Coração é terra que ninguém vê
11 Inquietações
Bruce saiu do prédio apressado, visivelmente irritado por estar atrasado para reunião de negócios com acionistas da WayneTec. O perfil de playboy o permitia o uso de justificativas esfarrapadas, mas ele já não se mostrava tão irresponsável como costumava parecer antes, se envolvendo e se colocando à frente dos negócios da Wayne Enterprises.
Verdade seja dita, Bruce era um ás também nos negócios. Após receber a herança de seus pais, mortos brutalmente durante um assalto mal-sucedido, Bruce já era listado pela revista Forbes entre as 15 maiores fortunas do mundo. Hoje, seu patrimônio já lhe garantia ocupar um lugar entre os três mais endinheirados do planeta. Isso, levando apenas em consideração bens legais declarados, mas decerto havia muito mais fora da área de cobertura da imprensa e do poder público: bens, lucros, investimentos e gastos que não entravam na folha financeira cedida aos órgãos fiscalizadores da Receita Fiscal. Não que ele fosse corrupto, longe disso. A ocultação era uma necessidade para sua proteção, já que essas transações omitidas levariam à sua associação com as atividades do Batman.
Bruce esperou o manobrista do luxuoso prédio onde morava temporariamente trazer seu carro. Estava visivelmente irritado por não conseguir equilibrar os pensamentos depois da conversa com Clark. Dormira mal, estava visivelmente cansado e suas horas gastas com a pesada série de exercícios físicos desgastantes na imensa sala de musculação de seu triplex não lhe servira para aliviar suas tensões. Ele jamais admitiria para si mesmo, mas a conversa com seu amigo kryptoniano o perturbara mais do que ele esperava, mas não pelos motivos que ele supunha. Ele não estava arrependido de ter mostrado a Clark uma parte fragilizada de suas emoções. Tampouco amuado por perceber que Diana ainda ocupa um lugar importante em seu coração.
Uma parte dele queria vê-la com urgência e isso o estava irritando em demasia. Colocar para fora uma dor guardada por anos o fez aliviar-se de um peso esmagador, mas acabou por lhe causar um problema inesperado. E Bruce Wayne não admitia ser surpreendido, nem mesmo por ele mesmo, muito menos por seu coração. Ele não esperava que suas memórias lhe rendessem emoções tão vivas e palpáveis. Ele contava com que sua raiva, relembrando sua humilhação e rejeição, engolisse qualquer vestígio do amor que ele ainda pudesse guardar por ela. Mas raiva era o que ele menos estava sentindo agora.
Por alguma razão, que ele não entendia, aquela conversa o fez expurgar muito do veneno que ele conservara em si. Talvez como medida protetora, para eliminar da alma o amor que dedicava a ela. Talvez para convencer a si mesmo que só alimentando seu ódio, ele seria capaz de subjugar seus sentimentos. E agora, livre de boa parte da toxina liberada por sua ira, expelida pelo coração, ele se viu novamente atraído para a bela amazona de olhos azuis que quebrara impiedosamente seu espírito.
— Seu carro está disponível na entrada principal do prédio, Senhor Wayne! – Informou o elegante consierge do condomínio – Queira me acompanhar!
— Obrigada! – Bruce respondeu, sem entusiasmo.
— Posso ajudá-lo em mais alguma coisa, senhor Wayne? – Insistiu, antes de cruzar a porta de entrada e saída para os apartamentos.
Bruce limitou-se a responder com um aceno de uma das mãos, levantada em sinal negativo. Mas a reação descortês não fora proposital. Seus pensamentos, seu corpo, seus sentidos... ele fora imediatamente capturado pela fragrância que a brisa do verão lhe trouxera, assim que pôs os pés na calçada do prédio. Era o doce e suave perfume de jasmim e rosas que por tanto tempo o atormentara. ‘Será que estou enlouquecendo?’, se perguntou. Mas aquilo era tão real... Como poderia sua mente enganá-lo daquela maneira?
Repreendeu a si mesmo e dirigiu em direção à empresa. Ponderou que precisava colocar esses sentimentos para fora mais uma vez, fortalecendo a parte de si mesmo que lhe garantia o controle de tudo: MAIS Batman / MENOS Bruce. Ele sabia que em breve ele e Diana estariam juntos em missão, forçados a uma situação de intimidade que, embora ambos soubessem que se tratava de uma farsa, os forçaria a ultrapassar a barreira segura que eles construíram entre eles com as trocas de insultos e provocações. Era hora de focar na missão, no plano, nas investigações do caso, em submeter-se exaustivamente aos treinamentos físicos e mentais que lhe exigem não menos do que a perfeição.
Do outro lado da avenida, sentada no banco de um parque, de costas para o prédio que ele acabara de deixar, uma moça com longas madeixas negras contemplava o horizonte, absorta em seus próprios pensamentos. Ela desejava ardentemente voltar ao passado para reviver seus momentos de felicidade plena, ao mesmo tempo em que orava aos deuses uma chance de corrigir os próprios erros.
(...)
Na impressionante sala de reuniões da WayneTec em Metrópolis, Bruce pôs-se de pé para receber Lois, Clark e Diana, cumprimentando-os de maneira breve. Dois dias haviam se passado desde sua conversa com Kent e, faltava menos de seis dias para o fim de semana, quando eles deveriam embarcar no navio e por os planos em ação.
— Bom, Clark já deve ter lhes falado porque vocês estão aqui?! Então eu não vou perder tempo detalhando coisas que vocês não precisam saber. – Disse Wayne, secamente, com a postura estóica e rígida de sempre – Basta que vocês saibam que minhas investigações me levaram a crer que esses sequestros relâmpagos, com a finalidade de extorquir milionários envolvidos em atividades – digamos – questionáveis, estão diretamente ligados à atividades terroristas.
— Você já tem indícios de quem está por trás disso, Bruce? – Diana abriu a rodada de perguntas, olhando pra ele com seriedade.
— Ainda não. – respondeu – Tentei rastrear as transações bancárias começando pelas contas de quem foi lesado, seguindo o faro do dinheiro, mas quem fez isso sabia muito bem como camuflar as coisas. Ele fez milhões de pequenas transferências para centenas de contas, ao mesmo tempo, em paraísos fiscais. Fica impossível achar o rastro deixado pelo dinheiro quando você o divide em milhares de pedaços e envia em milhares de direções. As poucas pistas que consegui achar não levam a lugar nenhum!
— Como você tem certeza de que são terroristas? – Lois arregalou os olhos e se inclinou sobre a mesa, não escondendo a excitação de participar de toda essa trama. O intrépido espírito da jornalista investigativa era definitivamente um traço predominante de sua personalidade forte.
— Durante uma patrulha em Gotham, prendi um dos capangas do Pinguim para ‘convencê-lo’ a me dar informações sobre um roubo a banco, ocorrido na madrugada anterior. – Bruce lançou sobre a plateia um sorriso que, apesar de cínico, era bem verdadeiro – Digamos que meus métodos tenham ultrapassado os limites da eficiência e ele acabou me contando muito mais do que eu havia perguntado.
— E você acha isso divertido, Bruce? – Kent perguntou expressando sua total desaprovação.
— Minhas preferências e meu conceito de diversão não estão em questão, Kent. Eu tenho um trabalho a fazer em Gotham. Eu não me importo se você julga meu método adequado ou não. Funciona. É o bastante pra mim! – rebateu Bruce, levemente irritado – O importante é que ele cuspiu que eu deveria saber sobre os sequestros. Ele disse que aconteciam durante cruzeiros organizados por ricaços para exibir-se com suas amantes, fazer uso de drogas ilícitas abertamente, realizar operações ou transações empresariais ilegais, em alto mar, fora de todos os limites alcançados pela Lei.
— Deve ser por isso que as pessoas roubadas não procuraram as autoridades para denunciar as extorsões. – Deduziu Diana, tentando desviar o olhar dos olhos de Bruce, que lhe dirigia um pouco mais da atenção que ela pensou ser capaz de lidar. – Acionar a polícia acabaria por expor suas atividades ilegais... Mas eu me pergunto: estamos falando de quanto dinheiro? Os terroristas esvaziavam as contas?
— Não chegavam a esvaziar as contas, mas as reduzia à metade, certamente. – Disse Bruce, tentando esconder um certo ar de orgulho pela perspicácia de Diana. Imediatamente lembrou como trabalhar com ela fácil. Ela tinha bons instintos, era inteligente, tinha técnicas de combate bem treinadas (embora não dominasse as artes marciais como ele), além de usar com maestria seus dons meta-humanos – Estamos falando de muito dinheiro. São, pelas minhas investigações, mais de 40 milionários cujas contas foram reduzidas à metade. Isso daria para acabar com a dívida externa de quase a metade dos países de Terceiro Mundo.
— Pra quê eles querem o dinheiro? Você já sabe, Bruce? – Lois arriscou-se em perguntar.
— É um ótimo ponto, Lois. Você, como sempre, sagaz!! – Elogiou Bruce, fazendo Diana baixar a cabeça, na tentativa de esconder uma pitada de ciúme em seus olhos – Eu ainda não sei, mas tudo leva a crer que um atentado terrorista de proporções mundiais está em andamento e eles só precisam de financiamento.
Clark observava tudo atentamente, com uma expressão de seriedade que denunciava sua profunda preocupação com os rumos da conversa. Ele também tinha perguntas e suspeitas, mas preferiu guardar para si, perdendo-se na sensação angustiante de sua intuição.
— Uma coisa é certa: Não estamos lidando com amadores ou vilões meramente gananciosos. – Interveio Diana – Só uma mente afiada e brilhante poderia ter orquestrado um plano assim, tão bem amarrado. Que só foi descoberto pelo Batman por acaso. Quem quer que esteja por trás disso não está necessariamente interessado no dinheiro. Ele ou ela quer muito mais. E nós precisamos descobrir o que é antes que seja tarde.
Bruce levantou da cadeira, colocando as palmas das mãos sobre a mesa, enquanto inclinava-se para encarar o grupo.
— É por isso que estamos aqui – ressaltou, com uma expressão séria – Nós vamos nos infiltrar no próximo cruzeiro e tentar descobrir o máximo possível de informações sobre o responsável por estes crimes.
O plano
Todos concentraram as atenções no cavaleiro das trevas enquanto ele debulhava seu plano de ação e o papel de cada um na missão, além de um plano B, para o caso de algo sair errado – o que, no caso de Bruce, não era novidade, já que seus métodos estratégicos excepcionais contemplavam todas as possíveis frentes de ação, bem sucedidas ou não.
De acordo com o plano, Bruce Wayne, o multimilionário playboy de Gotham, que mostrara interesse em participar de um ‘evento’ desse tipo em um baile de gala promovido recentemente pela casta composta pelos cidadãos mais ricos de Metrópolis, não encontrou dificuldades para justificar sua presença no cruzeiro. Recebera mais de 15 cartões-convites de colegas e amigos abastados, que lhe garantiram um passaporte para o embarque. Como essas reuniões envolviam homens e, algumas poucas mulheres, ricos e poderosos, entre políticos e empresários, expostos em atividades ilegais – que variavam de pedofilia, uso abusivo de drogas, à transações ilegais (de dinheiro ou até prostituição) – o acesso era absurdamente restrito, apenas por meio de um convite sigiloso, enviado à residência do convidado, contento um cartão magnético com chip, dentro de um envelope em branco, sem remetente ou destinatário. O cartão de entrada só era validado após uma investigação da vida e das finanças do convidado.
Não eram raros os casos de ricaços que não tiveram suas entradas liberadas pelos organizadores, mesmo com seus respectivos cartões em mãos, simplesmente porque a organização percebeu que não se encaixavam no perfil adequado ao evento, garantindo sigilo às transações realizadas lá, ou porque, apesar de riquíssimos, alguns não chegaram a atingir o padrão mínimo de fortuna exigido para participação.
Para alguém como Bruce Wayne, não havia dificuldade que barrasse sua entrada: ele era um dos homens mais ricos do mundo, um notório playboy esbanjador, um mulherengo declarado e não se esforçava em esconder de ninguém suas depravações. Era o convidado perfeito!
À medida que Bruce destrinchava seu plano, Diana ia ficando cada vez mais nervosa. Não tinha nada a ver com sua preocupação com Lois – que mesmo intrépida e esperta, não tinha poderes ou habilidades para se proteger, caso fosse necessário. Nem com o fato de Kal ser um péssimo mentiroso – correndo o risco de ser facilmente desmascarado. Ou com Bruce estar divertindo-se às suas custas, sem nem ao menos disfarçar, dizendo-lhe que ela teria que passar a maior parte do tempo à bordo do navio usando biquíni ou trajes provocantes.
Diana não estava confortável com isso, mas não porque comungava com os mesmos pudores impostos pelo machismo das regras de conduta do patriarcado, que só era imposto para as mulheres. Ela fora criada num ambiente em que as mulheres cuidavam de seus corpos e mentes, trabalhando-os à perfeição atlética; onde a nudez não era condenada ou vista como pecaminosa e lasciva. A nudez era bela e apreciada. Seu desconforto se concentrava em dois motivos: homens asquerosos lançando-lhe olhares luxuriosos por causa dos trajes mínimos e Bruce, provavelmente, numa distância curta o suficiente para tocar-lhe a pele e o coração.
Ela ainda conseguiu emitir um som que parecia uma risada – embora nem ela soubesse dizer ao certo se estava rindo ou grunhindo – quando Bruce disse, com o típico meio-sorriso sarcástico que costuma dar quando está possuído por sua versão cafajeste, que faria questão de acompanhá-la nas compras do vestuário para o fim de semana. Incentivado pelas risadas estridentes de Lois, que disse estar imaginando a cara de Diana, enquanto se contorcia, segurando a barriga. Enquanto Clark parecia preocupado demais para gargalhar, mas conseguiu sorrir diante da situação. No fundo, todas as outras preocupações eram administráveis se comparadas ao que estava lhe causando arrepios através da espinha: a intimidade com o homem que ela amava.
É óbvio que ela entendia que tudo fazia parte de uma encenação, onde ela seria a amante da vez a acompanhar Bruce Wayne. Ela sabia que não seria real, como o que eles tiveram antes. Diana não era uma tola sonhadora. Ela era inteligente o suficiente para não confundir as coisas entre eles. O problema é que ela não estava segura se seu coração entenderia isso. Como ela disse a Kal, ela era consciente de que só um milagre a faria reconquistar o coração de Bruce, por isso, estava conformada em se esforçar para ganhar seu respeito e confiança novamente. Ela não estava segura se conseguiria de fato lidar com a proximidade em virtude da missão e com o afastamento dele quando ela acabasse.
— Eu só não entendi porque eu e o Clark tínhamos que nos infiltrar entre os funcionários. – Disse Lois, provocativa – Vocês vão desfrutar do luxo e eu e SmallVille vamos sofrer com o proletariado. Isso é injusto, Bruce.
— Você quer ir ou não, Lois? – Perguntou Bruce, com um olhar de desdém – Já foi difícil conseguir que vocês fossem integrados ao quadro de funcionários, já que eles também passam por uma rigorosa investigação.
— Que seja! – Lois revirou os olhos em sinal de enfado.
— Bom... todos já sabem o que fazer – Encerrou Bruce. – Depois mando as identificações de acesso de vocês dois – falou olhando para Clark e Lois. – Vocês têm uma reunião de funcionários na manhã da sexta-feira, antes do navio zarpar. Vejam se conseguem alguma informação.
— Podemos ir? – Clark finalmente resolveu falar.
Bruce fez um sinal de positivo enquanto os conduzia através das salas do seu imenso escritório. Lois e Clark já estavam próximos ao elevador quando Bruce deteve Diana por um momento, segurando seu braço sem nenhum sinal de delicadeza, mas também sem agressividade. Era um meio termo perfeitamente equilibrado de segurar uma mulher, que lhe garantia a medida exata de masculinidade sedutora.
— Lembre-se, princesa... – Ele lançou novamente seu meio-sorriso arrogante e sedutor – amanhã nós vamos às compras e provavelmente você não vai gostar do que vai usar!
— Está bem, Bruce. Eu já entendi. Não se preocupe! – Ela respondeu calmamente, tentando não olhar nos olhos dele, consciente de que ele a estava provocando, esperando Deus sabe que tipo de reação dela – Eu disse ao Kal para lhe dizer que seguiria o plano sem questionar. – Ela soltou um sorriso melancólico e ele sentiu-se estranhamente mal com isso, deixando-a partir com Lois e Clark, que a esperavam na frente do elevador.
Ele voltou ao escritório para analisar mais pistas sobre o caso das extorsões e é justo dizer que, mesmo debruçado no caso durante horas, isso não lhe rendera nenhum avanço. Mas o motivo de seu insucesso não tinha nada a ver com as complicações de investigar um crime quase perfeito. Era aquela maldita amazona que não lhe saía da cabeça.
Bruce precisou lidar com o sentimento de impotência que sentiu quando se aproximou dela pela última vez, após a reunião. Ele não entendia porque aquele comportamento ‘domesticado’ – ele pensou – dela o incomodara tanto. Ele estava acostumado à sua fúria dirigida à ele, respondendo-lhe as constantes provocações que ele incitava. No fundo, isso o divertia sobremaneira. Ele estava tão acostumado as suas reações furiosas às provocações que ele a dirigia, que foi, no mínimo, estranho vê-la tão passiva. E ela não gostava dela assim... Essa não era Diana.
Ponderou que tocá-la, se aproximar dela, olhá-la diretamente nos olhos, definitivamente, foi um erro que lhe custou caro. Ele lutou bravamente para não perder o controle quando sentiu a mistura inebriante dos cheiros que exalavam de seu pescoço e cabelo quando agarrou-lhe o braço. Ele queria tentar perfurar suas defesas uma última vez, para quem sabe despertá-la desse transe inerte de reações. Mas isso o afetou mais que o esperado.
Ele resolveu voltar ao apartamento... Quem sabe amanhã ele consiga algo mais que essas inquietações.
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