Capítulo Dois

“We walk past a dead end street to the top of a hill so we can be alone.
Under the moon it's beautiful.
The stars clear the black of night when I’m with you.
Nervously I take your hand and promise you I'll take you for a ride...
‘Someday we'll have it all, you and we're gonna be stars’


We’ll runaway from everything you hate,
runaway to everything you've wanted
take my hand, let's get famous.


Runaway from everything you've fought
runaway to everything you've loved
take my hand, lets get famous.”

[Stars — Madina Lake]

~

“Anda logo, Gerard, a gente vai se atrasar!” Mikey batia na porta do banheiro de trinta em trinta segundos. Não iam se atrasar; só chegariam em cima da hora, nada de mais. A aparência do cabelo de Gerard era prioridade para ele naquele momento.

Era quinta-feira, nublada e fria. No dia anterior, após uma lufada de vento especialmente forte no pequeno penhasco do qual Gerard se auto-declarara dono, Frank riu e disse que o cabelo dele havia ficado engraçado. Isso fez com que Gerard ficasse altamente insatisfeito com sua aparência e, depois de vinte minutos e três produtos diferentes, decidiu que estava decente e saiu do banheiro. Mikey estava no sofá, passando os canais da TV numa velocidade sobre-humana.

“Anda logo, Mikes,” ralhou, agarrando a mochila. “Nós ainda temos que buscar Frank, você está me atrasando.”

Mikey quase engasgou na própria saliva, ultrajado com a cara-de-pau do irmão. Enquanto o seguia para fora da casa, berrava sobre como Gerard era um idiota egoísta e com cara de esquilo.

**

Frank balançava a perna direita incessantemente. Estava sentado na escadaria em frente ao prédio antigo que era o orfanato, a luz fria da manhã forçando-o a estreitar os olhos. O vento gelado fizera suas bochechas e seu nariz ficarem vermelhos — ele odiava isso, parecia uma rena de natal. Os outros garotos sempre o chamavam de Rodolfo e o seguravam à força, jogando neve dentro de sua blusa toda vez que era inverno. Essa era a principal razão que o fazia detestar e temer o inverno — junto, obviamente, com a solidão que o atingia como um tijolo no natal.

Quando o carro prateado (fosco e sujo, porém originalmente prata) de Gerard dobrou a esquina, Frank se levantou num pulo. Sua respiração acelerou um pouco e ele sorriu quando o carro parou ao lado da calçada.

“Bom dia, doce,” Gerard saudou quando Frank entrou. Pegou a mão dele e levou aos lábios — Frank parecia gostar disso -, sentindo o formigamento em sua testa e a pulsação em sua nuca começarem a diminuir instantaneamente. Não sabia o que diabos causava aquilo, mas não realmente se importava. Talvez fosse alguma substância natural analgésica fortíssima que seu corpo produzia por pura alegria quando Frank estava por perto. Talvez o garoto fosse simplesmente mágico — o lado nerd de Gerard gostava mais dessa explicação.

“Yo, Frankie,” Mikey chamou do banco de trás antes que Frank tivesse tempo de responder Gerard. Empoleirou-se entre os dois bancos enquanto Gerard começava a andar com o carro, colocando na mão recém-beijada de Frank um maço de revistinhas. “Cara, você vai adorar isso...”

“Onde você achou isso?” Perguntou Gerard bruscamente. Frank o olhou com hesitação e Mikey recostou-se no assento, afastando-se do irmão.

“Na sua gaveta.”

“Michael!” Fez menção de parar o carro, porém se o fizesse, causaria um acidente feio — estavam numa via expressa. Mikey se encolheu no canto. “Quantas vezes eu já não te falei pra não mexer nas minhas coisas?”

“Mas o Frank falou que não tinha lido!” Defendeu-se, ajeitando a touca de lã sobre os cabelos. Frank abriu a boca para falar alguma coisa, mas Gerard interrompeu.

“Eu não me importo de emprestar e você sabe!” Desviou de um ciclista distraído com certa graciosidade — vinda dos movimentos leves, causados por toda a codeína que ingeria toda manhã. “Eu quero que ele leia, mas se você mexer nas minhas coisas de novo...”

Mikey voltou a se aproximar dos bancos da frente, as mãos no tecido áspero. “Se você está preocupado que eu veja aqueles seus tubos de---”

Dessa vez Gerard largou o volante e virou-se para trás com toda a rapidez que a letargia dos medicamentos permitia, tentando acertar o irmão com os punhos fechados. Frank berrou alguma coisa e segurou o volante mesmo sem nunca ter dirigido na vida, mantendo o carro na pista por alguns segundos até que Gerard voltasse a se sentar e retomasse a direção, tirando o cabelo do rosto com os dedos.

“Seu doido, você quer matar a gente?!” Gritou Mikey, ajeitando os óculos.

“Não, mas eu vou te matar se você não calar a boca!” Notou que Frank estava congelado no assento, olhos arregalados e assustados. Gerard mudou a marcha do carro antes de pousar a mão sobre a dele, acariciando-a e sussurrando um pedido de desculpas.

“Sabe o que é, Frankie?” Mikey disse com a voz debochada, encolhido no canto do carro. “Meu irmão não quer que eu veja...”

“Michael.”

“... as coisas pervertidas dele.”

“Michael.” Frank segurou de volta a mão de Gerard para que ele não pudesse largar o volante e se virar de novo.

“E ele gosta de menino!” Mikey gritou, protegendo-se do ataque que Gerard, de fato, fez menção de efetuar, mas que não conseguiu pela mãozinha de Frank firme na sua.

“Não faz mal,” sussurrou o pequeno, os olhos fixos na mão pálida entre as suas. “Eu também.”

Um sorriso torto apareceu no rosto de Gerard, que arqueou as sobrancelhas e olhou para Mikey por cima do ombro. “Touché.”

Mikey lançou as mãos no ar, deixando-as cair no colo com um estalo. “Ah, pelo amor de deus.”

Frank soltou a mão de Gerard para que ele pudesse mudar a marcha novamente. Seu rosto queimava em receio e constrangimento. “Eu... tem problema, Mikey? Eu não tenho escolha, acho que eu nasci assim...”

“Hey, Frankie,” cortou Gerard. “Não tem nada errado nisso.”

“É, cara,” disse Mikey, sentindo-se culpado. “Eu só queria poder expor esse idiota, mas acho que estou em minoria de novo.”

“Como assim, de novo?” Frank questionou, desesperado para que o foco da conversa mudasse para outra pessoa. Seus olhos encontraram os de Mikey pelo retrovisor, mas quem respondeu — com uma risada — foi Gerard.

“Bert,” foi tudo o que disse, virando na rua arborizada da escola. As folhas estavam tomando aquele tom alaranjado que Gerard adorava, filtrando o sol e dando a impressão que estavam pegando fogo.

“Oh, Bert? Sério?”

“Ah, Frankie, vamos lá, está escrito na testa dele,” Mikey falou com a voz impaciente. “Ali,” indicou para Gerard, apontando uma vaga para o carro um pouco à frente.

Os dedos de Frank passavam pelo contorno das revistinhas. “E vocês...” — olhou para Gerard rapidamente. “Vocês já...”

“Ah, sim,” respondeu Gerard, sorrindo.

“Ah não!” Berrou Mikey novamente. “Eu não quero ouvir isso!”

Gerard riu daquele jeito engraçado que Frank gostava, estacionando o carro. “Ah, Mikes, você tem que ver como ele é bom em...”

“Nojento!” — e pulou do carro, batendo a porta com força e correndo para longe.

Frank permaneceu imóvel no assento. “Então vocês... vocês são tipo... um casal?”

“Não.” O menor levantou a cabeça para fitá-lo. “Bert é meu melhor amigo. Nós só... testamos algumas coisas. Algumas vezes.”

Um sentimento estranho invadiu Frank, que voltou a desviar o olhar, sobrancelhas franzidas e levemente irritado. “Soa como um casal para mim.”

“Não, não, não somos. Frankie, olha pra mim.” Não olhou. Gerard voltou a segurar sua mão. “Frankie.” Olhou. “Isso já acabou faz tempo. Era só curiosidade e hormônios, você nunca teve um amigo assim?”

Voltou a encarar o painel do carro. “Eu nunca sequer beijei ninguém,” confessou com a voz baixinha, magoada. Às vezes contava as coisas para Gerard sem sequer perceber — havia acontecido bastante nos últimos quatro dias.

“Eu nunca recusaria a oportunidade,” disse Gerard, conseguindo que o menor voltasse a olhar para ele instantaneamente. “Você é divino, Frankie. Você é a pessoa mais doce e mais bonita que eu já conheci, e se você algum dia me der a honra de te tocar, eu vou ser a pessoa mais feliz do mundo.”

As palavras saíram sem que ele pensasse primeiro. Eram a mais pura verdade, porém não é o tipo de coisa que se diz a qualquer momento para o garoto que você conheceu na segunda-feira. Gerard sentiu seu coração pular uma batida quando notou o que havia dito, seus olhos muito abertos. Seu rosto ficou quente e ele fez menção de recuar a mão, mas Frank a segurou.

“Eu quero.”

Gerard piscou algumas vezes, sua boca pendendo entreaberta de forma desigual, os dentinhos expostos. Engoliu em seco. “Quer o quê?”

Frank mordeu o lábio e deu um suspiro exasperado. Não queria que Gerard se fizesse de desentendido; não conseguiria verbalizar a vontade. O encarou com olhos suplicantes e impacientes. Ainda tinha a mão dele nas suas.

“Eu... tem certeza?” Gerard sussurrou, vacilante.

O olhar de Frank vagou por todo o rosto do maior antes de responder. “Tenho.”

“Mas... mas e se eu for ruim?” Questionou Gerard; meio que brincando, meio falando sério. “E se você não gostar? Promete não ficar com raiva de mim?”

Frank balançou a cabeça, seus lábios se curvando levemente. “Nunca.”

Gerard sorriu abertamente — um daqueles sorrisos largos e sinceros e imensos e deslumbrantes que fazia o estômago de Frank afundar e seu coração se aquecer. “Okay. Okay então, vem cá.”

Eles se viraram de frente um para o outro, ambos na ponta de seus respectivos assentos, Frank ainda segurando a mão de Gerard. Os dois sorriam, corações pulando. Gerard levou uma mão ao rosto do menor, dedos escorregando para detrás da orelha dele, polegar em sua bochecha corada. Frank respirou fundo e depois parou de respirar.

Gerard aproximou o rosto lentamente, sua cabeça levemente inclinada, e pôde sentir o cheiro de sabonete que Frank exalava antes de colar seus lábios aos dele gentilmente. Descobriu que a boca do pequeno era tão macia quanto aparentava, os lábios lisos, sem falhas como os seus próprios. O corpinho de Frank tremulou perceptivelmente e ele apertou a mão de Gerard entre as suas, passando a retribuir com mais afinco.

Gerard sentiu-se repentinamente tão feliz que teve que lutar contra o sorriso que quis se formar em seu rosto, concentrando-se em mover seus lábios com a maior delicadeza possível, o polegar passeando pelo rosto quente de Frank. O máximo que ousou fazer foi abrir os lábios levemente para satisfazer a vontade de sentir o gosto de Frank — o fez ao provar seu lábio inferior discretamente.

Afastaram-se um pouquinho de nada, os rostos ainda juntos, narizes se tocando. “E então?” Gerard perguntou baixinho, em tom de segredo.

Frank sorriu, movendo o rosto levemente e pressionando a boca contra a bochecha de Gerard. “Obrigado.”

“E ainda me agradece,” riu Gerard. Antes que notasse, já havia puxado Frank para cima de si, e de repente o pequeno estava em seu colo, perfeito e adorável como um bebê. Tocou o rosto bonito dele, e ficou aliviado ao ver que Frank parecia contente, envolvendo seu pescoço com os braços. “Obrigado a você, Frankie,” disse com carinho, tocando a ponta de seu nariz com o indicador — e depois deslizando o dedo pela lateral de seu rosto, pelo seu queixo, pelos lábios corados. Frank somente olhava maravilhado, e fechou os olhos quando Gerard se abaixou para dar-lhe um beijo casto e rápido. “Perfeito,” sussurrou antes de abraçar o pequeno, perdendo-se no cheiro dos cabelos macios. O havia beijado. Não se lembrava da última vez que havia se sentido tão feliz.

Afundando o rosto na curva do pescoço de Gerard, Frank se sentia tão afortunado e especial e querido. Gerard era a melhor coisa que havia acontecido em sua vida até o momento. As coisas vinham andando tão bem que ele imaginava qual seria a pegadinha na situação. Estava voando alto, e tinha medo de uma possível queda — da altura em que estava, poderia ser fatal.

**

“Duvido!”

“É verdade!”

“Duvido. Você está querendo se fazer de galã porque ele é todo gostosinho.”

Gerard parou de andar. Tinha as mãos nas alças da mochila, os dedos doloridos por ter feito tanto a sua prova de história quanto a de Bert. “Quer ver que não é mentira?”

Os dois olharam para o banco onde Frank estava sentado, sozinho, lendo um livro, sua lateral para os dois garotos. Bert cruzou os braços. “Vai lá então, Ricky Ricardo, estou assistindo.”

Gerard lançou-lhe um sorriso superior e passou a andar na direção de Frank, mas parou depois de três passos. Voltou. “Talvez melhor não, pelo menos na escola...”

Sentiu a mão direita de Bert estapear-lhe a face esquerda levemente. “Frouxo. Anda.”

Gerard franziu a testa numa expressão ultrajada, esfregando a bochecha arredondada. “Isso doeu,” reclamou antes de voltar a andar. Bert o viu ir caminhando a passos lentos, a figura curvada sob a camisa branca da escola. Chegou ao banco por trás. Colocou a mochila no chão e o paletó por cima dela, e então as mãos pálidas pousaram nos ombros de Frank, que olhou para cima e sorriu ao ver de quem se tratava. Eles trocaram uma palavra rápida... e Gerard se curvou para beijá-lo. Por um breve tempo, mas beijou, e Bert abriu a boca em choque.

“Ah não!” Berrou, indo na direção dos dois. Enquanto ele quase corria, Gerard deu a volta no banco e se sentou, passando um braço pelo ombro de Frank. “Como assim, Frankie? Mas você

não perde tempo, huh?”

Frank arqueou ainda mais as sobrancelhas bonitas, olhando para Gerard numa pergunta silenciosa de o que diabos estava acontecendo.

“Não liga pra ele,” Gerard disse, rindo. “Ele só está com inveja que o gordo aqui conseguiu o cara bonito” — e mandou o dedo para Bert, que chutou-lhe a lateral do tênis.

O menor pensou em protestar, já que não achava Gerard gordo e muito menos se achava bonito, mas achou melhor não — não levaria a conversa a lugar algum. “O que é então, Bert?” Questionou, balançando os ombros levemente.

“Bem...” — Bert se sentou no chão, pernas em estilo indiano ao que mexia no bolso do paletó em busca do maço de cigarros. “Não estou dizendo que não,” disse antes de acender o cigarro, logo segurando-o entre os dedos e soprando a fumaça para longe. “Só fiquei... surpreso. Mas vocês andam juntos o dia inteiro mesmo, não é de se impressionar.”

Por um instante, a possibilidade de ter ido rápido demais assustou Frank. Talvez estivesse mesmo... será que Gerard o achara fácil? Não, não, Frank não era assim. Ele só mesmo gostava muito do outro rapaz. Nunca tivera um amigo antes e se agarrava a ele com todas as forças. Passaram os últimos dias juntos e Frank o adorava de todas as formas — tanto por sua personalidade adorável, sua inteligência e toda a doçura com a qual o tratava.

“Ora, Bertie,” veio a voz de Gerard. “Estamos todos morrendo, pra quê perder tempo? Vamos viver.”

“Não me vem com essa idiotice de carpe diem,” Bert ralhou, deitando-se na grama. Os alunos que passavam por eles os encaravam, rindo de como Frank se inclinava em direção ao corpo de Gerard, que ainda tinha o braço envolvendo seus ombros.

“Não é isso, imbecil. Eu gosto do Frankie e quero passar meu tempo com ele, e ele quer passar o tempo dele comigo, não faz diferença se a gente está brincando no carrossel ou--”

“Ou fodendo no carrossel!” Bert completou, rindo e arrancando sorrisos bobos dos outros dois. “Okay, agora sim você fez sentido.”

“Isso sim seria ir rápido demais,” Frank adicionou com a voz baixinha, corando violentamente. Gerard pousou um beijo em seus cabelos macios.

“Não estou com pressa,” sussurrou sobre a orelha do pequeno. “Nós temos todo o tempo do mundo à nossa frente.”

E realmente, talvez teriam.

**

O sol já estava se pondo. Após horas na sorveteria e mais algum tempo numa loja de discos, Gerard e Frank haviam entrado no carro e dirigido até seu lugar especial na ponta do parque. Frank olhava pela janela com um sorriso constante nos lábios, imerso em seus pensamentos.

Gerard estacionara o carro de lado para o declive. Colocou as mochilas contra a lateral do pneu, encostando as costas contra elas ao sentar-se na grama. Frank havia ficado perdido por um momento, sem saber onde sentar-se, e seus olhos brilharam quando Gerard abriu os braços, indicando a Frank que se sentasse contra seu peito, entre suas pernas. Quando Frank fez isso, suas costas contra Gerard, as mãos pálidas cruzadas sobre seu peito, o encaixe foi tão perfeito que ele ficou feliz de nunca ter feito aquilo antes.

Em Nova York as luzes já estavam acesas, mesmo que o brilho fraco e alaranjado do sol ainda se mostrasse levemente atrás dos garotos, escondendo-se detrás das árvores do parque para eles. A névoa começava a subir, vinda do mar, deixando o ar gelado e úmido e formando gotinhas d’água na grama.

“Eu fico imaginando se eu nasci por aqui,” Frank disse durante uma conversa sobre a proximidade de tudo naquela área. “Em Jersey, ou Newark, ou Nova York — talvez Turnpike.”

“Você não sabe?” Questionou Gerard, uma mão na barriga e outra no peito de Frank, que fez que não com a cabeça.

“Dizem as freiras que me deixaram à porta dentro de uma caixa de botas de chuva, e elas acharam graça porque estava chovendo muito e eu fiquei lá fora um bom tempo, então quando me acharam eu estava quase me afogando.”

“Que horror!” Protestou Gerard, inclinando a cabeça para olhar Frank melhor. O pequeno riu, porém com amargura. Havia aprendido a rir de si mesmo.

“Eu acho engraçado é que eu coube dentro de uma caixa daquelas.” Fechou os olhos, sentindo o carinho das mãos de Gerard sobre seu corpo. “Talvez eu nasci prematuro.”

Gerard travou os dentes e suspirou, um vontade imensa de saber mais sobre o passado de Frank o dominando — mas ele não perguntaria. Era rude, era inconveniente e, além de trazer à tona as mágoas do garoto, ele provavelmente não saberia responder a maioria das questões. Então, tudo que Gerard fez foi levar os lábios entreabertos ao pescoço de Frank, pousando ali um beijo úmido como o ar que os cercava. “Eu gosto de você pequeno assim.”

Frank sorriu, deslizando as mãos pelas pernas de Gerard. “Pelo menos uma coisa boa em ser pequeno.” Apanhar de todo mundo e não conseguir lutar de volta por causa de seu tamanho nunca foi uma coisa boa.

“Frankie?” Chamou baixinho, hesitante. Recebeu um ‘hm?’, e fechou os olhos antes de falar. Tinha medo da reação, mas essa era uma coisa que provavelmente ninguém tentou fazer e talvez Frank quisesse. Se fosse a vontade dele, Gerard o ajudaria. “Você tem vontade de saber da sua mãe?”

A respiração do menor parou por um momento, depois voltando mais lenta. “Tenho.”

“E você nunca foi atrás?”

“Bem...” moveu-se um pouco sobre Gerard, colocando a cabeça sobre o ombro dele e permitindo que o maior tivesse melhor visão de seu rosto. Algumas estrelas já brilhavam sobre eles. “Eu até tentei, pouco tempo atrás. Antes ninguém me ajudava. Daí ano passado eu fui sozinho à delegacia procurar... mas eu não sei nada dela. Só tenho uma foto velha que estava comigo na caixa, toda molhada. A polícia falou que há centenas de caso de abandono todo mês, eu não sou especial, era impossível blá blá blá.”

“Oh.” Não sabia o que mais falar. Esfregou as mãos sobre o paletó de Frank, tentando mantê-lo quente e confortável — o frio já estava bem forte àquela hora.

“Talvez um dia ela volte. Talvez ela não pudesse cuidar de mim na época, ou ficou com medo que eu fosse morrer porque nasci muito cedo.” Mordeu o lábio, o olhar se perdendo no céu escuro por um momento. “Eu tinha esperanças que ela ainda me quisesse de volta, por isso eu não quis ser transferido antes. Já não tenho tanta certeza e tenho pavor daquele orfanato.”

Gerard admirava Frank por toda a esperança e positivismo que ele sempre demonstrava. Se Gerard tivesse sido abandonado, provavelmente nutriria um ódio mortal pela figura materna. Frank havia até mesmo dito a palavra abandono como se não fosse nada, enquanto o outro sentia uma certa revolta com a idéia.

“Eu prometo a você, Frankie,” disse Gerard, tomando as mãos do pequeno nas suas. “Você vai sair daquele lugar. Nós vamos fugir daqui, vamos pra faculdade e você vai ter sua casa. E eu vou garantir que você seja tão feliz quanto merece. Nós vamos ser grandes, Frankie, eu e você. Eu prometo.”

O peito de Frank parecia estar sendo comprimido por um peso imenso, a sensação de não mais estar sozinho ainda sendo avassaladora para ele. E como provavelmente não conseguiria falar, a reação dele foi virar-se e colar seus lábios aos de Gerard de forma urgente, a mãozinha bronzeada pousando sobre o rosto pálido. Tudo parecia tão novo, e ainda assim tão familiar a seu toque.

E o maior ficou, a princípio, surpreso com a iniciativa de Frank, geralmente tão quieto. Mas logo passou a correspondê-lo da mesma forma, envolvendo-o com os braços e pousando as mãos em suas costas enquanto os virava, deitando Frank na grama e ficando com uma perna sobre ele. Por um milésimo de segundo, passou por sua mente que talvez tivesse avançado muito rápido e Frank se assustaria. Esse pensamento, porém, foi embora quando sentiu Frank abrir a boca contra a sua, no mais puro instinto de lamber-lhe a carne e sentir seu gosto, e Gerard moveu-se junto com ele no mesmo ritmo calmo, sincronizado e de intenso carinho que já nutriam um pelo outro.

Para o pequeno, a umidade e maciez do interior da boca de Gerard foram estranhas a princípio, pois ele não imaginava daquele jeito. Mas ele se acostumou em pouquíssimo tempo, passando a adorar a sensação e desejando que nunca parassem. Gerard, que ainda tinha gosto do morango da calda do sundae, deslizou uma mão para debaixo do paletó e da camisa de Frank, sua palma quente parando na cintura dele e permanecendo ali, o polegar acariciando a pele incrivelmente macia e adorada.

Quando Frank ofegou sob Gerard e apertou seus braços, o maior decidiu pausar tudo aquilo por um momento. Afinal de contas, Frank era tão divino — tão melhor do que qualquer sorvete — que ele tinha medo de se descontrolar por uma fração no tempo e assustar seu pequeno. Mordeu o lábio vermelho dele levemente antes de levantar o rosto alguns poucos centímetros, somente o suficiente para que pudesse ver seus olhos amendoados.

“Frankie, Frankie,” cantarolou com um sorriso. “Assim você acaba comigo.”

Frank deu uma risadinha envergonhada, o rosto corado por diversos motivos. “Eu gosto quando você me toca,” declarou, colocando a mão por cima da de Gerard, ainda em sua cintura.

“Então amanhã eu vou te fazer uma massagem,” disse Gerard, pousando um beijo na testa do outro antes de deitar-se ao lado dele, os dois de frente para o céu já bem escuro e cheio de estrelas. “Mikey tem natação, vou te levar lá em casa.”

Segurou a mãozinha dele no escuro, a grama molhando seus cabelos.

**

Frank chegou ao orfanato quase oito horas da noite. Havia uma freira sentada no saguão, tricotando. Ela não levantou o olhar para ele, apenas o informou de que ele havia perdido o jantar. Mas Frank não se importava.

Subiu as escadas rapidamente, sabendo que também não poderia tomar banho. Os aquecedores de água eram desligados às sete para que todos tomassem banho cedo — e para economizar gás, obviamente. Frank teria que acordar mais cedo para se lavar no dia seguinte.

Chegou ao quarto que dividia com cinco outros garotos. Foi até sua cama — a parte inferior do beliche junto à parede fria — e deitou-se no colchão fino. Não havia mais ninguém ali, todos provavelmente na sala de TV, então Frank pôde ficar sozinho com seus pensamentos e com o sorriso besta que não saía de seu rosto.

Pensou em ir até o piano antigo, mas as freiras não o deixariam tocar àquela hora. Quando disse a Gerard que sabia tocar, o garoto ficou animadíssimo e disse que queria ouvir Frank tocando. Era difícil recusar um pedido dele.

Por fim, Frank acabou puxando o cobertor para cima de si e adormeceu sem tirar nem os sapatos. Pela primeira vez em muito tempo, não teve pesadelos.

**

Gerard não sabia como havia conseguido dirigir até em casa. Sua cabeça parecia ter sido rachada ao meio e ele não se lembrava de ter passado em determinados trechos do caminho. Quando abriu a porta de casa e pisou na sala de estar, sentiu mãos tocarem seus braços imediatamente.

“Hey, cara, você está bem?” Era a voz de Bert.

“Cabeça,” Gerard murmurou fracamente.

Como ele foi parar em sua cama era um mistério. Quando abriu os olhos, estava deitado, sem o paletó e os sapatos, remédio tomado e uma bolsa de água quente na testa. Sentia-se melhor. Vagou os olhos pelo quarto e encontrou Bert jogado na cama de Mikey, mexendo no celular.

“Hey,” chamou com a voz falha. Bert levantou o olhar e imediatamente pôs-se a ficar de pé.

“Hey, Bela Adormecida.” Sentou-se na cama de Gerard e levou a mão ao rosto dele, checando sua temperatura. “Melhor?”

Gerard meneou a cabeça, sentindo a garganta seca — Bert pareceu ler seus pensamentos e entregou-lhe uma garrafinha d’água. “Como foi seu passeio romântico pelos campos verdejantes de Jersey?” perguntou enquanto Gerard tomava a água.

“Hm, delicioso.”

“Ooooh, delicioso!” — Gerard riu e Bert tirou a bolsa quente da testa dele, passando a afastar os cabelos molhados de seu rosto com cuidado. “Me dê detalhes sórdidos.”

“Mmmm. Foi selvagem.”

Bert lançou a ele um olhar cético. “Selvagem, eh? Você fez com que ele gritasse seu nome, não é mesmo?”

“Yeap.”

“E ele não vai conseguir andar por uma semana.”

“Exatamente.”

Apertou o nariz pontudo do amigo. “Mentiroso.”

“Ouch, solta.” Franziu o nariz. “Claro que não rolou nada desse nível, mas...” — deixou a frase morrer, o olhar se perdendo no teto.

“Mas o quê?!”

Gerard riu. “Mas ele meio que perdeu o fôlego algumas vezes.”

Bert abriu a boca numa expressão dramática. “Seu corrompedor de órfãos inocentes!” Exclamou, batendo os dedos na testa de Gerard.

“Bert! Minha cabeça! E isso nem é uma palavra.”

“Morro de orgulho de você, danadinho.” Os olhos azuis foram parar no rádio-relógio, que marcava 22:09h. “Eu tenho que ir, boneca, tinha passado pra te avisar da festa.”

“Que festa?” Voltou a tomar água.

“Ah, os pais de alguém vão viajar. Naquele casarão perto do farol, amanhã às oito. Pra você deixar o Frank bêbado e dar um trato nele.”

Gerard arregalou os olhos. “Bert!”

“Se você não der, eu dou! Agora eu vou embora, se cuida,” disse já saindo da cama. “E vê se leva seu remédio no bolso amanhã, animal.”

“Obrigado, Bertie!” gritou quando o amigo já tinha saído pela porta. Permaneceu ali deitado, tentando arrancar o rótulo plástico da garrafa com as unhas roídas.

Imaginou como seria se Frank ficasse bêbado. Gerard definitivamente ficaria tentado a avançar um pouco mais... ‘quem sabe,’ ele pensou. A noite guardava muitas surpresas para os dois.

Notas finais
Espero que gostem! Sou totalmente desconhecida nesse site, fml. A quem ler, um muito obrigada.