Coração é terra que ninguém vê
39 Ocultismo e oferendas
Notas iniciais
Diana acordou esparramada na cama de Bruce. Ela abriu os olhos lentamente e logo reconheceu a mobília elegante da mansão. Afinal, ela estava bem familiarizada com o cômodo. Passando rapidamente a vista pelo lugar, ela não viu ninguém além dela. Ela percebeu que estava vestindo a parte de cima do pijama de seda de Bruce, com as iniciais BW cravadas na lateral de um dos bolsos, mas não havia sinal dele.
A amazona vasculhou a mente em busca de respostas, mas não encontrou nada. Nenhuma lembrança. Como se tudo que acontecera depois da luta com Aresia tivesse desaparecido.
Mas embora a situação enervante pudesse, por si só, causar algum tipo de mal estar – afinal, perder a memória é algo apavorante – Diana estava lutando para não sorrir. Lutando para se preocupar com o fato de que não lembrava de nada. Lutando com suas emoções para agir com cautela e desconfiança.
No entanto, estranhamente, tudo que ela sentia era uma sensação de realização plena, de desprendimento, de satisfação e de euforia. ‘Por quê me sinto tão... feliz?’, ela pensou. ‘Eu não lembro de nada!’
Tentando recobrar a razão, ela levantou-se e foi ao banheiro, para tomar um banho. Ela sabia onde Alfred guardava os roupões e usaria um deles até achar suas roupas e saber o que houve. No fundo, ela agradeceu Bruce não estar ao seu lado na cama, por medo de ter feito algo do qual se arrependeria depois.
Diana desceu as escadas dez minutos antes das 16h. Já era tarde e Bruce estava obviamente cuidando dos negócios na Wayne Enterprises, ela ponderou. Então, olhou para o relógio, incrédula por dormir tanto.
Chegando à cozinha, ela encontrou Alfred cantarolando enquanto fazia o jantar.
— Boa tarde, miss Diana. Presumo que a senhorita obteve um bom descanso! – Ele frisou.
— Sim, Alfred... eu acredito que sim. Eu me sinto estranhamente bem disposta! – Ela lhe deu um sorriso tímido, tirando uma mecha de cabelo do rosto.
Diana olhou a cozinha e percebeu que, apesar das coisas bem organizadas, o balcão parecia estar quebrado, o que a fez dirigir ao mordomo um olhar de interrogação!
— Ah... A senhorita quer saber sobre o balcão?! – Alfred riu levemente – É que Mestre Bruce teve um pequeno contratempo.
— Pelos deuses, Alfred. E ele está bem? Ele está machucado? Ele foi atacado? – Diana perguntou atônita.
— Sim, princesa. Ele está absolutamente bem... melhor do que a senhorita imagina!
— Que bom! – Ela sorriu.
— A senhorita quer algo para comer? – Ele aproximou-se dela.
— Sim, Alfred. Estou faminta... Estou um pouco dolorida também! Será que a luta com Aresia me deixou machucada, Alfred? Eu realmente não me lembro!
Alfred apenas lhe devolveu um olhar amoroso e complacente. Diana comeu tudo que o mordomo a oferecera, avidamente. Alfred assistiu tudo com um divertimento ponderado, para que ela não percebesse que ele sabia de algo. Ele estava ciente das atividades noturnas entre ela e Bruce, tendo em vista que nenhum deles fora discreto na realização de sua paixão e o barulho que eles fizeram tornara fácil a dedução de sua missão romântica.
— Você sabe o que está havendo, Alfred? Por que eu estou aqui? Eu nem sei onde está meu uniforme! – ela estava verdadeiramente confusa.
— Missa Diana, eu acredito que Mestre Bruce poderia dar-lhe uma resposta mais adequada, mas eu posso adiantar-lhe que a senhorita não tem motivos para se preocupar.
Diana sorriu um tanto desconfortavelmente, mas preferiu concentrar-se na comida, porque neste momento, sua fome era maios que sua confusão mental.
(...)
*** Na noite anterior ***
— E então, John... você sabe algo a respeito? – Zatanna se dirigiu ao homem loiro, usando um sobretudo de cor bege, com a barba por fazer e uma aparência desleixada, fumando um cigarro.
— Não é bem o tipo de magia com as quais eu lido, Zee. Você sabe... Eu estou acostumado a casos bem mais obscuros e sobrenaturais. Mas... – Ele deu um trago prolongado para finalizar o cigarro, jogando o filtro no chão e apagando a pequena brasa com a ponta do sapato preto. – Não é sempre que eu tenho a oportunidade de fazer um favor ao grande Morcego de Gotham, certo?
— Bom... Ele ficaria grato! – Zatanna garantiu.
— Melhor que a gratidão do Batman, minha querida, é saber que ele me deve um favor... E bom, eu irei cobrar! – John foi enfático.
— Mas me diga: você sabe de algo? Você consegue reverter o feitiço? – A filha de Zatara perguntou.
— Bem, eu já ouvi sobre Alkyone e sua traição à Aquiles. Alguns demônios gregos contavam estórias sobre o sangue de Aquiles ser mágico e ter penetrado às peças que sua esposa vestia e usou para matá-lo na noite de núpcias. Que o atrevimento vil da amazona se conectou ao sangue cheio de fome sexual do herói e a mistura penetrou a armadura, o escudo e a espada.
Constantine explicou: – Eu não sei como reverter, mas... conheço alguém que pode nos dizer o que fazer.
(...)
— Papa Meia-noite! – John saudou a figura estranha com um cumprimento efusivo. Muito embora, percebera Zatanna, que estava longe de ser natural.
A maga olhou em volta para a sala. Dois homens negros imensos e incrivelmente fortes estavam guardando a porta pelo lado de dentro, ao passo de mais três, igualmente bem encorpados, se mantinham em guarda do lado de fora.
Eles haviam entrado numa espécie de casa noturna, ‘a mais estranha que Zatanna já tinha entrado’, com um público ainda mais estranho que o estabelecimento. A música eletrônica alta reverberava pelo ambiente e as pessoas pareciam tomadas por um transe alucinógeno. Pareciam completamente drogadas, mas de forma uníssona, como se todos estivessem sob o mesmo ‘feitiço’ ou controle.
John entrou rapidamente no recinto, ignorando a imensa fila que se formara na entrada do clube. Um homem vestindo um tipo de armadura extravagante guardava a entrada e uma mulher loira, de cabelos curtos, muito pálida e magra era responsável por apontar quem poderia ou não entrar.
Quando John se aproximou do início da fila, a mulher sequer perguntou-lhe o nome ou pediu identificação. Ela apenas fez um breve sinal para o homem na porta, para garantir-lhe o acesso. Zatanna não precisou perguntar para deduzir que John era um frequentador do lugar e conhecido das pessoas.
Zee agora estava de pé, ao lado de Constantine, usando um traje comum, a pedido do ocultista. Ele não queria que as pessoas identificassem-na como uma maga, pelo uniforme. Ela estava atenta aos detalhes da ampla sala que ficava numa parte isolada do clube. Havia uma infinidade de objetos estranhos no local, pouco iluminado por uma luz vermelha fraca, que apesar de garantir a visão completa do lugar, também era responsável pela sensação sombria que despertava nas pessoas.
Ela viu inúmeros quadros com imagens distintas de anjos e demônios – talvez em igual quantidade – haviam objetos espalhados de culturas de credos diversos, dispostos em altares, que cultuavam tanto o bem, quanto o mal. No centro da sala, um homem negro sentado em uma cadeira que parecia tão antiga quanto a vida humana, sorria para eles. Mas não era um sorriso de boas vindas, mas um sorriso frio, que causou arrepios à espinha de Zatanna.
O homem trajava um terno branco completo e muito elegante. No topo da cabeça, um chapéu da mesma cor, de couro. Seus olhos tinham um calor estranho que fez a maga estremecer e ostentavam cores distintas, sendo um esbranquiçado e outro arroxeado.
— Jonny, Jonny, Jonny... – O homem sorriu com desdém. – Se você veio em busca da minha proteção, eu o aconselho a ir embora. Você irritou algumas pessoas poderosas, Jonny. Você sabe! (...) E embora eu goste de você, eu preciso manter o equilíbrio. Eu não posso interferir a favor ou contra nenhum dos lados. É o acordo!
Constantine sorriu com o mesmo desdém, como se fosse um ato de ‘amizade’ entre ambos.
— Meia-noite, meu caro. São os ônus do trabalho. Lidar com demônios, bruxas e sacerdotes irritados é minha especialidade. (...) mas eu vim aqui por outro motivo.
Constantine perguntou ao guardião do equilíbrio se ele sabia sobre as peças de Alkyone e sua magia. A antiga entidade nomeada como papa Meia-noite apoiou-se em sua bengala de prata, ladeada pela imagem de duas serpentes sustentadas por um ser alado, dirigindo-se ao que parecia uma pequena biblioteca. Ele pegou um frasco pequeno, que continha um elixir que parecia antigo e o pôs sobre a mesa de madeira. Zatanna assistiu o que se seguira com os olhos vidrados.
Meia-noite colocou sobre a mesa uma grande travessa com água, deixou cair algumas gotas do elixir sobre ela e arregaçou as mangas do paletó até deixar os antebraços completamente expostos. Depois ele os uniu, e as tatuagens que ele exibia em ambos os braços se iluminaram, formando o que parecia ser uma mandala de luz. Uma figura fluida começou a surgir a partir Dalí, como se refletida no espelho d’a água.
— Oráculo, eu te invoco! – Foram as palavras que Zatanna pode entender, mas muito mais fora dito, em línguas tão antigas quanto o mundo.
— Diz-me o que procuras?! – a figura fluida de capuz bradou.
— Como reverter o feitiço da antiga lenda de Alkyone, Mestre de sabedoria? – John perguntou.
— Os grego tiveram inúmeros problemas despertados pelo mal uso da maldição das armas da rainha amazona. A ousadia das fêmeas tornou-se violenta e feroz, depois insaciável. O Olímpo precisou intervir e nem mesmo Zeus escapou de ser atacado, enfurecendo Hera, que também falhou em sua missão de intervenção.
A figura continuou – Afrodite, a deusa do amor e do sexo foi a única capaz de quebrar a corrente ninfomaníaca que pairava sobre as mulheres contaminadas pelo feitiço, despertado por Éris, deusa da discórdia.
— Como reproduzimos o que Afrodite fez? – Zatanna interrompeu.
— Sigam para o templo da deusa, em Atenas, nas Grécia. Lá vocês devem fazer uma oferenda em nome dela, intercedendo por sua intervenção. Vocês não podem reverter o feitiço, apenas ela. Convençam-na, do contrário, nada feito.
A figura desapareceu e deixou todos perplexos. Tudo que Zatanna e John tinham que fazer era convencer uma deusa do Olímpo a fazer o que eles queriam. ‘Simples, não’, ironizou Zee em sua mente.
(...)
*** Manhã seguinte ***
Nas primeiras horas do dia, Batman, Constantine e Zatanna estavam no Batwing rumo à Atenas. Bruce agradeceu a exaustão de Diana ser a garantia de seu sono profundo. Não demorou para que chegassem ao destino.
O salão imenso de mármore mostrava-se imponente, mesmo sob ruínas. Havia uma sensação de uma energia poderosa rondando o lugar.
— Você trouxe as oferendas? – Batman perguntou secamente.
— Estão aqui! – Zatanna colocou uma cesta com rosas e perfumes no que teria sido um altar, na antiguidade.
John então começou a entoar uma espécie de oração em grego antigo, emanando uma energia densa de si mesmo.
A imagem de uma mulher se projetou sob o altar em ruínas. Ela vestia uma túnica branca, em forma de toga, como as antigas vestes gregas. Os cabelos eram como fios de ouro, emoldurados por uma tiara de flores que lhe garantia angelitude. A luz que ela emanava e sua beleza estonteante hipnotizara Bruce e John.
— Ah, queridos mortais... Há muito tempo eu não ouço a língua antiga dos gregos a me homenagear. Que deleite para meus ouvidos – A voz melodiosa de Afrodite era como um canto de sereia a inebriar os homens diante de si.
— Viemos em busca de ajuda! – Zatanna quebrou o transe.
— Ajuda? Bem... o que querem?
— Queremos que reverta o feitiço de Alkyone. Algumas de nossas amigas e outras mulheres foram enfeitiçadas. – Batman latiu.
— Mortais... por mais que eu seja bondosa, seria preciso mais que perfumes e flores para me convencer a desperdiçar meu tempo com as tolices da humanidade.
As palavras de Afrodite despertaram Bruce de seu encantamento. Ele desprezava os deuses de Diana e sua falta de compaixão pelos ‘mortais’.
— Então apenas diga o que é preciso para reverter o feitiço e nós faremos! – O Batman latiu, sem medo.
— Cavaleiro, cavaleiro... Meu cavaleiro escuro e teimoso. Você tem me dado muita dor de cabeça, sabia?! Mas a minha menina gosta de você e eu sei exatamente por quais motivos. Então dou-lhe a minha preferência, muito embora me irrite a sua indiferença e falta de respeito para com os deuses. – Afrodite olhou para o Batman com os olhos interessados.
— É por Diana que estamos aqui. Ela foi... enfeitiçada. – Bruce parecia menos irritado.
— Eu sei... Eu vi o que aconteceu ontem em sua casa, cavaleiro... E confesso que estou muito satisfeita. O amor e o sexo praticados são como oferendas para mim. Eu as aprecio... Então, por que eu reverteria algo que me alimenta as energias? Me diga, Cavaleiro!
— Do que adianta uma oferta que não é dada com o coração, milady? – Ele disse, entristecido.
— Sim, você está certo... Em parte, cavaleiro. – Ela estudou a feição de Bruce, mesmo sob a máscara.
— A campeã dos deuses não merece ser manipulada por magia. – Ele continuou.
— Digamos que eu queira reverter... Mas pense bem, Morcego de Gotham... Isso irá ter um custo alto para você!
— Eu pagarei o que for preciso – Bruce disse sem reservas.
— Ela irá esquecer tudo, cavaleiro. Você terá que viver apenas com a lembrança de sua noite de amor, meu querido Morcego. Você está disposto a vê-la se afastar novamente? – A deusa perguntou com uma certa compaixão.
— Sim! – Ele foi seco.
— Então está feito! – Disse a deusa ao se afastar. – Diana e as outras estarão livres da maldição de Alkyone.
Zatanna e John seguiram para fora do templo em ruínas, deixando o Batman para trás, ajoelhado, cabisbaixo.
Ele ouviu a voz de Afrodite em seu ouvido:
‘Ouça, cavaleiro... Eu sinto sua dor e serei misericordiosa... Ouça bem as minhas palavras: nem tudo que foi dado por Diana naquela noite foi fruto da magia. O feitiço de Alkyone só desperta a luxúria. Nada mais!’
Ele não entendeu o que Afrodite quis dizer e seguiu seu caminho de volta, ciente de seu sacrifício. Ela não lembraria. Ela o esqueceria. Ela não saberia que ele a amava apaixonadamente!
(...)
*** Noite seguinte ***
No topo da torre Wayne, uma figura escura se empoleirava, misturando-se à noite densa. Saltando da antena, que praticamente tocava o céu, para o heliporto, alguns metros abaixo, o caped crusader planou silenciosamente ao lado da mulher de cabelos negros.
— Como ela está? – A morena perguntou.
— Bem... eu acho! – ele respondeu, sem olhar para ela.
— Você não tem certeza? – ela insistiu. Como ele não respondeu, ela seguiu: – Você não a viu?
Ele apenas balançou negativamente a cabeça, ainda em silêncio.
— Como você sabe que ela está bem?
— Alfred... Eu pedi que ele me ligasse assim que ela acordasse. – Ele respirou fundo. – Ela não lembra de nada. Mas... ela está bem!
— E você não vai dizer a ela?
— Não!
— Bruce, não é justo. Nem com ela, nem com você! – a mulher persistiu.
— NÃO! – Ele finalmente reagiu com firmeza – Fique fora disso, Zatanna. Você já fez o que precisava ser feito e eu sou grato. O resto... é entre mim e Diana.
— Está bem, Bruce. – Os ombros da maga caíram, em sinal de rendição. – Eu vou deixá-lo em paz!
Zatanna girou a varinha e sumiu em um piscar de olhos, deixando um rastro luminoso de sua mágica, exposta como um gliter estrelado no ar.
Bruce respirou fundo, olhando as estrelas, tentando achar em si mesmo as razões que lhe garantissem a força determinante para manter seu curso de ação.
Ele fechou os olhos e se entregou às lembranças de sua noite delirante com a princesa das amazonas. Todo seu corpo respondeu a eletricidade impactante das memórias, fazendo-o estremecer. Ele ponderou que teria a lembrança daquela noite para sempre. Jogando-se de uma altura inenarrável, ele atirou um gancho para o prédio mais próximo e balançou-se como um pêndulo entre os edifícios, repetindo os movimentos até chegar ao batmóvel, escondido em um beco.
No fim, ele disse a si mesmo: ‘Foi melhor assim, princesa.’
(...)
De volta a caverna, sozinho, ainda sentindo o cheio de Diana no ar, ele lembrou das palavras ditas por Afrodite:
‘(...) nem tudo que foi dado por Diana naquela noite foi fruto da magia...’
‘Eu te amo, Bruce’, ele lembrou quando Diana lhe dissera isso, em meio à paixão alucinante.
‘Eu te amo, Bruce’... a voz dela ecoou por sua mente.
‘Eu te amo, Bruce’...
Ele sorriu para si mesmo.
Ainda havia esperança, no fim de tudo!
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