Convergencial
1 Prólogo
Notas iniciais
Qualquer que seja o universo, certas coisas permanecem sempre iguais. Pequenas coisas normalmente sem importância, mas que têm um grande peso sobre as vidas de pessoas solitárias. A boa recompensa de um sorvete ao fim de um dia cansativo. A mágica de saber o que um amigo vai dizer um instante antes dele abrir a boca. A euforia de um grupo que, finalmente, aprende o poder oculto em seu número.
Aquela sensação incômoda, que só surge em momentos de solidão, a sensação de que estamos sendo observados.
Ísis estava acostumada, já tinha aprendido a ignorar a sensação que raramente a abandonava. O tempo era capaz de insensibilizar as pessoas para as coisas mais estranhas. Como estar sozinha em uma sala escura e saber que, ainda assim, era o centro das atenções de alguém, por exemplo.
Durante o dia inteiro, a tatuadora continuou com seu trabalho. Não tinha tantos clientes assim naquele dia, o que era lamentável, considerando que o dinheiro não ia muito bem nos últimos meses. Mas o parco movimento lhe fez notar algo estranho. Wellington, seu auxiliar no estúdio, estava reorganizando os horários do dia seguinte quando fechou as persianas ao seu lado. O gesto imotivado, que nem ele pareceu notar, fez um vinco de estranhamento surgir entre as sobrancelhas de Ísis. Pressentimentos são mais comuns do que a maioria das pessoas imaginam, e tanto magos quanto mundanos os têm, pois não passam de percepções instintivas demais para se compreender. Se perguntasse a ele a razão de ter fechado as persianas, ele não saberia dizer o porquê. No máximo admitiria, em tom de brincadeira, que ele não pensa sobre cada coisa que faz.
Mas para Ísis, gestos assim tinham significado. Indicava que ele também tinha a mesma sensação de estar sendo observado. Isso era um problema. Podia lidar com suas pendências enquanto elas ainda estavam dentro da sua cabeça, mas, fora dela, o mundo era muito grande e volátil para saber com quem estava lidando.
A última tatuagem do dia era em um jovem rapaz que trabalhava como salva-vidas. O desenho era intrincado, sendo essa a última sessão de três. Quanto mais forte a tatuagem, mas complexa ela era, e Ísis amava ver os desenhos tomando forma conforme avançava o trabalho. Finalmente tinha terminado. Nas costas do rapaz, o desenho estilizado dos pulmões se moveu uma, duas, três vezes antes de parar.
— Quer testar?
O rapaz assentiu, pegando um cronômetro, e prendeu a respiração. Foi um momento de silêncio enquanto observavam o contador se mover. Em certo momento, a tatuagem voltou a se mover, silenciosa, mas fazendo seu trabalho. Por fim, o rapaz soltou o ar e riu, constatando que Ísis tinha triplicado o tempo que conseguia manter em apneia. Ele agradeceu, aliviado. Tinha passado por um episódio de risco uns meses atrás, em que quase morrera, e era bom saber que não aconteceria de novo tão cedo.
Ísis não reagiu com a mesma animação, apenas se despediu de forma mecânica, ainda distraída. Pouco depois, Wellington também se despediu.
— Cuidado — falou, mesmo que não estivesse realmente preocupada com ele.
Ísis ainda ignorou a sensação por alguns minutos, mas quando ela se tornou mais palpável, olhou para fora pelas vitrines. Só havia uma pessoa no ponto de ônibus do outro lado da rua, um jovem mundano com uma mochila pesada e uma postura dominada pelo cansaço, o que não lhe passava a impressão de ser um espreitador. No reflexo da vitrine, Kamyaz apareceu em seu ombro, a pequena tatuagem de dragão inclinou a cabeça, como se também estranhasse alguma coisa. Kamyaz muitas vezes sentia sua inquietação, ou ela acreditava que sim, já que havia se apegado ao desenho vivo em sua pele ao ponto de lhe dar um nome. Ísis desceu as outras persianas, ocultando todo o interior do estúdio de quem quer que estivesse lá fora. Era uma pessoa cautelosa, mas não paranoica. Porém, agora que o ambiente estava vazio, e as máquinas, desligadas, o silêncio deixava um vácuo no estúdio, geralmente cheio e barulhento, e a mente tem a tendência de preencher vácuos com suas próprias ilusões.
Soltou o denso cabelo negro que deixara preso o dia inteiro e abandonou os sapatos para andar descalça sobre o carpete preto enquanto organizava os materiais para o dia seguinte. Havia uma vantagem em morar no andar de cima do estúdio. Dependendo da hora, seu local de trabalho era também a sua casa. Ligou o rádio para espantar o silêncio. Kamyaz estava no dorso de sua mão agora, com a cauda enrolada afetuosamente em seu polegar. Já o tinha há anos, mas ainda deixava um sorriso escapar nesses momentos. O dragãozinho era bastante fofo. Mas ele ainda parecia inquieto. As músicas passavam de forma apática, quase sem interrupções do radialista, como era comum após a meia noite.
Meia noite?
Ísis voltou à vitrine e abriu uma fresta na persiana. O rapaz ainda estava lá, esperando inutilmente o ônibus. Ou fingindo esperar. O último ônibus havia passado vinte minutos atrás, apenas o Perpétuo, o trem flutuante sem maquinista, continuava ativo, a 30 metros de altura, mas sua rota não passava por ali. O rapaz também não parecia o mesmo, sem nenhuma sombra de cansaço sobre ele, apenas um olhar atento em algo…
Ísis recuou até bater com as costas no balcão. Depois se repreendeu por se assustar tão facilmente. Podia não ser uma grande maga, mas ainda era capaz de se defender. Desligou o rádio com um aceno de mão. Um ruído estranho e sutil continuou, vindo do andar de cima, seguido pelo deslizar de uma janela. Alguém tinha invadido sua casa. Mundanos, com certeza. Magos não se esgueiram pelas sombras, eles entram pela porta da frente, derrubando o que estiver em seu caminho.
Subitamente, os orbes luminosos que flutuavam no centro da sala caíram inertes, apagados, mergulhando o lugar no escuro. Passos pesados desciam as escadas devagar, como se ainda tentassem não ser percebidos, acompanhados de um ruído que todo mago reconhecia: eletricidade.
Se Ísis tinha algum princípio arrogante de maga, abriu mão naquela hora. Talvez pudesse se defender, mas para que arriscar? Correu para os fundos do estúdio, pois não queria sair pela entrada vigiada. Os passos correram também, e o estalo de energia iluminou brevemente a sala com uma luz azul pálida. Ísis tocou a porta na saída, selando-a com magia, mas sabia que não iria prendê-los por muito tempo. Já estava pulando o muro dos fundos quando ouviu vidro se quebrando e gritos em sua direção. Será que algum dos vizinhos chamaria a polícia?
Entre correr pela rua escura e olhar para trás para ver se ainda a seguiam, Ísis não percebeu o homem que se aproximou pelo cruzamento até que estivesse do seu lado. Ela ainda conseguiu desviar por reflexo do bastão elétrico que ele segurava, mas ele esperava pelo movimento e lhe acertou um chute na lateral do joelho, derrubando-a no asfalto. Ísis recuou do chute seguinte ainda no chão, sentindo as mãos tremerem contra o asfalto frio e áspero.
— Eu não tenho dinheiro... — falou, porque não sabia o que mais aqueles mundanos poderiam querer com mágicos de rua como ela. O meio sorriso do agressor, porém, foi um bom sinal de que aquilo não era um assalto.
Ísis buscou dentro de si o bastante de sua magia para cegar o oponente temporariamente, mas isso já era um pouco além do que deveria buscar naqueles dias. Foi o suficiente para afastar o homem — o vigia de antes, ela soube, que deveria ter percebido sua fuga antes dos invasores — pelo tempo que precisava para se levantar e voltar a correr, mas ele não ficou muito atrás. Ela estava descalça no asfalto e sua perna reclamava do esforço logo após ser atingida, mas permanecia na esperança vã de escapar.
Ísis ouviu o estalo de energia antes de senti-la percorrer seu corpo, tomando o controle de seus movimentos por um instante de intensa agonia, e, pior, cortando sua relação com a magia. Não que estivesse servindo de muita coisa no momento, mas nenhum mago se sentia confortável sem ela. Ísis caiu no chão, arfando. O homem se aproximou calmamente, com a convicção de ter vencido aquela caçada.
— Aqui — falou com alguém que Ísis não viu. Ainda não tinha se recuperado o bastante do primeiro choque para sequer tentar se levantar, mas o homem afastou os cabelos dela do rosto e disse: — Não é pessoal. Só prefiro garantir que não nos causará problemas.
Novamente, o pavor da eletricidade veio antes de senti-la. Mas, dessa vez, Ísis não pôde tentar fugir. A madrugada escureceu ainda mais, o chão não estava mais sob ela, e as vozes eram tão indistinguíveis quanto o vento. Com a impressão de que estava sendo carregada, Ísis perdeu a luta contra o próprio corpo, e, com a derrota, a consciência a abandonou.
Notas finais
Todas as informações de worldbuilding e modelo de ficha estão no blog: https://convergencial.tumblr.com/
A senha do blog: kamyaz
Da forma que eu espero que funcione, a história será dividida em 3 partes/arcos em sequência. Dependendo do arco anterior, é possível que novas vagas sejam abertas no início dos próximos, mas acredito que não será necessário.
Ainda aceito fichas. Já tenho 3 personagens de leitores e 2 próprios, então caso não receba nenhuma ficha nova, a história já pode começar de boa.
É isso, espero que aproveitem!
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