Coração Gelado 2

12 O Peso das Páginas Arrancadas


Quando Alec e Renata cruzaram a porta do apartamento, Jane já os aguardava. A sala de estar fora sutilmente reorganizada, os móveis pesados foram empurrados contra as paredes para desimpedir a área central. No canto mais escuro, acomodado no divã, Maximilian repousava com os braços abertos sobre o encosto e um sorriso indolente nos lábios, observando a entrada dos dois com indisfarçável expectativa.

Jane, que estava no centro do cômodo como uma estátua de mármore, girou a cabeça devagar. Seus olhos rubros avaliaram a proximidade de Alec e Renata, a cadência sincronizada de seus passos e o modo sutil como o ombro dele quase roçava o dela. Internamente, a vampira questionava-se como haviam chegado àquela formação de grupo tão estranha. Apesar de ter ouvido a explicação simplista de Alec no hotel, sabia que existiam lacunas profundas naquela história. Ele queria encontrar o amor, e a escudeira buscava o mesmo, seria aquilo apenas uma coincidência conveniente?

— Sem o nome e a estrutura dos Volturi para nos blindar, cada um de nós precisa ser autossuficiente – declarou Jane, a voz cortante como uma lâmina. – Renata, seu escudo é poderoso, mas você o utiliza como uma concha. Se um inimigo souber como contorná-lo, você será um alvo fácil.

Renata sentiu os ombros ficarem tensos. A presença de Jane ainda carregava a sombra da autoridade suprema, mas ela sustentou seu olhar sem recuar um único milímetro.

Com um gesto mínimo de queixo, Jane indicou o vampiro no divã:

— A partir de hoje, durante as horas de sol, Maximilian vai lhe ensinar o básico de combate corpo a corpo. Você vai aprender a se posicionar, a esquivar, a reagir sob dor e a matar, se for necessário. – Ela pausou, notando a sombra de hesitação que cruzou as feições de Renata. – Ele ensinou Alec a lutar. Maximilian é imprevisível, fluido e criativo. É o mais qualificado do grupo para desconstruir seus maus hábitos.

Maximilian inclinou a cabeça, o sorriso dilatando-se diante do elogio de Jane. Renata engoliu em seco, mas não protestou. Compreendia a lógica por trás do comando porque refletira sobre aquilo durante a travessia do Canal da Mancha. Sabia que, se permanecesse dependente apenas de sua habilidade, seria o elo fraco da corrente. E, pior: cedo ou tarde, sua vulnerabilidade forçaria Alec a se expor para protegê-la, uma roleta-russa com a existência dele que ela jamais permitiria.

— Começamos agora – anunciou Maximilian, erguendo-se com a fluidez preguiçosa de um grande predador. Ele desabotoou o casaco e o jogou de qualquer jeito sobre a poltrona. – Sem dons. Apenas braços, pernas e tempo de reação.

Jane retirou-se para o cômodo adjacente com passos silenciosos, deixando a porta entreaberta. Alec, no entanto, permaneceu. não se moveu. Ele encostou-se ao parapeito da janela fechada, os braços cruzados sobre o peito em uma postura rígida, os olhos fixos em cada cena que se desenhava no centro da sala.

Durante as horas de sol, enquanto a vida humana pulsava ruidosa do lado de fora das pesadas cortinas, o espaço transformou-se em uma arena silenciosa. Maximilian começou praticando esquivas lentas, acelerando o ritmo gradualmente para que ela assimilasse o peso do próprio corpo em movimento e ganhasse confiança. Quando julgou que a mecânica básica fora absorvida, o camaleão recuou para uma investida ensaiada, testando o bloqueio primário de Renata em um cenário real.

Ele assumiu a postura de ataque. E bastou aquele simples movimento para que os instintos de autopreservação de Renata apitassem em sua mente como sirenes de emergência.

Ela tentou focar na técnica, forçando a mente a manter seu poder inerte. No entanto, quando Maximilian avançou, o corpo da vampira reagiu antes da razão: seus braços projetaram-se à frente com as palmas abertas e a barreira invisível disparou em um pulso violento e incontrolável.

O escudo atingiu o atacante em cheio, desviando a trajetória da investida de forma tão brutal que pareceu uma distorção da gravidade. Em um segundo, Maximilian corria contra ela, e, no outro, seus pés mudaram de curso e seu punho atingiu com um estalo seco o rosto de Alec, que observava a metros dali.

Alec foi projetado contra a janela, a cabeça estalando contra o vidro e o fazendo trincar. Ele piscou, surpreso pela força do impacto desferido sem aviso, enquanto Maximilian permanecia congelado, encarando a própria mão com o semblante atordoado de quem não entendia como a física acabara de traí-lo.

— Você me bateu, seu desgraçado! – rosnou Alec, ajeitando o maxilar com um estalo incisivo, os olhos faiscando enquanto ponderava se devolvia o golpe.

— Não era para acertar você! Foi o escudo dela! – defendeu-se Maximilian rapidamente, levantando as mãos enquanto lutava desesperadamente para sufocar o riso.

— Me desculpe! Me desculpe, a culpa foi minha! – interveio Renata, colocando-se entre os dois com as mãos erguidas, o rosto queimando de constrangimento. – Não consegui manter o escudo baixo… Qualquer aproximação com intenção de ataque faz o escudo rebater automaticamente.

— Vamos tentar de novo!

Alec massageou a ponte do nariz, os olhos cerrados na direção do camaleão, que já retornava à posição de treino sem o menor resquício de remorso.

— Tudo bem – murmurou Renata, fechando os olhos por um segundo. Ela tentou mentalizar o próprio dom como algo palpável, empurrando-o para o fundo da mente com uma força de vontade férrea, trancando-o como se estivesse em um cofre de chumbo. Quando reabriu os olhos, o olhar era pura determinação. – Estou pronta.

Maximilian avançou. Desta vez, sem o escudo, o impacto da realidade foi fulminante. O camaleão capturou o pulso de Renata, girou o tronco e aproveitou o próprio impulso da vampira para desequilibrá-la. O som seco e pesado das costas dela colidindo contra o assoalho de madeira ecoou pelo apartamento.

— Guarda baixa – pontuou Maximilian, a voz neutra, estendendo a mão para ajudá-la.

Renata recusou a mão. Levantou-se sozinha em um único movimento, com a graciosidade frustrada de um predador dominado. Suas roupas estavam desalinhadas, os cabelos escuros caindo em desordem sobre o rosto. Ela limpou a poeira invisível dos braços, os dentes cravados no lábio inferior, e olhou para o canto da sala.

Alec a observava. Ele não sorria, mas a intensidade naquele olhar não era de julgamento, era de uma compreensão absoluta e dolorosa. Ele conhecia perfeitamente a sensação de ser despojado de seu poder, conhecia o desconforto de sentir-se vulnerável na própria pele. Com um inclinar imperceptível de cabeça, Alec deu a ela um incentivo mudo. Respire. Continue.

Renata engoliu a frustração, fincou os pés no piso de madeira e levantou os punhos novamente.

Pelas horas seguintes, a sala virou um teatro de impactos. Renata foi derrubada dezenas de vezes. Maximilian não a poupou das quedas brutais, forçando-a a ler a massa corporal do adversário, ajustar o centro de gravidade e antecipar a intenção do golpe antes que ele nascesse.

— Chega por hoje – decretou o camaleão finalmente, alinhando as dobras das roupas. – Seu corpo está assimilando os reflexos. Você é rápida e tem determinação, vai pegar o jeito em breve…

Maximilian apanhou seu casaco e, com uma piscadela cúmplice para o casal, recolheu-se para o cômodo interno onde Jane permanecia. O clique suave da fechadura deixou a sala mergulhada em um silêncio denso, quebrado apenas pelos ruídos abafados da cidade humana lá fora.

Renata soltou o ar ruidosamente, deixando o corpo deslizar até o chão, sentando-se com os joelhos dobrados e os braços apoiados sobre eles. A franja bagunçada emoldurava uma expressão de puro e belo cansaço.

Alec desencostou-se do parapeito e aproximou-se. A caminhada era silenciosa, uma presença calculada e graciosa. Ele não se sentou de imediato, em vez disso, permaneceu de pé, contemplando o movimento cadenciado de sua respiração simulada.

— Você foi muito bem – disse ele, a voz calma rompendo o silêncio da sala.

— Eu fui arremessada contra o chão dezessete vezes, Alec – rebateu ela, soltando uma risada curta e sem humor, mordendo o lábio inferior. – Se nossa carne não fosse dura como diamante, eu seria um monte de ossos quebrados agora.

Alec a estudou com atenção. Apesar dos impactos brutais, a pele dela continuava imaculada, límpida, sem um único arranhão. Renata ergueu o rosto, os olhos de um vermelho vivo brilhando após a acidez de seus fluídos ter corroído as lentes de contato de disfarce. Alec cedeu à atração magnética e sentou-se ao lado dela, cruzando as pernas no chão duro.

— Às vezes – começou ele, a voz caindo para um tom pensativo –, eu me pergunto como é ter lembranças de quando se era fraco. De quando se era humano.

Renata inclinou a cabeça, franzindo a testa delicadamente.

— Do que você está falando?

O vampiro levantou as mãos, encarando as próprias palmas. A pouca luz que passava pelas frestas das cortinas fazia-o parecer uma escultura etérea, com sua beleza eternizada e a austeridade de quem foi moldado para ser um deus da morte.

— Quando estávamos na ponte, você me falou sobre as convenções humanas e sobre como eles vivem. Eu já tentei buscar na minha mente qualquer vestígio da minha primeira vida... De quando eu era apenas um garoto em uma aldeia esquecida. Mas não há nada lá. – A confissão veio plana, desprovida de autopiedade, o que a tornava tragicamente mais profunda.

Renata prendeu a respiração.

— Nada? Nem uma imagem desfocada? Um rosto, um nome, o som de uma voz?

— Nada – repetiu Alec, balançando a cabeça devagar. – O meu poder não serve apenas para desligar os sentidos dos meus inimigos. Acredito que, quando fui queimado e transformado, a intensidade do meu poder apagou tudo o que existia dentro de mim. O que consigo resgatar são farpas tão pequenas que sequer podem ser chamadas de memórias. Minha existência é um livro cujas primeiras páginas foram arrancadas antes que eu pudesse lê-las.

Um aperto doloroso e gelado cravou-se no peito de Renata. Ela sempre soube que os gêmeos carregavam traumas sombrios de sua criação, mas jamais imaginara que, por trás daquela armadura invencível, existia alguém cuja identidade fora devorada pelo próprio poder. Saber que Alec passara séculos como um recipiente vazio, preenchido exclusivamente pela doutrina e pela violência dos Volturi, era uma constatação devastadora.

O silêncio que se seguiu pesou como chumbo. Alec repousou as mãos sobre os joelhos, fechando-as devagar em punhos contidos. E foi nesse instante que uma compreensão iluminou a mente de Renata.

Ela se lembrou do beijo furtivo no quarto em Volterra, quando ele a procurara em segredo para entender o amor. Lembrou-se do passeio de mãos dadas pelas ruas de Paris na noite anterior, de quando ele confessara ter sentido tristeza em Londres e alegria em Dover, e da forma como ele a olhara quando ela disse que eles haviam sido perfeitos atuando como casal.

Tudo o que Alec conhecia de vívido, tudo o que registrou como verdadeiro, afetivo e humano na imortalidade não vinha de seu passado esquecido, mas do presente que construíam juntos. Ela fora o ponto de partida de suas emoções. Ela era a responsável por cada uma de suas "primeiras vezes".

Um brilho intenso e resoluto tomou conta dos olhos vermelhos da escudeira ao encará-lo.

— As páginas do passado podem ter sido arrancadas, Alec – sussurrou ela, girando o corpo para ficar de frente para ele –, mas as do presente estão sendo escritas agora.

Ele ergueu o olhar, hipnotizado pela firmeza dela.

— O que quer dizer?

— Que nós vamos escrever cada linha a partir de agora – declarou Renata, com uma convicção que fez o ar entre eles vibrar. – Se você não tem memórias do que ficou para trás, nós vamos construir o seu presente. Cada passo, cada cidade, cada nova sensação... Eu vou garantir que nunca mais se esqueça!

Alec sustentou o olhar dela por longos segundos, o contorno rígido de seus lábios cedendo aos sorrisos raros que só pareciam surgir diante dela.

— Então este é realmente um recomeço – murmurou ele.

Renata ergueu a mão e espalmou-a com delicadeza contra sua bochecha. Alec fechou os olhos ao sentir o toque, inclinando o rosto contra a palma dela, entregando-se sem reservas à sensação de ser tocado não por dever, dor ou batalha, mas por simples gentileza.

Naquele apartamento silencioso de Paris, entre o crepúsculo que se aproximava e as marcas deixadas pelo treinamento, o executor inabalável de Volterra percebeu que, pela primeira vez em toda a sua imortalidade, o livro de sua vida começava a ser preenchido com as palavras mais bonitas que ele jamais ousara aprender. E era Renata quem segurava a caneta.

“Você é o meu recomeço”, pensou ele, guardando aquele instante para que jamais fosse apagado.