Coração é terra que ninguém vê
1 Reencontro
A brisa do verão ainda sopra em Metrópolis. As ruas apinhadas de gente e os barulhos ensurdecedores de conversas, buzinas, misturando-se aos mais diversos sons denunciam que é uma grande cidade. Arranha-céus se misturam numa grande selva de pedra. Enquanto um moço alto e forte espera no aeroporto. Parece nervoso. Ajeita os óculos mais de trinta vezes em menos de uma hora. Olha o relógio de pulso:
— Droga... Meia hora de atraso. Ele nunca se atrasa... A Lois vai me matar! – Murmura.
A moça de voz cadenciada anuncia nos autofalantes do aeroporto que a chegada do vôo 0143, vindo de Londres, que seria ao 12h, agora será às 13h. Angustiando ainda mais o rapaz que espera pacientemente.
— Poxa, Bruce. Logo hoje?! Definitivamente, a Lois vai me matar! – Disse Clark em voz alta enquanto puxava as mangas do agasalho para olhar as horas no relógio.
Era aniversário de namoro e ele e Lois tinham marcado um almoço às 13h30. Ela teria uma entrevista de emprego no Planeta Diário e não queria perder aquilo por nada. Seria um almoço rápido e o verdadeiro encontro que marcaria o dia especial só se daria à noite. Mas conhecendo Lois como ele conhecia, caso ele faltasse ou se atrasasse para o almoço, haveria confusão. ‘Deus me ajude’, pensou atônito.
Por sorte, o avião de Bruce chegou cerca de vinte minutos antes do esperado... E para alívio de Clark, ele teria tempo de conduzir o amigo até o apartamento luxuoso da família Wayne em Metrópolis, enquanto estabelecia mais uma sucursal das empresas Wayne na cidade e fazia mais uma pós-graduação na Universidade local.
Bruce havia dito que não haveria necessidade de Clark recebê-lo. Haveria certamente um motorista à sua espera. Mas o amigo fez questão de buscá-lo. Sentia falta do seu melhor amigo!
Kal-el sabia que embora Bruce já estivesse devidamente qualificado nas mais conceituadas universidades americanas e inglesas, de onde acabara de chegar, estar em Metrópolis só poderia significar que havia algo lá que ele queria resolver, agora, em definitivo, como o vigilante da noite, mais conhecido como Batman, o Cavaleiro das Trevas de Gotham.
POV Clark
A Universidade de Metrópolis era agitada. Isso ninguém podia negar. Tinha um quê de rebeldia juvenil misturada à esportividade, o que dava um clima de descontração bem interessante no que diz respeito aos frequentadores, alunos e magistrados. O verão estava já no fim e haviam inúmeros alunos recém-chegados ainda organizando-se em seus dormitórios. Era uma bagunça generalizada pelos corredores. Um clima de mudança, seja daqueles que partiam, seja pelos que chegavam e tentavam se organizar em meio aquele furdunço e isso me dava uma vontade imensa de rir.
Bruce me olhava com aquela cara de ‘está rindo de quê, Kent?’ e eu ria ainda mais sabendo que ele achava estúpido o fato de eu rir de tudo. Na cabeça de Bruce bom humor era uma espécie de tolice e fraqueza. Mas isso nunca me incomodou. Sempre entendi seus motivos para rabugice.
Mas ainda sim, a vista e as pessoas, davam um colorido especial à ‘paisagem’. Então, logo esqueci da cara feia que Bruce me dirigia. Os jardins lotados com jovens debruçados sobre livros, tomando sorvete, jogando frisbee, ou Futebol Americano. Era uma atmosfera bem diferente da de Gotham e isso certamente daria um pouco de ânimo ao meu amigo soturno.
Definitivamente foi uma boa ideia trazer Bruce aqui depois de tantos anos. Depois de tantas tragédias pessoais, como a perda dos pais, da namorada de infância, etc, do problema com Diana – do qual nunca me contou o motivo, tampouco ela. Aquele ambiente um pouco mais leve que Gotham, além de rever os amigos iria fazer-lhe bem. Então após o almoço com Lois, marquei de encontrar Bruce na entrada da Universidade. Isso lhe daria tempo pra se acomodar no apartamento que comprara em Metrópolis.
— E então, Bruce. Quais as novidades? – Falei.
— Nada demais. O mesmo de sempre. Compromissos chatos durante o dia e vigilância noturna. O de sempre! – respondeu com a postura seca de sempre.
Se não fôssemos tão amigos e conhecesse sua história, já teria desistido dele, como tantos já fizeram. Mas quem o conhece mais de perto sabe que não passa de uma carapaça para proteção. Como se a arrogância fosse um escudo que o protegesse de sentir mais dor e afastasse quem ele pudesse, direta ou indiretamente, machucar.
— Nunca achei que fosse voltar das suas andanças pelo mundo. – Disse animado. – Achava que iria se casar e se apaixonar em alguma de suas viagens.
— Viajei para me aperfeiçoar, Kent. Não pra namorar... Apesar de que, digamos, na parte de casar, até cheguei perto... mas não foi nada romântico, tampouco apaixonante. – Disse sorrindo ironicamente.
— O que quer dizer, Wayne? – ri, sem saber se era uma piada.
— Nada, Clark. Esqueça! – Balançou a cabeça. – vamos, quero ver os outros!
— Saudades da Diana? – Perguntei acabrunhado, já esperando um soco com uma luva de kryptonita.
— Ela voltou? – Perguntou, tentando disfarçar a surpresa, que teria passado como uma pergunta em tom seco, como ele sempre faz para disfarçar a indiferença. Mas logo percebi as mínimas alterações na respiração e nos batimentos cardíacos, racionalizei o quanto ela ainda significa pra ele.
— Voltou, mas... – Eu lhe disse, sorrindo – tente não implicar tanto com ela. Você sabe o quanto ela fica furiosa?!
— Não implicar com ela? – Ele já subia as escadas da entrada sorrindo sarcasticamente – Mas, Kent, é meu passatempo preferido! – Disse, abrindo os braços em tom de chacota.
(suspiro)
É... vai começar tudo de novo!
POV off
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