Notas iniciais
* Todas as emoções estão de volta... Como será daqui pra frente? *Espero que estejam gostando!

Shayera ainda estava rindo quando Diana saiu do banho. Por algum motivo, assim como Lois, a ruiva achava hilária a situação constrangedora de Diana.

— Alguém pode me dizer sinceramente qual a graça disso? – Diana perguntou enquanto tirava a toalha do cabelo e começava a secá-lo. – Você e a Lois têm um humor bem questionável, sabia?!

— Você não acha graça porque você é a graça, Di – respondeu a ruiva tentando parar de rir – Eu já tô imaginando a cara do Bruce fazendo da sua vida um inferno por três dias, te fazendo usar roupas minúsculas o tempo todo, enquanto finge que você é a concubina dele. – Shayera quase não terminou a frase com mais um ataque de riso.

— Não há inferno nenhum, Shayera – arrematou Diana, visivelmente chateada com a chacota da melhor amiga. – Ele não está fazendo isso pra me atingir. É uma missão: simples assim. Eu vou fazer o que tenho que fazer e ponto final.

— Desculpe, Di. Eu acho que exagerei na brincadeira – disse Shayera – Eu não imaginava que você estava tão de acordo com isso, a ponto de não se importar com coisas que te incomodam normalmente.

— Tudo bem, Shay – Diana respondeu, enquanto procurava o que vestir no guarda-roupa – Eu sinceramente nem sei se vou conseguir conter meus sentimentos nesse meio tempo, que dirá durante esse maldito fim de semana?!

A ruiva fez uma careta incrédula, tentando decifrar o real sentido das palavras de Diana. – Peraí... deixa eu ver se eu entendi?! Você está tentando controlar seus sentimentos com relação ao Bruce? Eu achei que vocês se odiassem... Apesar de, no começo, eu estar certa de que essa implicância era pura tensão sexual... mas depois, vocês ficaram insuportáveis o suficiente para eu pensar que se odiavam de verdade.

— Vo-cê... não... vo-cê en-ten-deu tudo erra-do, Shay – Diana gaguejou para responder, visivelmente nervosa, derrubando meia dúzia de roupas das araras de suporte, penduradas no armário. – Eu estava me referindo a... bem... ao fato de que eu posso perder o controle das minhas emoções se ele me irritar demais. É só isso! – ressaltou, tendo recuperar o controle.

— Diana, quer um conselho? – a thanagariana disse-lhe usando um tom bem-humorado – Quando não quiser revelar demais seus sentimentos respondendo uma pergunta, fique quieta... Porque você é uma péssima mentirosa. Além do mais, eu sinceramente não entendo o motivo dessa sua tentativa de negação. Eu sou sua melhor amiga, não sou? Você por acaso não confia em mim o suficiente para me dizer que gosta de alguém?

— Não é isso, Shay. Me desculpe... é claro que você é minha melhor amiga e eu confio em você, mas é que... – Diana respirou fundo e resolveu revelar só parte do problema, para evitar perguntas – eu gosto mesmo dele e eu estou com medo de não saber lidar com toda essa intimidade a que estaremos expostos durante essa missão. Eu sei que é tudo encenação, mas bem... Estou preocupada porque vamos dormir juntos. Não podemos pedir camas separadas se somos amantes.

— Bom... pra mim não é surpresa que você goste dele. – Shayera riu maliciosamente ao se aproximar de sua amiga – Agora quanto a isso ser um problema, eu acho que você está redondamente enganada, alteza.

Diana olhou pra ela incrédula. Ela só a chamava de alteza quando queria cutucá-la. – O que, em nome do Tártaro, você quer dizer com isso, Shayera?

— Seria um problema se você o odiasse, mas como você gosta dele, será uma oportunidade única pra vocês se aproximarem, princesa – Shayera afastou Diana da frente do guarda-roupa para escolher o que ela iria usar naquela tarde. – Além do mais, não é um problema porque ele também gosta de você.

— Você enlouqueceu de vez, Shayera Hall. – Diana tentou, sem sucesso, tirá-la do caminho – Acho que o excesso de álcool no seu sangue já começou a danificar seu cérebro.

— Ei, alteza... Não precisa ofender! – a ruiva fingiu-se magoada, enquanto estendia sobre a cama a roupa que havia escolhido para Diana – Não há loucura nenhuma em aconselhar uma amiga que gosta de um cara a aproveitar sua chance de se aproximar dele.

— Por mais que isso também esteja fora das minhas intenções, senhorita Hall, eu devo lhe dizer que estava me referindo ao fato de você achar que o Bruce gosta de mim. – Diana respondeu tentando não revelar sua tristeza na voz – Acho que nem se eu fosse a última mulher do mundo, ele iria me querer, Shay – disse forçando um sorriso descontraído.

— Em primeiro lugar, ele gosta de você. PONTO! – Shayera segurou com as duas mãos o rosto de Diana, que estava sentada em sua cama, fazendo-a olhar em seus olhos, de pé diante da amiga – Em segundo lugar, você é, de longe, a pessoa mais linda e mais apaixonante que eu conheço, Diana. E não é porque você é uma porra de uma semi-deusa presenteada por Afrodite com o dom da beleza. Fodam-se os deuses... é porque você é a pessoa mais generosa, altruísta, sensível e cativante que eu já vi na vida. Eu nunca imaginei que isso fosse possível, Di, mas é verdade: o seu coração consegue a incrível façanha de ser ainda mais bonito que você.

Diana a abraçou, com lágrimas nos olhos, agradecida por ouvir de alguém que ela ama coisas tão bonitas, embora não se considerasse merecedora de tanto crédito. Ela obedeceu Shayera que a mandou se vestir, para por fim aquela ‘cena ridícula de novela mexicana que a faria perder a fama de garota durona’, segundo ela.

Diana vestiu a saia lápis de couro escuro, com uma generosa fenda na coxa direita e uma camisa social de mangas longas de seda branca, dobrando as mangas até a metade do antebraço. Colocou uma sandália creme de salto médio, que tinha duas tiras bem finas para marcar apenas os tornozelos e alinhar os dedos delicados dos pés. Ela ainda tentou argumentar com Shayera que estava arrumada e ‘sexy’ demais para apenas ir às compras com Bruce. Mas a ruiva acabou convencendo-a de que ela precisava ‘entrar no personagem’ para o caso de também a estarem investigando para saber se ela é realmente amante de Bruce. No fim das contas, ela olhou-se no espelho e gostou do que viu.

(...)

Bruce estava no corredor de acesso aos dormitórios quando começou a se perguntar o que diabos ele estava fazendo. De repente não se sentia mais seguro para se manter no controle da situação. Começou a se questionar se tomara a decisão certa ao colocar Diana nessa missão. Se não devia ter chamado Dinah ou Zatanna. Se não estava se colocando numa armadilha armada por ele mesmo. Se poderia lidar com as consequências de uma decisão precipitada, tomada no calor das emoções, que só lhe trariam dor e arrependimento.

Sentiu-se impelido a desistir de tudo antes que fosse tarde demais. Iria refazer seus planos de ação, talvez com outra pessoa, talvez sozinho... Ele estava confuso e aflito. Amaldiçoando Diana por ser a razão de sua mente turva, provocando nele um despertar de emoções que interferem diretamente em suas conclusões e decisões lógicas e racionais.

Bruce parou de pé na porta do quarto dela, tentando decidir se era mais prudente bater e dar sequência ao plano ou dar meia volta e ir embora. Podia sentir a fragrância do aroma que tanto o perturbava, obrigando-lhe à necessidade urgente de vê-la. Já não restavam mais dúvidas. Ele a queria por perto. Já não havia mais a opção de desistir de tudo. Só a vontade de estar com ela. ‘Esse maldito perfume’ era agora o juiz de suas ações e tomou a decisão de ficar por ele. Bruce amaldiçoou a si mesmo por sua incapacidade de resistir-lhe.

(...)

Diana sentiu-se um pouco intimidada com aquele ambiente refinado. Não estava acostumada a tanto luxo. Embora algumas pessoas achassem que, por ser uma princesa, ela desfrutava de luxos e regalias em sua ilha natal, esse pensamento estava longe de retratar a verdade. As amazonas eram sobretudo mulheres guerreiras, criadas desde sempre, para a batalha. Suas acomodações austeras e simples eram condizentes com a realidade de sua missão. E a rainha e sua filha partilhavam dos mesmos princípios.

Eles estavam numa das luxuosas salas privadas da Maison mais cara de Metrópolis. ‘Bruce, essa sala é maior do que o meu dormitório e o da Shay juntos’, Diana cochichou antes de seguir a vendedora até a cabine de prova, dentro da sala particular. Ele queria roupas de grife para não levantar suspeitas sobre sua amante. Diana achava que era um gasto desnecessário, mas ele a convenceu de que ‘Se Bruce Wayne financiava uma amante, ela ostentaria sua fortuna com futilidades dispendiosas’.

Bruce estava relativamente impaciente, sentado confortavelmente na elegante poltrona de couro, da sala privada, em frente à interminável parede de espelhos, aguardando Diana mostrar-lhe a primeira prova de peças que ele e a ‘consultora pessoal de imagem’ da loja escolheram.

— Vamos Diana, saia dessa cabine e venha aqui! – Ele a chamou, visivelmente contrariado, embora não houvesse nenhum motivo para tanto.

— Calma, Bruce... Eu estou tentando ajustar uma coisa – Ela disse, com uma voz tão macia que parecia uma canção de ninar – Eu não sei porque você está tão impaciente. Eu só estou aqui há cinco minutos!

— E em cinco minutos você não consegue colocar um biquíni? – Ele tentou parecer menos implicante, reconhecendo que estava exagerando.

Ele estava impaciente, mas não era porque ela estava demorando ou porque aquilo o estava irritando. Ele parecia muito mais ansioso para vê-la naquelas peças miúdas e ousadas do que qualquer outra coisa.

— Bruce... você tem certeza que escolheu o tamanho certo? – Diana perguntou, com uma voz aflita – Eles são muito pequenos. Não cobrem praticamente nada!

— O tamanho está certo, Diana. Agora saia dessa cabine para que eu possa dizer se está bom ou não! – Ele disse, tentando esconder a diversão nas palavras.

Diana saiu da cabine usando um lindo biquíni branco, que apesar dos detalhes dos bordados trabalhados em fios de ouro, que o faziam berrar que se tratava de uma peça caríssima de uma grife famosa, não cobria muito. Não era um fio dental vulgar, obviamente, mas Diana era uma mulher com curvas sinuosas, um derrière de causar inveja e seios na perfeita e equilibrada medida entre o tamanho médio e o grande.

Bruce engasgou, literalmente, com aquela visão. Como de costume para clientes de fino trato nas lojas de altíssimo padrão, fora-lhe servida uma taça de champanhe, que ele quase deixou cair no chão. Ela estava linda... Era aquele biquíni, pequeno, sexy, atrevido... ou não... não era o biquíni. Era ela! A visão dela o encantava de qualquer maneira. E vê-la em sua frente, com as bochechas coradas, com um sorriso nervoso estampando seu rosto bonito, tentando, em vão, usar as mãos para cobrir um pouco mais os seios e a bunda o causou um furor fora do normal.

— Está ótimo! – Bruce disparou – vamos levar. Agora prove os outros e volte pra cá. Quero ver tudo!

— Mas Bruce... tem certeza? – Ela perguntou visivelmente contrariada, tentando conter a vontade incontrolável de desobedecê-lo e segurando seus impulsos assassinos, que desejavam estrangulá-lo por submetê-la a isso.

Ela voltou à cabine de prova murmurando uma dezena de palavrões impronunciáveis em grego, enquanto ouvia as gargalhadas estridentes de Bruce, que obviamente entendera cada palavra, já que também dominava o idioma. Tinha prometido não brigar com ele e seguir suas diretrizes. Só não sabia que seria tão difícil.

O que, provavelmente, nenhum dos dois esperava é que a experiência fosse tão divertida para ambos. ‘Bruce estava visivelmente satisfeito em constranger-me’, ela pensou. ‘Ela está visivelmente prestes a me esganar’, ele pensou. Eles estavam errados. Roupa após roupa, entre biquínis minúsculos, chapéus extravagantes, saídas de banho transparentes e vestidos de noite excessivamente decotados, podiam-se ouvir os sorrisos, a troca de olhares carinhosa e conversas agradáveis.

(...)

Eles estavam no carro, voltando ao Campus quando Bruce perguntou a Diana o que ela achava deles aproveitarem pra jantar em algum lugar antes dele a levar ‘em casa’. Ela respondeu imediatamente que achava uma ótima ideia, num impulso tão rápido que a fez se perguntar se estava fazendo a coisa certa? Se não estava se deixando iludir por algo que provavelmente, depois da missão, iria acabar.

Bruce a levou a um restaurante que ele adorava, em uma parte mais afastada e alta da cidade, numa colina ao Sul de Metrópolis. Não era o tipo de lugar refinado que ele costumava levar as garotas com quem saía quando estava na pele do playboy endinheirado e frívolo que só se permite aquilo que de melhor o dinheiro pode comprar. O pequeno bistrô não estava no Guia Michelin de restaurantes e chefs premiados com o ‘Oscar’ da cozinha. Mas tinha um encanto singular que Bruce adorava.

Parte das mesas ficavam na parte de dentro do bistrô, que provavelmente antes era uma casa, transformada em um restaurante. As outras ficavam do lado de fora, nos fundos do lugar, com uma vista de tirar o fôlego da cidade iluminada pelas luzes noturnas.

Diana correu para ocupar uma das mesas externas. Ela definitivamente tinha adorado aquele lugar.

— Nossa... esse lugar é maravilhoso, Bruce! – Ela declarou sem olhar pra ele, com os olhos iluminados, vidrados nas luzes da metrópole à sua frente.

— Eu gosto muito daqui. Embora eu tenha vindo pouquíssimas vezes. – Ele também contemplava a vista – Mas não espere nada refinado aqui, princesa. – Falou, surpreendentemente bem-humorado – Aqui a cozinha é muito simples, mas eu já provei alguns pratos deliciosos, já a carta de vinhos deixa a desejar. É possível que o dono não possa oferecer opções melhores... Vinhos bons, infelizmente, são relativamente caros.

— Não se preocupe. Você sabe que eu não ligo pra isso! – Ela disse sorrindo, enquanto voltava sua atenção para o cavalheiro à sua frente, encontrando seus olhos a observá-la.

Ela percebeu uma leve mudança de expressão em seu rosto quando ele ouviu sua resposta... ‘Oh, doce Afrodite, será que eu o magoei?’, ‘Por que, pelo Tártaro, eu tinha que lembrar que ele me conhece intimamente?’, ela repreendeu-se, sem conseguir esconder o olhar frustrado que lhe roubara o brilho.

— Me desculpe, Bruce! – Disse, baixando a cabeça – Eu sempre acabo estragando as coisas.

Bruce queria dizer que sim. Que ela estragou tudo pra eles. Que eles poderiam estar felizes agora, quem sabe teriam formado uma família, mas graças a ela, eles estão separados, tentando reunir o que sobrou de seus pedaços. Mas se deteve a dizer que estava tudo bem e se concentrou no cardápio por quase 25 minutos, o que Diana entendeu como uma forma de evitá-la e rompeu o silêncio:

— Bruce, se você quiser, nós podemos ir embora. – Ela disse da maneira mais suave que conseguiu para esconder a tristeza – Eu entendo perfeitamente... Nós não precisamos ficar!

— Eu só não decidi o que pedir pro jantar! – Ele tentou parecer bem-humorado ao ironizar a situação, mas ela o conhecia bem demais para acreditar em suas interpretações.

— Bruce, eu sei que você está se esforçando ao máximo para passar esse tempo comigo e não me tratar mal. Que colocou seu orgulho de lado, por puro altruísmo, ao me colocar no seu plano de ação, ocupando um lugar que o obriga a estar constantemente na companhia de alguém que você odeia. – Ela disse, fazendo um esforço hercúleo para não chorar na frente dele – Eu entendo e respeito tudo isso. Eu não espero que você acredite em mim, porque sei que não mereço sua confiança, mas quero que saiba que eu também estou me esforçando.

Ele não respondeu. Nenhuma palavra. Nenhum suspiro. Nada... Ele estava com os olhos cravados no horizonte, talvez hipnotizado pelas luzes de Metrópolis, talvez pensando em suas palavras... Ou quem sabe estivesse em um daqueles seus momentos de meditação, que ela gostava de observar, quando ele estava na Batcaverna. Será que ele estava buscando serenidade por ela tê-lo irritado? Será que ele estava tentando não vomitar de uma vez todas as coisas ruins que ela merecia ouvir por tê-lo feito sofrer?

Apesar da aflição que aquele silêncio causava em seu coração, Diana sabia que precisava esperar e dar a Bruce o tempo que ele precisasse, sem forçar qualquer tipo de conversa ou tentar roubar-lhe a atenção. Ela também dirigiu seu olhar em direção as luzes, mas estava longe de apreciar a vista. Seus pensamentos estavam perdidos em um vendaval de dúvidas, arrependimentos, esperança e medo.

Depois de pouco mais de uma hora de um silêncio absoluto entre eles, onde se podia ouvir apenas os uivos do vento rebatendo na colina. Bruce deixou seu transe, virando-se na direção de Diana, que imediatamente repetiu seu gesto.

— Eu não odeio você! – Revelou, secamente, completamente esvaziado de qualquer traço de emoção – Esse é o problema: Eu não odeio você! – completou – Mas eu deveria... Porque as coisas seriam bem mais fáceis se eu te odiasse, Diana.

Ela não podia responder. Ao menos, não usando as palavras. Qualquer tentativa de verbalizar seus sentimentos soaria mesquinho e medíocre. Ela estava diante do homem que amava, a quem magoou tão profundamente, que certamente fora responsável por sua descrença no amor e nas relações afetivas. Tudo que ela se dignou fazer, em respeito aos sentimentos dele, foi olhar em seus olhos, mas desta vez, com a alma descoberta, sem lutar contra as lágrimas que teimavam em cair, como um pedido de desculpas silencioso.

A noite seguiu sem mais palavras... sem gestos, sem ruídos. A única coisa que os embalava era a certeza de que essa missão estava prestes a mudar as coisas entre os dois. Para bem ou para mal, só o tempo diria!