Coração Gelado 2
13 Forjada na Prática
Uma semana inteira havia se passado desde o início do treinamento. Sete dias em que o apartamento se convertera em uma arena impiedosa de estalos, quedas secas e madeira rangendo. A reclamação dos vizinhos do andar inferior fora inevitável, é claro; mas nada que o charme de Maximilian, uma camuflagem bem colocada e uma desculpa conveniente sobre reformas não pudessem resolver.
A sala de estar não tinha qualquer vestígio de sua elegância inicial. Os móveis continuavam contra os cantos do cômodo, cobertos por uma camada fina de poeira e o assoalho, riscado pelas solas dos sapatos, ganhara pequenas rachaduras nos pontos onde a força dos vampiros testava o limite da madeira antiga.
Para Renata, a evolução não fora rápida nem indolor. Porém, ao fim daqueles sete dias, seus reflexos haviam melhorado e ela aprendeu a manter seu poder controlado até o último segundo em que se fazia necessário. Maximilian ainda era um oponente inatingível, mas o modo como seu corpo reagia à ameaça mudou drasticamente.
— De novo – ordenou Maximilian.
O camaleão estava descalço, as mangas da camisa de linho dobradas até os cotovelos e os cabelos levemente bagunçados. Do divã, Jane apreciava o espetáculo de sua beleza sem qualquer pudor. Maximilian não possuía a rigidez mecânica de um lutador formal, sua técnica fora moldada por séculos de improviso, intuição e puros instintos de sobrevivência.
— Você aprendeu o básico do combate, mas ainda pensa demais antes de reagir – pontuou ele, circulando-a lentamente. – Se você esperar a minha mão chegar perto do seu rosto para então decidir o que fazer com as pernas, sua cabeça já terá sido arrancada do pescoço. Precisamos moldar o seu estilo agora, algo que flua da sua própria natureza, com rapidez e sem esforço.
Renata manteve a postura. Seus pés estavam alinhados na largura dos ombros, os joelhos ligeiramente flexionados, o centro de gravidade rebaixado como Maximilian repetira incansavelmente ao longo de toda a semana. Seus olhos acompanhavam cada passo do instrutor.
— Você precisa ser mais ofensiva para que a sua defesa funcione. Então o que faremos com você? – continuou ele, pensativo, dando mais uma volta ao redor dela. Jane notou o brilho em seu rosto, o mesmo que demonstrava ao desenhar. Renata era uma tela em branco em suas mãos, e Maximilian estava prestes a fazer arte. – O que geralmente acontece quando você bloqueia o ataque de alguém? O adversário fica desestabilizado, surpreso e vulnerável. É exatamente nesse segundo, quando ele rebate contra o escudo, que você precisa entrar com o seu próprio golpe físico.
Maximilian parou diante da escudeira e se aproximou um passo. Ele a encarou com a contemplação de um artista diante de sua tela.
— E vamos usar suas qualidades naturais como armas.
— Qualidades? – questionou Renata, arqueando uma sobrancelha.
— Você é bonita, Renata, e atrai olhares sem precisar dizer uma palavra. Podemos transformar a sua atração natural no seu maior trunfo – revelou o camaleão, um sorriso de canto nascendo em seus lábios. – Num combate, qualquer vampiro se foca no perigo iminente. Se você parecer frágil, se usar um sorriso, uma hesitação calculada no olhar ou uma leve inclinação de pescoço, o seu oponente baixará a guarda. Ele vai achar que venceu antes mesmo de golpear. E essa falsa confiança é o que vai matá-lo.
Renata piscou, digerindo a proposta. Ela sabia o valor da própria beleza e já usara seu encanto para conseguir favores e pequenos luxos em Volterra, mas jamais cogitara usar a sedução num contexto tão aleatório como uma batalha. A ideia era fascinante.
De seu posto habitual junto à janela, Alec não moveu um único músculo. Seus braços continuavam cruzados sobre o peito na imagem viva da compostura, mas, por dentro, o vampiro sentia que algo estava saindo dos trilhos. Assim que o elogio escapou da boca de Maximilian, o ar ao seu redor pareceu despencar vários graus.
Durante toda aquela semana, Alec assistira ao treino em silêncio. Ele viu Renata cair, levantar-se, ajustar os pés e aprimorar a defesa. Viu seu corpo ganhar experiência e uma coordenação impecável. Porém, também viu Maximilian ensiná-la, corrigi-la e tocá-la.
Maximilian segurava os ombros dela para corrigir a postura, movia suas mãos no ar, tocava a curva de sua cintura para explicar como o tronco deveria rotacionar durante uma esquina. Para qualquer observador racional, era pura instrução física, e até Jane parecia indiferente ao contato. Mas para Alec, cada vez que os dedos do camaleão roçavam a pele ou o tecido da roupa de Renata, um ardor incômodo subia por sua garganta, algo diferente de sua sede.
Ao consultar o catálogo de emoções guardadas em sua mente, o vampiro buscou o termo para aquela turbulência sufocante nas entranhas. Não era raiva, porque este sentimento ele conhecia bem; era um impulso mais vulgar, territorial e possessivo, um desejo sombrio de afastar qualquer outro homem de perto dela.
“Ciúmes”, concluiu em pensamento.
A palavra soou amarga, quase venenosa, em sua mente.
De seu lugar, Jane nem sequer precisava olhar para o irmão para saber o que se passava. A vampira apoia o queixo na mão, divertindo-se com o alto contraste entre a aparente calma e a aura de tensão que emanava dele. Apesar de Alec não confessar nada, estava claro que havia uma tempestade acontecendo dentro dele.
— Veja bem... – continuou Maximilian, dando mais um passo à frente até que a distância entre ele e Renata fosse reduzida a quase nada. – Se um inimigo encurtar o espaço assim, o seu instinto imediato é acionar o escudo. Mas e se você usar essa proximidade a seu favor? Se você olhar nos olhos dele e inclinar o rosto como se estivesse rendida, o cérebro dele vai registrar que a batalha acabou e não que você seria capaz de revidar.
Maximilian colocou as mãos sobre os ombros de Renata, deslizando-as para a curva de seu pescoço e ajustando o ângulo de sua cabeça, como um profissional ajeitando a pose de uma modelo.
— A distração perfeita – sussurrou ele. – O oponente vem com força total, você sustenta o seu charme até o último segundo. Deixe-o te subestimar. Você aciona o escudo no momento do ataque e, quando for repelido, você o golpeia.
Renata absorveu a lição, completamente atenta, sentindo a lógica por trás das palavras.
— Entendi. O escudo absorve a investida e me garante a brecha para o contragolpe.
— Exatamente. E sempre dê preferência para rasgar a garganta, entendeu? Quanto antes eliminar a ameaça, melhores são suas chances de sobreviver. – instruiu o camaleão, mantendo ainda as mãos sobre o pescoço dela. – A fluidez é tudo. Seu charme e escudo são naturais de você, então deixe a intuição guiá-la. Você entendeu a mecânica dos golpes, mas não pense em lutar como eu ou Alec. Lute como uma mulher que sabe o poder que possui.
— Nada mal – comentou Jane do divã, com voz suave. Era o mais próximo que a vampira chegaria de elogiá-la. – Acho que funcionará muito bem na prática.
— Eu sou mesmo um artista, não sou? – gabou-se Maximilian, afastando-se finalmente de Renata e abrindo os braços em uma reverência cômica. Jane permitiu-se soltar um riso baixo diante de sua exibição. – Nas próximas práticas, faremos isso sob pressão real. Vamos repetir até que a sedução e o contra-ataque sejam um reflexo!
— Certo! – respondeu Renata, a expectativa brilhando em seu tom de voz enquanto ajustava a postura e inclinava a cabeça num gesto de respeito sincero.
A atmosfera leve, porém, durou pouco. Antes que Renata levantasse a cabeça ou devolvesse o sorriso a Maximilian, o som pesado dos passos de Alec chamaram a atenção. Ignorando o olhar divertido de Jane, ele caminhou até o centro do espaço e parou exatamente entre o camaleão e a escudeira, erguendo um muro invisível para impedir que voltassem a se aproximar.
— Vamos testar – decretou Alec, a voz firme e inflexível.
— Chega por hoje, Alec. Fizemos isso o dia todo, vamos sair e nos divertir – interveio Maximilian, descontraído.
— Vamos testar agora – interrompeu o gêmeo, sem desviar o olhar do rosto de Renata. – Se a técnica se baseia na distração do adversário, ela precisa funcionar contra alguém que não vai vacilar diante de um sorriso.
Renata sustentou o olhar dele, sentindo uma faísca de desafio inflamar seu peito. Após uma semana inteira atuando apenas como espectador, Alec finalmente decidiu entrar no ringue com ela. Em Volterra, o simples olhar dele a aterrorizava, mas ali, naquele novo cenário, ela seria capaz de desarmá-lo? A sedução funcionaria contra um vampiro de elite como ele?
— Estou pronta – concordou Renata, dando um passo à frente.
— Excelente! Vamos em frente então – murmurou Maximilian, dando-se por vencido. Ele caminhou até o divã e jogou-se sobre o estofado ao lado de Jane.
Jane inclinou-se ligeiramente para a frente, a atenção cravada nos dois vampiros ao centro.
Alec parou a dois metros de Renata. Não adotou uma postura de combate tradicional, porque uma ameaça real raramente anunciava sua chegada. No entanto, após séculos observando os Volturi, Renata sabia ler os sinais: cada músculo contraído sob a camisa de malha, a atmosfera vibrando ao seu redor, e seu próprio escudo reagindo, pressentindo a ameaça.
— Não espere que eu pegue leve como o Maximilian – alertou Alec, a voz descendo um tom. – Se você falhar, eu vou imobilizá-la antes que consiga piscar.
— Eu não pedi para você pegar leve – respondeu Renata, a voz surpreendentemente suave.
Ela não recuou. Em vez disso, relaxou os braços e desfez a postura rígida que mantivera durante todo o treino. Fechou a distância entre eles com dois passos lentos, desprovidos de qualquer intenção agressiva. Suas feições, antes concentradas na técnica, suavizaram-se em uma expressão doce, quase vulnerável.
Renata parou a meio metro de Alec e ergueu o rosto devagar, permitindo que a luz tênue da janela destacasse o tom profundo de seus olhos vermelhos. Inclinou a cabeça de leve, os lábios entreabertos, a mão direita subindo devagar até pousar na dobra de seu cotovelo, como se buscasse apoio.
— Você realmente acha que conseguiria me machucar, Alec? – sussurrou ela, umedecendo o lábio inferior e atraindo o olhar dele para o gesto.
A voz dela, carregada de doçura e dúvida, teve o efeito de um veneno paralisante. Alec travou. Seu instinto predatório vacilou diante da proximidade do corpo dela, do perfume adocicado que emanava de sua pele e da curva desprotegida do seu pescoço.
Ali não existia mais o lutador letal ou o predador implacável. Havia apenas um homem completamente desarmado pela mulher que jurara proteger.
O piscar de seus olhos foi um segundo mais lento do que o normal. Alec trincou os dentes, tentando desesperadamente retomar o controle, mas a hesitação dele, mínima e quase imperceptível, foi tudo de que Renata precisava.
A fragilidade evaporou do rosto feminino no segundo instante seguinte. Quebrando a trégua silenciosa, ela desferiu um gancho de direita diretamente em seu baço. Alec tentou reagir, a mão direita disparando para capturar o pulso feminino e imobilizá-la antes que a armadilha se fechasse, porém ele estava atrasado.
A ponta de seus dedos sequer roçou a pele dela. A intenção de ataque colidiu com o escudo invisível de Renata, que ergueu-se a milímetros de sua pele. O movimento de Alec ricocheteou, repelindo seu braço para trás com violência, desestabilizando-o e abrindo a guarda do seu peito.
E Renata não hesitou.
Com os pés firmes no chão, ela girou o quadril e cravou a mão espalmada contra o peito de Alec, empurrando-o com todo o peso do seu corpo enquanto cruzava a perna por trás de seu tornozelo, fazendo-o tropeçar.
Ao perder o ponto de apoio, Alec caiu de costas, num tombo pesado e ruidoso. Antes que ele pudesse processar a própria queda, Renata projetou-se sobre ele rapidamente, posicionando um joelho de cada lado de seu corpo, prendendo seus pulsos contra o chão e agarrando a pele de seu pescoço com os dentes, numa simulação de ataque letal.
Alec sentiu o corpo inteiro estremecer com a aproximação repentina de sua jugular.
No início, o silêncio foi absoluto. Logo depois, a gargalhada de Maximilian retumbou pelo cômodo. Jane ergueu levemente as sobrancelhas, impressionada. O camaleão bateu palmas, completamente encantado com o espetáculo.
— Incrível! Funcionou perfeitamente! – exclamou ele, apontando para os dois no chão.
Alec não ouvia mais nada. O som do mundo simplesmente desaparecera. Tudo o que existia para ele era o peso do corpo de Renata sobre o seu, a pressão dos joelhos dela contra suas coxas e o toque firme de seus caninos roçando a pele do seu pescoço. A respiração de Renata atingia a sua pele em rajadas curtas e vitoriosas, e quando ela ergueu o rosto para encará-lo, seus olhos brilhavam de triunfo.
— Eu disse que tinha alguns truques na manga – sussurrou ela, baixando o tom de voz para que apenas ele ouvisse. – Dessa vez, eu consegui pegar você.
Alec continuava imóvel. Sua derrota deveria ter trazido raiva, mas tudo o que sentia era um ardor desorientador no peito, não pelo impacto contra o chão, mas pela sensação dos dentes dela em seu pescoço. Ele não sabia como descrever aquilo, não conseguia etiquetar o que sentia. O arrepio que atravessou o seu corpo foi por medo de ser ferido, ou pela expectativa de que ela realmente o fizesse?
Ele respirou fundo, desfazendo a expressão de choque e relaxando o corpo. Soltou uma risada curta, enquanto apoiava-se em seus cotovelos e içava o tronco do chão.
— Isso foi trapaça. Você sequer me deixou atacar – murmurou ele, uma mistura de admiração e fascínio brincando em seus olhos.
— Maximilian disse para usar minhas qualidades naturais – rebateu ela. – Hoje eu aprendi que a sedução é uma arma válida. E você mesmo admitiu que também gosta de trapacear.
— Você é uma boa aprendiz – concluiu Alec, e um sorriso de canto curvou seus lábios. – Quero uma revanche, e não pretendo cair nesse truque duas vezes.
Renata sorriu, vitoriosa, e levantou-se em um único movimento, estendendo a mão para ajudá-lo. Alec encarou a mão estendida e permitiu que ela o puxasse para cima.
— O treinamento deu bons resultados – declarou Jane, deslizando para fora do divã. – Se me dão licença, eu preciso caçar…
Ela fez um sinal discreto para Maximilian que, percebendo a eletricidade estranha que pairava no ar entre os outros dois vampiros, a seguiu.
— Acho uma excelente ideia, tem algo nesse ambiente fazendo minha garganta queimar – alegou, soltando um riso abafado.
A porta do apartamento se fechou com um estalo suave, deixando Alec e Renata completamente a sós. Como acontecia em todo entardecer, a luz alaranjada filtrava-se com esforço pelas frestas das pesadas cortinas. Renata caminhou até a janela, afastando o tecido o suficiente para observar a rua lá embaixo, onde os postes de luz começaram a acender um a um.
Alec aproximou-se de suas costas, ficando tão perto que ela podia sentir o aroma adocicado e denso de sua presença.
— O que você sentiu quando caiu? – perguntou ela em tom vitorioso e debochado, virando a cabeça ligeiramente para olhá-lo por cima do ombro. – Qual foi a sensação de ser dominado por mim?
— Frustração – admitiu prontamente, usando uma das palavras que conhecia bem. – Mas também orgulho. Você foi muito bem, usou sua inteligência e charme para virar o jogo. Se continuar assim, em breve não precisará mais de mim para protegê-la…
Renata girou o corpo devagar, surpresa com a conclusão dele. Ela conseguiria afastar-se dele e seguir sozinha? Talvez retornar para sua família em Malta? Ela sentia saudade de casa e, apesar de não saber se ele falava sério, aquela ideia não a desagradava.
A expressão de Alec logo chamou sua atenção. Ele não parecia totalmente calmo e havia uma tensão diferente em seus ombros.
— O que estava acontecendo na sua cabeça, Alec?
Ele deu um suspiro fraco, sentindo-se incapaz de mentir, como se a vampira novamente usasse sua habilidade de arrancar as palavras mais inusitadas de sua boca.
— Eu não gostei – confessou.
— Não gostou de perder? – questionou ela, dando um sorriso travesso.
— Não. Não gostei do jeito que Maximilian olhava para você – admitiu sem rodeios e sem desviar os olhos dos dela. – Quando ele disse que você era bonita, quando ele te elogiou, quando ele colocou as mãos no seu pescoço para arrumar sua postura… Eu não gostei!
Renata piscou, surpresa. A brincadeira sumiu de seu rosto, dando lugar a uma curiosidade profunda.
— Maximilian estava só ensinando, Alec. É o jeito dele…
— Eu sei. Eu tentei pensar sobre isso de forma prática, mas não funcionou – continuou ele, dando mais um passo na direção dela e encurtando o espaço entre os dois. – Eu sei o que isso é, mas não gostei. É uma emoção ruim.
— Pode ser bem ruim mesmo – concordou ela, deixando escapar uma risada curta. – Mas também significa outra coisa, que você se importa comigo. Significa que você não me vê só como um dever ou como uma missão…
Alec encarou os lábios de Renata e depois olhou fundo nos olhos dela.
— Sim, eu me importo – admitiu, a voz descendo um tom.
Renata ficou surpresa com sua franqueza.
— Você não precisa ter ciúmes – continuou, subindo o olhar novamente. – Nem dele, nem de ninguém. Se eu estou aqui, se eu passei por tudo o que passei, foi por causa da sua promessa, Alec. Foi somente por sua causa.
Alec encarou o rosto dela, deitando a cabeça levemente para o lado esquerdo, absorvendo cada detalhe daquela declaração.
A proximidade entre eles era tanta que a vampira não sabia para onde olhar além dele. Seus olhos passaram de seu rosto para o pescoço, como se fossem atraídos por um ímã, percebendo que não havia ficado uma única marca de sua “falsa mordida” no local.
— Você confia em mim?
— Confio.
— Mesmo? – insistiu.
— Por que a pergunta?
— Nada. – Sorriu. – Foi apenas uma coisa que me passou pela cabeça…
Renata colocou as mãos atrás das costas e caminhou em direção à saída como se o assunto não tivesse importância, deixando o clima carregado de expectativa.
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