Convergente II
26 Ele - section I
O dia está se esvaindo, o céu ganha tons alaranjados. Andamos pelos meus cálculos e com a ajuda do mapa de Caleb aproximadamente 510 quilômetros, superando o cálculo inicial de combustível. Nesse exato momento vejo no painel que o ponteiro do tanque de combustível acaba de cair para reserva.
Andamos mais uns 20 quilômetros e a pick up começou a engasgar, o combustível acabou. Paramos de soco, Cara que cochilava com a cabeça encostada no ombro de Caleb acordou no susto.
_ O que foi? — Ela pergunta confusa.
_ O combustível, já era. — Zeke responde.
_ Daqui teremos que seguir a pé. — Complemento.
_ Quantos quilômetros ainda faltam? — Christina quis saber.
_ Não sei,aproximadamente uns 170, Caleb pode conferir aí no seu mapa. — Eu peço num tom de voz mais amigável. A conversa que tivemos teve um efeito surpreendente no nosso relacionamento. Agora eu não o odeio a todo momento.
_ Sim. Deixa eu ver... Até New York são realmente 170 quilômetros mas até base são mais 5, então temos uns 175 quilômetros pela frente. O que nos dá por alto umas 35 horas de caminhada. E contando as pausas que teremos de fazer para descansar, nos alimentar e dormir, calculo que conseguiremos fazer umas 12 a 15 horas por dia, em média uns 3 dias na estrada.
_ De pensar que com combustível estaríamos lá em 2 ou 3 horas... — Christina resmunga.
_ Sugiro que peguemos tudo o que vamos precisar, o inclui água, comida, a lona da pickup pode ser útil também. — Digo enquanto descemos todos da pick up.
_ Como é que vamos carregar tudo isso? Comida enlatada, água, armas é muita coisa e ainda assim caminhar 175 quilômetros.
_ Não temos alternativa! — Zeke responde, um tanto ríspido.
_ Vamos dividir, Zeke e eu somos mais fortes, podemos carregar mais peso. E as mochilas? Todos tem as suas mochilas? — Pergunto.
_ Quatro, as mochilas foram confiscadas lá no Departamento lembra? — Zeke diz.
_ Sim, mas Cara e eu pegamos de volta junto com a comida, a água e o combustível. — Caleb responde.
_ Ai, graças a Deus! Pelo menos uma notícia boa!!!
Decidimos que seria inteligente da nossa parte fazer uma refeição, visto que isso diminuirá o peso então mesmo com quase três dias de caminhada todos optamos por comer uma lata de sopa de feijão ou seja lá o que elas contenham, já a água, optamos por dividir um litro entre todos já que a caminhada é longa, estamos no verão e há um grande risco do exercício forçado provocar nossa desidratação.
Estamos todos sentados no chão como os sem fação. Abrimos as latas de sopa Campbell, feijão e pasmem, tem até lata de ovos mexidos com bacon. As tampas amassadas e torcidas servem como colher e assim como os sem facção todos estamos dividindo, de modo que tenho a oportunidade de experimentar um pouco de tudo. Há algum tempo isso pareceria meio nojento, principalmente para os eruditos, mas agora, quem se importa?! Dividimos a água e o que resta distribuímos nas mochilas, o peso maior fica a meu cargo e ao cargo de Zeke. Todos de pé com as mochilas nas costas, iniciamos a peregrinação.
Caminhamos cerca de 5 horas mas Caleb está exausto, sem condições de continuar. Andamos num ritmo razoável e pela nossa localização no mapa avançamos apenas 25 quilômetros. Resolvemos montar acampamento, e descansar pelo menos umas 4 horas antes de seguir em frente.
_ Que horas são? — Christina pergunta enquanto desaba no chão.
_ Uma hora da madrugada. — Zeke responde após conferir o seu relógio de pulso.
_ Vamos ficar por aqui até as 5, saímos antes do sol nascer. — Digo.
_ Montamos turnos de guarda. Caleb, Cara e Christina podem dormir, Quatro e eu nos revezamos. — Zeke diz.
_ Não estou com sono, posso montar guarda agora. Vocês carregaram mais peso do que todos por todo o caminho e beberam a mesma quantidade de água que nós, que somos bem menores e fizemos um esforço menor. Então podem descansar que fico alerta, se vir qualquer coisa diferente alerto vocês. — Christina diz.
Assinto com a cabeça porque estou exaurido e confio nela, é rápida tem bons reflexos, tenho certeza que dá conta do recado.
_ Tem certeza? — Zeke pergunta.
_ Tenho! Vai descansar, temos um longo caminho pela frente.
_ Ok, mas se vir qualquer coisa nos acorde! — Zeke diz enquanto ajeita a mochila de modo que esta sirva de travesseiro e eu faço o mesmo.
Deitado de lado observo Cara e Caleb, deitados frente a frente conversando. Ele está abatido, visivelmente destruído pelo esforço com o qual não está habituado, ela com certeza está cansada, mas não tanto quanto ele. Sei que ela é pelo menos uns 2 anos mais velha do que ele, mas vejo um entrosamento, um reconhecimento no modo como se olham, como conversam, certamente algo está surgindo ali. Talvez eles não admitam ou não se deem por conta, mas existe um sentimento diferente de amizade nascendo entre os dois. Acho que as pessoas procuram inconsciente alguém com quem possam conversar, alguém em que possam se reconhecer de alguma forma. Aquela história de que opostos se atraem é fogo de palha, não existe um relacionamento estável e duradouro entre pessoas muito diferentes. Acho que nem todo o amor do mundo é capaz de perseverar. Evelyn e Marcus são o melhor exemplo disso. Eles estão sorrindo um pro outro, provavelmente fazendo alguma piada que o resto de nós não compreenderia. Eu fecho meus olhos e deixo o cansaço levar a minha consciência para lugares distantes.
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Não sei por quanto tempo dormi, acordei no susto com o grito de Christina que está de pé com a arma em punho apontada para as pernas de Cara. Mas que diabos está acontecendo?
_Ahhhhhh! Atira! Atira de uma vez! — Cara grita!
_ Anda Christina! Essa besta vai matá-la! — Caleb está aflito.
_ Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! Ela me picou! — Cara grita de dor enquanto o animal crava os dentes na sua canela.
_ O que foi? O que está acontecendo? — Ainda estou confuso.
Zeke se aproxima sorrateiramente saca a arma e acerta a cabeça do que descubro ser uma Cascavel.Por sorte a bala que atravessou a cabeça da cobra não atingiu a perna de cara que está com dois buracos feitos pelos dentes da Cascavel.
_ Preciso de um pedaço de tecido! Não podemos deixar que o veneno se espalhe pela corrente sanguínea dela. — Caleb diz e põe-se a sugar o ferimento de Cara.
Christina rasga a barra da sua camiseta e faz um torniquete logo abaixo do joelho de Cara. Caleb continua sugando a ferida e cuspindo o veneno que consegue sorver. Vejo que Cara está pálida e suando. Temo que o veneno esteja circulando em sua corrente sanguínea.
_ Preciso de água! Água! — Caleb grita e eu que estou me sentindo um inútil por não saber como contribuir, lhe alcanço um litro de água.
_ Isso está quente! Não vai ajudar!
_Cara, fale comigo, como você está se sentindo? — Caleb está aflito, seca o suor do rosto de cara com a própria camiseta que retirou para realizar a tarefa.
_ Dor, muita dor! Mas não se preocupe, ainda tenho umas 12 horas.
_ Não diz isso Cara! — Caleb repreende!
_ Como assim? — Zeke pergunta, ele parece preocupado, mas assim como eu se mantém a distância para não atrapalhar.
Cara lhe lança um meio sorriso e reponde.
_ O veneno de uma Cascavel leva de 12 a 15 horas para matar, antes disso sentirei tonturas, convulsionarei, meus membros ficarão rijos, perderei a consciência e provavelmente expelirei sangue por todos os orifícios. — Cara diz num tom contido e aparentemente calmo e Caleb a olha com os olhos torturados.
Eu reconheço esse olhar...
_ Cara, você fala como se não houvesse chance alguma! — Christina diz.
_ Christina, precisamos ser realistas. Para que eu tivesse alguma chance precisaria de um soro anti-ofídico e estamos no meio do nada, há pelo menos o quê? Umas 25 horas de caminhada de New York. Provavelmente não conseguirei acompanhar seu ritmo de caminhada, isso na melhor das hipóteses, se seu conseguir me levantar. Sério gente, não existe chance. Então, sinto muito. Não se prendam por mim. — Cara diz.
Na minha opinião essa é a atitude mais altruísta que já vista vindo de alguém da Erudição. Sei que não existem mais facções, mas não posso evitar em fazer comparativos, muito menos de nos encaixar nas nossas antigas facções, um velho hábito, difícil de ser corrigido. De fato Cara tem razão, mas eu gosto dela, foi uma amiga solícita a seu modo sempre que precisei, sempre que qualquer um de nós precisou, portanto não vou desistir dela. De forma alguma.
_ Cara, vamos encontrar uma saída. Caleb procure nesse seu mapa se há algum vilarejo, cidade, hospital, seja lá o que for próximo o suficiente para buscarmos ajuda. — Eu digo, de forma resoluta e cara me lança um pequeno sorriso, compadecido pelo meu esforço que vejo em seus olhos, ela acredita ser inútil.
Caleb está com o mapa nas mãos trêmulas, acho que essa é a primeira vez que o vejo perder a postura fria e distante, quando o perigo iminente não está relacionado diretamente com a sua vida. Isso me causa sentimentos dúbios, por um lado sinto náuseas, afinal ele entregou a irmã para a morte e também sinto compaixão porque sei exatamente o que está sentindo. Talvez essa seja a sua forma de redenção.
_ Tem uma cidade aqui no caminho chamada Rochester, há uns 3 quilômetros daqui! — Ele diz e posso sentir a esperança brotando em sua voz, um tipo de esperança que só um homem desesperadamente apaixonado pode ter.
_Certo, Christina, você e eu vamos buscar ajuda nessa cidadezinha. Zeke você monta guarda e Caleb cuide de Cara. E você Cara, não pense que vamos desistir de você assim tão fácil. Fique conosco!
Christina e eu imediatamente pegamos a estrada seguindo as coordenadas de Caleb, ora correndo ora caminhando. Chegamos no que pareceu ser uma cidade em ruínas, em 40 minutos. Tudo está deserto o que antes foi talvez uma aspirante metrópole hoje é um conglomerado de destroços. Mais a diante vejo um campus Duvido que haja vida nesse lugar.
Christina me lança um olhar triste em concordância com os meus pensamentos não ditos. Mas continuamos a peregrinação. No fim de uma longa avenida vemos o que parece ser um campus universitário abandonado. Corremos em direção a University of Rochester, ao nos aproximarmos verificamos que através das vidraças quebradas da antiga construção há movimentação de pessoas.
_ Hey!!! Precisamos de ajuda! — Christina grita conforme nos aproximamos.
Um grupo de pessoas se aglomera junto a janela para ver de onde vem o grito.
_ Quem são vocês? O Que fazem aqui? — Pergunta um deles.
_ Agora já estamos há uns 5 metros de distância. Ofegantes não conseguimos responder de imediato. Me abaixo e ponho as mãos no joelho tentando regularizar a respiração de modo que eu possa ao menos falar.
_ Precisamos de um hospital, uma farmácia ou algum lugar onde possamos encontrar soro anti-ofídico. — Respondo, agora em condições de falar.
O jovem hostil que fez a pergunta cruza os braços e observo que são cobertos de tatuagem, sua postura é tensa, como se estivesse pronto para briga a qualquer momento. Não somos bem vindos aqui, Tão pouco sei se nos ajudarão ou complicarão ainda mais a nossa vida
_ Vocês acham que receberão o procuram, assim, sem nos dar nada em troca? — Ele fala e abre um sorriso de escárnio que faz meu sangue ferver nas veias.
_ Não vim atrás de confusão! Quero apenas um pouco de soro anti-ofídico e vamos embora. — Eu repito desta vez impus gravidade na minha voz, para que ele sinta que não tenho medo algum dele e do seu bando.
_ Você não veio atrás de confusão, mas encontrou! Essa cidade é minha e tudo que tem nela. Obviamente você não sabe com quem está falando. — Ele diz.
_ Não sei e não quero saber! — Estou em posição de ataque quando Christina toca o meu braço e dá alguns passos a frente cautelosamente.
_ Olha, peço desculpas pelo Tobias, estamos sob tensão, uma amiga foi picada por uma cascavel na estrada e está a beira da morte, só gostaríamos de um pouco de soro e vamos embora e nunca mais nos verão por aqui. Não temos intensão de tomar a sua cidade ou algo assim. Precisamos de ajuda. — Os olhos de Christina estão suplicantes o jovem insolente parece pensar em considerar a possibilidade de nos ajudar.
_ Seu amigo é muito rude, mas você foi mais respeitosa. Se puderem responder algumas perguntas, quem sabe eu possa ajudar. — Ele diz.
_ Ótimo, obrigada! O que quiser. — Christina diz.
_Ele pula a janela e outros 3 rapazes o seguem. Agora ele está a poucos centímetros de nós e posso sentir seu olhar inquisitivo me medindo dos pés a cabeça.
_ Essa arma que você carrega aí. Eu quero! — Ele diz enquanto aponta para coldre que carrego embaixo do braço.
Relutante entrego a arma a ele.
_ E você também bonitinha! Vemos poucas dessas por aqui e em vista do que vieram buscar, isso é de fato um preço muito pequeno a pagar. — Ele diz e Christina entrega a arma para ele sem exitar.
_ Meu nome é Sean King. Sou eu quem governa por aqui e vocês como se chamam e de onde são? — Ele fala olhando para Christina, obviamente a elegeu como porta-voz e eu não vou me opor, pois do contrário provavelmente já teria conseguido uma briga das feias.
_ Este é Tobias e eu sou Christina, somos de Chicago, estávamos a caminho de New York.
_ Interessante. Chicago o experimento ainda existe?
_ Sim, mas não somos mais experimento, conseguimos tomar o controle da cidade.
Ele solta uma gargalhada e responde:
_ Tem certeza? Grandes comunidades nunca passam despercebidos aos olhos do Governo.
_ A praga já chegou até vocês? É por isso que estão fugindo para New York? — Sean diz e imediatamente Christina me olha de olhos arregalados com o reconhecimento de que o mesmo entendimento lhe atingiu.
_ Na verdade não estamos fugindo, estamos buscando as causas para que nossos cientistas possam trabalhar na cura. Mas que praga é essa? Se trata do vírus que provoca pane no sistema nervoso central?
_ Sim, pouco a pouco as pessoas vão se transformando em vegetais humanos até que a falência múltipla dos órgãos aniquila de vez com suas vidas. Sim, esta é a praga que dizimou dois terços da minha população.
_ Como conseguiram parar o vírus? — Desta vez eu pergunto e ele desvia os olhos de Christina por um breve momento, mas se volta novamente para ela enquanto responde.
_ Todos os infectados e aqueles que tiveram contato com eles foram incinerados. — Ele responde sem emoção alguma na voz.
_ Queimados vivos? — Christina está chocada.
_ Eram eles ou todos nós. Salvei quem pude. — Ele reponde ainda com aquela frieza na voz.
_ Não cogitaram a possibilidade de buscar uma cura? — Eu pergunto.
_ Sim, pode ter certeza que esgotamos as nossas possibilidades. Por isso amigos, eu lhes digo ir a New York é uma missão suicida.
_ Vamos correr o risco. — Christina soa tão decidida e forte que Sean apenas assente com a cabeça.
_ Há algo mais que possamos esclarecer antes de você nos dar o soro?
_ Sim, há algo que eu gostaria sim. Quando encontrarem com a garota, digam a ela pra acertar as contas com o Presidente, só assim estaremos todos livres. Diga a ela que mate o presidente.
_ Do que você está falando? — Eu digo indignado e não sei ao certo de onde vem essa indignação, pois não estou entendo. Ela quem?
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