Conversas no Escuro
9 Insaciável
Notas iniciais
Noites de festa são lembradas por vários motivos e o qual sempre se sobressai é o ambiente. É importante se concentrar em como decorar o local onde todos os convidados desejados e indesejados estarão ao ponto de disfarçar qualquer feiura com um pano limpo se isso for o suficiente para agradar a todos independente do quanto custe.
Alterações internas e externas em busca da camada perfeita deixa qualquer um que olhe encantado querendo ficar ali para ver o máximo possível. Fossem as longas cortinas vermelhas descendo pelas paredes de gesso branco, os móveis da mais alta qualidade em estofado e madeiramento ou, como nessa festa, a mesa na sala de jantar.
Longa, como se passasse dos três metros, estava coberta por tecidos decorado em renda branca e detalhes bordados em dourado. Sobre ela o lustre no teto iluminava a área toda e dava brilho extravagante as comidas expostas ali.
Uma imensidão de pratos e sabores atraia os convidados requintados naquele momento dando mais cobiça a essas maravilhas da culinária do que as inúmeras joias escondidas nos cofres no andar de cima.
Bem ali, dois rapazes estavam sentados em cadeiras opostas se encarando. A distância entre eles podia ser medida pelas delicias enfeitando os dois metros de largura do móvel. Era impossível não sentir os odores salgados e doces tanto quanto não podiam ignorar os sons variados por toda a casa.
Conversas, gritos e risadas. Tudo se misturava elevando os barulhos cada vez que alguém dizia algo. Era quase uma disputa para ver quem conseguia chamar mais atenção. Entretanto, para eles, nada daquilo realmente fazia diferença.
Ignorando tudo, a mão de um deles pegou o talher e com leveza levou até a boca a preenchendo por completo. Seus dentes afundaram na maciez soltando o líquido em sua língua amolecendo a carne. Mastigou e mastigou antes de sentir a massa moída descer quente por sua garganta sedenta.
Um longo suspiro foi tomado o enchendo de satisfação. Estava tão fresca que somente aquele pequeno pedaço foi o suficiente para o revigorar e abrir o apetite de uma vez.
O outro fez o mesmo fincando seus dentes em uma fatia grossa e suculenta que deixou marcas molhadas e brilhantes nos lábios. Mastigou copiando o processo antes de passar a língua salgada no óleo deixado sentindo seu próprio sabor.
Em momento algum seus olhares intensos se desviaram. Eles comiam sempre assistindo o próximo pedaço a ser ingerindo a frente sem qualquer desconforto. Era como se, assim como suas bocas, seus olhos insistentes comessem um ao outro.
A segunda garfada veio seguida da terceira e da quarta com mordidas mais ferozes, mais rápidas, mais famintas. Não podiam parar de mastigar enquanto seus estômagos imploravam por mais gordura.
O som de suas respirações frenéticas se encaixavam perfeitamente nas conversas e nos risos daquela casa coberta em panos brancos. Nada daquilo importava já que no final a comida sempre era deliciosa para aquele que abocanhasse mais.
Uma mão correu para o bolo agarrando um pedaço com força fazendo vazar o glacê melado por entre os dedos, a outra em um punhado de frutas que acabou se espalhando pelos outros pratos. Mais uma mão apareceu pegando a carne e esguichando seu óleo pelo tecido branco enquanto lambia os restos nos outros dedos.
Já não conseguiam ficar sentados em uma única posição e como dois animais subiram a mesa derrubando seus corpos sobre pratos confundindo os cheiros e as cores.
Os olhos não desviaram e as línguas não cabiam dentro da boca. Eles reconheciam a fome um no outro aumentando ainda mais o desejo de se satisfazer.
Deitado sobre todos os tipos de misturas um viu o outro subir sobre seu corpo esticado rasgando sua roupa com fúria antes de encostar o rosto em seu peitoral. Sentiu a respiração pesada tocar sua pele quente como o pedaço de carne que tinha abocanhando antes deveria ter se sentido. Em seguida vieram os lábios se abrindo revelando dentes que agarraram sua pele com força.
Gritou quando o outro sem qualquer cuidado levantou a cabeça puxando a carne para fora do corpo. Foi como arrancar um chiclete colado na parede. A elasticidade que demorou para romper só aumentou ainda mais a agonia.
O pedaço fresco deslizou para dentro da boca juntando a saliva ao sangue. Mastigou com prazer assistindo o homem gemer embaixo dele. Sua respiração descontrolada fazia gotas escaparem de sua boca direto na pele exposta na mesa.
Sentiu dedos correrem por seu corpo ajoelhado enquanto ainda tentava engolir o resto daquele elástico em sua língua. As mãos alcançaram seu abdômen e sem piedade cravaram as unhas longas em um golpe profundo.
Os gemidos de um completavam os gritos do outro. Empurrando as garras como uma fera ele rasgou a pele abrindo um buraco onde os órgãos se moviam violentamente em trabalho de digestão.
Apoiado um sobre o outro se mordendo, se lambendo, se comendo. O calor em suas bocas escorria por seus queixos misturando as peles as carnes. O sabor metálico tão doce em suas línguas pegajosas buscava por mais onde tinha cada vez menos. Não importava o quão cheio estavam nada podia satisfazer aquele prazer em mastigar.
A loucura em suas mentes tomava forma quebrando os limites e aumentando sua fúria. Não era fome que sentiam, era necessidade. Precisavam preencher lacunas e quanto mais ingeriam mais queriam ter sem perceber que cada nova mordida um pedaço deles sumia.
Naquela noite vários banquetes estavam sendo colocados onde todos se deliciavam excitados nos engasgos e rosnados do prazer. Ninguém os via, ninguém via ninguém além de si mesmo por ali e a única coisa que importava era comer até não sobrar nada além dos panos brancos. Afinal, em festas todos sempre estão famintos por algo.
♕ Imagem baseada: Lucius & Kalevi por TsukiAkii.
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