Convergente II
20 Ele
Estou ansioso para pegar a estrada em direção a New York. Caleb não teve dificuldades em lidar com a tal bussola enquanto Cara interpretava o mapa também sem maiores dificuldades. Mas apesar de já sabermos onde estamos naquele mapa e para onde vamos, o grupo votou e achou prudente que antes de rumar para New York, passássemos pelo Departamento para colher informações então é pra lá que estamos indo nesse exato momento.
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Chegando no Departamento observo que diferente da última vez em que estive aqui, há uma equipe de segurança junto aos portões. Conforme nos aproximamos ele se reúnem do lado de dentro do portão com as armas em punho. Eu reduzo a velocidade e paro há uns 5 metros de distância, saio da pickup com as mãos para cima numa atitude de paz.
_ Quem são vocês? — O guarda mais baixo e com uma enorme barriga proeminente pergunta.
_ Somos de Chicago, viemos em paz. — Eu respondo enquanto Zeke sai da pickup imitando a minha atitude.
_ O que vocês querem aqui? — O guarda barrigudo continua desconfiado.
_ Queremos conversar com os seus cientistas sobre uma ameça de epidemia. — Digo embora esse não seja o nosso real intuito, mas sinto que revelar a verdade nesse momento não seja de grande ajuda.
_ Desçam todos do carro com as mãos para cima. — O guarda barrigudo ordena e enquanto os demais saem da pickup eu o examino mais detidamente, sua cabeça é redonda os cabelos ralos parecem nascer somente nas laterais, o rosto ostenta um bigode avantajado os olhos negros e estreitos se assemelham aos de um predador. Deve ter por volta dos 50 anos o que me faz pensar que talvez ele não seja a melhor escolha para estar entre os guardas, que deveriam ser jovens e com um bom preparo físico. Então me ocorre que um líder não necessariamente precisará entrar em combate e sim ter voz de comando.
Quando todos já estão com as mãos erguidas o guarda barrigudo que concluo ser o líder resmunga algo para o guarda que está ao seu lado esquerdo e este tira um walkie talkie, do seu cinturão, pressiona um botão e após um ruído uma voz do outro lado da linha diz:
_ Pronto.
Ele passa o Walkie Talkie para o líder, que mantém o botão do aparelho pressionado enquanto fala.
_ Aqui é o Coronel Aniball Baker, quero falar com o Professor Mason Phillips. — Sua voz soa como um comando e não como um pedido.
Em seguida o guarda barrigudo que agora sei que se trata de um Coronel, solta o botão do aparelho e pós um ruindo a voz do outro lado responde:
_ Sim, Coronel Baker, aqui o Mason. Como posso ajudá-lo. — O professor é muito mais cordial do que o Coronel.
_ Tenho uns garotos de Chicago aqui comigo, querendo falar com o senhor sobre uma epidemia.
_ Estão infectados? — O professor quis saber e o Coronel nos lançou um olhar interrogativo.
Eu me apressei em responder:
_ Não, não estamos. As pessoas supostamente doentes estão em quarentena.
O Coronel pressiona o botão novamente e responde.
_ Um dos garotos disse que não estão infectados e os doentes estão sob quarentena.
_ Okay, deixe-os entrar. — O professor diz e fico aliviado, não por ter acesso ao Departamento e estar sob a mira desses guardas, mas por poder enfim abaixar meus braços que estão dormentes. Ouço suspiros de alívio ao meu redor e tenho certeza que todos no grupo partilham do mesmo sentimento.
_ O professor Mason vai receber vocês. — O Coronel informa a medida que os portões são abertos por algum mecanismo além da força humana.
_ Soldado Christopher e Soldado Anthony conduzam-os ao laboratório do professor Mason Phillipis. — O Coronel ordena e percebo o quanto preza a formalidade ao referir-se ao professor pelo nome e sobrenome.
Os soldados, que pensei se tratarem apenas de guardas, o que na verdade é uma diferença muito importante já que soldados geralmente estão preparados para lutar em guerras. Nos conduzem pelo Departamento que exceto pela segurança, parece igual, os mesmos papéis de parede gastos, o mesmo carpete pruído...
O laboratório do professor Mason fica exatamente onde um dia fora o de David, o que me causa arrepios já que sei que foi aqui que ela foi morta. Estou parado junto a porta, os demais estão atrás de mim. O professor me encara em expectativa. Estou paralisado, minhas mãos estão formigando, o desespero saiu rastejando de algum lugar obscuro dentro de mim e está caminhando para superfície.
Zake me empurra para o lado e toma a dianteira, sei que ele me conhece bem o bastante para imaginar que eu estava prestes a surtar.
_ Professor Mason, eu me chamo Zeke, estes são Tobias, Caleb, Cara, Christina e Nita. Estamos aqui para conversar sobre um vírus que o Gov...-Ele não conclui a frase pois foi subitamente interrompido por Cara. Ou ela teme que ele possa revelar demais, ou que não saiba expressar direito.
_ Algumas pessoas buscaram socorro na nossa cidade, aparentemente doentes, infectadas por um vírus desconhecido por nós. Gostaríamos de saber se o senhor tem alguma informação que possa ser de ajuda para nossos cientistas. — Cara fala e percebo que realmente estava temendo que Zeke revelasse demais afinal com todos estes guardas por aí, obviamente eles devem ter uma ligação direta com o Governo, portanto começo a me questionar se vir aqui foi realmente uma decisão sensata.
_ Bem, não quero ser grosseiro, então entrem e acomodem-se. — O professor fala enquanto indica duas cadeiras em frente a sua mesa e um sofá de 2 lugares atrás das cadeiras, encostado na parede.
O local é completamente estéril sem qualquer característica que aponte ou nos dê uma pista sobre a personalidade do professor. Pensar sobre essas coisas me distrai de modo que não fico tentando a todo momento imaginar Tris caída ensanguentada e sem vida em todos os cantos para os quais eu olho.
Depois de alguma hesitação Cara e Caleb sentam-se nas cabeiras em frente a mesa do professor, onde este permanece sentando foleando distraidamente o que parece ser um caderno de anotações. Enquanto o resto de nós se espreme no pequeno sofá.
Reparo que ele tem a pele clara, cabelos castanhos claro bem aparados, olhos azuis, a barba por fazer não combina com o cabelo bem penteado, o maxilar proeminando dando ao rosto um aspecto quadrado. Os lábios são finos e o nariz é fino e comprido. Definitivamente não bate com a descrição que Nita fez do homem que esteve com Tris nos seus últimos momentos.
Ele levanta os olhos e examina cada um nós de forma minuciosa e curiosa.
_ Então falem mais a respeito dos sintomas dos infectados. — Por fim Mason diz.
_Na verdade, até onde sabemos não é nada parecido com o que já tenhamos visto. O vírus age no sistema nervoso central deteriorando todas as funções do corpo humano os sentidos, os músculos até que o doente se torne um vegetal, feito isso ele parte para os órgãos vitais e vai provocando falência um a um, até que o óbito é declarado. — Caleb explica e fico aliviado por ele não ter mencionado o fato de termos descoberto que o vírus é sintético e foi disseminado pelo governo.
_Qual o tempo exato de deterioração até o óbito? — O professor Maison pergunta.
_ Não sabemos ao certo, partimos antes de que alguém de fato morresse em decorrência do vírus, mas os médicos que estão acompanhando os casos estimam pelo seu grau de evolução observado até aquele momento de o processo de deterioração ao óbito dure em média 40 dias. — Cara responde.
_ Trouxeram com vocês amostra de tecido? — Maison quis saber.
_Não, infelizmente não fomos autorizados a colher amostras de tecido devido ao alto grau de contágio. — Caleb responde.
_ Então, sinto dizer que não há como ajudá-los. — Maison conclui enquanto examina nossos rostos um a um.
_Quer dizer que você não teve notícias de nada assim nos últimos tempos? — Christina pergunta.
_ Não. Não enfrentamos problemas com vírus há décadas. Sinto muito, mas não tenho como ajudá-los.
Já estou me levantando para me dirigir até a porta quando o professor chama a minha atenção:
_ Ei, onde você vai?
_ Você não tem as respostas de que precisamos então lhe agradecemos mas temos de ir.
Nesse momento estão todos de pé e na defensiva, me ocorre que talvez não sairemos daqui tão facilmente se eles resolverem impor alguma resistência, já que nossas armas estão na pickup e somos minoria.
_ Me parece justo, mas serão escoltados pelos nossos soldados até a sua cidade. Só por precaução. As estradas não são seguras, afinal os Rebeldes estão há solta. — O professor Maison tenta justificar a escolta, mas sei que o real motivo é certificar-se de que não sairemos em busca de respostas.
Todos estão com olhares desconfiados e me olham em expectativa, prontos para espelhar a minha reação. Agora sei que o momento requer muito mais do que força física e habilidade de combate.
_ Tudo bem! Agradecemos a preocupação e ficaremos mais tranquilos em aceitar a sua oferta.
O professor Maison esboça um pequeno sorriso de contentamento enquanto abre uma gaveta de sua mesa e retira um walkie talkie.
_ Coronel Baker, os garotos já estão prontos para ir, portanto peço que destine alguns soldados para a sua escolta até Chicago.
O ruído do aparelho indica que o Coronel Aniball Baker está prestes a responder.
_ Sim, os soldados permanecem na sua porta. Pode liberá-los.
Mason desliga o Walkie Talkie e o guarda na gaveta novamente, passa por nós dirigindo-se à porta. Ele segura a maçaneta, olha em nossa direção e diz:
_ Foi um prazer conhecê-los, desejo sorte a vocês.
Enquanto ele pronuncia sua despedida concluo que sairemos daqui de mãos vazias, sem qualquer informação adicional, mas perguntas neste momento poderão nos complicar ainda mais.
_ Obrigado professor Maison. — Digo enquanto ele abre a porta para que possamos ser escoltados de volta a Chicago, todos acenam com a cabeça ao atravessar o batente.
Os guardas, ou melhor, os soldados que nos trouxeram até aqui estão nos esperando no corredor.
Percorremos o mesmo caminho que nos levou ao antigo laboratório de David. Tento afastar as lembranças buscando alternativas para driblar a escolta. Conheço muito bem este departamento e Nita ainda mais, de modo que teríamos alguma chance de fugir agora, mas não sem sacrificar alguns de nós. De modo que decido que a melhor alternativa ainda será sair daqui, ao ar livre teremos mais chances.
Todos permanecem em silêncio enquanto nos dirigimos aos portões do Departamento. Vejo que há dois jipes com 5 soldados dentro, prontos para partir, esta deve ser nossa escolta, 10 contra 6. Sendo que destes apenas 3 são experientes em combate, logo não será tão simples assim atacar e fugir, teremos de proteger os demais. Que legal nos metemos numa fria... O sarcasmo implícito nesse pensamento amargo.
Os dois guardas nos levam até a Pickup, eles abrem as portas revistam os assentos e recolhem todas as armas que encontram. Um deles vai até a carroceria e descarrega todos os suprimentos que reunimos, água, comida desidratada, munição, facas e mais armas.
_ Vocês não podem! -Zeke diz enquanto faz menção de impedi-los, mas eu o seguro pelo braço, não é prudente inflamar uma briga aqui. Não teremos chance alguma. Felizmente ele se deixa deter.
_ Não se preocupem, quando estiverem em Chicago do lado de dentro da cerca devolveremos os suprimentos. Mas as armas serão confiscadas a não ser que haja entre vocês algum policial com credencial e porte de armas. — Um dos soldados diz.
_ Eu sou policial! — Zeke diz.
_ Posso ver suas credenciais? O Soldado exige.
Zeke tateia os bolsos e encontra a carteira, ele a abre, revira e não encontra nada.
_ Foi o que pesei. — O outro soldado murmura.
_ Sem credenciais, sem armas — Sentencia o soldado.
_ Agora entre no carro! — O Coronel Baker grita através do portão.
Obedecemos, pois é o mais sensato a fazer. Um dos jipes se posiciona a nossa frente e o outro segue atrás. Não há nenhum soldado na pickup conosco de modo que podemos discutir uma estratégia.
_ Eu acho que devemos ir até Chicago, cruzar a cerca, esperar que eles desapareçam e depois retomamos o nosso caminho. — Caleb diz e eu me surpreendo com tamanha inocência da parte dele.
_ Ouça, é muito provável que nem sequer chegaremos a Chicago, o meu palpite é que acabarão conosco assim que estivermos há uma distância segura onde não possamos ser vistos ou ouvidos por ninguém. — Nita dirige-se a Caleb.
_ Ela tem razão. — Christina fala como se as palavras tivessem gosto de fel.
_ Então qual é o plano? — Cara quis saber.
Todos ficamos em silêncio, porque de fato não temos um plano.
Sigo dirigindo entre os dois jipes, até que uma ideia me ocorre...
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