Coração é terra que ninguém vê
34 Melhor amigo
Notas iniciais
Alfred conseguiu o impensável: atingir o coração e a mente de Bruce com força o suficiente para fazê-lo mudar de ideia sobre o autossacrifício que se impusera, afastando de Diana. Graças a seu fiel tutor, mordomo, cúmplice e figura paterna, Bruce Wayne se convenceu de que havia uma chance – mesmo que mínima – dele consertar seus erros e dar-se finalmente a oportunidade de ser feliz.
Por mais urgência que ele tivesse de Diana – de seu amor, de sua presença e de seu corpo – ele precisava ser paciente para reconquistar sua confiança, provar-lhe o quanto ele a admirava e respeitava como guerreira, uma igual, uma heroína inigualável. Para provar-lhe que ele ainda a ama, que sempre a amou e que jamais deixará de amá-la.
(...)
Todos na Liga perceberam quando, há um par de meses, o Batman tornou-se ‘muito estranho, até para os padrões de esquisitice morcegônicas’, como comentou o Flash, com Shayera, John e o Arqueiro, durante o almoço no refeitório. E Diana não era uma exceção, especialmente porque ela era o alvo da mudança.
Não haviam mais discussões entre eles. Ela mal lembrava a última vez que discordaram. Nada de reclamações, advertências, olhares furiosos ou sermões de reprovação de suas atitudes. E o mais surpreendente, algumas vezes ele fez questão de parabenizá-la por algumas de suas ações, chocando não só a ela, mas os companheiros de missão que testemunharam o fato.
A mudança fora tão impactante que, certo dia, durante uma das reuniões semanais dos fundadores, Diana expos sua ideia para execução de um plano de ação que tinha como objetivo impedir uma guerra entre duas facções militares inimigas, muito bem aparelhadas, no território de Kasnia. A liga fora informada de que o conflito tinha a influência direta de Ares, o deus mitológico da Guerra, filho de Zeus. Tornando necessária a interferência da Liga.
O plano de Diana era arriscado e todos os seus companheiros foram cautelosos ao dar seu voto em favor da ideia porque ela se colocava em uma situação de risco direto. Então, dizer que seus companheiros estavam surpresos com o apoio incondicional do Batman ao plano de Diana era eufemismo. Ninguém poderia conceber que o homem morcego, o mesmo que há alguns meses atrás tinha acessos de fúria quando ela se expunha à lesões, que a mantinha sob vigilância ferrenha, que protestava veementemente quando ela era envolvida em um plano de ação minimamente arriscado, agora era totalmente favorável a ela, mesmo diante de algo que arriscasse sua vida.
No fundo, Bruce se divertira confundindo seus amigos. Não que ele tivesse deixado de ser o Batman, o soturno e assustador Caped Crusader. Ele continuara tão – ou mais – intimidante que antes. O Batman ainda era evasivo, rude e assustador, mas para Diana, ele vinha sendo um amigo.
É claro que, para por seu plano de reconquistar a princesa em prática, ele precisou controlar seus instintos. Era algo mecânico para ele interferir em uma ação em que ela estivesse correndo algum risco.
Enquanto ele esperava ter apenas que lidar com a necessidade de trabalhar suas emoções e reaver o amor de sua princesa, as coisas foram além. Ele percebeu o quanto ele estavam levando-a ainda mais distante dele. Que a fúria, as repreensões e o ciúme do morcego estavam criando uma barreira entre eles que, se não fosse a interferência de Alfred, talvez atingisse um ponto de endurecimento impossível de atravessar.
Bruce percebeu o quanto suas atitudes para com ela não mostravam em nada o tamanho do seu afeto. Tudo que se via era a falta de confiança nela e em suas habilidades. Nada do que ela fazia era bom o bastante para ele. Por mais que ela se esforçasse, o Batman sempre fazia questão de apontar o que estava errado.
(...)
Diana estava especialmente feliz que as coisas entre ela e o Batman estavam finalmente se acertando. Ela nunca foi boa em controlar suas emoções, especialmente em se tratando de euforia, e por isso não conseguia esconder de ninguém o quanto essa mudança em seu companheiro a afetara.
No começo, ela encarou a atitude dele com desconfiança. Mas a medida que o tempo foi passando e o Batman permanecera fiel à sua mudança com relação a ela, Diana não foi capaz de conter sua alegria.
Era óbvio que ela ainda o amava. Mas a euforia não tinha absolutamente nada a ver com isso. A verdade é que ela o admirava e o tinha como um exemplo. Logo, ela se ressentia com o fato de não ter a aprovação do Batman na realização de seu dever como heroína.
Tom também se beneficiou indiretamente com a mudança. Ele agradecia silenciosamente ao Batman por isso todos os dias. Desde que as brigas entre a princesa e o Morcego cessaram, Tom não precisou mais perder seu tempo tentando consolar Diana.
Eles finalmente estavam vivendo um namoro normal. Desfrutando da companhia um do outro, livres de preocupações. Não haviam lágrimas para serem enxugadas, diálogos intermináveis sobre o Batman ou falta de ânimo para aproveitarem uma noite romântica juntos.
Tom era completamente apaixonado pela amazona. Seu amor por ela aumentava exponencialmente. A paixão de outrora provocada pelo desejo se transformara em amor à medida que ele descobriu quem era a mulher por trás da heroína. Diana era infinitamente mais linda por dentro do que sua beleza exibia por fora.
Diana, por sua vez, respeitava, admirava e nutria um carinho desmedido por Thomas Tresser. Seus sentimentos por ele se aprofundavam gradativamente com o tempo. Ela era capaz de prever que um dia poderia amá-lo. O que ela não entendia era por que, mesmo estando feliz com Tom, a sensação de que faltava alguma coisa permanecia em seu coração. Infelizmente, Nêmesis entendia.
Ele era um homem experiente o suficiente para saber que Diana gostava dele. Que se ele fosse persistente, ela viria a amá-lo. Mas ela não estava apaixonada – não por ele. Ela era transparente e inexperiente demais para esconder seus sentimentos e, por mais que isso pareça uma coisa boa, no caso dele, era dolorosamente ruim.
(...)
Bruce estava conseguindo se sair melhor do que imaginava. As faíscas de sua fúria por causa do ciúme dele por Diana ainda estavam lá, queimando como o inferno. Mas para sua surpresa, ele conseguiu lidar com isso.
Ele precisou de pouco tempo para colher os frutos de sua mudança com ela. Apesar da desconfiança inicial, em pouco menos de uma semana Diana voltou a dirigir-lhe seus sorrisos mais estonteantes.
Não muito tempo depois, ele já tinha de volta seus abraços – no começo, tímidos e rápidos; posteriormente, calorosos e prolongados. Daí por diante ele conseguiu fazer com que ela confiasse nele novamente, a ponto de confidenciar-lhe suas aflições, conquistas e planos.
Nêmesis estava em missão há mais de dois meses. Como agente infiltrado, para não comprometer seu disfarce, ele não podia contactar qualquer pessoa ligada à sua vida pessoal. O que para o Batman era particularmente bom.
Certo dia, Bruce disse a Alfred que estava agradecido por Diana estar namorando o agente Nêmesis. Com um sorriso satisfeito, ele disse que Diana – mesmo depois de mais de dez meses de relacionamento – nunca dormiu com seu namorado. E que não se viam com frequência por causa de suas missões prolongadas.
A imensidão do amor que Bruce sentia por ela era indiscutível. Ele sentia tanta falta dela que, para surpresa de Alfred, ele vinha sendo capaz de contentar-se com o mínimo que ela poderia lhe dedicar. Ele estava realmente feliz em ter aquele sorriso estonteante de volta, projetando-se exclusivamente para ele, tirando-lhe a atenção durante as reuniões maçantes da Liga e que, ao invés de incomodá-lo, agora fomentavam uma sensação reconfortante.
‘Ela pode até ter um namorado, mas eu sei que ela inda me ama. A minha princesa me ama’, foi o que ele garantiu a si mesmo depois que Diana passou a olhar e sorrir pra ele com a mesma espontaneidade ingênua de outrora, durante as reuniões da Liga.
Diana estava absurdamente feliz. Ela não estava mais sozinha. Ela tinha alguém que a amava, que a fazia sentir-se especial. Tom era bom pra ela e ela gostava de estar com ele, mesmo não estando apaixonada. Não era como Bruce, que a fazia sentir-se fora do controle de suas emoções. Mas estar com Tom não era ruim. Era bom... Só não era espetacular.
Estar com Bruce fazia seu coração saltar, mas também havia o medo e a sensação constante de insegurança. Uma relação entre eles era sempre incerta e sujeita às mudanças bruscas causa do seu temperamento instável.
Além disso, ela e Bruce eram amigos de novo.
(...)
Numa das noites frias de inverno em Manhattan, Diana atravessou o céu em direção ao seu apartamento com uma angústia dilacerante. Tinha sido um dia difícil e o resultado da missão não foi bom o suficiente para acalmar seu coração. Tudo que ela queria era que Bruce estivesse lá para conversar, mas ele estava ocupado em Gotham por causa de uma fuga em Arkham e ela não queria incomodá-lo.
Não adiantava falar com quem quer que fosse: nem Tom, nem Alfred, nem Kal, Shay ou até sua mãe. Ela precisava de Bruce. E a razão disso é que não era só um desabafo. Ela precisava sentir o calor do seu abraço, seu coração palpitando e sua respiração aquecida. Ela precisava que os sentimentos que ela nutria por ele se sobrepusessem a dor que ela estava sentindo e só seu amor por Bruce era forte o bastante para encobrir a sensação de impotência.
Depois de um banho quente, ela tentou livrar-se das imagens do dia. E tudo que seu coração dizia era o quanto ela precisava cada vez mais de Bruce. Desesperada, Diana voltou-se para seu comunicador: Nenhuma mensagem recebida, nenhum correio de voz, nada. Ela pensou em ligar para Alfred e deixar um recado para Bruce, mas desistiu. Depois de algumas horas, ela achou melhor ir pra cama e tentar dormir.
O que ela não percebeu é que sua luta emocional durou a madrugada inteira. Eram 4h50 quando ela deitou na cama e fechou os olhos. Haviam-se passado apenas dois minutos quando ela sentiu a brisa fria invadir o quarto através da varanda e, em seguida, o som da voz poderosa.
— Eu estava esperando um chamado seu, princesa! – Bruce acabara de entrar pela varanda do apartamento de Diana.
Quando ele entrou pela varanda, silencioso e imponente, sua poderosa capa preta farfalhando sob o comando do vento, a pele de Diana arrepiou-se, como que por encanto.
Ele estava preocupado com ela depois de ler os relatórios da Liga sobre a missão mais recente. Ele tirou o capuz para mostrar um olhar carregado de afeto antes de perguntar novamente por que ela não o chamou?! Diana sentou-se na cama, colocando os travesseiros na cabeceira, para amparar as costas.
— Eu sabia que você estava ocupado em Gotham. Eu não queria incomodar.
— Killer Croc foi levado para Arkham há mais de três horas, princesa. Se você tivesse ao menos ligado para alguém na Liga você saberia que ele havia sido o último a ser devolvido à cela. Meu trabalho terminou há muito tempo. Eu só estava esperando por você.
—É... Eu devia saber – ela queria se afundar em seu abraço e dizer-lhe tudo, mas tinha medo de começar a chorar, então abaixou os olhos.
— Diana... olhe pra mim! – Ele ergueu suavemente o queixo dela para que pudesse enfrentar o seu olhar.
— O que aconteceu? Não foi só a missão, não é? Não foi por causa dos feridos no incêndio... Você esteve na fundação esta noite. – Seus profundos olhos azuis examinaram os dela.
— Como você sabe? – Bom, ele era o Batman, mas ela se atreveu a perguntar.
— Talvez você me odeie por isso, mas eu sempre mantenho meus olhos sobre você, princesa. Eu me sinto mais tranquilo tendo certeza que você está segura.
Diana sorriu. Ela deveria estar irritada com ele. Mas ela estava muito fraca para brigar. Tudo que ela queria era seu abraço e seu conforto e ele estava lá, diante dela.
Um segundo depois Diana já não conseguia impedir que as lágrimas escorressem pelo rosto. Ela jogou-se nos braços de Bruce e agradeceu aos deuses por amar um homem com uma estrutura física grande o bastante para encaixá-la em seu colo e envolvê-la completamente em torno de seu abraço.
— Ela morreu, Bruce. Maria morreu e a culpa é minha. – Uma ferida estava sendo aberta no coração de Bruce quando ele encarou a dor nos olhos dela – Seu marido a espancou até a morte. Quando eu cheguei... era tarde demais... É tudo culpa minha, Bruce... eu não fui rápida o bastante... eu... É tudo culpa minha.
Bruce permaneceu em silêncio por um tempo, suas mãos acariciando seu cabelo, enquanto a mantinha segura, com o rosto mergulhado na curva de seu pescoço e a cintura firmemente enlaçada em volta de seu abraço.
— Eu pensei ter ouvido você dizer que ela estava na casa-abrigo da Fundação com os filhos.
— Ela estava. Eu a convenci a ficar no abrigo na noite passada, Bruce. Depois disso, eu tentei levá-la ao hospital, mas ela se recusou. Ela disse que amava o marido, que não era culpa dele, que ele estava desempregado. Ela deixou as crianças lá esta tarde e voltou pra casa. – Diana soluçava a medida que as palavras iam se soltando.
— Me ligaram da Fundação pra que eu fosse buscá-la. Que ela não ouvia ninguém além de mim. Eu tentei ir até lá, mas... – A voz de Diana falhou.
— Houve a emergência da Liga! – Bruce completou, assumindo que ela perdera a voz.
— Eu tive que ajudar os moradores. Os bombeiros não iam conseguir deter o fogo. E quando fui até ela...
— Era tarde demais – Ele terminou a frase mais uma vez, roçando seu queixo sobre os cabelos negros da princesa das amazonas.
Levou um bom tempo até que ele finalmente sussurrou que não era culpa dela, mantendo o movimento constante dos dedos a acariciar-lhe os cabelos, o rosto, as costas. Ele trouxe o olhar dela de volta para o seu e enxugou as lágrimas depois de retirar as luvas.
— Não é culpa sua, Diana. Você sabe disso.
Lentamente, aproveitando-se que Diana ainda estava em seu colo, ele a tomou nos braços e a colocou confortavelmente na cama. Organizou os travesseiros para que ela tivesse o maior conforto possível e a cobriu parcialmente. Depois, despiu-se completamente do traje de morcego, ostentando apenas a clássica cueca boxer preta.
Não houve qualquer sinal de protesto ou censura da parte dela. Tampouco Bruce ponderou se estava sendo leviano. Naquele momento, é justo dizer que nenhum dos dois era capaz de julgar que suas ações não eram apropriadas para um casal de amigos e que um deles estava comprometido com outra pessoa.
Para bem da verdade, mesmo inconscientes disso, eles não se sentiram culpados ou desleais por estarem tão intimamente ligados. Eles não estavam compartilhando carícias eróticas. Seus olhos não revelavam desejo ou luxúria. Tudo que compartilharam foi a força poderosa de um sentimento capaz de curar as feridas mais profundas: o amor.
Bruce deslizou suavemente do outro lado da cama, sob as cobertas. A familiaridade era tanta que ele parecia habituado a dormir com. Ele assumiu perfeitamente o seu espaço, enroscou-as em seus braços, trazendo-a para si, com o rosto repousando contra seu peito nu, embalando-a através do ritmo tranquilo das batidas de seu coração.
Antes de entregar-se ao sono, ela foi capaz de sussurrar para ele:
— Eu sei que não é minha culpa, Bruce... Mas, eu precisava que você me dissesse isso para me fazer acreditar.
— Funcionou?
— Sim, senhor Wayne... Seu charme ainda funciona.
Ela queria dizer mais que isso, mas achou que um sinal de bom humor faria um bem a ele maior que qualquer declaração de amor. Ela sabia que para ele era mais importante saber que ela estava bem, do que saber que ela o amava.
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