—Eu sinto muito, senhora. —Um dos guardas lamenta assim que entro na cela. Ele se retira infeliz ao me ver presa, todavia nada faz para me salvar.

Eu então ando lentamente até a cama improvisada e desconfortável e lá, ao me sentar, começo a chorar despreparada sem ter noticiais de Hur.

—Por favor, Deus de Israel! Faça com que Hur fuja sem mim! —Rogo abraçando-me infeliz por estar sozinha e presa.

Flash Back On

—Eu não aguento ficar mais neste palácio, Hur. —Falo. —Acho melhor eu me preparar enquanto você se despede de Uri.

—Tem certeza de que quer partir agora mesmo? —Hur pergunta aparentemente nervoso.

—Agora mesmo. —Respondo e antes de me separar de Hur o abraço forte como nunca abracei antes. —Isso não é uma despedida já que em breve iremos partir juntos.

—Claro. —Hur concorda e em seguida beija uma de minhas mãos. —Eu não irei demorar, meu amor...

Flash Back Off

Era de fato uma despedida incomum. Ao lembrar que Hur me prometeu em não demorar, passo a chorar ainda mais. Eu não mais irei ver os meus filhos, muito menos irei ver Hur. Se alguém pudesse me tirar daqui o mais rápido possível... Mas quem? Ninguém poderá me ajudar já que Ramsés me vê como uma ameaça ao sair do palácio.

—Que o Deus de Moisés envie o libertador para mim. —Falo infeliz ao me deitar desconfortável. Passo a chorar ainda mais forte ao me dar conta que ninguém será capaz de me tirar daqui. Quem seria a pessoa insana em enfrentar Ramsés por mim?

(...)

—Princesa? —Ouço Leila me chamar e então desperto sonolenta. —Pelos deuses! O que aconteceu?

—Hur fugiu? Ele se foi? —Pergunto aflita e sinto uma dor enorme em minhas costas ao levantar da cama.

—Meu sogro quase se encontrou com o rei quando soube que a senhora foi presa. —Leila fala. —Mas eu o convenci em partir e garanto que não foi nada fácil.

—O rei não perguntou sobre Anippe e Djoser?

—O rei soube que os filhos da senhora fugiram assim como meu sogro. —Me assusto com a revelação de Leila. —E ele não se importou.

—Não?

—De forma alguma. —Leila responde. —Mas eu não estou me sentindo a vontade com o que está acontecendo. —Leila fala com uma certa desconfiança. —Agora sou dama de companhia de Yunet.

—Ela está te maltratando? —Pergunto e o silêncio de Leila me responde. —Eu sinto muito, minha amiga. —Lamento abraçada a Yunet.

—Mas o que mais me assusta é quem está para chegar no palácio.

—Quem? —Pergunto surpresa. —Yunet nos surpreendeu ao voltar e Anippe também!

—Parece que o príncipe Gab voltará para o Egito a pedido do rei, senhora. —Leila me surpreende ainda mais. —O faraó exigiu que ele voltasse para o palácio.

—Mas Gab não tem mais nada para fazer aqui!

—Eu também não entendi direito! —Leila fala assustada. —Mas o faraó pediu para que preparassem um grande banquete para quando o príncipe chegasse.

—Ramsés está louco! —Falo ainda mais surpresa. —Me traga notícias de Hur e meus filhos, Leila!

—Pode deixar, princesa.

—Sabe se alguma nova praga já se abateu sobre o Egito?

—Nada de anormal até agora. —Leila fala e olha para o guarda que pede para que ela saia. —Tente se alimentar.

—Não posso. —Falo para sua surpresa. —Yunet pode envenenar minha comida.

—Pelo amor que tem aos seus filhos, senhora! Se alimente ou morrerá de fome! —Leila pede aflita. —Gahiji lhe trará algo pessoalmente...

—Mas...

—Por favor! —Leila insiste. —Meu sogro e seus filhos esperam pela senhora!

—Me traga notícias sobre eles. É o que te peço... —Falo antes de Leila se retirar e me deixar sozinha novamente.

(...)

Por sorte Hur não pensou em desistir. Imagino como seria se ele tivesse ido até Ramsés pedindo pela minha liberdade, certamente meu irmão o expulsaria ou cometeria algo ainda mais grave contra o pai de meus filhos. Mas por sorte Hur partiu sem mim com a plena certeza de que o mais importante era os nossos filhos. Na vila ele será bem acolhido pela família de Leila e Joquebede, até mesmo Moisés me prometeu que iria cuidar de Anippe e Djoser. Meus filhos estão em boas mãos e em boa companhia, não devo me preocupar com eles. Penso em me preocupar comigo, mas o que poderei fazer para sair daqui?

—Gahiji. —Falo ao ver o cozinheiro real entrar na cela.

—Que absurdo foi esse que o rei cometeu com a senhora! —Gahiji fala apavorada e põe a bandeja com frutas sobre a cama.

—Você viu Hur? Antes que ele fugisse?

—Ele me pediu para cuidar da senhora. Seu marido ficou dividido entre a senhora e os filhos. —Gahiji fala ao me oferecer um pouco de água. —Mas eu e Leila conseguimos convencer ele a partir.

—Foi melhor assim. —Respondo. —Ninguém trouxe nada para mim desde que cheguei nesta cela, Gahiji. Por um momento pensei que Ramsés tivesse proibido a entrada de alimentos...

—Que estranho. Eu me lembro de ter enviado uma bandeja com frutas para a senhora. —Gahiji fala com uma certa desconfiança.

—Tenho medo que Yunet ponha algo na comida, Gahiji...

—Com isso não se preocupe. Eu mesmo trarei sua comida, caso eu não venha mandarei alguém de confiança. —Gahiji fala pensando em me acalmar. Mas eu não confio nisso, Yunet é ardilosa e certamente colocará algo na minha comida sem que ninguém veja.

—O que está acontecendo no palácio? Leila me disse que o príncipe Gab foi chamado por Ramsés. —Falo.

—De fato o príncipe Gab foi chamado pelo faraó, mas ninguém sabe o que ele fará aqui no palácio. —Gahiji fala um pouco nervoso. Noto que ele me esconde algo, mas não pergunto nada. Todavia seu comportamento é muito estranho.

—Não sei o que meu irmão pretende. —Falo. —Alguma praga já se abateu?

—Até agora nenhuma, princesa. —Gahiji responde para a minha surpresa. —Acho que sem o cajado Moisés não poderá enviar mais nenhuma outra praga.

—Engano seu. —Falo rapidamente. —Certamente uma nova praga será mandada. Meu irmão precisa libertar os hebreus antes que uma tragédia aconteça!

—Tem razão. —Gahiji fala com o tom da voz um pouco baixa. —Eu preciso ir, princesa. Mas certamente voltarei. —Ele fala ao ver o guarda na porta esperando pela sua saída. Quando Gahiji se retira eu de imediato me afasto da bandeja com frutas e vinho. Mesmo que o Gahiji tenha trazido a bandeja consigo eu não confio em su segurança, talvez Yunet tenha colocado algo na comida.

Eu não sei por quanto tempo irei aguentar tudo isso! Certamente irei morrer nesta cela sem ver meus filhos e sem ver Hur como Yunet deseja. Mas se esse é o sacrifício para que meus filhos fiquem em segurança na vila dos hebreus, então eu irei me sacrificar feliz e com a certeza de que meu sacrifício não foi em vão. Yunet pode me ferir e Ramsés pode me prender como uma criminosa, mas nada de ruim irá atingir a minha família.

Djoser sempre teve o desejo de partir com os hebreus e agora que Anippe percebeu que se não fosse por suas origens hebréias certamente não existiria e então deixou a razão ocupar o lugar do ódio que ela sentia, nada pode impedir que Hur volte para o seu lugar de origem. Eu irei esperar sentada nesta cela por alguém que convença Ramsés a me tirar daqui. Mas quem poderia fazer isso por mim?

Estou sem saída! Presa em uma cela como se eu fosse uma criminosa, sendo que a criminosa é Yunet. O que tem de mal eu ir para a vila? Aliás, como Ramsés soube que eu estava me preparando para fugir? Certamente Yunet deve ter escutado a minha conversa com Hur depois no nosso desentendimento no corredor do palácio. Como eu fui burra em falar sobre a fuga após ter brigado com ela! Aquela maldita me avisou que o tapa que eu lhe dei custaria muito mais. Certamente ela se vingou de mim e ainda por cima está maltratando Leila somente para me atingir ainda mais!

—O que será de Leila? —Pergunto para mim mesma. —Yunet vai fazer da vida dela impossível.

E para eu me preocupar ainda mais me lembro que Uri está no palácio e que certamente Yunet fará algo contra ele. Por mais que eu tente não me preocupar eu não consigo. Uri é o filho mais velho de Hur e eu como esposa de seu pai devo me preocupar com ele mesmo sendo um homem feito. O melhor seria se Uri e Leila também fossem embora do palácio mesmo que eu fique sozinha nesta cela. É o melhor para eles irem para a vila, mesmo que Uri teime em não ir. Se até mesmo Anippe foi capaz de reconhecer a importância de suas origens hebréias, porque Uri não faz o mesmo?

—Como eles devem estar? —Pergunto pensando em meus filhos e em Hur. Certamente eles devem estar na casa de Joquebede.

Meus filhos não devem estar se adaptando de imediato com a vila, mas certamente Bezalel e Moisés devem estar fazendo algo para que eles se sintam em casa. Anippe e Djoser sempre tiveram o luxo e o conforto do palácio desde que nasceram assim como eu, eles não sabem de fato como é difícil a vida naquela vila.

(...)

O tempo foi se passando demoradamente e ninguém trouxe o meu desjejum, nem mesmo Gahiji apareceu para me dar notícias sobre o que está acontecendo no palácio. Não sei se estou sem a noção do tempo ou se de fato algo de grave aconteceu e ninguém veio me ver. Talvez Gab já tenha chegado e por isso tenham me esquecido nesta cela, Gahiji certamente está ocupado e Leila deve estar sofrendo nas mãos de Yunet.

—Não consegue dormir? —Ramsés pergunta ao entrar na cela. —Está pensando nos seus filhos traidores e em Hur?

—Eles não te traíram. Eles só fizeram o que eu mandei. —Falo para surpresa de Ramsés. —É o melhor para eles.

—Eu não poderia deixar você ir, Henutmire. O que pensariam ao saber que a princesa do Egito se juntou aos hebreus? —Ramsés pergunta preocupado com o seu poder. —Mas tudo isso vai mudar caso Moisés desista em libertar o povo hebreu.

—E se ele não desistir? —Pergunto.

—Você não irá sair desta cela. —O decreto de Ramsés me deixa ainda mais assustada com o seu egoísmo. —Caso não saiba Gab está no palácio.

—E o que tem haver uma coisa com a outra? —Minha pergunta faz Ramsés sorrir.

—Existem suas possibilidades de você sair desta cela, Henutmire. —Ramsés fala se aproximando de mim. —Ou Moisés desiste em libertar o seu povo, ou você será levada para fora do Egito.

—Levada para fora do Egito? —Pergunto assustada. —Do que está falando Ramsés?

—Se você quer que Hur e seus filhos não se machuquem e queira sair desta cela... —Ramsés pausa e passa a sorrir novamente. —Terá que partir do Egito ao lado de Gab como esposa dele.

—Que absurdo é esse? —Pergunto incrédula com a ideia de meu irmão. —Eu já sou casada!

—Você prefere que Hur e seus filhos se machuquem, Henutmire? —Ramsés pergunta friamente. —Por que assim que eles fugiram deixaram de ser minha família.

—E Yunet é sua família, Ramsés?

—Não mude de assunto! —Ramsés pede eufórico. —Gab espera uma resposta sua, Henutmire...

—Eu não vou para lugar nenhum com ele! Eu pertenço á Hur e somente a ele! —Minhas palavras foram como uma afronta para Ramsés. —Eu vou para onde Hur for, não irei para a Núbia com Gab!

—QUEM TOMA AS DECISÕES SOU EU! —Meu irmão grita impaciente comigo. —Eu quase matei Moisés quando ele gritou nos portões do palácio para que eu te libertasse, Henutmire. Já poupei a vida do seu maldito filho uma vez!

—E deveria poupar muitas outras! —Falo. —Você não sabe o medo que me dá ao lembrar que somos irmãos, Ramsés. O que o poder fez com você?

—O que a loucura fez com você, Henutmire? —Meu irmão pergunta tentando se defender. —Estarei esperando ansioso pela sua resposta.

—Não precisa esperar. A minha reposta sempre será não, Ramsés. Eu não sou uma menina para você me impor condições! Você nada pode fazer contra Hur e meus filhos por que o Deus que já mandou cinco pragas os protegerá. —A raiva estampou o rosto de Ramsés ao me ver tão segura.

—Você quem sabe. —Ramsés fala. —A decisão é sua, Henutmire. Você prefere que algo de muito ruim aconteça com aqueles que você ama, ou prefere ir para a Núbia como esposa de Gab e evitar que Hur e seus filhos se machuquem?

Notas finais
Ramsés sendo mais cruel que na novela...