Conversas no Escuro
1 Diamante
Notas iniciais
O brilho, como era lindo. Cada simples movimento ressaltava a forma circular revelando um novo ponto a brilhar. Tão liso quanto porcelana esbanjando uma cor branca que se misturava ao azul esverdeado escondido. Uma joia imaculada que estava presa a seu rosto naturalmente.
Em frente ao espelho o homem sorria como um jovem apaixonado enquanto movia suavemente a cabeça para cima e para baixo, para esquerda e para direita assistindo a preciosidade o assistindo de volta.
Eram os olhos. Havia tanto encanto que aqueles pequenos círculos conseguiam guardar dentro de si ao ponto de fazê-lo se perder em suspiros toda vez que parava para observa-los. A beleza misteriosa sempre o fazia se questionar se estavam soltos em sua cabeça mantendo somente um eixo de equilíbrio enquanto se movia lindamente junto ao crânio.
Tinha se entregado completamente ao encanto se permitindo passar horas em frente ao espelho quando estava em casa e, quando estava fora, observava os dos outros. Eram tantos tamanhos e formas para se admirar que para ele seria impossível desviar a atenção quando alguém aparecia em sua frente. Como amava os ver, mas odiava como os outros não percebiam o valor dessa joia.
Para ele, olhos são orbes de cristais preciosos que se escondem atrás da pele a todo momento como a pérola na concha. Sempre foram sua maior felicidade e, como consequência, sua maior tortura.
Tinha que passar o dia vendo dedos descuidados esticando a pele das pálpebras como se pudessem deformar o orbe; as coceiras que pareciam ser capazes de força-lo para dentro da cabeça e era ainda pior quando, sem querer, alguém o tocava diretamente o ferindo. Ah, ainda tinha o excesso de luz todos os dias em frente a telas de vidro forçando veias a rodearem como se o prendessem a força para sofrer danos. Tinha que assistir tudo isso, viver tudo isso sem fazer nada.
Com força sua mão se chocou contra a pia fazendo um som abafado. Lembrar de tanta indecência fazia seu sangue ferver. Como podiam ser tão ignorantes e impuros? Pessoas assim não tinham o direito de ter esses belos cristais!
Um suspiro raivoso escapou entre os dentes enquanto observava a fúria em seus olhos no espelho. Todo o repúdio e possibilidades de castigo estava ali refletindo em sua íris, ele podia ver, queria ver. Afinal, quanto mais sentimentos mais seu brilho aumentava e sem qualquer peso permitiu que o pensamento odioso de arrancar os olhos de todos os seres sem valor dominasse sua mente.
Pela janela, os raios de sol adentraram fracamente pintando seu rosto em dourado. Um luz quente e bela como milhares de diamantes em sua bochecha. No momento em que percebeu o brilho a fúria se foi fazendo seus olhos se tornarem amáveis se observando enquanto os dedos tocavam a pele da face com carinho.
Tão claro, tão lindo, tão... digno.
Lentamente o sol se apagou – provavelmente por conta de alguma nuvem intrusa de passagem – levando sua calma junto com ele. Com os dedos ainda sobre a pele o homem foi dominado pela invasão de questionamentos gritantes.
Para onde havia ido os diamantes que o pintava?
Sem querer seus dedos se forçaram deslizando por sua bochecha, passando pelo pescoço até pousar na clavícula deixando marcas de linhas vermelhas por todo o percurso.
E se meus olhos perderem o brilho também?
O flash de pensamento foi o suficiente para o fazer arregalar o máximo que podia na tentativa de ver cada detalhe do círculo quase o fazendo cair de seu rosto. Era inútil, a resposta não estava ali.
Em pânico seus dedos amassaram os lábios violentamente antes de adentrarem a boca. Era como se ele quisesse forçar uma resposta de si mesmo. Com a respiração agitada ele quase sentia a íris tremer na reflexo.
Sem ter a intenção acabou mordendo a ponta dos dedos em desespero e, pela primeira vez desde que estava parado ali, algo o fez mudar a direção dos olhos.
Seus dentes. Ossos expostos que, assim como os olhos, eram joias por trás da pele. Porém, diferentemente, esses cristais pareciam perigosos, pontiagudos e ferozes.
Seus dedos invadiram ainda mais a boca forçando o maxilar enquanto sentiam a textura dura, lisa e molhada. Perturbado pelos pensamentos descontrolados ele novamente se mordeu rasgando a pele de seus dedos com força sentindo os ossos se tocarem entre a carne.
O som alto de sua respiração parou, o silêncio invadiu o local da mesma forma que o gosto do ferro escorreu vigorosamente em sua língua. Uma ideia o dominou iluminando sua mente e trazendo um sorriso rubro ao rosto.
Correndo foi até o quarto soltando risos descontrolados e deixando pequenas gotas de sangue por onde passava. Abriu armários, gavetas e caixas coletando todos os itens valiosos que possuía por ali antes de voltar apressado para o banheiro.
Sem cuidado jogou a caixa lotada dentro da pia apoiando-se para fitar de perto o reflexo sorridente no espelho. Estava extremamente agitado e tinha consciência disso só não tinha certeza se era porque encontrou a resposta ou se seu corpo estava amedrontado pelo que ia acontecer.
Sua mão correu afundando na caixa vasculhando por entre os pingentes, colares, anéis e pedras avulsas. Havia um tesouro bem a sua frente, mas não era nessa caixa que ele estava.
Depois de chacoalhar e derrubar algumas peças ele finalmente encontrou algo que chamou atenção. Com cuidado o tirou do amontoado o levantando em frente ao rosto podendo ver de perto a beleza.
Um quartzo branco lapidado em uma forma comprida e pontiaguda. Uma pedra tão bela quanto cara refletia lindamente no espelho. Ele conhecia bem o item e se lembrava do dia em que o adicionou a sua coleção. As memórias o fez sorrir. Afinal, nunca em seu mais louco sonho imaginou que um dia estaria o usando para tal engenhosidade.
Com cuidado a levou até o rosto pressionando a ponta levemente em sua bochecha. Foi um toque comum como de uma unha longa o cutucando e mesmo assim foi o suficiente para fazê-lo perceber a dor. Com um pouco mais de força continuou até que sentiu a necessidade de abrir os lábios para dar espaço.
Sobre a pele e entre os dentes ele a forçou uma última vez até o primeiro corte surgir. Nesse momento já estava com os batimentos acelerados sentindo a mistura da dor com a ansiedade e até o medo da incerteza.
Era a última chance que tinha para voltar atrás e desistir, porém, ao invés disso, empurrou de uma só vez a pedra atravessando sua carne em um corte profundo direto até tocar na língua onde parou o movimento.
Ele gritou com a dor, gemeu, tremeu e até mordeu o quartzo, mas não fechou os olhos. Assistiu cada segundo da loucura o controlar vendo a pedra se manchar em vermelho enquanto as lágrimas escorriam.
Ainda sofrendo riu e sem esperar seguiu sua mão procurando pela próxima joia.
Por horas ele gritou, por horas sangrou até finalmente ter conseguido preencher as bochechas com tudo o que tinha.
Havia pingentes de cristais presos em sua carne balançando o metal dos colares e pulseiras no ar, anéis aterrados na gengiva e outras dezenas de pedras grandes e pequenas por toda a extensão o impedindo de fechar a boca.
O som da respiração estava alto, sua pele rasgada manchada pelo vermelho do sangue e pelas trilhas de lágrimas de seus olhos sofridos, entretanto o sorriso ainda estava ali. A gargalhada era acompanhada da saliva e de ainda mais dor.
Na caixa encontrou a última peça: o diamante. Tremulo o agarrou e com lentidão o levou até o rosto. De uma vez se aproximou do espelho — agora respingado em vermelho — respirando e vendo com dificuldade, era o sangue e a dor agindo contra a sua consciência. Mesmo com o corpo implorando ele não ia parar e com a ponta do objeto quase tocando a pupila direita sorriu uma última vez.
Ele ia brilhar. Para sempre.
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♚ Imagem baseada: Vicent por TsukiAkii.
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