"Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens"

Tempo Perdido — Legião Urbana

Sabe aquele momento em que o mundo inteiro parece parar? Quando você perde a noção de tempo e espaço de tal maneira que se o planeta saísse da órbita terrestre você sequer notaria? É aquele momento crucial. O seu coração para e respirar se torna dispensável.

Bem, Fatinha estava implorando para que aquele momento nunca chegasse ao fim.

Bruno colocou a mão sobre a bochecha dela, fazendo carinho, e ela se entregou ao toque fechando os olhos.

–Fatinha. –Ele disse em um suspiro.

O moreno com a outra mão enlaçou a cintura da garota, colando os corpos.

Infelizmente, como o que é bom dura pouco, a campinha tocou naquele instante. O clima foi quebrado, embora nenhum dos dois tivesse movido. A pessoa na porta insistiu e Bruno foi até lá.

–Mãe? Pai? –Bruno estava surpreso aos ver os pais na porta.

–Oi filho, tentei convencer a sua mãe a adiar a visita mas não deu muito certo. –Olavo se explicou.

–Qual a necessidade de adiarmos? Nós moramos no mesmo prédio e até hoje não conheci a sua casa e a minha nora. –Marta disse entrando no apartamento.

Fatinha estava constrangida com a situação, mas logo deu um passo a frente para cumprimentar a visitante.

–Mãe, essa é a Fatinha, que não é sua nora. Fatinha, essa é minha mãe, Marta e Olavo, o meu pai. –Bruno fez as apresentações.

Marta foi até a loira e a puxou para um abraço apertado.

–Estou a dias querendo te conhecer. Olha como ela é linda, Olavo! –Marta disse, deixando a loira envergonhada.

–Realmente, você é muito bonita. É um prazer conhecê-la. –Olavo disse a garota.

–Obrigada. E o prazer é todo meu em conhecer vocês. –Ela respondeu, educada.

Fatinha foi analisada de todos os ângulos por Marta, que queria se certificar se a gravidez já era aparente ou não.

–Nossa, mas você é tão magrinha! A barriga nem cresceu direito ainda. –Ela comentou, colocando a mão sobre o abdômen da loira. –Nossa, mas já está durinha. Não sei se o Bruno chegou a comentar com você, mas estou muito feliz com essa criança. Você está se sentindo bem? Já tem data prevista para o parto?

–Mãe, você está sufocando ela com as suas perguntas. –Bruno repreendeu.

–Peço desculpas querida, estou tão feliz por te conhecer. –Marta se desculpou, abraçando-a novamente.

–Não é preciso se desculpar. Vocês já jantaram? –Ela perguntou e eles negaram. –Porque não se juntam a nós então?

–É muito gentil da sua parte nos convidar Maria de Fátima, mas não é preciso se incomodar. –Olavo falou.

–Não é nenhum incomodo. Espero que vocês gostem de estrogonofe. –A loira disse.

–E acima de tudo é educada. Estou encantada com essa garota, Bruno. Posso levar para casa? –Marta perguntou ao filho, brincalhona.

–A Fatinha é ótima mesmo. –Bruno concordou, deixando a loira corada. –Mãe e pai, jantem conosco. Tem comida o suficiente para todos.

–Bom, já que vocês insistem. –Marta disse aceitando o convite. –Fatinha, espero que você não se importe, mas tenho várias perguntas a te fazer.

–Claro, deixa eu só terminar de por a mesa, certo? –Ela pediu.

–Nisso eu posso te ajudar.

As duas foram até a cozinha, e em menos de um minuto a mesa estava posta.

–Hn, nossa você cozinha muito bem! –Olavo a elogiou.

–Realmente, este estrogonofe está delicioso. –Marta concordou.

–Obrigada, receita da minha mãe.

–É Fatinha, até que essa comida tá boazinha. –Bruno disse. –Mas o meu macarrão é muito melhor.

–Já fez a macarronada? –Olavo perguntou espantado. –Fatinha, sinto lhe decepcionar, mas macarronada é a única coisa que o Bruno sabe fazer, então não se empolgue muito.

–Que mentira! Eu sei fazer outras coisas. –O moreno argumentou.

–Miojo e pipoca de micro-ondas não conta. –Marta o cortou.

–Só por isso amanhã eu vou fazer um prato especial. –Ele prometeu.

–Fatinha, eu vou fazer comida a mais amanhã, então você não precisa comer a gororoba que o meu filho fizer. Apartamento 301, tá?! –A mãe disse brincando.

–Pode deixar. –Ela concordou.

Bruno e Olavo começaram a conversar sobre a faculdade, e Marta aproveitou a deixa para encher Fatinha de perguntas. Estas variavam desde “o que você comeu no café da manhã?” até “você prefere o parto normal ou cesariana?”.

Fatinha estava confusa, e a cada dia mais ela percebia que nada sabia sobre uma gestação. Nos filmes só era mostrado os vômitos e enjoos, mas muita coisa era deixada de fora.

Marta foi percebendo o desespero que consumia a garota e fez todo o possível para tranquilizá-la.

A essa altura o jantar já havia chegado ao fim, e os homens foram para a cozinha lavar a louça. A loira sequer pode protestar, pois Marta a arrastou para o sofá para continuar a conversa.

–Pode parecer muita coisa de uma só vez, e realmente é. Mas tenha certeza que vai ser muito mais fácil se você confiar em mim. Digo isso por experiência própria, afinal, a concepção do Bruno não foi planejada.

–Sério? –Fatinha perguntou surpresa.

–Entendo a sua surpresa, mas na verdade naquela época ter um filho era praticamente impossível para mim. Não sei se você sabe, mas eu trabalhava como modelo, e ainda nem era casada com o Olavo. No início foi um choque gigantesco, eu só conseguia chorar e pensar em como a minha carreira estava arruinada, e admito que fiquei assim durantes os três primeiros meses de gestação.

–E quando tudo mudou?

–Quando? Na minha primeira ultrassonografia e acho que você sabe o por que. –Marta falou, deixando Fatinha confusa. –Sim, eu vi o vídeo da sua ultra e devo dizer que me emocionei tanto quanto na dos meus próprios filhos. É incrível pensar que existe uma outra vida dentro de você.

–Ai Marta, eu acho que aquele foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Eu sentia tudo ao mesmo tempo: medo, insegurança, desespero, mas ao mesmo tempo eu estava tão feliz que a minha vontade era abraçar todo aquele hospital. –Fatinha contou sentindo os olhos marejarem. –Só de lembrar já me dá uma vontade enorme de chorar.

–Pois se acostume, durante a gestação tudo o que nós sentimos tem um impacto três vezes maior.

–Acho que eu sei do que você está falando.

As duas trocaram olhares de cumplicidade e riram.

–Agora me diz, qual a sua maior dúvida? –Marta perguntou.

–Acredito que a minha maior dúvida se confunda com o meu maior medo. Embora eu saiba que estou grávida, eu costumo me esquecer, como se tudo não passasse de um grande sonho sabe? Não é palpável.

–Ih Fatinha, essa é uma das coisas mais comuns. Mesmo que a gravidez seja planejada, a sua ficha só vai cair mesmo depois do nascimento da criança. Vai ser só então que você vai se sentir responsável por outra vida de uma maneira inimaginável.

–Mas e se ela ou ele chorar durante a noite e eu não acordar? –Fatinha perguntou temerosa.

–Pois tenha certeza de que você acordará. É uma das coisas mais estranhas, mas você acordará até mesmo sem o bebê chorar. A coisa mais comum nos primeiros meses é você se pegar levantando no meio da noite para ver se está tudo certo com o neném. Porque talvez a coberta tenha caído durante a noite, ou a chupeta não está mais na boca dele. Ou simplesmente para ver se ele ainda está lá, do jeitinho que você deixou.

Fatinha estava sem palavras. As lágrimas já tinham escorrido, sem permissão, há alguns instantes. Ela aproveitou o momento e abraçou Marta com força, um abraço repleto de sentimentos.

Quando Olavo e Bruno voltaram para a sala, encontraram Fatinha com a blusa parcialmente levantada, enquanto Marta acariciava a barriga pouco aparente.

Foi então que Bruno percebeu o formato levemente arredondado da barriga da loira, e naquele instante o coração dele se encheu de orgulho.

–Eu gosto de Davi. –Marta falava. –Significa “o amado”, sabia?

–É um nome bonito. –Fatinha concordou.

–Porque vocês estão escolhendo nomes de menino para a minha neta? –Olavo perguntou. –É perda de tempo, porque eu tenho certeza que é uma menina.

–Pois eu tenho certeza que é um menino. –Marta falou, contrariando o marido. –Outro nome que eu gosto muito é Arthur.

–Para de bobagem Marta! Fatinha, eu gosto de nomes fortes como Geórgia. –Olavo falou.

–Nem pensar! Se for uma menina ela com certeza não vai chamar Geórgia.

–Pois vamos resolver isso agora. Fatinha, você acha que é uma menina ou um menino? –Olavo perguntou.

–Eu? –A loira estava encurralada. –Eu não acho nada. Tudo o que eu sei é que nós vamos ter muito tempo para escolher o nome.

Bruno tinha uma leve noção do que estava acontecendo ao seu redor, mas a única coisa na qual ele conseguia se concentrar era naquela barriguinha saliente. De repente ele se pegou imaginando uma menininha, quase que uma cópia fiel da mãe. A pele clara, os cabelos lisos e um sorriso contagiante. Seria perfeito.

Fatinha que já estava há algum tempo tentando esconder o sono, acabou bocejando. Foi só então que Marta e Olavo perceberam o tardar da hora.

–Já alugamos você demais por hoje né?! –A mulher disse. –Está na hora de nós irmos para casa e deixar você descansar.

Fatinha se desculpou pelo cansaço, e se despediu dos pais do moreno com um abraço. Eles eram realmente legais.

Depois que eles foram embora, a loira desejou uma boa noite a Bruno e foi se preparar para dormir.

(...)

Fatinha estava encostada na parede do Misturama, deixando as lágrimas escorrerem. Ela sentia uma dor tão forte no peito, somada ao arrependimento. Ela havia sido impulsiva novamente e tinha se humilhado na frente dele por nada.

–Conte-me. –Disse Dinho, o seu melhor amigo.

–Ah Dinho, como eu consigo fazer sempre tudo errado? –Ela desabafou.

–Vem cá. –O garoto disse puxando-a para um abraço.

Eles ficaram assim por algum tempo, até Fatinha se acalmar.

–Eu sou muito ridícula mesmo. –Ela dizia. –Me esfolei toda por causa de um buquê e enquanto isso a lambisgóia foi e ficou com o Bruno. Ah, é sempre assim: eu pago o mico e ela leva a melhor. Vai ver que ela está certa mesmo, eu sou terceira divisão. Amadora.

–Que isso Fatinha? Vem cá, eu não to nem te reconhecendo. Você vai realmente entregar os pontos para aqueles dois babacas? –Dinho perguntou indignado. –Olha aqui, a Fatinha que eu conheço ia voltar para aquela festa, causar bonito e pegar geral.

–Foi você mesmo que disse que não era para eu sair pegando geral por causa do Bruno.

–Por causa do Bruno, sim. Agora, para você se divertir você pode e deve beijar a boca de quem você quiser.

–Qual é a graça? Eu quero mesmo é beijar o Bruno.

Dinho ficou irritado.

–Olha Fatinha, eu não aguento mais você ficar se humilhando por causa desse cara.

–Eu também não, eu estou exausta. Mas cara, não dá. Eu não consigo parar de pensar nele. –Ela limpou uma lágrima. –Vai ver que... que é porque ele... ah, você sabe.

–Eu sei o que? –Dinho perguntou confuso.

Fatinha olhou para o amigo e viu que ele realmente não sabia do que ela estava falando.

–Ah...porque ele foi o meu primeiro. –Ela confessou, constrangida.

–Como é que é? –Dinho estava abismado. –Calma aí Fatinha. Você era virgem?

–É. –Ela confirmou.

–Caraca. –Ele estava chocado. –Fatinha você é muito mais maluca do que eu imaginava.

–É como se eu tivesse me guardado a vida toda para ele, ai quando rolou... Eu pensei mesmo que ele fosse o cara. Mas só que o que foi importante para mim, não teve a mínima importância para ele.

Dinho estava puto.

–Fatinha, esse cara está te usando, será que você não vê isso?

–Eu vejo! Eu vejo e eu deixo. Ai Dinho, sei lá, quando eu estou com ele eu fico tão feliz, que eu não me importo se ele está me usando ou não. –Ela confessou. –Depois a gente se fala tá?

Fatinha foi para o Hostel. A festa, para ela, já tinha acabado há tempos.

A loira acordou suada, com os olhos cheios de lágrimas não derramadas.

–Dinho. –Ela murmurou em um suspiro.

Notas finais
Oi pessoas lindas do meu coração. Por incrível que pareça eu tive uma dificuldade enorme para escrever esse capítulo, por isso a demora.
Enfim, mereço comentários?