Conversa de Botas Batidas

1 A gente só queria um amor,


a gente só queria um amor,

capítulo um.

Veja você, onde é que o barco foi desaguar

A gente só queria um amor

Deus parece às vezes se esquecer

Ai, não fala isso, por favor

Esse é só o começo do fim da nossa vida

Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida

Que a gente vai passar

31 de outubro de 1997

A chuva caía forte em Hogsmeade, Lily estava com uma dor de cabeça insuportável e o ônibus estava atrasado. E claro, seu guarda-chuva quebrou no instante que pisou do lado de fora do prédio do curso de letras e o caminho curto do campus da Universidade de Hogwarts até o ponto de ônibus mais próximo a deixou ensopada.

E, então, no meio da chuva, um carro preto surgiu e parou em sua frente. Obviamente, que o primeiro pensamento dela foi fugir, mas o plano foi descartado quando ele abaixou a janela do carro e ela reconheceu os cabelos bagunçados, olhos castanhos escondidos pelos óculos e o sorriso maroto de James Potter. Já tinha esbarrado nele milhões de vezes pelo campus e sabia que ele vivia a olhando, além dos sorrisos e ‘olás’ direcionados a ela, mas ela nunca tinha dado a mínima abertura para que ele chegasse perto. Não confiava naquele sorriso.

— Ei, Lily! — Cumprimentou, ainda sorrindo.

— Potter. — Sorriu de volta só por educação.

— Ouvi alguns alunos falando que o ônibus quebrou e deve atrasar mais de uma hora. — Explicou num tom casual. Lily estreitou os olhos. — Quer uma carona?

— Eu posso esperar o ônibus. Não quero te atrapalhar. — Respondeu incerta.

— Não vai atrapalhar, Lily. Sua casa é caminho da minha. — Ela sabia que não era. — Vamos lá, tá congelando aqui e essa chuva não vai parar tão cedo, você sabe disso.

Ponderou por alguns instantes, mas sabia que ele tinha razão. A Inglaterra era conhecida pelas chuvas por um motivo e aquele momento deixava bem claro o porquê. Ela estava tremendo de frio já, até porque suas roupas molhadas não ajudavam a deixá-la mais quente, tinha mil coisas da faculdade pra fazer e tudo que queria era estar em lugar quente bebendo um bom café. Sem pensar mais, ela deu a volta no carro para chegar até a porta do passageiro.

— Toma. — James estendeu uma jaqueta para ela. — Tire esse seu casaco molhado e vista isso pra te aquecer.

— Obrigada, James. — Dessa vez seu sorriso era verdadeiro.

Lily não precisou explicar o caminho porque ele conhecia já que Sirius Black, melhor amigo de infância do Potter, morou ali perto quando criança. Seguiram o caminho de trinta minutos conversando amenidades sobre os cursos que faziam. Ela falou sobre um trabalho que teria que fazer e James explicou como funcionava o curso de administração, ambos no penúltimo período de seus cursos. Estavam engatando em uma conversa sobre algum filme, quando James estacionou em frente ao apartamento em que ela morava.

— Me dá seu telefone? — James perguntou com um tom entre receio dela negar e o desejo dela dizer sim.

Lily pegou uma caneta da bolsa, se inclinou e anotou o número no braço dele. Recebeu um sorriso alegre dele e um beijo na bochecha. Naquela noite, eles passaram horas em ligação. E repetiram o mesmo nos dias seguintes.

26 de março de 1998

— Ok, ok. Eu conto, mas você vai ter que contar uma sua. — James disse.

Ele e Lily estavam deitados na cama de casal do apartamento dele, era onze da noite e eles tinham largado os trabalho de faculdade que deveriam estar fazendo pra ver um álbum de fotos de James e os amigos quando criança. No momento, Lily insistia para que Potter contasse a história de como quebrou a perna com sete anos. Sinceramente, ele não queria contar porque era vergonhosa demais, mas não ia conseguir resistir a insistência de Evans.

— Pode contar tudo, sem escapar um mínimo detalhe. — Os olhos dela brilhavam de animação.

— Eu, Sirius, Remus e Peter estávamos brincando na casa do Sirius, o que era um milagre porque a gente odiava a mãe dele, um ser humano desprezível. — Fez uma careta de nojo ao falar da mulher. — Regulus é o irmão mais novo do Six e era um grande pestinha, a missão de vida dele era encher o saco da gente. Aí ele inventou uma história de que a empregada deles era uma bruxa e que ia pegar a gente pra fazer uma sopa. — Lily segurou a risada. — O Peter, o mais medroso de todos, saiu correndo da casa na mesma hora. Sirius, querendo brincar com ele foi atrás em direção as escadas, porque a gente tava no quarto do Six no segundo andar. Eu fui atrás dos dois idiotas e caí da escada.

— Vocês acreditaram que a empregada era uma bruxa? Só porque o irmão mais novo do Sirius disse que era? — Evans perguntou depois de se recuperar da crise de riso.

— A gente era meio burro, Lily. E ela era meio maldosa. — Explicou.

— Vocês eram adoráveis. — Apertou as bochechas dele.

— Pode contar uma sua agora, linda.

Lily suspirou, sabia que James era tão teimoso quanto ela e não existia a possibilidade de driblar ele e não conter alguma coisa vergonhosa. Ele até se ajeitou, virando de barriga para baixo e apoiando o queixo na mão, os olhos fixos nela, apenas esperando para rir.

— Hmn, ok. Não é nada como a sua, mas foi bem idiota. — Revirou os olhos, lembrando da estupidez que fez. — Eu tinha quinze anos e estudava com um garoto, Amycus Carrow, tinha um crush gigante nele, mas ele gostava de loiras. Achei que seria uma ótima ideia descolorir o meu cabelo.

— Não acredito nisso, Lily Evans.

— Eu era uma adolescente estúpida que queria aprovação e atenção. — Deu um tapa na própria testa, irritada com a idiotice de sua versão mais jovem. — Enfim, acabou que deu ruim, estragou meu cabelo e eu tive que cortar ele no queixo e esperar crescer de novo.

Ficaram rindo e compartilhando mais histórias vergonhosas que nunca falariam a mais ninguém. Quando Lily se deu conta, o relógio já marcava quase uma da manhã do dia 27 de março. Levantou correndo, interrompendo James, e saiu sem explicar o que faria. Potter, sem entender nada, se levantou e foi atrás da ruiva.

A encontrou vindo da cozinha com uma bandeja de cupcakes coloridos em mãos, cada um tinha uma vela acesa de cores diferentes. James sorriu, seu coração palpitando de alegria pelo que ela tinha feito para ele.

— Parabéns pra você, nessa data querida. Muitas felicidades, muitos anos de vida. — Cantarolou com um sorriso estampado no rosto.

— Lily, não precisava. — Disse quando ela se aproximou.

— Claro que precisava, meu amor. — Deu um selinho nele. — Vamos lá, faça seu pedido e assopre as velas.

James fez o que ela mandou, fechando os olhos e se concentrando no que queria. Em seguida, soprou as velas, apagando-as. Voltaram ao quarto, onde comeram os cupcakes e passaram o resto da madrugada acordados, aproveitando a companhia um do outro e se amando.

Era o pedido de James se realizando.

06 de junho de 1998

Oito meses depois daquele encontro na chuva, James e Lily estavam sentados em uma mesa do Three Broomsticks rodeados pelos seus amigos. Alice e Frank, que namoravam há anos, sentados lado a lado trocando carinhos. Remus, Peter e Emmeline conversavam alguma coisa sobre o curso que faziam juntos, mas ninguém além deles prestava atenção. Marlene e Sirius discutiam alguma bobagem que deixava a mulher irritada e fazendo bico, apenas para que o Black a beijasse em seguida.

— Vocês vão mesmo viajar? — Alice quem perguntou.

— Sim. A gente quer comemorar que acabou a faculdade. — Foi Lily que respondeu. — Nada melhor do que um mochilão na Europa de dois meses.

— Sei bem o que vocês vão fazer nesses dois meses. — Foi Sirius quem insinuou com um sorriso malicioso.

— Nada que a gente já não faça, seu cachorro. — Potter deu um tapa fraco no amigo.

— Quando vocês tomaram essa decisão de louco? — Frank questionou. — Eu não teria coragem não.

— Sei lá, a gente tava conversando um dia e a ideia surgiu. — Lily se mexeu para encostar em James, que a rodeou com os braços. — O James falou que tinha vontade de conhecer mais lugares.

— A Lily disse que o sonho de adolescente dela era fazer um mochilão, aí juntamos os dois e deu isso aí. — James complementou.

— Vocês são doidos, sério. — Remus sacudiu a cabeça. — Todo mundo termina a faculdade e vai atrás de trabalho, vocês vão viajar.

— A gente se ajeita. Eu já tô tentando uma vaga numa escola, quando voltar dá tempo de acertar tudo e o James tem vários chamados, ele só precisa decidir.

Eles sabiam que essa viagem podia fazer com que a vida profissional deles desse errado ou que atrasasse tudo, mas eles não passavam um dia sem pensar nos lugares que iam conhecer e em todas as possibilidades que teriam desde que decidiram viajar.

— A gente vai casar.

— Como é Alice? — Marlene gritou.

— Frank me pediu em casamento ontem e a gente já tá pensando nas datas. — Alice explicou. — A gente namora há quase cinco anos e achamos que é a hora.

— E depois nós somos os loucos, Lírio. — James disse a ela.

— Caramba, como é que vocês soltam isso assim? Já tem datas? — Emmeline perguntou.

— Ainda não, mas queremos em agosto. — Frank respondeu. — Espero que vocês estejam aqui. — Se dirigiu a James e Lily.

— A gente dá um jeito.

— Mas, e aí? Vocês vão assumir agora que tão namorando? — Marlene perguntou pro casal não assumido.

— Não recebi nenhum pedido de namoro.

— Se ferrou, James. — Peter gargalhou. — Agora ela tá cobrando um pedido.

— Não tô cobrando, Pete. — Lily revirou os olhos. — Tô expondo um fato. Você já me pediu em namoro, James Potter?

— Ainda não, senhora. Mas… — Se levantou, ficando em pé na cadeira. — Atenção, quero que todo mundo nesse pub presencie esse momento espetacular e que vai ficar marcado na história. Senhorita Lily Evans, mulher mais linda que já vi na vida, inclusive quando tá completamente encharcada pela chuva, a pessoa mais inteligente, curiosa e boa do mundo inteiro, aceitaria namorar comigo, James Potter, esse bobo apaixonado por você?

— James. — Suspirou enquanto levantava e subia na cadeira, da mesma forma que ele estava. — Será um prazer ser sua namorada, Potter.

Em meio aos gritos de comemoração dos desconhecidos do bar e de seus amigos, eles se beijaram com paixão, ainda sobre as cadeiras. James a ajudou a descer, depois de ter feito o mesmo, e eles voltaram a sentar. Passaram a madrugada inteira ali com os amigos, conversando sobre tudo e bebendo o máximo possível, até que fossem expulsos do pub pelo dono.



Veja você, quando é que tudo foi desabar

A gente corre pra se esconder

E se amar, se amar até o fim

Sem saber que o fim já vai chegar

30 junho de 1998

James e Lily estavam jogados na grama do Phoenix Park, na cidade de Dublin na Irlanda. Passava das três da tarde e eles tinham passado horas andando pelas ruas da cidade, entrando nas mais diversas lojas e tirando fotos nos pontos turísticos.

— Lil. — James chamou.

— Hmn. — Respondeu distraída olhando as nuvens.

— Pra onde cê quer ir?

— Não sei, a gente podia andar um pouco. Ou só ficar aqui se fingindo de morto, já que você me fez andar por mil lojas e eu me sinto morta. — Se virou para olhá-lo.

— Meu Deus, como você é dramática, Lily. — Revirou os olhos pro drama da namorada. — Foram só umas cinco lojas.

— Não se faça de sonso, Potter. A gente foi em umas dez lojas, no mínimo. — Acusou, estreitando os olhos. — Eu tô cansada, meus pés doem. — Fez a cara mais sofrida que conseguiu.

— Eu posso te fazer uma ótima massagem assim que a gente chegar na pousada. — Sorriu insinuante pra ela, que ergueu as sobrancelhas analisando a proposta.

— Hmn, parece bom. Mas você vai ter que fazer um ótimo trabalho, amor.

Continuaram deitados ali por mais um tempo, aproveitando a brisa gostosa e a natureza. De repente, Potter levantou.

— Espera aqui, Lírio.

Correu em direção a uma barraca na rua, largando Lily sozinha sem entender nada. Ela deixou para lá, sabendo que logo ele voltaria para explicar, e voltou a focar nas nuvens que observava. Aquela estava sendo uma viagem perfeita. Eles estavam apaixonados, quase como uma lua de mel sem casamento, os lugares eram encantadores, menos as pousadas de qualidade duvidosa que eles tiveram que dormir, mas até isso era incrível. Lily não conseguia se imaginar em um lugar melhor.

James voltou com as mãos para trás, escondendo algo. Sentou ao seu lado, ainda sem revelar o que tinha em mãos, e ficou olhando para ela. Estava admirando como ela ficava ainda mais bonita na luz do sol, os olhos verdes mais claros e os fios ruivos brilhando. O sorriso que ela deu quando viu a forma que ele a olhava brilhou mais que o sol, James tinha certeza.

— O que tem aí atrás? — Perguntou, sentando da mesma forma que ele.

— Lírios para um lírio. — James respondeu mostrando o buquê de lírios laranjas.

— Não acredito que você falou isso. — Gargalhou, aceitando as flores.

— Sabe o que significam? — Lily negou com a cabeça. — Admiração, fascínio, atração, amor. Pelo menos, foi o que o moço que me vendeu falou.

— Eu adorei, Jay. — Puxou duas flores do buquê e entregou a ele. — Para que você saiba que eu sinto o mesmo por você.

— Amo você, Lírio.

— Te amo, Jay.

James aceitou as flores e se inclinou para beijá-la, fazendo com que deitassem na grama de novo. Potter a amava e queria passar o resto da vida ao seu lado, tinha certeza disso. Ficaram daquele mesmo jeito, trocando carinhos e beijos suaves sem se importar que estavam em um parque.

— Olha, James. — Lily chamou de repente, apontando para a esquerda. — São cervos.

— Sério? — Levantou puxando a ruiva junto com ele. — Quando eu era criança era apaixonado por esses bichos. Eu pedi de presente de aniversário de onze anos uma fantasia de cervo. É por isso que os meninos me chamam de Prongs, o Sirius não ia deixar essa piada escapar.

— Claro que não, é o Sirius.

James se aproximou dos dois cervos que estavam mais perto deles. Ergueu a mão, deixando próxima a um deles, como se quisesse que eles cheirassem para o reconhecer. Lily achou aquilo adorável e engraçado na mesma medida. Quando ele parecia ter ganhado a confiança dos animais, se aproximou ainda mais.

— James, o que você vai fazer? — Lily perguntou, prevendo alguma estupidez vindo do namorado. — Cuidado, por favor, não faça nada estúpido demais.

Era óbvio que Evans deveria ter puxado o homem de perto dos bichos antes que ele tentasse algo idiota, mas ela não conseguiu impedir que James se agarrasse a um dos pobres animais, abraçando-o. Durante alguns segundos parecia que nada ia acontecer e que ele tinha gostado do contato. Porém, de repente, o animal se agitou e jogou James do outro lado. Lily gritou assustada e os cervos correram para longe.

— Jay, tá tudo bem? — Se aproximou do namorado. — Você é idiota, James Potter?

— Que cervo chato, como que ele não gosta de abraços? — Levantou, sem nenhum machucado aparente, apenas indignado. — Lírio, como alguém não gosta dos meus abraços?

— Não sei, Jay. Achei que era impossível. — Não conseguiu se impedir de rir dele, que cruzou os braços fazendo birra. — Vamos comer, senhor dono-dos-melhores-abraços.

Saíram abraçados do parque, com um James ainda resmungando sobre os animais e uma Lily gargalhando do surto do namorado.

24 de novembro de 1998

Lily sentia falta de quando estava, cinco meses atrás, passeando de bicicleta pelas ruas de Berlim com James. Agora, tudo que tinha eram milhões de papéis cobrindo a pequena mesa de jantar do apartamento, também pequeno, que ela e o namorado dividiam. Era no centro de Hogsmeade, cinco minutos de distância da escola primária da cidade e quinze da empresa que Potter trabalhava. Aquele apartamento de um quarto, mini banheiro, sala e cozinha era tudo que eles podiam pagar até que as coisas melhorassem.

— Ei, Lil. — Estava tão distraída que só percebeu James quando ele beijou sua cabeça. — Tudo bem, linda? Parece estressada.

— Oi, amor. Tô bem, só várias atividades para corrigir. — Levantou para pegar um copo de água. — Como foi hoje? Tudo certo com aquela reunião que seu chefe queria?

— Tudo certo, a reunião foi… hmn, tranquila. — Ajeitou os óculos pela quinta vez desde que havia chegado. — Vou tomar banho, ok? Depois de jantar, a gente conversa.

Saiu correndo no instante que terminou de falar. Lily tinha certeza de que alguma coisa tinha acontecido nessa reunião, mas ia esperar que ele contasse. Voltou para suas atividades, determinada a acabar logo com aquilo pra poder jantar em paz.

Já estava nas duas últimas quando um enjoo começou a incomodar, daí não demorou a vir a ânsia. Correu pro banheiro, felizmente James tinha o costume de deixar a porta aberta sempre.

— Lily? — James chamou quando ouviu barulhos estranhos. — Lily? Tá tudo bem?

Assustado, James enrolou a toalha na cintura e afastou a cortina do chuveiro, se deparando com a namorada ajoelhada em frente ao vaso. Se apressou em segurar os fios ruivos e acariciar suas costas, enquanto esperava que ela terminasse.

— Meu amor, o que aconteceu? — Ajudou a mulher a levantar, a guiando até o sofá, depois que ela lavou a boca na pia.

— Não sei, devo ter comido alguma coisa que me fez mal. — Se aconchegou nas almofadas. — Deve ter sido um dos lanches que comi no trabalho.

— Tem certeza que é só isso?

— Tenho, tá tudo bem, não precisa se preocupar. — Puxou as folhas que ela ainda não tinha corrigido. — Vai se vestir e jantar, Jay. Eu tô bem.

Meia hora depois, Lily já sem enjoo e James depois de ter jantado, os dois estavam sentados no sofá com a televisão ligada em um canal qualquer. Evans percebeu que James estava inquieto, constantemente mexendo no cabelo, nos óculos ou na almofada em seu colo.

— Ok, James, chega. — Desligou a televisão. — Me diga que droga aconteceu na reunião.

— Ok, então… — Suspirou pela milésima vez. — Meu chefe me fez uma proposta. Muito boa, de verdade. O salário muito melhor, uma posição melhor.

— Que ótimo, meu amor! Isso é incrível, eu tô tão feliz por você. — Se jogou nos braços do Potter, com um sorriso largo, mas percebeu que ele não estava cem por cento contente. — Qual o problema, Jay?

— O emprego é nos Estados Unidos.

— Ah.

Passaram pelo menos cinco minutos em silêncio, Lily absorvendo a informação e James avaliando cada mínima reação dela. Ela não tinha ideia do que fariam, sabia que James queria aceitar, mas sabia que ele estava receoso pela relação deles.

— Você vai aceitar?

— Não sei. — Ele respondeu.

— Você quer aceitar, James?

— É uma ótima oportunidade, Lily.

— Eu sei. — Prendeu os fios ruivos em coque. — Você vai aceitar? Eu só preciso saber isso.

— Eu quero aceitar. Mas tem nós dois. Eu não sei o que fazer, Lily. — Levantou do sofá, começando a andar de um lado pro outro. — Você poderia ir comigo.

— Você sabe que eu não posso.

— Por que? Qual o problema da gente seguir um sonho? Nossos amigos vão continuar aqui, nossa família também. A gente pode sempre vir visitar, o emprego é bom, o dinheiro vai ser bom. — Parou em frente a ela, que já estava de pé.

— Esse é o seu sonho. — Esticou o braço para poder tocar o ombro de Potter. — O meu sonho não é ir pro Estados Unidos, meu sonho é ficar aqui e ensinar em Hogwarts. Você sabe disso, sabe que eu não vou poder fazer isso em outro país.

— Merda, o que a gente vai fazer?

— Não sei, mas não quero ser um empecilho na sua vida, James.

— E eu não quero que a gente se separe! — Exclamou exasperado.

— Eu não vou me mudar, não posso fazer isso.

— Claro que pode! Tem mil universidades boas lá, melhores que a de Hogwarts. Você pode ensinar em qualquer uma delas, não importa qual. Vai realizar seu sonho do mesmo jeito. — Lily tirou a mão do ombro dele, incrédula com o que ele havia acabado de dizer.

— Você sabe porque Hogwarts é importante pra mim, James. Você sabe que é por causa do meu pai que eu quero ensinar. — Sua voz era dura, mas seus olhos expressavam a mágoa. — Você sabe de todas essas merdas e tá descartando o meu sonho como se ele não fosse nada. Como se só você e seu mundinho importasse!

— Você tá separando a gente, Lily! — Agora ambos gritavam, cada vez mais afastados um do outro. — Vamos pro Estados Unidos, a gente vai viver bem lá. Talvez, não sei, a gente volta pra Hogsmeade daqui uns anos e você ensina em Hogwarts. Ou qualquer merda do tipo. A gente pode dar um jeito, é só você aceitar esperar um pouco.

— Não! James, eu não vou aceitar ter que pausar o meu sonho, a merda que eu venho desejando desde que eu era a droga de uma criança.

— Que merda, Lily.

Eles se olhavam, Lily perto do sofá e James encostado no balcão que dividia a sala e a cozinha, cada um com suas mágoas e desejos. Os dois decididos a não ceder, seus próprios sonhos e ambições importantes demais para que fossem jogadas fora.

— Não acho que a gente possa continuar isso. — Lily falou de repente.

— Precisamos de uma solução pra essa briga.

— Não tô falando da briga, James. — Limpou a lágrima que escorreu com o polegar. — Tô falando de nós dois. Não vou ser um empecilho na sua vida e não vou desistir do meu sonho.

— Então estamos acabados. — James disse depois de alguns segundos em silêncio. — Vou pegar minhas coisas.

Depois de ver James catar todas as roupas e objetos pessoais que tinha no apartamento, Lily se jogou no sofá. Mal havia sentado quando voltou a se sentir enjoada. Correu para o banheiro, onde passou grande parte da madrugada, sentada no chão, chorando e se sentindo péssima.

Deixa o moço bater

Que eu cansei da nossa fuga

Já não vejo motivos

Pra um amor de tantas rugas

Não ter o seu lugar