu sou muito mais eu. –O menino disse puxando Fatinha pela mão e a levando até o sofá.

Bruno só observava a cena tentando não rir.

–Ei, tio, não fica triste não. Se você quiser pode namorar comigo. –Uma garotinha disse puxando a calça dele.

Ela tinha uns cinco anos, e o único sinal da doença que ela carregava era o cabelo raspado. Na verdade, essa era uma característica comum a todas as crianças que estavam na sala.

–Ah é? E qual o seu nome princesa? –Ele perguntou carregando a menina.

–Meu nome é Isabela, mas você pode me chamar de princesa Bela. –A garotinha respondeu. –Quer brincar de colorir comigo?

–Eu vou adorar.

O chão era coberto com tapetes emborrachados, e Bruno se sentou enquanto Bela buscava os materiais de colorir. Depois de um tempo a brincadeira de sentir a Bia mexer começou a ficar sem graça, então algumas crianças foram colorir com Bruno enquanto algumas meninas brincavam de cabeleira com Fatinha. Até mesmo João, que não tinha ido com a cara do moreno estava colorindo também.

Depois de algum tempo Raquel voltou.

–Criançada agora é hora de se preparar para dormir.

As crianças não gostaram nem um pouco da ideia.

–Mas a gente tá brincando com o tio Bruno e com a tia Fatinha. –João protestou.

–Pois é, quanto mais rápido vocês se prepararem, mais rápido eles vão poder ler uma história para vocês. –Raquel disse.

As crianças saíram correndo para obedecer a médica, seguidas de algumas mães, e uma enfermeira.

–Vocês estão fazendo um trabalho incrível. –Raquel elogiou.

–Eu estou adorando estar aqui. Ah, eu trouxe alguns livros que eu queria deixar para as crianças lerem. –Fatinha disse mostrando a mochila carregada.

–Ótimo, vamos deixá-los no quarto. –A médica disse.

Os três foram até um quarto espaçoso, que abrigava mais ou menos dez camas. Uma delas estava ocupada por uma garota que não parecia estar muito bem. Ela era mais velha, provavelmente tinha quatorze, quinze anos.

–Oi Mari, hoje nós pegamos pesado com você na quimio não é? –Raquel disse. –Mas amanhã você estará se sentindo melhor. Ah, esses aqui são o Bruno e a Fatinha, eles estavam brincando com as crianças hoje. Daqui a pouco eles vão ler algumas histórias para elas, espero que não te incomode.

–Tudo bem. –Ela respondeu.

Fatinha estava colocando os livros onde Raquel tinha instruído quando ouviu a menina falar:

–Dom Casmurro? É o meu livro favorito. Você poderia trazer para mim?

–É claro. É um dos meus favoritos também. –Fatinha disse levando o livro para a garota. –Seu nome é Mariana?

–Mariane na verdade, mas eu prefiro ser chamada de Mari. –A garota respondeu sorrindo. –Qual a sua opinião, a Capitu traiu ou não o Bentinho?

–Honestamente, a parte romântica de mim se recusa a acreditar que a Capitu tenha sido capaz de enganá-lo.

–O próprio Bentinho se contradiz no decorrer da obra. –Mari concordou.

Enquanto as duas discutiam o grande dilema da literatura brasileira, Bruno terminou de organizar os livros tragos. E foi então que as crianças chegaram.

–Tio Bruno, eu quero ler uma história de aventura. –Gustavo pedia.

–Não, tem que ser um romance! –Protestou Isabela.

–Vocês já leram “O Pequeno Príncipe”? –Bruno perguntou.

–Não. –Eles responderam em coro.

–Pois então é isso que nós vamos ler hoje. –O moreno decidiu.

Todos se reuniram em um grande circulo no chão emborrachado. Até Mari deixou Dom Casmurro de lado para recordar um pouco da infância.

–Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre a Floresta Virgem, "Histórias Vividas", uma imponente gravura. Representava ela uma jiboia que engolia uma fera. Eis a cópia do desenho. –Bruno começou a ler, fazendo pausas para mostrar as ilustrações às crianças.

Assim, antes de chegarem à metade do livro, todas as crianças dormiam. Até mesmo Mari não tinha resistido à tentação do sono. Então, Bruno, com a instrução das mães, foi colocando cada criança em sua cama. Fatinha até queria ajudar, mas foi terminantemente proibida.

Eles se despediram de todos e prometeram voltar na quarta-feira seguinte.

Ao invés de ir direto para casa, eles passaram no Misturama para jantar. Ainda eram nove horas da noite, mas Fatinha estava exausta. Eles comeram, a loira foi obrigada a tomar novamente o suco potente da Tizinha, e depois eles foram para casa. Dormiram felizes, agradecendo pela oportunidade incrível que tiveram.

(...)

Era quinta-feira, e Fatinha terminava de fechar a conta de uma cliente.

–Oi Fatinha, eu sei que o seu turno acabou, mas eu preciso que você faça um favor para mim. –Michel pediu. –O Calvin disse que um dos rapazes perdeu uma chave, ela está em um chaveiro de macaco. Será que você poderia ir ao seu antigo quarto dar uma olhada para ver se uma das faxineiras não o encontrou e deixou por lá?

–É claro Michel.

A loira subiu até o quarto indicado e começou a procurar nos armários e gavetas. O cômodo inteiro era ocupado por materiais do Hostel, e também achados e perdidos.

Fatinha encontrou a chave em uma das gavetas, e quando a pegou viu que ela estava em cima de um caderno azul. Por curiosidade ela pegou o caderno, e viu que na capa estava escrito com letras infantis: Segredos da Maria.

Ela abriu um sorriso quando viu que a letra era de seu irmão, Francisco, e que o caderno guardava os segredos dela. Ela abriu e logo na primeira página viu uma foto dos dois, brincando na praia.

–Encontrou a chave Fatinha? –Michel perguntou, interrompendo o momento.

–Encontrei sim Michelito. Aqui está. –Ela entregou a chave para o gerente.

–Obrigado. E o que é esse caderno? –Ele perguntou curioso.

–Aparentemente são os meus segredos. Vou levar para casa e dar uma olhada. –Ela disse sorrindo.

Michel não entendeu muito bem o que ela quis dizer, mas deixou por isso mesmo.

Fatinha foi para casa, deixou o caderno no quarto e foi lanchar. Depois ela tomou um banho, e só quando estava se vestindo é que se lembrou do caderno.

–Hn, vamos ver quais são os meus segredos. –Ela pensou em voz alta.

Por alguns instantes a loira ficou olhando a fotografia colada na primeira página, sendo invadida por um momento nostálgico. Era a primeira vez que Francisco tinha ido à praia, e ele estava com muito medo do mar. Foi preciso muito esforço da parte dela para convencê-lo de que as ondas não o engoliriam.

Na segunda página ela encontrou um texto, que parecia ter sido escrito por Francisco, e decidiu lê-lo.

Tenho a melhor irmã do mundo, sabe? Sempre que paro para pensar nela sinto um orgulho enorme, porque ela é incrível. Quem me dera ser metade do que ela é.

Já faz alguns anos que eu comecei a reparar nas inúmeras vezes que ela esconde o que sente, deixa de fazer o que gosta e ainda coloca um sorriso no rosto, como se aquele dia fosse o mais feliz. É como uma estrela, daquelas que brilham muito mesmo, e para não machucar a vista dos que a cercam, prefere sufocar o seu potencial.

Ontem à noite ela me levou até o terraço do hospital para ver o céu. Ela sabe o quanto eu adoro isso. A minha irmã quer me ver feliz agora, porque no fundo ela sabe que... Bem, ontem à noite ela escondeu o choro para não me deixar triste. Eu já disse que ela é incrível?

Há três meses, quando a leucemia foi descoberta, todos ficaram arrasados. Mamãe só conseguia chorar e rezar, e o papai ficava recitando umas frases que não faziam o menor sentido para mim. Sabe o que a minha irmã fez? Ela veio até mim, e com um sorriso forçado no rosto explicou o que estava acontecendo. Ela disse assim: “Francisco você está doente, mas não precisa se preocupar porque no final tudo vai dar certo”.

No primeiro mês íamos ao Rio de Janeiro três vezes por semana para que eu pudesse fazer uma coisa chamada quimioterapia. Em alguns dias era o meu pai que me acompanhava e em outros a minha mãe, mas quando chegava a hora de fazer o tal procedimento eles sempre começavam a chorar, então a minha irmã entrava comigo e ficava lendo livros que a mamãe nos proibia de ler. E foi assim que eu comecei gostar das idas até o hospital. De todos os livros que ela leu para mim, Dom Casmurro foi o meu favorito. Ainda não consigo me decidir se acredito que a Capitu traiu ou não o Bentinho, mas isso não vem ao caso.

O meu cabelo começou a cair depois de algumas semanas e me disseram que eu teria que raspar a cabeça. Fiquei irritado com essa notícia, então a minha irmã disse: “É só cabelo Franz. Depois cresce de novo. Se você quiser eu raspo a minha cabeça também”. Por fim eu cedi, mas com a condição de que ela nunca raspasse o cabelo dela. Ela é linda de qualquer jeito, mas ficaria estranha careca. Eu gosto de exibir para os meus amigos aqui do hospital que eu tenho a irmã mais bonita.

Quando estava completando quase dois meses de quimioterapia, a minha médica, doutora Karine, me disse que o tratamento não estava funcionando então teríamos que partir para o transplante. Minha irmã doaria uma coisa que ela tem, chamada medula, para mim. A médica garantiu que isso não deixaria a minha irmã doente também, então eu concordei.

Eu já não estava muito bem antes da cirurgia, e depois acabei piorando. A doutora Karine me explicou que o meu corpo havia rejeitado a tal medula que minha irmã tinha doado. Foi só então que eu percebi a gravidade do que estava acontecendo, e por incrível que pareça não me importei tanto assim. Não entendo muito bem o que vai acontecer quando eu ficar doente demais, talvez seja aquela coisa de virar uma estrela que aconteceu com o vovô no ano passado. Eu quero virar uma estrela, parece tão legal.

Apesar de tudo eu tenho medo. Tenho medo de que a minha irmã nunca seja feliz de verdade. Medo de que ela continue fazendo o que esperam, como se casar com o Eriberto, por exemplo. Eu queria que ela descobrisse que é demais, que não desse tanta atenção às ordens do papai e que fizesse as coisas do jeito dela. Eu sou o irmão mais novo, mas sou mais esperto do que ela. Não, esperto não é a palavra que eu procuro. A enfermeira do hospital me disse que a palavra correta seria “maldoso”, ainda não acho que seja isso, mas se ela disse...

Maria, estou te dando esse caderninho para que quando eu virar uma estrela você ainda possa conversar comigo. Eu posso não ter te dito isso com muita frequência, mas você é a melhor irmã do mundo!

Beijos do seu irmão-estrela Francisco.

Ps: Francisco!!! Você sabe que eu odeio esse apelido de “Franz”

Quando Fatinha terminou de ler o que estava escrito, os olhos dela já transbordavam de lagrimas. De repente ela se viu inundada de várias lembranças.

–Franz! –Foi a única coisa que ela conseguiu falar naquele momento.

A voz saiu esganiçada, expressando uma dor inimaginável. Fatinha começou a chorar desesperadamente, e não havia ninguém em casa.

Notas finais
Final tenso. Comentários?