Coração é terra que ninguém vê
47 A Crônica do Amor
Notas iniciais
“De que são feitos os dias?
— De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.
De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
— do medo que encadeia
todas essas mudanças.
Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças... “
(Canções, Poema de Cecília Meireles)
*** Cidade de Keystone ***
— Vamos, Batman, querido. – Cheeta provocou – Desta vez eu quero mais do que beijá-lo – Ela soltou um rosnado furtivo como sinal de flerte, enquanto o Morcego assumia uma posição de combate.
Bruce ouviu um gemido de Diana e ao dirigir o olhar para ela, observou quando Giganta aplicou-lhe um golpe, dos grandes. Mulher Gavião juntou-se à princesa, que estava saindo dos escombros de um prédio em construção após ser jogada por Giganta e juntas, a amazona e a tanagariana aplicaram uma sequência de pancadas seguidas na mulher ruiva que tinha o tamanho de um prédio de 12 andares.
Como se fossem moscas, Giganta tentava se livrar das duas heroínas, como se abanasse o ar, tentando expulsar as insistentes ladies da Liga da Justiça. Giganta não obteve muito de sucesso, mas é certo que uma ou duas vezes conseguira acertar uma das duas, por vez, jogando-as para longe.
Shayera bateu no chão de cimento, depois de um baque feio. Uma das asas doeu como o inferno e John olhou preocupado, enquanto lutava com Sombra.
Superman passou voando entre eles, depois de um soco potente de Bizarro, que teimava em bradar sua amizade crescente para com o filho último de Krypton. Aquilo era estupidamente irritante. E toda Liga se perguntava se o pior de lutar com Bizarro seria sua equivalência em poderes à Kal-El ou a imbecilidade crescente deste espelho investido de emoções falando suas frases de efeito desconexas e de sentido invertido.
Sombra manipulava a escuridão, confinando Flash e Lanterna em uma redoma negra como a noite. Mas Lanterna iluminou o interior com seu anel e a escuridão se dissipara como mágica.
Killer Frost causou tumulto criando uma coluna de gelo para envolver civis próximos à área. O marciano atingira-lhe com um soco e o Flash usou a supervelocidade para gerar calor suficiente para derreter o gelo e livrar as pessoas.
— Flash, tire os civis daqui! – Soltou o Morcego, enquanto lidava com a Mulher Leopardo.
— Beleza, Morcegão! – Wally fez um sinal de sentido desengonçado, como um militar mal treinado, típico de seu comportamento divertido.
As manobras evasivas de Batman estavam confundindo Cheeta, acostumada à luta com sua inimiga natural, Diana. Não foi difícil para o Morcego neutralizá-la com batalgemas energizadas, após rendê-la ao arremessar um batarangue preso à uma corda.
Após cada membro da Sociedade Secreta, comandada por Luthor – ausente da batalha, enquanto desfrutava de suas ‘férias na prisão’ – ser abatido, os heróis se reuniram no centro do local onde ocorrera a batalha: Superman, Batman, Mulher Maravilha, Lanterna Verde, Flash, Caçador de Marte e Mulher Gavião, todos estavam cansados, mas satisfeitos com suas ações.
(...)
— Eu juro que não acredito que você a beijou, Batman! – Diana cruzou os braços em frente ao peito, com um sorriso no rosto que não passava de desdém e sarcasmo.
— Eu não a beijei, em primeiro lugar. Ela me beijou. São coisas bem diferentes, princesa. Se você não lembra, eu fui capturado e estava sob o poder dos nossos inimigos... Completamente indefeso! – Disse o Batman.
— Hum... claro! – Diana respondeu com humor, totalmente descrente de sua afirmação e ainda tentando entender se aquela era uma inacreditável mostra da existência de uma veia cômica em Bruce.
— Vamos pra casa, princesa?! – Ele diz e Diana acena em conformidade, quando o vê pressionando o comunicador auricular.
— Batman para torre principal, código de autorização 001, usuário: Batman. Solicito teleporte para Caverna para dois, Holt – Alguns segundo depois, Diana e Bruce se materializam na Batcaverna.
— Você pode me dizer por que você usa o teletransporte para uso pessoal, se você me obriga a barrar qualquer outro membro de fazer o mesmo, Batman? – Senhor Incrível questionou.
— Porque eu construí e paguei por tudo, Holt. Espero que seja o suficiente! – Diana soltou uma risada obviamente captada por Senhor Incrível, que não ofereceu nenhum tipo de resposta.
Diana balança a cabeça e revira os olhos: – Por que você usou o nome dele, Bruce? Você sabe que ele não gosta?
— Eu sei – Ele responde e chama Alfred para providenciar o kit de primeiros socorros na baía médica.
— O que você tem, Bruce? Se não o conhecesse, diria que é o máximo de divertimento que já vi de você nos últimos anos. Um divertimento cruel, mas ainda sim, divertido!
A resposta veio em forma de um meio sorriso. Nada mais!
*** Mansão Wayne ***
— O que você está assistindo? – Bruce perguntou.
Diana estava completamente absorta, olhando a tela do home theater na sala de cinema da mansão Wayne. O sopro de ar quente em seu ouvido desencadeou uma onda de calor bem-vida. Os braços fortes a envolvê-la por completo, vindos pela parte de trás do imenso e confortável sofá, disposto na dependência, trouxe-lhe a segurança terna de um amor correspondido.
Ela pegou o controle remoto e deu pausa no que estava assistindo.
— Um filme! – Ela sorriu, olhando-o com brilhos nos olhos.
Bruce percebeu, na tela pausada, um ator em trajes antigos. ‘Provavelmente século XIX’, ele pensou.
— Pela ternura com que você estava olhando para este homem, eu me pergunto se devo me preocupar, princesa? Será que eu tenho um concorrente? – Ele sorriu, aconchegando-se no sofá, junto dela, envolvendo-a mais uma vez em seus braços.
Ela olhou para Bruce com os olhos levemente marejados, mas não havia sinais de dor ou tristeza, só afeto: Era a mistura cadenciada e harmônica de saudade do abraço aquecido, da vontade de estar perto, do desejo de carinho, um almejar da experiência árdua de um cotidiano ao lado do complicado garoto rico com questões, um lote de questões e problemas que sempre lhe entravaram a vida e o coração.
— Eu não sei, Bruce. Talvez!! – Diana parecia divertir-se com a insinuação. Diana se contorceu debaixo dele, aninhando-se cada vez mais.
— Você está aí há quase duas horas. Diga-me qual que filme é esta que tomou você de mim!
— Sempre me espionando... – Ela riu – Estou assistindo ‘Orgulho e Preconceito’.
— Diana, você já leu o livro mil vezes. – Ele revirou os olhos – Me diga: quantas vezes você já viu esse filme?
— Oito – Bruce deu-lhe um olhar incrédulo – Ok... ok... Esta é a décima terceira vez – Ela levou a unha do dedo indicador aos lábios, como se a estivesse roendo e Bruce Wayne sentiu um súbito calor crescendo na boca do estômago e nas intimidades, como se aquilo fosse dos gestos mais sexies que já testemunhara na vida.
— Você sempre me provoca por eu assistir romances, Bruce. Eu odeio quando você faz isso. Você faz questão de deixar claro que é bobagem!
— São estúpidos, Diana. Sempre tem um enredo absolutamente dispensável, tolo e pouco crível. Eu, particularmente, prefiro thrillers policiais.
— Nossa... Estou surpresa – Ela fez uma expressão de espanto completamente fake – Eu jamais esperaria isso de você, mister Sherlock Holmes!
Diana soltou um suspiro e começou a bater os dedos contra o controle remoto. Bruce acalmou a mão dela com a sua, e sorriu satisfeito por importuná-la. Ele levantou-se para sair, depois de conseguir o que queria, mas ela puxou-o pelo braço, trazendo-o de volta ao seu lugar.
Bruce acabou colocando um sorriso falso no rosto quando ele sentou-se novamente. Sorrindo maliciosamente, Diana completou: – Vamos ver só o final comigo? Mister Darcy vai se declarar para Elizabeth.
— Tem certeza de que não há outro filme que nós possamos ver, princesa?
— Não!
— Vou revogar o abono de Natal de Alfred por introduzir você à literatura inglesa. Jane Austen não faz bem às mulheres.
Ele tentou tomar o controle remoto, mas ela o escondeu bem. Com Diana praticamente deitada em cima dele, Bruce estava estranhamente quente em seu lado esquerdo do corpo.
No momento em que a cena proposta foi mostrada na imenso ecrã da tela, Bruce expôs sua feição mais rabugenta. Quando o Sr. Darcy declarou seu amor à orgulhosa Elizabeth, Bruce não podia deixar de rir e apontar todas as coisas melosas cravadas no desenrolar da cena. Diana disse-lhe para calar a boca, mas ele foi ridiculamente implacável.
Inicialmente, ele tinha descansado uma de suas mãos em seu quadril, mas como o filme se encerrava, as mãos viajaram perigosamente ao redor do estômago.
Completamente entediado, Bruce resolveu que serpentear sua boca em torno do pescoço de Diana era uma idéia singularmente inteligente, somando à isso beijos leves para arrepiar-lhe a pele exposta. Como ela não o empurrou de volta, ele tomou isso como um incentivo e seus dedos encontraram a borda de sua camisa, deslizando para dentro e correndo pela pele suave dos seios, suas carícias diligentes e doces. Ela sentiu os músculos de seu estômago apertar quando ele começou a chupar o pescoço.
— Estou feliz por você estar aqui comigo, Diana – Ele sussurrou.
— Pare com isso, Bruce! Helena ou Alfred podem entrar aqui a qualquer hora – Ela pediu. Mas não foi a resposta que ele queria.
Mas logo sua raiva passou ao ver o rosto dela acender ao ver Darcy e Elizabeth compartilhando a tela com um por do sol divino ao fundo. E quando o cavalheiro inglês propôs a protagonista mais uma vez, e finalmente a filha mais velha dos Bennett aceitou, os olhos de Diana verteram lágrimas suaves, com um sorriso mais brilhante que o habitual.
Ela deixou escapar um pequeno bocejo e enterrou o rosto em seu peito novamente. Bruce embalou sua cabeça com uma das mãos, à espera de Diana adormecer. Meia hora depois, ele desligou a televisão, pegou-a em seus braços e levou-a para o seu quarto.
Gentilmente a colocou na cama e ficou lá, observando-a, como se estivesse de guarda, protegendo-a e velando seu sono.
Sem saber porquê, ele deitou devagar, e tendo-a envolvido em seus braços, sussurrou para ela.:
“Se seus sentimentos são os mesmos de abril passado, diga-me de uma vez. Minha afeição e meus anseios não mudaram. Mas uma palavra sua e me calarei para sempre... Se, contudo, seus sentimentos mudaram... Eu teria de lhe dizer, você me enfeitiçou, meu corpo e minha alma, e eu... Eu a amo. Desejo nunca mais me separar de você a partir de hoje”.
Enquanto ela dormia, ele declarou sua adoração, nas palavras de Mister Darcy, no romance de Jane Austen, que ele lera apenas para agradar seu pai substituto.
Mas, surpreendentemente, era exatamente assim, como Darcy, que ele se sentia. O carinho crescente exposto em palavras, ditas em um momento em que ela não poderia ouvir e assim, a escuridão dentro dele poderia mostrar o pouco de luz que ainda carregava, sem mostrar fraqueza. Ele despejou tudo que jamais diria se ela estivesse consciente, diante dele.
Quando ele terminou, ele não viu, mas ela sorriu e suspirou, como quem ainda dorme profundamente. Bruce tocou levemente seu rosto, em seguida, levantou-se e virou-se, para ir ao toilete, preparar-se para patrulha. Quando deu um passo para fora da cama, ouviu, envergonhado:
— Eu também te amo, meu Cavaleiro das Trevas!
Naquela noite Bruce se atrasou para patrulha. Ele teve a sorte de perder-se nos braços de uma mulher que aceitaria sua escuridão, sua teimosia, sua rabugice, sua rudeza.
As lutas entre a vontade de ambos permaneceria por toda vida. Os embates entre as teimosias hercúleas também. Mas é certo que a vida lhes dera uma chance de viver o cotidiano de heroísmos e afins em consonância. Ao lado um do outro, sem perfeição, mas com afeto e compreensão.
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“Pode invadir ou chegar com delicadeza, mas não tão devagar que me faça dormir. Não grite comigo, tenho o péssimo hábito de revidar. Acordo pela manhã com ótimo humor, mas… permita que eu escove os dentes primeiro.
Toque muito em mim, principalmente nos cabelos e minta sobre minha nocauteante beleza.
Tenho vida própria, me faça sentir saudades, conte algumas coisas que me façam rir, mas não conte piadas e nem seja preconceituoso, não perca tempo, cultivando este tipo de herança de seus pais.
Viaje antes de me conhecer, sofra antes de mim, para reconhecer-me um porto, um albergue da juventude. Eu saio em conta, você não gastará muito comigo.
Acredite nas verdades que digo e também nas mentiras, elas serão raras e sempre por uma boa causa. Respeite meu choro, me deixe sozinha, só volte quando eu chamar e, não me obedeça sempre que eu também gosto de ser contrariada. (Então fique comigo quando eu chorar, combinado?).
Seja mais forte que eu e menos altruísta! Não se vista tão bem… gosto de camisa para fora da calça, gosto de braços, gosto de pernas e muito de pescoço.
Reverenciarei tudo em você que estiver a meu gosto: boca, cabelos, os pelos do peito e um joelho esfolado, você tem que se esfolar às vezes, mesmo na sua idade. Leia, escolha seus próprios livros, releia-os. Odeie a vida doméstica e os agitos noturnos. Seja um pouco caseiro e um pouco da vida, não de boate que isto é coisa de gente triste. Não seja escravo da televisão, nem xiita contra.
Nem escravo meu, nem filho meu, nem meu pai. Escolha um papel para você que ainda não tenha sido preenchido e o invente muitas vezes.
Me enlouqueça uma vez por mês mas, me faça uma louca boa, uma louca que ache graça em tudo que rime com louca: loba, boba, rouca, boca… Goste de música e de sexo. Goste de um esporte não muito banal. Não invente de querer muitos filhos, me carregar pra a missa, apresentar sua família… isso a gente vê depois… se calhar… deixa eu dirigir o seu carro, que você adora.
Quero ver você nervoso, inquieto, olhe para outras mulheres, tenha amigos e digam muitas bobagens juntos. Não me conte seus segredos… me faça massagem nas costas. Não fume, beba, chore, eleja algumas contravenções.
Me rapte! Se nada disso funcionar… experimente me amar!”
| Minha poetisa do cotidiano, pra mim, define o que seria o cotidiano de Bruce e Diana. Então é assim que encerro minha estória. Com essa beleza de descrição do que é um amor de verdade e não um amor inventado! ♥ |
O poema: Eu, modo de usar (Martha Medeiros)
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