Conversa de Bar
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Espero que gostem.
Mais amizade que amor, mas a vida as vezes precisa de amigos e não de romances.
Boa leitura!
Quando chegamos a uma determinada idade parece que tudo pode desmoronar a qualquer instante. Talvez seja uma sensação que dure para o resto da vida. Porque a ultima vez que tive certeza de alguma coisa eu estava comemorando meus dezoito anos e tinha criado uma expectativa maravilhosa para cada um dos anos seguintes. Os anos vieram e as expectativas estão exatamente as mesmas.
Ela está encostada no balcão do bar, seus ombros caídos, comedo amendoins como se não existisse amanhã e provavelmente no terceiro ou quarto copo de uísque de fogo. Ela acena quando me vê e parece aliviada por eu ter aparecido.
― Noite difícil? – Questiono mesmo sabendo a resposta.
― Semana? Mês? – Ela diz se deitando em cima do braço. – Vida difícil.
Sorrio. Por que quem sou eu para discordar da afirmação, exceto que eu definitivamente estou muito mais perto da coroa de vida brilhante, desperdiçada por escolhas erradas.
― Fala sério? Está falando isso pra mim? – Me sento ao seu lado, peço um copo para mim, tomo o mais rápido possível e peço outro.
Ela me oferece seus amendoins e nós dois ficamos em silencio olhando em volta. Analisando as pessoas que dividem o ambiente conosco. Cada uma delas possivelmente com um problema, talvez comemorando, quem sabe o que as pessoas estão escondendo, afogando em copos de bebidas.
Aponto para a mesa a nossa frente, têm duas mulheres. Elas mão trocam palavras, apenas ficam olhando para frente como se nada importasse. Talvez estivessem cansadas demais para falar ou tristes demais para querer falar.
― O que acha que aconteceu?
― Desilusão. – Ela responde convicta.
― Amorosa ou Pessoal?
― Talvez ambas. – Seu corpo se aproxima do meu. – Não estão quase sempre interligadas?
― E eles? – O grupo de amigos parece se divertir, mas mesmo assim algo parece forçado demais. Intenso demais. Feliz demais.
― Odeiam o trabalho. – Sua voz já está um pouco enrolada. – É a única coisa que possuem em comum. Odeiam o trabalho que escolheram, os chefes, tudo.
― Você continua boa nisso. – Dou risada.
― Ela? – Aponto para a mulher a nossa esquerda. Expressão brava, olhos cansados, sozinha. Ignorando todos em volta.
― Frustrada com as limitações que encontrou no caminho do plano perfeito. – Seus ombros sobem e desce. – Carreira perfeita, casamento ruindo, pouco tempo com o filho. Julgada por ser quem trabalha e não quem abre mão do trabalho para cuidar da família.
Encaro seus olhos, bem vermelhos. Provavelmente efeito de tantos copos de bebida.
― Você conhece todos eles. – Respondo finalmente entendendo.
― Conheço. – Ela joga as mãos para o alto. – Estamos perto do meu trabalho.
― O que está acontecendo, Lily?
― Não sei. – Ela segura minhas mãos. – Eu não tenho amigos, não tenho uma casa, durmo com pessoas que não se lembram que dormiram comigo. Me responde você, o que está acontecendo?
― A vida. É a vida que está acontecendo. E ela não é nada do que pensávamos que seria. – Digo deixando meu otimismo de lado, porque estou cansado demais.
― Não pensávamos. – Ela deita sua cabeça em meu ombro.
Suspiramos juntos.
― Eu sou extraordinária, não sou? Eu deveria ser. Mas olhe só para mim.
― Está falando isso para o maior fracassado da família?
― Hugo, não...
― Espera. – Falo interrompendo sua fala. – Eu passei metade da minha vida apaixonado por alguém que não podia corresponder, tudo bem isso não é uma acusação. Relaxa. Estou tentando achar um lugar para morar porque definitivamente não aguento mais morar no quarto ao lado do dos meus pais. Me casei aos dezenove anos para encobrir todos os meus sentimentos e terminei seis meses depois porque traí minha esposa, isso não é uma acusação, novamente. Sou bom no que faço, mas ainda não tive nenhum reconhecimento. Eu sou o rei das más escolhas. – Tomo um longo gole em minha bebida. – Não ouse tentar roubar isso de mim.
Rimos por um longo tempo. Sei que estamos completamente perdidos. Cansados demais para discutir, ambos exaustos com a vida.
― Tudo bem. – Ela joga os braços para o alto. – Você é o rei.
― Certo.
― Mas, fala sério Hugo! Você teve mais coragem que qualquer um. Casar aos dezenove anos? Lembro o quanto tia Hermione ficou histérica. E depois quando se separou o quanto ela comprou um bolo para comemorar. – Começamos a rir. – E claramente essa garota que não correspondeu seus sentimentos é uma pessoa problemática demais. – Ela pisca. – Você é genial no que faz. Seus desenhos são incríveis. Quando vi aquele que vendeu para o jornal mostrei para todos do trabalho. Todo mundo ficou admirado e emocionado. Então você não é apenas escolhas erradas. Não mesmo.
Ficamos nos olhando perto demais. Suas sardas continuam sendo pontinhos engraçados na ponta do nariz, sua franja brincando em cima dos olhos e os cílios tão laranjas subindo e descendo a cada piscada. Ela ainda é a mesma, mesmo com todas as frustrações da vida.
― Obrigado. – Falo me afastando lentamente.
― Não tem de que. – Lily solta um soluço e depois começa a rir.
― Mas ainda preciso arrumar um lugar para morar.
― Eu durmo no sofá do Albus, sabe o quanto isso é horrível? – Ela questiona. – Sempre tem gente entrando e saindo. Nunca consigo dormir.
― Talvez devêssemos arranjar um lugar. – Falo mais para o universo do que para minha prima, melhor amiga.
― Juntos? – Ela parece esperançosa. – Somos tão bons juntos. Sinto falta do meu melhor amigo. Não tenho com quem conversar. Eles me odeiam. – Lily aponta para todos em volta. – Sinto sua falta.
― Também sinto falta da minha melhor amiga. – Digo dando de ombros. – Realmente somos bons juntos. Uma dupla e tanto.
Ela me abraça aliviada. Ficamos tanto tempo travados, nos comportando como estranhos. Nos afastando com medo de estragar tudo, de novo. Mas antes de qualquer coisa éramos amigos. E nossa amizade sempre foi o melhor entre nós dois.
― Não tenho muito dinheiro.
― Nem eu, mas sou ótima em arranjar coisas de graça. – Seu sorriso bêbado é engraçado. – Hei Hugo?
― O que?
― Você acha que nossa química é péssima? Que isso é o Carma por tudo que fiz você passar, por você ter traído sua ex-esposa?
― Sinceramente? Eu acho que não. Nossa química é ótima. Somos melhores amigos. – Beijo sua testa. – Só temos tempos diferentes. Estamos em momentos diferentes. Só isso.
― Isso significa que quem sabe algum dia...
― No futuro. Quem sabe.
Ela parece satisfeita com a resposta.
― Vamos embora, acho que já bebemos demais. – Seguro em seu braço.
― Você sempre vai ser meu melhor amigo. Sempre Hugo.
Termino a noite com um sorriso. Deixando de lado todas as outras pessoas que também estão perdidas em suas vidas, apenas vivendo dia após dia.
― Você também sempre vai ser minha melhor amiga. Sempre Lily.
Aparatamos em minha casa. Deixo ela em meu quarto enquanto durmo na sala. Sei que quando estamos juntos somos os melhores. Porque somos Hugo e Lily, Lily e Hugo. Dias melhores virão, de alguma forma. E se desmoronar a gente pega os pedaços e começa tudo de novo. Como nos velhos tempos.
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