Capítulo nove

“That there, that's not me
I go where I please
I walk through walls
I float down the Liffey
I'm not here
This isn't happening
I'm not here, I'm not here…

In a little while I'll be gone
The moment's already passed
Yeah it's gone
And I'm not here
This isn't happening
I'm not here, I'm not here…”

[How to disappear completely — Radiohead]

~

Um toque leve, movimento constante, voz que sussurra. “Hey. Hey, Soneca, acorda.”

Gerard abriu os olhos devagar, sentindo as pálpebras grudentas e pesadas. Piscou algumas vezes até conseguir identificar o rosto de Bert. “Hmm?” Sentiu a boca seca, sua língua parecendo ser feita de areia.

“Seu filho da mãe estúpido, eu estava prestes a chamar uma ambulância,” Bert avisou, uma expressão preocupada no rosto.

“Onde — Frank?” Virou a cabeça para a esquerda: encontrou Frank de pé, encostado à parede, braços cruzados e uma expressão nada satisfeita. Encontrou também uma forte dor na nuca que o fez grunhir, castigando-o severamente e fazendo seu coração perder o ritmo.

“Gerard, olha pra mim. Presta atenção,” disse Bert, no tom mais sério que Gerard já o escutara usar. “Eu sei que as coisas estão uma merda, que você quer fazer tudo sumir, mas se você fizer algo desse tipo de novo, eu não vou te encobrir.”

“Eu — o quê?” encarou, confuso, o rosto de Bert. “Que horas são?”

Robert suspirou, irritado. “Senta,” ele ordenou, ajudando Gerard a se sentar, ajeitando travesseiros atrás dele. Passo a ele um copo d’água, o qual Gerard aceitou com gratidão. “São sete e meia, Gerard. Da manhã. Porque hoje é quinta, animal, você estava dormindo desde ontem.”

Gerard terminou a água e lambeu os lábios antes de responder. “Sério?”

“Quase me matou do coração,” Frank protestou do canto do quarto, e não havia ironia em sua voz.

“Sério, gracinha. Eu cheguei do colégio aqui e você já estava apagado — Gerard, cala a boca, sério. Eu escondi a garrafa antes que alguém visse e passei a tarde fingindo pra tua mãe que a gente ficou conversando e vendo TV. Mas Gerard, cara, eu juro, mais uma dessa e eu vou contar tudo pro teus pais e eles vão te mandar pro hospital.”

Gerard arregalou os olhos, que estavam inchados pelo longo tempo que ele passou adormecido. Viu o quão ridículo estava sendo, infantil de certa forma, mas não poderia evitar. Só queria que o mundo parasse por um momento e lhe desse descanso. Mas isso obviamente não iria acontecer, tudo continuaria naquele curso de conseqüências. Gerard havia bebido para tentar afastar a dor, mas tudo que conseguira fazer foi deixar Bert preocupado. Bert, que nunca antes se preocupava com nada.

Foi ali que Gerard percebeu que teria que aprender a viver com a dor, pois ela não iria embora, ele fizesse o que fosse. Só porque ele fez merda, só porque ele era infeliz, não significava que as pessoas ao seu redor tinham que ser também.

“Não vou fazer de novo,” ele disse com a voz fraca. “Perdão, Bertie, não vou fazer de novo.” Forçou um sorriso.

Robert o fitou por alguns segundos, desconfiado, até que retribuiu o sorriso. “Okay. Porra, Gerard, você me assustou,” confessou e abraçou o amigo, que apertou os olhos e travou os dentes, horrorizado com a força da dor de cabeça.

“Estou melhor agora,” fingiu ele. “Só queria dormir direito um bocado.”

“Isso é bom,” declarou Bert com a voz mais animada. Quebrou o abraço e encarou o outro com um de seus sorrisos maníacos. “Porque nós vamos para Belleville.”

Gerard arqueou as sobrancelhas. “Hoje?” Lançou um breve olhar a Frank, que continuava impassível.

“Agora, Pocahontas, arruma a trança que estamos indo.”

Algo que parecia animação nasceu dentro de Gerard, que não se lembrava como era estar ansioso por algo bom há tempo. Evanesceu quando o motivo da viagem voltou à sua mente. “Mas você não vai à aula?”

Bert riu como se aquela fosse a melhor piada da história. “Não ponho mais o pé naquele lugar. E já falei com sua mãe, ela disse que essa viagem será boa para você.”

“Okay,” respondeu ainda com o sorriso forçado no rosto. “Vamos, então. Só preciso de um banho.”

“É.” Bert fitou Gerard com uma expressão estanha por um momento. Levou uma mão ao rosto dele, acariciando a bochecha pálida com carinho. “Fico feliz de ver você melhorando.” Pousou um beijo na testa do amigo e pôs-se a sair do quarto, dizendo que ia buscar café na cozinha.

Gerard encarou as próprias pernas por alguns segundos, sem sequer perceber que ainda sustentava o falso sorriso. Ouviu alguma coisa, olhou para o lado. “Huh?”

Frank suspirou e balançou a cabeça. “Eu sei que você está mentindo.”

**

Sobre a geladeira dos Way havia um pingüim. Gerard nunca tinha visto aquele pingüim na vida. Um pingüim de porcelana, não muito grande, meio desbotado. Obviamente ele sempre esteve ali, mas Gerard nunca tinha reparado nele antes. Coberto de gordura, a tinta dos olhos descascando, deixando-o com um ar de zumbi. O pingüim-zumbi. Pingüim zumbi na casa de Gerard Way zumbi.

Uma mão apareceu de súbito em frente ao rosto dele, dedos estalando. A mão de Donna, longa, cheirando a detergente. Ele tomou um pequeno susto e olhou pra ela.

“Terra chamando Gerard,” Donna disse. “Você ouviu o que eu te perguntei?”

“Hm? Não.”

Ela passou a mão pelo pescoço do filho com cuidado, porém firmeza, limpando uma gota d’água que havia escorrido dos cabelos molhados dele. “Eu perguntei se estão boas,” ela disse, levando o avental à cabeça de Gerard e apertando os fios com o pano, tentando tirar a excessiva umidade que ele não fez questão de enxugar com a toalha.

“Boas o quê?” Questionou Gerard, fazendo uma careta ao sentir Donna secando o interior de sua orelha — mesmo após de um bocado de codeína, a dor de cabeça ainda estava ali. Bert disse que era bem-feito. Frank discordou.

Donna parou de enxugá-lo e passou a alisar os cabelos negros dele com os dedos. “As panquecas que você está comendo, ora. Gerard, onde você está com a cabeça?”

Gerard tinha, de fato, a boca cheia de panquecas. Comia de forma tão automática que não havia percebido. Estava quase catatônico emocionalmente. “Estão ótimas, mãe, obrigado. Aquele pingüim é novo?”

As mãos longas de Donna pousaram na cintura fina dela. “Filho, você me deu aquele pingüim no dia das mães quando você tinha uns dez anos.”

Gerard não fazia idéia do que ela estava falando.

“Oh, é mesmo. Esqueci.” Ofereceu um sorriso. “Ainda não acordei.”

Donna riu e brincou que ele estava ficando caduco antes dela. Saiu da cozinha, dizendo que ia arrumar uma mochila com roupas para Gerard poder levar, ele sempre se esquecia de pegar coisas importantes como... roupas. E etc. Deixou o filho sozinho na cozinha — Bert tinha ido colocar gasolina no carro. Gerard continuou encarando o pingüim e enfiando panquecas na boca.

“Eu escutei seus pais dizendo que vão processar a escola,” Frank declarou. Estava sentado sobre o balcão da pia. Gerard olhou para ele: Frank continuava usando as mesmas roupas de sempre, calça e camiseta brancas, soltas, leves, descalço. E estava fazendo um tremendo frio — Gerard estava vestindo calças grossas e sua jaqueta surrada favorita, todas negras, e ainda assim não suficientes.

“Frankie, você não está com frio?” Perguntou, a frase saindo um pouco atrapalhada por conta da comida ainda enchendo suas bochechas.

“Não. Você ouviu o que eu disse?”

Gerard voltou a encarar o prato, metade das panquecas ainda ali. “Ouvi. Não me importo.” Encheu a boca novamente, a calda dourada manchando seus lábios com o doce que ele não sentia.

“Devia se importar,” Frank declarou, tendo aparecido subitamente em cima da mesa. Gerard assustou-se novamente e, ao olhar para Frank, notou que ele agora usava as roupas que usava no dia do acidente. A jaqueta de couro, as luvas recortadas, a calça apertada. Sem o rosto machucado como estava no funeral, parecia que tinham voltado no tempo e Frank estava bem, vivo e ali novamente. Mas não estava. Gerard largou o garfo no prato com um estalido e se recostou na cadeira, as mãos límpidas sobre o colo, e apenas olhou para Frank.

“Você pode trocar para a roupa que quiser?” Perguntou distraidamente, ainda observando as mãozinhas perfeitas sob as luvas. Queria pegá-las nas suas e beijar os dedos delicados, deslizar a bochecha pela pele macia, sentir o cheiro puro.

Frank arqueou as sobrancelhas. “Eu te falo que seus pais vão processar a escola e você se preocupa com a roupa que eu estou usando?”

Suspirou e cruzou os braços. “Eu só não quero pensar nisso. Não quero falar disso. Você pode andar sem roupa, já pensou nisso? Ninguém vai te ver. Quer dizer, eu veria — não que eu esteja sugerindo, só ia ser engraçado, você não acha?”

“Você parece o Bert falando,” Frank respondeu num tom curioso.

Gerard balançou os ombros. “Eu gosto das coisas que ele diz.”

“Mas você não é assim,” insistiu Frank. “Eu sei o que você está fazendo, Gerard. Focando-se em besteiras pra...”

“Pra tentar parar de ficar choramingando o tempo todo por causa da merda que eu fiz? É, talvez eu esteja. É melhor assim, Frankie. Eu já estou de saco cheio de mim mesmo.”

“Mas Gerard!” Inclinou-se para frente, e estava a apenas centímetros de Gerard — que não podia sentir seu cheiro ou o calor de sua pele ou qualquer coisa do tipo. “Se você continuar isso, o problema só vai crescer e crescer até virar uma bola de neve, e se você não resolver o assunto e passar por cima dela, ela vai passar por cima de você.”

A mão de Gerard se levantou um pouco, uma fração de movimento que almejava tocar Frank. Mas ele parou. Recuou. Voltou a fitar a jaqueta de couro. “Você fica muito melhor vestido assim,” declarou antes de se levantar e sair da cozinha, deixando Frank sobre a mesa com o prato ainda cheio de panquecas.

**

Bert possuía um Range Rover. Um carro imenso, relativamente novo, escuro, de rodas brilhantes e todos os apetrechos possíveis oferecidos em concessionárias. Havia ganhado o carro em seu aniversário de dezesseis anos — junto com um aperto de mão do pai e um abraço rápido da mãe. As empregadas lhe fizeram um bolo, e ele cantou parabéns com elas na cozinha antes de ir para a casa de Gerard, que esperava por ele seminu na cama.

Todos os adolescentes queriam aquele carro.

Bert odiava aquele carro.

Era ridículo. Era imenso, desnecessário, chamativo, ostentoso, sério demais. Bert dizia que parecia o carro de um agente do FBI. Queria vendê-lo para comprar um Impala 67, mas não poderia, uma vez que o carro estava em nome de seu pai, que não autorizou a venda. Portanto, Bert nunca usava o maldito carro, pretendendo trocá-lo pelo Chevrolet velho quando fizesse 21 anos.

Mas foi no Range Rover que Bert e Gerard pegaram a estrada para Belleville naquela quinta-feira gelada.

Os vidros escuros protegiam os olhos de Gerard da claridade que as nuvens não bloqueavam, e os óculos escuros que ele usava também ajudavam um bocado. Ele estava com a visão muito sensível e a cabeça dolorida como nos velhos tempos. Estava recostado no banco do passageiro, braços cruzados, encarando a estrada que passava em velocidade constante sem realmente reparar em nada. Bert dirigia com tranqüilidade, porém com cuidado, e Frank estava empoleirado entre os bancos. Bert não via o reflexo dele no espelho retrovisor.

Os três cantarolavam a letra de Tonight, Tonight, que passava no rádio através do iPod que Bert conectara ali. “Você sabe o caminho até a igreja?” Ele perguntou de súbito, fazendo Gerard parar a cantoria e olhar para ele.

“A cidade tem uma praça principal, e a igreja fica lá. Não é difícil de achar,” disse voltando a encarar a estrada. “Mas eu acho que lembro o caminho, de qualquer forma.”

Robert meneou a cabeça lentamente. “Espero que ela esteja viva e disposta a nos receber. Sem querer ser pessimista, mas você sabe, só... prevenindo.”

“Ela vai estar,” Frank falou baixinho. “Ela vai estar,” repetiu ainda mais baixo, outra e outra vez, como uma prece.

“Você avisou Quinn que nós vamos viajar?” perguntou Gerard, continuando sua estratégia de não pensar em si mesmo.

“Yeap.” Olhou pra Gerard e sorriu. “Ele disse que vai sentir minha falta.”

“Que bom.”

“Ele não gostou muito de que eu saí do colégio, no entanto. Fechou a cara pra mim por uns bons vinte minutos.”

“Ele não devia mesmo ter saído,” disse Frank a Gerard, que concordou.

“Você não devia mesmo ter saído.” Viu uma placa indicando 30 milhas até Belleville. Mais uma hora e estariam lá.

Bert fez um som despreocupado. “Eu não quero mesmo ir para a faculdade. Foda-se o colégio, já sei o que eu preciso.”

Gerard finalmente virou-se para Bert e deu-lhe completa atenção, esquecendo de olhar e não ver a estrada. “Eu já te disse que isso é bobagem, você não sabe se vai conseguir montar uma banda de sucesso, senhor rockstar.”

“Bem, para sua informação,” começou Bert num tom quase musical, “eu já encontrei os integrantes que faltavam e nós vamos começar a ensaiar em breve. Jepha tem um amigo mais velho, que já faz faculdade, que toca bateria. Aposto minha bunda que vai dar certo dessa vez.”

“Ainda bem que sua bunda já não vale lá muita coisa mais,” brincou Gerard automaticamente, sem realmente ver graça em nada. Bert, no entanto, riu, e deu-lhe um tapa leve no braço.

“Acho bom você torcer por mim, boneca, porque se não der certo, eu vendo você para os traficantes espanhóis de prostituição de menores e ganho uma grana boa,” riu Bert, tossindo um bocado. “Já que a sua bunda é tão valiosa.”

“Perdeu valor por sua causa.”

“Gerard!” choramingou Frank, não gostando do rumo que a conversa estava tomando. Só porque estava morto, não significava que queria ver Gerard conversando sobre o que havia feito com Bert. Ainda tinha um coração, poxa. Um coraçãozinho ciumento.

Um sentimento acalentado invadiu Gerard por um momento, como acontecia toda vez que Frank manifestava ciúmes dele. Porém, antes Gerard podia rir e abraçar Frank, beijando seu rostinho bravo, dizendo a ele que não precisava ter ciúmes, que era todo dele. Não podia fazer mais isso. Dentro de um carro haviam tido seu primeiro e seu último beijo, ênfase no último, que determinava que não mais seria possível. O impossível não seria possível naquela noite, querido Billy Corgan, favor comer merda e morrer.

“Posso mudar essa música?” Gerard perguntou com brusquidão, interrompendo a tagarelice de Bert sobre sabe-se lá o quê. Robert olhou para o amigo, confuso, e meneou a cabeça rapidamente.

Gerard pegou o iPod e pausou a música, deslizando o dedo pelos botões e vendo a lista de canções. Um monte de músicas românticas — a principal razão que Bert não deixava mais ninguém tocar no aparelho. Gerard era a única pessoa que conhecia Bert profundamente a ponto de saber que ele era, na verdade, um romântico inveterado, que adorava dar e receber carinho, e não só aquele garoto inconseqüente que fazia palhaçadas, não tomava banho e dava mortais para trás com a facilidade de um ginasta olímpico. Gerard ficou tentado por várias das músicas típicas de fossa, que poderiam refletir o estado em que ele estava e lamentar-se com ele. Quase apertou o play em Iris, mas decidiu que a ironia seria demais para seu falso bom humor. Acabou colocando Iron Maiden e que se dane.

“Não adianta você tentar se desconectar de tudo como se fosse o fim,” avisou Frank com a voz pesarosa. “Não é o fim, você sabe que não.”

Gerard reprimiu um suspiro, levantando a cabeça para o teto e tamborilando os dedos sobre o próprio peito. “Eu só queria sumir...” ele murmurou, o fraco som de sua voz perdido por entre notas agudas de guitarra.

**

A igreja de Belleville era menor do que Gerard se lembrava. Ficava ao sul da praça, comum e apagada sob o céu nublado. A tinta branca estava amarelada e os vitrais desbotados, o peso do tempo caindo sem piedade sobre a construção humilde e caprichada. Na casa dos Way havia diversas fotos daquela entrada, quando ainda era recém-reformada e cheia de vida, Donna e Donald saindo alegres pela porta principal, cobertos de arroz.

Os três garotos ficaram parados em frente à igreja por um minuto, elaborando e pensando e prevendo. Bert foi quem tomou iniciativa primeiro, pousando a mão na base das costas de Gerard e guiando-o para dentro. Subiram os poucos degraus de pedra e entraram, portas abertas à casa do Senhor.

Algumas dezenas de compridos bancos de madeira enfileirados, um altar modesto porém bem decorado, vitrais coloridos, imagens de santos, panfletos, caixas de doações, uma bacia de pedra cheia de água benta. Água essa na qual Bert molhou a ponta de dois dedos e fez o sinal da cruz, fazendo que Gerard olhasse para ele com olhos muito arregalados.

“O quê?” Perguntou Bert. “Ora, se já estou aqui, não custa seguir o manual.”

“Eu aconselho seguir o manual,” disse Frank com um sorriso torto no rosto. Gerard revirou os olhos e imitou as ações de Bert.

Eles avançaram pelo corredor entre os bancos, em direção ao altar. Havia um jovem limpando os sinos sobre o palanque do padre. Ele tinha cabelos vermelhos caindo sobre seus olhos esverdeados, embora seus cílios fossem bem mais escuros. Possuía algumas sardas sobre uma pele incrivelmente mais branca do que a de Gerard, lábios cor de pêssego e uma expressão serena. Vestia roupas estranhamente parecidas com as roupas que Frank usava antes, brancas, largas — porém a camisa tinha mangas longas e ele estava calçado.

“Pois não?” Ele disse, levantando o olhar para os garotos e, por um segundo, Gerard pôde jurar que ele olhou para Frank.

“Uhm, oi, você — ehm — você trabalha aqui?” Perguntou Bert, parecendo atrapalhado, olhando para o rapaz como se ele fosse de outro planeta.

Ele riu. “Não exatamente trabalho, mas pode-se dizer que sim,” respondeu com um sorriso. Mas não um sorriso qualquer. Ele parecia muito satisfeito. “Sou John. Vocês querem falar com o padre Goodfellow?”

“Isso, é esse o nome dele,” disse Gerard, estalando os dedos. Lembrava do rosto do padre, mas falhava em tentar lembrar o nome dele. “Sim, queremos.”

John curvou a cabeça e deu meia volta, saindo por uma porta sem mais uma palavra. Bert imediatamente agarrou o antebraço de Gerard e aproximou o rosto do dele, como uma garota louca para fofocar sobre algo. “Você acha que ele é padre também?” Bert perguntou num sussurro nervoso.

“Bert, solta,” reclamou Gerard, que quase perdeu o equilíbrio da perna engessada. “John, você diz?”

“Não, Peter Pan, o padre Goodfellow. É, o John,” disse impaciente.

“Jesus, Bert,” riu Gerard, com olhos arregalados. “Calma. Não faço idéia, sei tanto quanto você.”

“Puta mer-- foi mal, Deus — poxa vida, você olhou bem pra ele?” Bert parecia ansioso como um esquilo cheio de cafeína. “Vou entrar pro seminário. Porra, onde eu me inscrevo?”

Frank riu de onde estava — observando a figura de uma santa sobre um pedestal. “Deixa o Quinn ouvir isso,” ele disse, e sua voz grossa ecoou na igreja.

“Não é?” Gerard disse, só então lembrando que Bert não podia ouvir Frank. “Quer dizer, o que Quinn diria disso?”

Bert pareceu murchar. “Oh. Oh é, Quinny. Eu só — oh eu não sei, Gee, você não viu aquele cara? Lindo pra cacete, e que se dane se eu vou queimar no inferno por xingar na casa do Senhor ou desejar um de seus... servidores? Porra.” Encarou a porta por onde John havia saído.

“Nós o vimos por tipo, três segundos,” ponderou Gerard, que sinceramente, nem prestou lá muita atenção no tal John. “Sossega.”

Robert se virou para Gerard com as mãos na cintura e uma expressão cínica. “Ah é? E você não perdeu o chão quando viu o Frank no colégio a primeira vez? Eu estava lá, sabe,” lembrou ele, impaciente como uma garota. “Ah eu nem sei, só sei que esse John é um sonho. Parece um anjo, santo bebê Jesus.”

Gerard encarou o chão por um momento, testa franzida. Na verdade, a reação de Bert era basicamente a reação mental de Gerard ao ver Frank pela primeira vez. Era quase revoltante o quão atraente ele era. E foi para ele que Gerard olhou, mas Frank apenas arqueou as sobrancelhas e sacudiu os ombros, voltando a prestar atenção nos enfeites vitorianos da igreja.

O som de passos foi se aproximando e logo apareceu o padre Goodfellow, seguido por John. O padre já estava bem velhinho, magrinho e um bocado corcunda. Tinha o rosto arredondado, olhos azuis muito claros e gentis, cabelo branco cobrindo as laterais de sua cabeça. Lembrava um pouco o avô paterno de Gerard, que já havia morrido faz muito tempo.

O padre se aproximou dos garotos com seus passinhos curtos, olhos fixos em Gerard. Seu rosto pareceu iluminar quando chegou a ele. “Oh! O menino Way!” Ele exclamou. Tomou Gerard num abraço rápido e deu tapinhas em suas costas. “Como está crescido!”

Gerard sorriu para o padre. “Wow, o senhor ainda se lembra de mim.” Talvez se lembre de Linda também.

Goodfellow levou a mão ossuda ao rosto de Gerard e segurou-lhe o queixo. “Você, meu jovem, tem os olhos mais marcantes que já passaram por Belleville. Sua avó sempre dizia isso, e eu concordo com ela.”

Nostalgia engolfou Gerard por um momento, a lembrança de ir à missa com a avó presente em sua cabeça. Ele apresentou Bert ao padre, que apresentou John a eles, e finalmente foi questionado aos garotos o motivo de sua visita ali.

“Bem,” começou Gerard, trocando um olhar rápido com Frank, que tinha um sorriso imenso grudado no rosto. “Eu estou procurando por uma pessoa, e esperava que o senhor talvez pudesse me ajudar a encontrá-la.”

“Oh,” fez o padre, oferecendo um sorriso gentil a ele. “Que pessoa, meu jovem?”

O coração de Gerard batia rápido quando ele puxou a foto do bolso interno da jaqueta e entregou-a ao padre. “Eu só tenho essa foto, e eu sei que foi tirada aqui. O senhor a reconhece? Sabe o nome dela?” Perguntou com uma ansiedade quase palpável.

O padre Goodfellow afastou a foto do rosto um pouco, forçando a vista cansada a encontrar a distância apropriada para um bom foco. Ele observou a fotografia atentamente, cenho franzido em concentração, até que mudou para uma expressão de vitória. “Oh, sim, sim! Veja, John, se não é.” Mostrou a foto a John, que sorriu e meneou a cabeça ao ver a figura impressa no papel.

Frank e Bert estavam quase pulando ao lado de Gerard, que também só não pulava pela perna engessada. “O senhor a conhece?”

“Oh sim,” disse o padre, levantando o olhar aos garotos. “Essa é a jovem Linda. Linda Iero.”

**

Frank estava do lado de fora do carro, correndo em círculos e abanando os braços. Gerard o observava de dentro do automóvel com um sorriso bobo no rosto, simplesmente não podendo evitar ser contagiado momentaneamente pela felicidade extrema em que Frank se encontrava.

“Gerard?” Veio a voz de Bert, que esperava no banco do motorista e encarava o amigo.

“Só um minuto.” Tinha o celular em mãos, mas não conseguia tirar o olhar de Frank e do sorriso ridículo que ele parecia planejar usar para sempre. Era uma pena que Bert não conseguisse vê-lo.

Tinham conseguido o número de Linda. Nem precisaram olhar no catálogo: John o sabia de cor.

Quando eles reconheceram a moça na foto, padre Goodfellow contou que ela era uma moça muito dedicada e presente na paróquia. Passou por alguns problemas quando moça e teve que viajar por um tempo para cuidar da família, mas voltou pouco tempo depois. Perdera um bocado da alegria de menina, disse o padre, mas continuava uma pessoa muito boa que ajudava a todos que a ela recorressem.

John trabalhava com ela no hospital da cidade. Linda era enfermeira da ala pediátrica.

“Gerard, anda logo!” Choramingou Bert, inquieto em seu assento.

“Okay. Okay, eu vou ligar!” Ele disse bem alto para que Frank pudesse escutar lá de fora. Ele ouviu, e num segundo estava no banco de trás, quase montado no assento de Gerard, que pigarreou. “Certo, vamos lá.”

Desdobrou o pedacinho de papel onde John havia escrito o número de Linda, a escrita desleixada marcando os números que poderiam mudar tudo bem ali naquele momento. Gerard abriu o celular e teclou os números. Encarou a tela. “Okay. Okay.”

Robert fez um som insatisfeito e apertou o botão verde que deu início à chamada. Gerard colou o telefone à orelha e esperou, sua perna boa balançando com rapidez quase sobre-humana.

Um toque, dois toques, três toques. “Alô?” veio uma voz suave.

Gerard arregalou os olhos, Bert fez o mesmo, fala alguma coisa.

“Senhora Iero?” perguntou Gerard com a voz falha, olhando de Bert para Frank nervosamente.

Bert sussurrou que ele colocasse no viva-voz.

“Oh,” — uma risada breve. “Senhorita, por favor.”

“Ah sim, perdão,” gaguejou Gerard, colocando o telefone no viva-voz. ‘Essa é a voz da minha mãe!’, berrou Frank, mas só Gerard ouviu. “Ehhhm, senhorita, meu nome é Gerard Way e... eu... eu sei que isso vai soar estranho agora, mas eu precisava conversar com a senhora?”

Uma pausa breve. “Bem, é algo urgente? Eu estou trabalhando agora, se puder esperar...” ela disse com a voz gentil.

“Ah sim, John me falou que a senhora estaria trabalhando,” ofereceu Gerard, tentando não soar como um perseguidor ou algo do tipo.

“Você conhece — Tracy, vigie Tommy para mim um momento? Obrigada, querida — você conhece John?”

“É a voz da minha mãe!” Frank berrou de novo, e Gerard fez uma careta, mesmo que sorrisse.

“Sim, conheço,” disse Gerard, “foi ele que me deu seu número. E, hm, bem, eu acho que seria melhor conversarmos pessoalmente? Se for possível.”

“E sobre o que é?”

Gerard olhou para Bert, que balançou a cabeça rapidamente. “Eu prefiro não adiantar,” Gerard disse, quase rindo do tom profissional que usava. “Mas acho que vai ser de seu interesse... senhorita. Não sou uma má pessoa, eu prometo. Não quero... sei lá, machucar a senhora?”

Linda riu, uma risadinha doce e infantil e extremamente parecida com a de Frank. “Pelo seu tom, menino, não acho que queira. Façamos o seguinte, peça John para levá-lo à minha casa amanhã de manhã, sim?”

Os três garotos no carro sorriram largamente. “Sim senhora,” disse Gerard. “Vou falar com ele agora mesmo.”

“Bom, bom. Preciso ir agora, vejo você amanhã.” Um choro de criança invadiu o fundo do ambiente.

“Até,” disse Gerard antes de terminar a ligação.

“Ah meu Deus, Gerard, eu quero te abraçar pra sempre,” disse Frank antes de sumir. Saiu de perto porque não podia abraçar Gerard, mas Bert podia, e o fez.

“Cara, isso é tão incrível,” Bert disse contra os cabelos de Gerard, que deu tapinhas em suas costas.

“É,” ele disse com a voz perdida. “Acho que sim. Vamos lá, temos que falar com John.”

**

Que grande idéia, não é mesmo? Brilhante. Genial. Perfeitamente ótima.

Olá, Linda Iero, como vai? Eu matei seu filho. Yay!

Gerard encarava o teto do quarto da pousada em que se hospedaram. Bert, para a surpresa de todos, estava no banho, deixando assim o outro sozinho no quarto. Não realmente sozinho, já que Frank também estava lá, hiperativo e animado, encarando Gerard e imaginando o que diabos havia de errado com ele.

“O teto não vai se mover, sabe,” ele disse após alguns minutos de apatia do maior.

Gerard não se moveu. “Eu sei.”

“Ger, vamos lá, o que há de errado?”

Finalmente, Gerard virou o rosto para Frank, oferecendo-lhe um sorriso fraco e falso. “Nada, tudo ótimo.”

“Você está preocupado, eu posso sentir,” ralhou Frank. “O que é?”

Toda a história de Frank poder sentir o que Gerard sentia estava começando a se tornar inconveniente. Todas as pessoas podiam fingir estar confiantes quando assustadas, indiferentes quando magoadas, entretidas quando entediadas, tudo com algumas palavras e uma expressão facial. Mas Gerard não podia. Não de Frank. O que entrava muito no caminho da estratégia estou-ótimo dele.

“Eu só não sei como ela vai reagir,” finalmente confessou, diminuindo a verdadeira dimensão de sua preocupação. “Por causa do acidente,” acrescentou com cinismo.

“Ela vai entender,” assegurou Frank, deitando-se na cama ao lado de Gerard. Seu corpo não afundou o colchão e Gerard não se moveu.

“Não tenho tanta certeza, Frankie,” declarou com um suspiro. Ah, que se dane. “Eu posso até agüentar pessoas estranhas me chamando de assassino, mas a sua mãe...”

“Ela não vai fazer isso.”

“E se fizer? Deus, não sei o que fazer, estou começando a achar que isso não é uma idéia tão boa.” Colocou o vidro alaranjado de remédios no criado-mudo, já tendo tomado a última dose do dia alguns minutos antes.

“Claro que é uma idéia boa,” teimou o pequeno, virando-se de lado na cama. “Você não acha que ela vai gostar de saber que eu estava vivo? E relativamente bem?”

“A parte que ela não vai gostar,” começou Gerard, virando-se de lado também para ficar de frente para Frank, “é aquela na qual você deixa de estar ‘vivo e relativamente bem’. Frankie, vamos encarar as coisas. Ela vai ficar furiosa comigo e quebrar minha outra perna.”

Frank sorriu para ele com carinho. “Ela não vai, Gerard. Se ela me queria, ela não vai. A única coisa ruim que pode acontecer é ela dizer que nunca me quis, pra gente dar o fora de lá.”

“Ela queria,” Gerard disse. “Eu sei que queria. Ela não é o vilão dessa história.” Fechou os olhos, as pálpebras pesadas.

“E você também não é, Ger, eu já disse.” Ele estava tão perto; tão longe. “Não se preocupe.”

Gerard riu brevemente, tentando se divertir com sua própria desgraça. “Eu queria não me preocupar,” murmurou ele, imaginando se a ansiedade que o dominou o dia todo havia corroído seu estômago. Odiava sentir-se daquela forma. Era muita merda em muito pouco tempo, e seu sistema nervoso e emocional estava à beira de um colapso. Todos sabiam disso e torciam para que nada viesse a catalisar uma crise. “Ugh, eu só queria sumir do mundo. Sumir, voosh, sumi.”

“Enquanto alguém no mundo amar você, você não vai sumir,” Frank disse num tom leve. Gerard abriu os olhos preguiçosamente, fitando Frank com íris embaçadas e sonolentas. “Gerard, eu guardei nossas lembranças na alma. Tudo o que senti e sinto por você, está aqui. Você está aqui e não vai a lugar nenhum.”

Um sorriso entorpecido pousou nos lábios de Gerard, num daqueles momentos em que ele ficava tão bonito que Frank tinha vontade de abraçar-lhe a cabeça. “Nós estamos juntos nessa, huh, Frankie?” ele murmurou, seu último fio de consciência lembrando-o de ser positivo e parar de reclamar. Frank meneou a cabeça, e Gerard fechou os olhos novamente. “Enquanto você estiver comigo, eu não vou a lugar algum.”

“Eu não vou sair do seu lado. Eu não vou te deixar cair, Gee, me ouviu?” Gerard não ouvia, já adormecido pela força dos medicamentos. Frank se apoiou num cotovelo e aproximou o rosto de Gerard, seus lábios vermelhos pairando a uma partícula da orelha dele. “Eu vou salvá-lo, mesmo que isso me condene pra sempre,” Frank sussurrou. Inspirou forte; sentiu o cheiro de Gerard. A vontade de deslizar a ponta do nariz pela curva da orelha dele era esmagadora.

Frank balanceou opções, coraçãozinho apertado.

**

Bert pressionou a testa contra a porta do banheiro, lágrimas escorrendo pelo seu rosto ainda molhado do banho.

Gerard acabara de ter uma conversa completa consigo mesmo. Mais uma.

Conte. Não conte. É traição. É negligência. É a porra do seu melhor amigo perdendo a cabeça, seu imbecil. Ele pode piorar. Ele pode ficar louco de vez. Ele pode se machucar. E vai ser tudo culpa sua. Eles vão colocá-lo num hospital nojento. Eles vão aterrorizá-lo com agulhas. Eles vão tratá-lo com eletro choque. Eles vão terminar de traumatizá-lo. Ele pode acabar com a própria vida.

Conte. Não conte. Bert chorou.

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