Coração Vago
22 Capítulo 21
"But of all these friends and lovers
There is no one compared with you
And these memories lose their meaning
When I think of love as something new"
In My Life — The Beatles
Ela estava se sentindo perdida de novo. Sem rumo. Pela segunda vez ela estava sem ter onde morar.
“Como é que eu consigo fazer tudo errado sempre?! Estava tudo indo tão bem!” –Ela pensava desnorteada.
–Injustiça cara. Eu não acredito que o Michel teve coragem de fazer isso comigo. Pô foi um acidente! –Fatinha estava revoltada. –Mas lógico, alguém tinha que pagar o pato. E tinha que ser quem? A Fatinha, como sempre.
As lágrimas escorriam pelo rosto dela sem nenhum controle.
–Foi mau cara, eu também tenho uma parcela de culpa nessa confusão toda. –O moreno disse.
–Pô Bruno, eu perdi meu trabalho, cara. Perdi o lugar que eu morava. Eu me ferrei.
–Você pode dormir aqui hoje.
Foi só ouvir as palavras do rapaz para que ela ficasse mais feliz. Ela iria dormir na casa dele, isso é um grande avanço!
–Com você ou com a Ju?
–Comigo, é claro. –Ele disse sorrindo com a mudança brusca de humor.
–Você lembra que há pouco tempo você me expulsou da sua casa?
–Só que agora as coisas são diferentes. Sou eu que estou te convidando. –Disse o moreno se aproximando dela e fazendo-lhe um carinho no rosto. –Vamos continuar de onde a gente parou?
Sem esperar uma resposta, Bruno beijou a loira. Inicialmente o beijo foi correspondido, mas Fatinha logo se lembrou das palavras da mãe.
–O quê que foi? –O moreno perguntou, estranhando o comportamento dela.
E de repente era como se toda aquela cena estivesse se repetindo:
“-Não, mas eu quero que ele fique só comigo. –Ela disse a mãe, que sorriu.
–Então meu amor, você tem que fazer uma coisa assim, que deixe ele com água na boca. Foi isso o que eu fiz com o seu pai, e deu certo. –Vilma aconselhou a filha. –Truque da vitrine.
–Truque da vitrine?”
–Ei, Fatinha o quê que foi? –Bruno perguntou preocupado, arrancando-a dos devaneios.
–Ai Bruno, sabe o quê que é... –Ela disse se afastando do abraço dele. –É que, sei lá, com tudo isso eu acho que perdi o clima.
O rapaz já estava de novo na frente dela, emaranhando os dedos pelos cabelos loiros da garota.
–Então eu te boto no clima de novo.
E como sempre, ela não conseguiu resistir a ele.
–Eu vou adorar passar a noite com você, gato.
Eles se beijaram, lentamente, mas para valer.
–Vem? –Ele perguntou, interrompendo o beijo mas não separando os lábios.
Fatinha assentiu, e de repente ela se viu abraçada por aquele moreno caminhando juntos para o quarto. Depois de toda aquela confusão no Hostel, ela se sentiu segura. Ela já não estava mais perdida.
Fatinha acordou em um turbilhão de sentimentos. A cabeça dela doía um pouco, deixando-a nauseada. Era provavelmente uma lembrança.
A loira tinha conversado com Lorenzo logo depois de ter se lembrado de Dinho, e ele havia dito de que isso era um ótimo sinal. Aos poucos ela recuperaria a memória, e seria normal uma dor de cabeça leve.
Sabendo disso Fatinha levantou e foi direto para o chuveiro. Um bom banho era tudo o que ela precisava para ficar bem.
Quando Bruno acordou Fatinha ainda estava no banho, então ele aproveitou para dar uma adiantada no café da manhã.
–Que droga de calça! –A loira resmungava saindo do banheiro, alheia a presença do rapaz.
–Bom dia Fatinha! Dormiu comigo? –Bruno perguntou brincalhão.
Fatinha corou lembrando-se do sonho/lembrança. Era quase como se ela tivesse dormido com ele mesmo.
–Bom dia Bruno.
–Posso saber do que a senhorita tanto reclama? –Ele perguntou.
–Mais uma calça que não me serve. Isso porque não faz nem dois meses que eu comprei. Estou me sentindo uma baleia encalhada. –Ela disse indo até a cozinha. –Nossa, que cheiro delicioso! Estou morrendo de fome.
–E quando é que você não está? –Bruno disse, e a garota mostrou a língua. –Estou tentando fazer panquecas.
–Tentando parece se encaixar perfeitamente no contexto. –Ela disse quando viu a panqueca toda quebrada na frigideira.
–Se for para esnobar a minha panqueca pode voltar para as suas reclamações. Para quem estava “morrendo de fome” você é muito exigente.
–Blá, blá,blá... Ótimo Bruno, agora passa essa panqueca para cá! –Fatinha ordenou indicando o prato.
–Insuportável! Só passo por causa da Bia, do contrário comeria tudo na sua frente sem dividir um pedacinho sequer.
–Nossa, que maldade. Nem parece o cara todo politicamente correto do C.R.A.U.
–Falando em C.R.A.U. acabou que eu não te contei ontem, mas nós estamos organizando um evento para esse final de semana. Vamos ajudar na pintura do ambulatório infantil da Balaiada.
–Legal, mas o que é a Balaiada?
–A Balaiada é uma comunidade que tem aqui no Rio de Janeiro. A creche e o ambulatório foram construídos com o dinheiro da doação de dois holandeses que ficaram hospedados no Hostel. Até onde eu sei você os convenceu a financiar a construção.
–Eu? –Fatinha perguntou surpresa. –Impossível!
–É mais pura verdade. A Raquel disse que te contratou para ser a guia deles na comunidade, mas no final você foi quem fez todo o trabalho de convencer os caras.
–A Raquel, minha médica?
–A própria. Ela trabalha com uma ONG aqui no Rio.
–Nossa, que legal. Quero participar desse evento que vocês estão promovendo.
–Vai ser nesse final de semana. Não vamos chamar muita gente para não virar bagunça. De fora do C.R.A.U. só estão indo a Ju e o Gil.
–Vi uns trabalhos do Gil aqui na rua e fiquei impressionada! Ele grafita muito bem.
–É exatamente por isso que nós estamos convidando ele. De pintura o C.R.A.U. não entende nada.
Fatinha sentou a mesa e foi seguida por Bruno.
–Você disse que foram dois projetos financiados pelos holandeses, uma creche e um ambulatório infantil, certo? –Ela perguntou e ele confirmou. –Nós vamos pintar a creche também?
–Não, a creche já está pronta. Teve festa de inauguração e tudo.
–Sério? E eu fui à festa? Como foi?
–Você foi à festa sim. –Ele respondeu estranho.
–E a festa foi boa?
–Hn, digamos que não terminou muito bem para nós. –Bruno disse resumido. –Dormiu bem de ontem para hoje?
Fatinha percebeu que o assunto o incomodava e preferiu aceitar a mudança no foco da conversa.
–Dormi sim. Ah! Falando nisso eu me lembrei de outra coisa.
Bruno ficou tenso.
–Do que você se lembrou?
–Eu me lembrei da noite do incêndio no Hostel. –Ela disse e ele ficou aliviado.
–Aquele dia foi muito engraçado.
–Engraçado? –Ela estranhou o adjetivo usado por ele. –Qual é a graça em me ver desempregada e sem teto?
–Olhando por esse ângulo não tem graça nenhuma, mas toda a situação foi cômica.
–Seu senso de humor é distorcido. –Ela disse rindo. –E o que aconteceu depois?
–Depois quando?
–Eu só me lembrei de quando nós estávamos no apartamento dos seus pais, e que eu ia dormir lá. –Fatinha ficou corada e preferiu não aprofundar no assunto. –Quero saber o que aconteceu no dia seguinte, onde eu fiquei morando, quando eu fui recontratada, esse tipo de coisa.
–Então, o dia seguinte não foi dos melhores. Resumindo, nós brigamos e você foi embora. Pelo que a Ju me disse você morou uns tempos lá na Penha com a Rosa e o Pilha.
–Engraçado como parece que nós sempre brigamos no dia seguinte. –Ela comentou, lembrando do comentário da Ana. –E o Vitor?
–O que tem o Vitor? –Bruno perguntou irritado. Porque ela sempre tinha que colocar o motoqueiro na história?
–Ele mora na casa do Pilha, ué. –Ela disse como se fosse óbvio.
–Ah! Tudo isso é pré-Vitor. Ele ainda não fazia parte da história. –Ele esclareceu.
Eles ficaram conversando por um bom tempo até que deu a hora de Fatinha ir para o colégio.
(...)
Bruno andava pela Faculdade, indo até o seu campus quando viu a Ana.
–Nélio, Rasta, vão na frente. Tenho um assunto para resolver com aquela garota. –O moreno disse para os amigos.
–Vê lá o que você vai fazer Brunão. –Rasta disse.
–Só vou conversar com ela, não se preocupem. –Ele disse.
Ana quando viu o ex caminhando em sua direção, abriu um sorriso.
–E aí Bruno, saiu o resultado do teste de paternidade?
–Não fala besteira Ana. –Ele a cortou, mas ela ignorou.
–Eu te disse várias vezes que a Fatinha é uma piriguete, mas você não quis me escutar. Diz aí, veio atrás de mim por arrependimento?
–O único arrependimento que eu tenho foi ter pedido tanto tempo da minha vida namorando você. –Bruno disse irritado.
–Nossa Bruno, também não é para tanto. –Disse Ana, assustada com a seriedade do rapaz.
–Não é para tanto?! Você tem noção de que ontem você ofendeu uma mulher grávida e que está com amnésia?
–Amnésia? Uau, ela está dando o golpe direitinho ein?!
Bruno perdeu a paciência e segurou a ex pelo braço.
–Ana, presta bastante atenção no que eu vou te falar porque eu não vou repetir. O que eu tenho ou deixo de ter com a Fatinha não é da sua conta. Você não é mais minha namorada, nem minha amiga e muito menos companheira do C.R.A.U., então, por favor, esquece que um dia você me conheceu. E se você ousar se aproximar da Fatinha, mesmo que seja para dar “bom dia” você vai se ver comigo.
–Você está me ameaçando, Bruno? –Ela perguntou assustada.
–Entenda como quiser, o meu recado está dado.
Dito isso Bruno saiu deixando a ex em estado de choque. Ele foi até a sala de aula tentando controlar a raiva que sentia. Desde ontem ele estava com várias coisas entaladas na garganta, só esperando o momento certo para serem ditas. O que tinha salvado Ana na noite anterior, é que ele queria poupar Fatinha de mais estresse.
Não que ele entendesse muito bem o motivo, mas ele tinha que protegê-la. Era uma necessidade que ele sentia desde que aquele relacionamento confuso havia começado, e agora, Fatinha parecia mais vulnerável que nunca. Bruno estava descobrindo um lado que ele nunca imaginou existir na piriguete. Essa Fatinha de agora era perfeita. Inteligente, bem humorada e prestativa, ela agora poderia ser a namorada perfeita.
A única coisa que Bruno não percebia era que tanto essa Fatinha quanto a outra, eram a mesma pessoa. E que por mais que em algumas coisas elas não se parecessem, no fim a história ainda era a mesma. Com ou sem memória ela sempre seria a Maria de Fátima, porque no fundo a própria Fatinha ainda não sabia quem ela era.
Notas finais
Gostaram? Comentem, por favor.
Ps: BruTinha is back!!! Amei a cena na lama!
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