Coração De Pedra
1 Único
Notas iniciais
Não recomendo ler se não leu O Nome do Vento e o Temor do Sábio! Contém levíssimos spoilers, mas ainda contém.
Então toda classe havia sido derrotada. Não restava mais desafiantes, e Kvothe sempre saía sem danos de todas as batalhas. Ele estava trancado no círculo de duelos há quase vinte horas e o seu alar apenas se enfurecia ainda mais.
- Então eu irei desafiar você — disse uma voz no fundo da sala, após o último trio de alunos ser derrotado, ao mesmo tempo, por Kvothe.
Era um homem com rosto de vilão, embora bastante jovem e de barba recém feita. A julgar a falta de barba, o ruivo nem conseguiu distinguir quem era. Talvez fosse um El'the desconhecido, mas aquele seria o último duelo e isso que importava.
- Fechem a porta ao saírem. — pediu o homem.
- Sim, mestre Dal. — falaram os alunos.
Um frio percorreu a espinha de Kvothe, tão inabalável desde cedo. Seu rosto estava arrasado pelo cansaço, o suor escorria pela face e olheiras pintavam-lhe o semblante exausto. As pálpebras caídas pela estafa apenas evidenciavam o verde de seus olhos.
Elxa Dal sentou-se em frente ao seu aluno predileto e arregaçou as mangas negras da toga. Ele nunca estivera tão belo antes, embora suas feições fossem sempre maldosas e antagônicas. Talvez a antiga barba ocultasse sua beleza, mas ele estava ali, agora, e seria o último desafiante. O Mestre de Simpatia contra um aluno a beira do desmaio.
- Podemos começar, Re'lar Kvothe? — ao falar isso uma ponta de inveja afetou sua alma.
Elxa Dal sempre teve ciúmes de Elodin por apadrinhar seu aluno predileto na ascenção a Re'lar. Mas aquilo não importava, era passado. E ele tentou compensar suas falhas de todas as maneiras possíveis, embora o pedido que Kvothe se afastasse da Universidade por um período tenha causado problemas ao rapaz e apenas sofrimento ao professor angustiado.
- Senti saudades depois daquele almoço juntos. — disse o professor.
Entretanto Kvothe já aparentava estar no Coração de Pedra. Ele não olhava para Elxa. Não havia outra alternativa a não ser um duelo de vontade. Os bonecos de cera já estavam prontos, o de Kvothe com uma gota do sangue de Dal e vice-versa.
Os poucos minutos de duelo pareciam uma eternidade. Afundando no Coração de Pedra, Kvothe apenas suava e revirava os olhos enquanto dividia seu alar em quatro com muita dificuldade.
Elxa sadicamente o fazia sofrer. Queimava-o ao invocar o Nome do Fogo, e facilmente mantinha cinco alares que dominavam por completo o jovem estudante. Embora Kvothe berrasse a plenos pulmões, buscando incessantemente o Nome do Vento, ele não vinha ao seu auxílio.
Estava silenciosamente preso naquela fornalha de dor, e Elxa estava pronto para destruí-lo. Mais um desdobramento. O alar sextuplo do professor finalizou o ruivo com uma violenta força de vontade que o fez cair da cadeira e gritar com a alma em brasa.
- Acalme-se, Re'lar. — contraditoriamente era a voz do próprio Dal.
Então tudo estava mais calmo. A noite estava enluarada, não havia marés revoltosas e as feições do mestre jamais apontaram serenidade e gentileza. E o homem sábio nada daquilo temia, então Kvothe entregou-se por completo aos braços que amparavam seu corpo destruído.
- Leve-me até Moula... Até o Arwyl. Preciso ir até a enfermaria, por favor! — suplicou o ruivo, balbuciando e alucinando ao deixar enfim o Coração de Pedra.
- Kvothe, você está gélido! — exclamou o professor ao constatar uma mortífera hipotermia em seu discípulo.
Então novamente ele chamou pelo Nome do Fogo e labaredas convidativas circularam os dois, Re'lar e Arcanista, que abraçaram-se sem pudor. Kvothe aninhava-se ao peito de Elxa Dal, que parecia carregar o próprio fogo pelo qual clamara.
E ele chorou longamente, assustado como em Tarbean. Desiludido por Denna o ter abandonado. Pensando na morte dos pais. Chorou por horas, o vermelho de seus cabelos foram parar na face que queimava de desespero e vergonha por estar ali com um total estranho um professor. Qual seria sua reputação? A reputação de Sem-Sangue, de Nomeador do Vento, de Re'lar, tudo estaria destruído!
- Shh.
Novamente aquilo era sua culpa. O seu orgulho de querer vencer quase destruiu aquele rapaz que tanto admirava, o rapaz que jazia convulsionando em seus braços. Elxa Dal não conseguia viver mais em arrependimentos. Se ele faria algo para reparar todos aqueles danos e irresponsabilidade, seria agora.
As mãos esguias levantaram o rosto choroso de Kvothe até que aqueles belíssimos olhos verdes fitassem seus olhos culpados. Enclinando a cabeça e aproximando ela de seu aluno, grudou testa com testa e pôde sentir toda energia que outra hora era destinada para a pura simpatia.
Elxa Dal ignorou a respiração aflita de seu protegido e colou seus lábios ao dele. Kvothe possuía um espírito suave como o vento, um beijo que entrava na alma de Elxa como distantes acordes de alaúde e daquele alaúde ele arrancaria cada nota possível.
Kvothe tomou as mãos do professor e passou-as pelo próprio peito, ensinando-o a retirar dali a melhor e mais habilidosa melodia que ele conhecia. Os dedos maduros deslizaram por baixo das roupas velhas do estudante, acariciando cada sofrimento de seu corpo que tornava-se mais adulto. Tocou as feridas do açoitamento e sofreu por elas, enquanto dedilhava uma melodia inexperiente, mas tão apaixonada como novos discípulos quando descobriam algo maravilhoso.
Mas Kvothe compensava a falta de experiência de um professor que sempre parecia maléfico, quando, na verdade, era apenas extremamente solitário.
Ele resgatou-o e levou-o, naquela sala, ao Mundo dos Encantados. Cantarolou em seus ouvidos canções da própria Feluriana e dedilhou com fúria cada saliência do elegante mestre.
E o Fogo respondeu com suas labaredas dançando nos corpos que, pouco a pouco, despiam-se.
E o Nome do Vento foi invocado, levando para longe dos dois qualquer medo, insegurança e rancor.
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