Coração é terra que ninguém vê
46 Pequenos prazeres
Notas iniciais
— Eu vou proteger você, princesa! – O braço de Bruce estava em volta de sua cintura, protetoramente. Embora a cena demonstrasse que a proteção partia muito mais da parte dela que do homem vestido com um traje de Morcego.
— Claro que vai, Bruce! – Diana respondeu muito mais pro forma que por credulidade.
Diana estava vestindo seu traje completo de Campeã de Themyscira quando adentrou a Batcaverna, apoiando o Cavaleiro das Trevas, que cambaleava.
Ela pode sentir o cheiro suave de alecrim e erva doce invadir seu sentido olfativo aguçado pelos meta-poderes. Duas canecas fumegantes de chá estavam dispostas numa mesinha de apoio ao lado da baía médica. ‘Provavelmente colocadas lá por Alfred’, ela deduziu sem esforço.
— Sente-se, Bruce! – Ela o ajudou a subir na cama hospitalar da estrutura médica instalada na Batcaverna para uso do Batclan.
Logo se ouviu o ronco dos motores do Batmóvel na parte de cima do complexo. Ela sabia que os comandos de voz do mordomo foram suficientes para dar a ordem de retorno do veículo no modo automático. Ela respirou fundo, sorriu para o homem grogue à sua frente e sorriu, um tanto melancólica de preocupação.
Ele havia inalado o gás do medo do Espantalho, aparentemente modificado para fugir dos efeitos reversivos do antídoto criado pelo Morcego. Uma mudança de pulsação, pressão e sinais vitais foi apreendido pelo Oráculo, através do monitoramento do traje, indicando que havia algo errado.
Logo Alfred e Bárbara chamaram Diana como um backup mais óbvio que o Superman, já que ela estava na mansão, à espera de seu retorno da patrulha.
Na ocasião, embora Bruce já tivesse detido os capangas do Dr. Crane durante sua ação de contenção ao roubo de medicamentos em Gotham Farmaceutics, a volta para casa não estava sendo nada suave.
Alfred informara à princesa que ela poderia trazê-lo e aplicar o antídoto que reverte a ação da toxina na caverna. Que ele poderia estar apresentando sintomas um tanto diferentes do habitual ‘medo’ que a toxina normalmente provoca.
O mordomo a tranquilizara de que não era motivo para pânico, que Bruce já havia passado por isso diversas vezes e ela só precisava mantê-lo em segurança por pouco mais de 30 minutos, até a química gradativamente ser eliminada da corrente sanguínea.
Diana olhava para ele com carinho. Bruce parecia um tanto bêbado e com os movimentos motores comprometidos.
— Vamos, princesa. Venha cá! – Disse o Batman, enquanto ela tirava suas botas, as luvas, e o traje, aos poucos, de forma delicada e protetora.
— Calma, Bruce. Uma coisa de cada vez!
— Por que você está aqui? – Ele perguntou, balançando o tronco de um lado para o outro, sentando na cama médica – Por que você ainda não desistiu de mim, Diana?
Ela não respondeu. Ela sabia o que ele estava fazendo: Sua veia cruel estava a postos. Era hora de Diana preparar o coração para os cortes.
— Oh, pobre princesa... – Ele riu, ironicamente, com vilania – Esperando um cavaleiro branco que a ame? Acorde, princesa: eu sou um cavaleiro negro, não há nada aqui para você e suas necessidades românticas ridículas.
Ela engoliu com dificuldade o veneno despejado pelos lábios do homem que ama. Estava prestes a dizer algo quando o ouviu gemer. Ele arqueou as costas quando ela tirou a parte de cima da armadura. Havia um corte imenso na lateral esquerda, logo abaixo das costelas. Diana limpou a ferida delicadamente e começou a costurar a fenda em sua pele.
Ela esfregou suas costas quando ele vomitou. E confessou a si mesma que tinha medo que a intimidade da fragilidade que ele mostrava pudesse empurrá-la para longe outra vez. Mas ela resolveu esperar... e continuar – como Alfred lhe dissera, com paciência e afeto.
Ele então se levantou quando a costura terminou e escorou-se na parede para segurar-se. Ela o abraçou delicadamente e ofereceu ajuda para levá-lo à suíte da mansão.
— Eu não preciso de sua ajuda. Eu não sou um fraco! – A voz de Bruce estava arrastada, mas ainda era áspera.
Ele começou a rir sem controle e ela estremeceu, assustada com seu comportamento. Depois ficou quieto, quando ela o levou para o chuveiro, no vestiário da caverna.
— Tão linda! – Ele tocou seu rosto com as mãos molhadas.
Diana lembrou-se da noite passada, quando ele se despediu beijando-a e dizendo-lhe a mesma coisa, pedindo para ela ir à mansão.
Aproveitando seu momento de tranquilidade aparente, ela o ajudou a se enxugar, e o levou delicadamente para o segundo andar, à suíte máster da mansão. Ela vestiu a parte de baixo do pijama de seda que Alfred colocara impecavelmente sobre à cama e arrumou os travesseiros para que ele pudesse manter-se um tanto firme ao deitar.
— Eu estou fraco, Diana. Saia daqui. Eu não quero que você me veja assim! – A voz era um tanto embaçada, melodiosa, parecia uma súplica.
— Bruce, eu...
— SAIA! – Ele gritou, com a cabeça entre as mãos.
Ela não respondeu.
— Por que você está aqui, princesa? Por que você não me odeia?
Ela ficou. Ela não tinha certeza do que fazer. Só que ela se importava com este homem arrogante, muito mais do que estava disposta a admitir para si mesma no momento, após desistir de um relacionamento tranquilo.
— Porque eu me importo com você, Bruce.
Bruce vacilou quando tentou se levantar. Ele caiu na borda da cama e a puxou com ele, pelo braço, não para garantir apoio, mas porque a queria por perto. Ele se inclinou e beijou-a, com força, sem sutilezas ou romantismos. Era um beijo tomado, não pedido... Mas embora um romântico inveterado faça a leitura de que este é um mal feito, para Diana e Bruce, dizia bem mais sobre o quanto deveriam ficar juntos que o contrário: Não havia nenhum tipo de hesitação no beijo. Só certeza! E ela respondeu com igual intensidade. Ela também queria tomar algo dele, ela também não ia pedir.
— Fique comigo esta noite! – Era um comando e ela odiava comandos, menos quando eles vinham dele. E quando eram comandos que os deixavam mais próximos, ao invés de afastá-los, ela amava tais comandos.
Diana encostou-se na cabeceira da cama, amparada pelos travesseiros macios. Ele deitou em seu colo e cinco minutos depois ela ouviu sons não muito altos do ronco ressonando. Diana sorriu e estudou o rosto adormecido do homem que amava. Assim, tranqüilo, seus traços ficavam mais suaves, embora não perdessem o viés de sua masculinidade latente e ela acariciou sua bochecha. Ele parecia em paz. E ela decidiu que amava vê-lo em paz.
— Bruce? – Ela chamou baixinho e ele resmungou.
— Deite, Diana... Eu preciso de algo... hhuuummmmmmm... para abraçar!
— Você está tentando se aproveitar de mim? – Ela riu.
— Sim! – Era mais um murmúrio que uma resposta. Ele fechou os olhos novamente porque não conseguia mantê-los abertos – Não me deixe.
Ele agarrou-a para si, beijou-a suavemente nos lábios, ainda de olhos fechados. Mas ela o empurrou levemente com um temor crescente.
— Bruce, eu não posso mais suportar amar você e depois você agir como se nada acontecesse entre nós.
— Eu quero você, Diana. Fique! – Ele a abraçou.
— Por quanto tempo?
Ele a beijou com gentileza, desta vez, fazendo um esforço imenso para olhar em seus olhos, antes de fechá-los de vez e se entregar ao sono.
— O tempo que você me aguentar, princesa!
(...)
Os olhos de Diana se abriram lentamente como os raios de luz da manhã. Seu corpo estava formigando ainda depois dos momentos de amor apaixonado que ela e Bruce tiveram quando ele despertou livre da toxina do Espantalho. Ela sentou-se, segurando os lençóis contra o corpo nu. Olhou para o homem de cabelos negros deitado ao lado e sorriu amplamente.
O sexo entre eles era sempre tão bom. As memórias inundaram sua mente e ela corou. Os beijos, as carícias, a malícia, as palavras lascivas sussurradas no ouvido, lambidas, mordidas, músculos trabalhando freneticamente. Não! O sexo não era bom! ‘Era absolutamente divino, oh! minha doce Afrodite’, ela pensou.
Um borrão de prazer maravilhoso repovoou a sua mente, enquanto ela esticava os dedinhos dos pés. Os macios lençóis egípcios roçando a pele a fizeram lembrar o que Bruce fez com ela duas horas antes. Bruce Wayne, o Batman, seu amigo, seu companheiro de armas, que passou as últimas horas a dar-lhe a melhor noite de prazer que ela já tivera em toda vida.
Ela prendeu a respiração quando sentiu ele mexer-se na cama. Bruce ainda estava lá, dormindo o sono dos amantes saciados. Diana olhou fixamente para a extensão de músculos bem definidos ao seu lado. De repente, ela se sentiu tão tímida quanto uma adolescente, com medo, mas também animada e feliz. Só olhar para ele fazia uma tempestade aninhar-se dentro dela.
Mas Diana ainda estava lá, na mansão, se perguntando se deveria ter ido embora. Sua mãe lhe contara sobre como o amor poderia golpear as mulheres, fazendo-as cometer loucuras. Mas ela nunca entendera bem essa história até amar Bruce. Um mortal que a desarmara por completo.
O sol tinha subido um pouco mais alto e não havia mais luz no quarto, quando Diana ouviu um gemido ofegante escapar os lábios de Bruce e uma única palavra chegou a seus ouvidos sobre-humanos. ‘Diana. Minha Diana’. Ela sorriu. Ele estava sonhando com ela!
Depois disso, todo sentimento de medo se desvanecera. Ela resolveu aninhar-se novamente em seus braços, deitando a cabeça em seu peito. Ele sorriu quando sentiu o cheiro de seu cabelo.
Ela não precisou perguntar-se mais nada. Só resolveu aproveitar o resto da manhã na cama, ao lado do homem que podia destroná-la de si mesma.
(...)
Alfred Pennyworth era um homem de rituais rígidos e tradições impecáveis, como todo bom inglês. Todas as manhãs, precisamente às 5h, ele se levantava e cumpria suas funções na casa. Normalmente ele ficava sozinho até pouco antes do meio-dia,quando Bruce finalmente se levantava. Portanto, tudo com que se preocupava era em pegar o jornal da manhã e fazer uma leve refeição antes das rondas em torno da casa, da limpeza na caverna e da visita ao jardim tão querido de Martha Wayne.
Ele admitiu para si mesmo que estava feliz em ver a princesa Diana descendo a escada, usando uma camisa de seu amado mestre Bruce, com um lindo sorriso no rosto e os cabelos levemente despenteados.
“Finalmente, Deus ouviu as minhas preces”, ele pensou consigo mesmo, enquanto a escoltava até a cozinha, prometendo-lhe um café da manhã glorioso.
Diana sorriu para a familiaridade maravilhosa que era estar ao lado do seu velho amigo, na casa do homem que ama, comendo morangos com chantili debruçada sobre o balcão da cozinha.
Sorriu mais ainda ao ver Bruce se aproximar de ambos, pegar sua caneca fumegante de café, dar-lhe um beijo casto na têmpora e começar a ler o jornal. Aquele silêncio de Bruce não era incômodo e ele também não se incomodava com Alfred contando histórias embaraçosas para uma princesa gargalhante.
Helena se juntou a eles e tudo parecia absurdamente ‘divertido’.
Bruce olhou a cena com um ar de desdém, por sobre a borda da xícara de café, sem despertar a atenção de ninguém.
Nem ele acreditou: ‘era isso mesmo que chamam de alegria?’, ele não sabia. Desde os 8 não tinha um sentimento para comparar. A memória afetiva estava distante demais. Mas aquecia o coração. Isso ele podia dizer a si mesmo. Não aos outros! Isso não!
Por hora, era suficiente. E ele resolveu que não estava arrependido por tentar... Quem sabe, poderia realmente desfrutar de pequenos prazeres em sua vida!
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