Coração Gelado 2
4 Caminhos que se Afastam
— Comprou a tinta com que dinheiro? – Questiona Maximilian, sentando-se ao lado de Jane sobre a grama e permitindo que seus braços se tocassem no processo. Alec estava logo à frente, em pé e recostado numa imensa árvore.
— Gastei o dinheiro de Volterra – comenta despreocupadamente. Seus dedos estavam vermelhos devido ao uso do spray, e ele ainda não tinha descoberto como faria para limpá-los, visto que era a primeira vez em sua existência que precisou usar tinta.
— Eu pensei que, a essa altura, o cartão roubado já estaria cancelado…
— Deveria estar. Heidi costuma ser excepcional em seu trabalho. Algo deve estar acontecendo em Volterra para gerar tamanho descuido… – Emenda Jane casualmente, fazendo Alec pressionar levemente os lábios diante de sua teoria.
Depois de caminharem o restante da noite em direção a Dover, os vampiros buscaram refúgio na reserva natural de Randall Wood, que ficava no meio do caminho, um local seguro para se esconderem da luz do sol e caçarem, se houvesse necessidade.
O lugar era calmo e agradável, dando a Alec a sensação de já ter feito aquilo antes, de apreciar a natureza e a forma com que os raios solares penetravam os galhos das árvores. Ele caminhou lentamente em direção a um desses fachos de luz, estendendo a mão para ela e observando a forma como refletia em sua pele imortal.
Em Volterra, tal comportamento era proibido, mas ali, no silêncio e na tranquilidade de Randall Wood, Alec contemplou a beleza de sua pele com muita atenção e, por apenas alguns segundos, ele compreendeu o motivo dos Cullens viverem à sua própria maneira, junto aos humanos e fazendo coisas que antes pareciam triviais: a existência em liberdade era muito mais interessante que as penumbras do castelo Volturi.
Com mais um passo, o vampiro posicionou o rosto sob o facho de luz, fechando os olhos para sentir o calor do sol, instintivamente pensando nos detalhes de seu complexo plano. Sua atenção logo se voltou para as pontas dos dedos manchados de tinta. Sua última pista para Renata fora deixada no Big Ben, e agora os seus caminhos se afastavam ainda mais, sem que ele tivesse a certeza de que ela o seguiria.
Por um momento, Alec se perguntou se estava fazendo a coisa certa, se realmente importava deixar uma trilha quando não havia a certeza de sua vinda. E se, apesar da vontade, Renata não tivesse coragem para fugir? E se ela não viesse? O único a fazer um voto foi ele; a escudeira nunca prometeu nada…
— Que droga eu estou fazendo, afinal? – Questiona em pensamento, sentindo-se meio idiota por fazer tudo aquilo, por se dedicar e gastar tanta energia mental naquele minucioso plano. Uma parte de sua mente estava chateada com a possibilidade de fazer tudo aquilo em vão, com a chance de Renata nunca aparecer.
— O que pensa em colocar na próxima pista? – Pergunta Maximilian, retirando-o de seus devaneios. – Achei isso tudo bastante curioso, toda essa coisa de fazer uma trilha… Você é mais inteligente do que parece, pequeno Alec.
— É claro que sou! Não sou um certo alguém, cujo plano genial foi entrar no clã mais poderoso do mundo sem saber nada sobre ele; e depois retornar diante dos líderes mesmo sendo jurado de morte, só para se gabar que estava levando sua vampira favorita embora.
— Ha, ha, ha, muito engraçado! – Resmunga o camaleão vagarosamente, entendendo a referência e fazendo Alec soltar uma risada nasalada. Jane também sorri, lembrando-se daqueles momentos com exatidão, apesar de não ter achado graça quando tudo aquilo aconteceu. – E então? O que colocará na próxima pista? – Reforça a pergunta.
— Versos de um poema – responde vagamente, perguntando-se se precisava mesmo haver uma próxima pista e até quando deveria deixar um rastro de sua passagem. Em breve, a pista do Big Ben se perderia para sempre, o início de seu rastro esfriaria e nenhum esforço a partir disso geraria resultado.
— Será que ela terá coragem de fugir? Porque… Bem, existe uma grande diferença entre querer e fazer acontecer. Querer é sempre fácil, mas agir exige esforço e, às vezes, sacrifício.
— Não sei responder a essa pergunta – diz Alec com sinceridade, irritando-se com a insistência de Maximilian naquele assunto, quando ele próprio tentava não se importar com a decisão que a Volturi tomaria.
— Renata sempre me pareceu boa demais para ficar naquele lugar.
— Se com “boa” você quer dizer “fraca”, então tenho de concordar com sua opinião – resmunga Jane, finalmente participando daquela conversa tão estranha. Ela tinha uma tendência natural a não gostar de vampiros inabilidosos ou que demonstrasse fraqueza, e sempre considerou a escudeira de Aro como um joker num baralho: só tinha serventia em alguns jogos, mas era inútil na maior parte do tempo.
— Não sei dizer se era fraca. Ela sempre foi bem discreta e, com exceção dos banquetes, eu nunca a vi em ação… – Comenta Maximilian como uma curiosidade, fazendo Alec pensar a respeito e tentar se lembrar como era o seu comportamento durante os banquetes em Volterra.
Ele não se lembrava de tê-la visto nenhuma vez. Apesar de pertencerem ao mesmo clã e morarem no mesmo castelo, seus mundos eram divididos entre ataque e defesa, entre os soldados de campo e os soldadinhos que nunca deixavam o castelo. Alec nunca olhou ou se preocupou com nada além de seu trabalho, seu grupo e sua irmã, anestesiando-se para qualquer outra coisa.
Ao se dar conta disso, uma careta de desagrado contorceu o seu rosto perfeitamente belo. Já não bastava não ter lembranças concretas de seu passado? Ele também tinha que passar por sua segunda vida sem criar memórias? É claro que se lembrava de todas as batalhas que travou, dos jogos de tortura e de todos os vampiros que fez tremer de medo ao lado de Jane. Porém, além disso, o que havia? A resposta era nada, não havia mais nada… Sua segunda vida estava passando e se tornando tão vazia de recordações quanto o seu passado humano.
O vampiro se aborrece com tal raciocínio, desejando, por um milésimo de segundo, poder voltar no tempo para ver Renata em ação, somente para prestar atenção nas coisas que ignorou, para ver atentamente a atuação de seu escudo, a sua postura diante do perigo ou como se comportava ao caçar…
— Não acho que ela seja fraca – sussurra Alec de seu lugar, tentando parecer casual, mas logo percebendo o quanto tudo aquilo soou esquisito.
— Na verdade – continua Maximilian –, quando disse que era “boa” me referia ao seu modo de agir. É difícil de explicar, mas… Renata nunca me pareceu como os outros, nunca demonstrou ter aquela ambição pelo poder ou aquele orgulho de ser uma Volturi.
— É, ela realmente nunca teve – concorda Alec em pensamento, dando um sorriso torto ao se lembrar que as ambições de Renata eram outras, que apesar de ser membro do clã italiano há anos, ela nunca deixou sua humanidade escapar por entre os seus dedos, nunca se tornou um deles. Ela queria sair e conhecer o amor, queria viver num mundo com mais cores e fazer algo de sua própria vontade, somente para variar.
Era por não se parecer com eles que o gêmeo buscava crer em sua força de vontade, acreditando que aquele não era o seu lugar, que logo ela fugiria e se juntaria a ele na procura pelo amor.
Alec ergueu o rosto para o céu quando o assunto de repente mudou, voltando-se para a lista de atividades que eles haviam feito na Inglaterra. Seus olhos se fecharam enquanto o facho de luz solar cintilava em sua pele, e no campo da mente ele podia imaginar as expressões de Jane diante daquela conversa, podia ver claramente o revirar de seus olhos ou suas tentativas frustradas de conter um sorriso quando Maximilian falava alguma bobagem.
Eles formavam um bom casal e, aos poucos, estavam criando lembranças felizes juntos. Pensar nisso fez com que o gêmeo se sentisse sozinho, como se uma parte de seu coração congelado, a parte destinada ao amor de uma companheira, clamasse por um pouco de calor.
— Jane, você acha que eu também posso encontrar alguém para amar? – Pergunta de súbito, interrompendo o tagarelar de Maximilian e os pegando de surpresa.
Alec abre os olhos na intenção de procurar pela irmã, percebendo que ela já estava ali, à sua frente, analisando-o com um misto de perplexidade e curiosidade. Sua gêmea havia encontrado alguém para amar, alguém que a correspondia e que desejava estar sempre ao seu lado. Contudo, será que ele conseguiria o mesmo?
— É isso o que você quer? – Pergunta ela, vendo um resquício de tristeza atravessar os olhos dele.
— Sim – responde com firmeza, percebendo que a irmã estava avaliando suas feições e medindo suas palavras, imensamente curiosa com o motivo de sua pergunta.
— Então sim… Você pode fazer qualquer coisa, Alec.
O vampiro sorriu com gentileza ao olhar para a íris da irmã, vermelha como o sangue. Sua beleza juvenil era doce e encantadora, apesar de os olhos e a personalidade serem o seu completo oposto, letais e assustadores. Porém, olhando para ela, Alec se perguntou se as pessoas também o viam daquela forma, como alguém bonito e encantador.
Será que alguém ousaria gostar dele? Será que alguém o amaria sendo quem era? Apesar de ter preferências quanto ao que vestia, ele nunca se preocupou com sua aparência até aquele momento e tampouco cogitou que um dia desejaria ser amado.
Jane leu a incerteza em seu rosto e sua mão direita cruzou o vazio em direção à dele, envolvendo-o em um aperto forte que tentava transmitir tudo o que se passava em sua mente naquele momento.
— Lembra o que eu disse sobre sentimentos e emoções serem ruins, e sobre a humanidade ser um sinal de fraqueza? – Perguntou, fazendo Alec confirmar a informação com a cabeça. – Esqueça tudo! Eu estava errada… Seja apenas você mesmo, Alec, e tudo dará certo.
Fale com o autor