Notas iniciais
As raízes voltaram :D ah, e semana que vem tem o último capítulo ^^ Boa leitura!

A vida é nada além de um túnel onde as trevas te cerca, te acolhe e te consome a cada passo em busca do fim.

Antes mesmo de nascer eu já sabia disso. A cada dia que passava envolto no manto úmido vendo nada além da escuridão e de imagens que minha mente vazia criava, eu já sabia disso. Mas foi só quando meu corpo frágil e medroso se tornou exposto ao mundo que eu tive certeza de tudo.

Tudo em mim se contraiu amedrontado, sentindo cheiros que nunca senti, vendo formas distorcidas que nunca pude se quer imaginar. Estar ali me fazia sentir que até mesmo a menor das poeiras podia ser enorme o suficiente para me devorar.

Estava coberto em cores pela primeira vez. Toda a escuridão que antes me engolia não era nada comparada ao sufoco que a luz me trazia.

Meus olhos queimavam e minha pele parecia pesar como se a cada toque singelo do ar pudesse fazer com que derretesse escorrendo para longe de mim até sobrar somente uma poça de nada.

Não havia nada que eu pudesse fazer a não ser sentir. Sentir o ar, o calor, o frio, o medo, os sons, tudo o que não conhecia e nem pedi para conhecer. Eu os sentia dentro da minha cabeça pulsando a cada mero movimento expandindo meu crânio fazendo as veias se esticarem como cordas prestes a romper.

Era o inferno e durou só alguns minutos. Logo o ambiente não parecia tão assustador e o calor que me tomava a mente agora me mantinha estável. Os sons ainda não eram compreensíveis, mas não parecia doer. Eu estava me acostumando a ver a luz e o quão brilhante realmente era.

Tão forte quanto o peso que me prendia parado ali aquela luz brilhava, me atraia e fazia querer prender meus olhos a ela. Tão bela que parecia que duraria para sempre.

Em determinado momento, já não era o suficiente só olhar, eu queria – precisava – me aproximar. Esse desejo surgiu antes que eu pudesse me dar conta e sem qualquer controle de mim meu corpo se esticou longamente como um elástico em direção ao calor. Cada vez mais longo, cada vez mais distante.

Não conseguia entender. Era eu o problema? Ou era a luz? Por que eu não podia toca-la? Por que eu não podia tê-la? Por que?

Estava perto, queria acreditar que estava, quando senti algo cair sobre mim. Era quente – não como a luz – molhado e tão fino que não pesou ao ser despejado em meu corpo. Não sabia o que era, não queria ver, mas o cheiro forte me fez tremer.

Eu queria correr, mas não podia. Não havia para onde, não tinha como.

O líquido se apossou de mim banhando minha pele e invadindo minha boca. O sabor me causava repulsa, me sufocava como a luz fez na primeira vez. Eu respirava rápido tentando inutilmente afastar aquilo de mim, mas só fazia seu cheio se instalar ainda mais em minhas narinas contra minha vontade.

O ar tinha sabor e eu não tinha escolha.

Ainda estava me esticando quando meus olhos foram manchados pelo líquido. Vermelho como um aviso de perigo. Eu havia sido tomado assim como a luz que agora se parecia mais com uma lua de sangue se afastando de mim.

Nessa bagunça em alguma parte do meu corpo algo começou a se agitar. Fino como uma agulha que dançava dentro das minhas entranhas me aterrorizando. Eu pude sentir a ponta se deslocar procurando espaço em minha pele manchada. Tentei impedir, mas não adiantou. O rasgo se abriu. Não pude gritar, mas queria.

Doeu. Doeu como o inferno soltando suas chamas dentro de mim derretendo meu coração e transformando meu cérebro em uma gosma de confusão e angustia.

Não havia mais forças em mim e nem interesse na luz. Eu estava com medo e, ironicamente, queria voltar para aquela escuridão do início para me esconder de toda dor, porém já tinha me esticado demais ao ponto de não conseguir enxergar o chão que me prendia.

O líquido me alimentou, me sujou por dias, por anos. A cada mancha um novo rasgo surgia dando espaço para um novo espinho nascer me ensinando a como fazer com os outros antes de finalmente desabrochar na escuridão enquanto encarava a luz.

♕Imagem baseada: Soul por TsukiAkii

Notas finais
O nome do personagem é Soul e pertence a TsukiAkii. Ele é, pra mim, uma pessoa com muitos segredos ainda a serem revelados e por isso ficou meio difícil pra mim escrever sobre ele mesmo com a imagem do tema pronta. Porém sei que ele veio de uma família abusiva na estória original então resolvi usar isso como gancho para essa fic: o nascimento dele nesse meio. Obrigada por ler ^^