Convergencial

7 A Primeira Injustiça


Lygia não precisava se equilibrar em cima do Perpétuo. Estava bem na borda do último vagão, os calcanhares ameaçadoramente próximos do vazio atrás de dela. Subir ali tinha sido fácil. Quando um dos vagões desceu para buscar novos passageiros, ela tomou impulso na parede de metal com movimentos ligeiros e impulsivos, sem nem precisar dos braços para se apoiar. Quando o vagão subiu e voltou a fazer parte do trem, Lygia permaneceu graciosamente de pé, alheia à velocidade em que estavam. Se a inércia tivesse algum poder ali, ela não teria aguentado um minuto sem se agarrar em algo para evitar ser jogada para trás. Mas Lygia poderia muito bem estar com os pés firmes no chão. As roupas e os cabelos também imóveis, calmos, sugeriam que mesmo aquele vento violento preferiria desviar seu caminho do que medir forças com ela.

Lygia abriu os braços e sorriu para a visão estonteante do Centro Histórico da cidade sob ela. Era tão bela quanto se lembrava, fazendo jus ao nome que tinha.

Sagrada.

Ela gostava da sensação da palavra na boca. Suas sílabas cadenciadas a lembravam de uma corredeira, tinha movimento, era como ela. Cada sílaba tornava a seguinte mais atrativa, bastava apenas começar a palavra para desejar compulsoriamente terminá-la. Tudo era por Monte Luzeiro, mas também era um pouco por Sagrada. Achava absurdo que Sagrada não fosse mais a capital do país, quando era a única cidade verdadeira. Uma cidade como aquela, onde o Omnioculto era mais presente, jamais deveria ficar em segundo plano. Quem se importava com a Capital Distante?

Mas isso não tinha nada a ver com seu objetivo imediato. A usurpação do antigo prestígio era apenas a segunda injustiça cometida contra Sagrada. Ela estava ali para corrigir a primeira.

Lygia correu por toda a extensão do Perpétuo, saltando com facilidade pelos vãos entre os vagões e pelo espaço deixado pelos que desciam para a terra. Chegando na frente, não hesitou em saltar e descer deslizando, com uma das mãos no vidro, até parar no centro do campo de visão do maquinista e os dois auxiliares, apoiando-se de forma impossível na superfície ereta. Os três se levantaram alarmados, sem saber como reagir. Um deles pegou um rádio comunicador, ainda atento a ela, mas quando o aproximou do rosto para falar, Lygia fez um gesto com a mão. Eles recuaram, apreensivos, já tinham deduzido que era uma maga. Mas com a mão em punho, a mesma que usava para se "apoiar" no vidro, Lygia apenas ergueu o indicador e fez um sinal para ele: Não.

Satisfeita com os olhares confusos e atemorizados, Lygia sorriu com educação, como se tivesse acabado de se apresentar. Mas logo o fato dela não tê-los atacado ainda aliviara a hesitação. O auxiliar contatou a segurança e a central de controle de atividade. O maquinista ouviu um som baixo. Lygia estava batucando sobre o vidro com a unha para chamar a atenção deles, mas os outros não notaram. Ela apontou com urgência para o mesmo ponto no vidro e, apreensivo, o maquinista se aproximou para olhar.

— Tem uma mulher no exterior do trem... — ouviu o auxiliar informar pelo rádio, narrando tudo o que achava relevante e pedindo para a segurança mandar alguém logo.

Lygia tocou levemente com a ponta do dedo o lugar em que ele deveria prestar atenção, e afastou a mão. O vidro trincou espontaneamente, grossas rachaduras esbranquiçadas se espalharam a partir dali em um emaranhado irregular semelhante a uma teia de aranha. Foi o bastante para chamar a atenção dos outros dois. Prevendo o que aconteceria, os três saíram correndo para os vagões de transporte, antes que os cacos de vidro preenchessem a cabine.

Lygia permaneceu no lugar e nenhum estilhaço de vidro a acertou.

.

— Sente-se, fique à vontade — disse o Magister Erasmo ao entrar em uma das salas no andar superior ao auditório. Ao ver que Eleonora continuava de pé, ele deu de ombros: — Ou fique aí me encarando desconfiada, o que preferir.

Eleonora não parecia desconfiada, o que, para o Magister, era um bom sinal de que ela estava. Ninguém recebia uma ameaça dos Sânticos seguida de outro bilhete tão enigmático quanto o anterior e ficava tão calmo. Ao menos, não um amador na arte da dissimulação. A neutralidade que enxergava na “florista” só podia ser resultado de muita prática.

— Por que está me observando? — Ela perguntou, ainda de pé, estudando rapidamente o ambiente ao redor. Parecia ser um escritório temporário, então ela supôs que o Magister não era só um palestrante, mas o próprio organizador do congresso. Temporário, porém com um esforço mínimo para torná-lo único, ela percebeu, pois os carpetes pretos e cortinas pesadas não casavam com a decoração art nouveau padrão do lado de fora da porta.

— Não estou — disse, sentando-se à mesa, nem um pouco incomodado com o fato dela ainda estar de pé em frente à porta. — As pessoas que estou observando é que começaram a observar você.

— Os Sânticos. — Ele assentiu com um ar de professor orgulhoso. — Eu já sabia disso, então por que estou aqui?

— Tenho certeza que a senhorita também sabe o que acontece com quem chama a atenção dos Sânticos por se aliar ao Levante. Eu esperava que pudesse me pôr em contato com seus respeitáveis clientes, em troca...

— Suas informações são imprecisas — ela cortou. — Não sou aliada do Levante. São apenas negócios.

— Os Sânticos não diferenciam, então posso ter sido induzido ao erro. Ainda assim, seria de imensa ajuda se puder arranjar uma conversa para mim.

Eleonora cruzou os braços e apoiou as costas na porta fechada.

— Por que quer falar com o Levante? Eles não apreciam muito pessoas como você.

— Estranha escolha de palavras. Não quis dizer “como nós”? Trabalhar em uma floricultura não faz você parecer menos maga. E, veja só, eles parecem tolerá-la bastante bem. Tenho informações que eles gostariam de saber, então sei que eles acharão nossa conversa bem vantajosa.

— Se você têm informações sobre os Sânticos, vá direto à polícia.

Ele se recostou na cadeira, novamente com um ar de professor, mas, agora, decepcionado. O sol de abalone no broche em seu peito, o único detalhe fora das roupas pretas, refletiu a pouca luz da sala com o movimento. Eleonora conhecia o design daquele broche.

— Eu não lhe tomei por uma pessoa ingênua, senhorita Eleonora. Alguém como você deve saber tão bem quanto eu que os Sânticos também estão na polícia.

— E esse é o único motivo? Não tem nada a ver com usar magia umbrática para espionar pessoas ser um dos mais altos crimes? — comentou com certo descaso, lançando mais um olhar pelo escritório. — Bem surpreendente, vindo de alguém que minutos atrás estava discursando sobre os limites éticos da magia.

Ele franziu a testa apenas por um instante, mas logo sorriu. Ela era preparada. Nem todo mundo sabia reconhecer sinais de magos umbráticos. Erasmo se levantou e, calmamente, foi em direção às janelas e abriu as cortinas, deixando a luz do meio dia inundar o ambiente. Apesar do chão escuro, a luz intensa foi suficiente para Eleonora notar que o Magister não tinha sombra.

Como ela imaginara. Magos umbráticos sempre tentam disfarçar a ausência de suas sombras, seus servos mais fiéis.

— Cada resposta sua é dita na defensiva, mas apenas prova que estamos em posições parecidas. — Eleonora ergueu o rosto, ainda impassível. O Magister não estava acostumado a lidar com pessoas cujas expressões não conseguia ler. — Por isso peço sua ajuda. Isso será importante, talvez a coisa mais importante que esta cidade já viu.

— Eu disse que não sou aliada do Levante. Fizemos negócios, não quer dizer que estou do lado deles.

O Magister se inclinou, apoiando o cotovelo em um joelho e sorriu. Dinheiro é sempre mais fácil de manipular do que convicções.

— E se fizermos negócios também?

— Eu não tenho como contatar o Levante, são sempre eles quem fazem contato e não planejo ficar na cidade, não com os Sânticos me vigiando, e, sinceramente, não vi muita utilidade nisso aqui — ela gesticulou para indicar a conversa que estavam tendo. Mas em vez de negar, ela inclinou a cabeça, pensativa, o olhar pairando rapidamente sobre o broche. — Para valer a pena para mim, eu teria de deixá-lo pobre.

— Tente — disse ele, empurrando um papel e caneta na direção dela.

Pela primeira vez, Eleonora deixou seu lugar perto da porta e pegou a caneta, escrevendo decisivamente um número maior que seu documento de identidade.

— Eu ainda não vou ficar na cidade. Mas posso garantir que eles venham até você quando tentarem me procurar.

— Agradeço, senhorita Eleonora. — Erasmo pegou o papel, visivelmente realizado por ter conseguido o acordo e sem nem uma ruga de preocupação pela quantia, o que fez Eleonora pensar que deveria ter sido mais ambiciosa. — Mas tenho motivos para acreditar que não será fácil sair da cidade.

A forma como ele falou, com o tom sentido e ominoso, fez Eleonora pensar que não era apenas uma intuição ou presunção. Ele sabia de algo. Pela primeira vez naquela conversa, o Magister também conseguiu ver algo em Eleonora. Apreensão.

Ela deu as costas sem dizer nada e apressou seu caminho escada abaixo, seguida de longe por um Erasmo calmo que esperava poder aproveitar o resto da palestra de seus colegas para considerar o dia um completo sucesso. Mas ela tinha suas duas malas prontas lhe esperando em casa, seja lá o que fosse acontecer, ela já estaria longe.

Ao pisar fora do prédio, ela ouviu gritos, pessoas apavoradas pela rua olhavam para cima, enquanto o Perpétuo em chamas riscava o céu em direção ao leste da cidade, onde os vagões caíram com um estrondo que reverberou pelo corpo dos presentes como ondas sísmicas em um terremoto.

Nos prédios, os moradores se inclinavam para fora, tentando ver o que tinha acontecido, e os ouvintes e organizadores da palestra deixavam o Espaço Ágora assustados. Burburinhos se espalhavam das testemunhas para os recém-chegados, que ouviam, descrentes e céticos, sobre a queda do Perpétuo.

— Isso é bem mais do que eu esperava... — Eleonora ouviu a voz de Erasmo atrás dela, mas não conseguiu desviar a atenção das colunas de fumaça que escureciam o céu.

— Foram eles? — perguntou baixo, sem querer atrair atenção e pânico citando o nome dos Sânticos.

Ele confirmou. Eram essas pessoas que a vigiavam, desagradadas por seus negócios com mundanos. Eleonora estava na mira de pessoas que conseguiram derrubar o Trem Eterno do céu.

Era melhor valer muito a pena.

— É, Magister… Meu preço acabou de subir.

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Quando o estrondo arrebentou sua vidraça, Anália pôde ouvir os gritos na rua, mas da posição de seu apartamento, não conseguia ver o que tinha acontecido. Só soube que algumas pessoas estavam feridas.

— Thiago, vem comigo! — Eles correram para fora em direção ao elevador. Ela apertou dois botões, o térreo e o terceiro andar. Uma das vantagens de morar no mesmo prédio que um colega: ela sempre teria reforço. — Vá chamar Tomás, diga que estou lá fora. Depois fique com seu irmão.

Ao sair do prédio, Anália viu o que deveria ser um inferno e seus penitentes. Destroços metálicos espalhados pela rua e casas arruinadas com a força do impacto. Corpos carbonizados, esmagados sob o que pareciam ser vagões do Perpétuo. Pessoas gritando e chorando, tentando se afastar da área do acidente. Era coisa demais acontecendo, mas Anália decidiu focar em afastá-los dos detritos. Correu até a pessoa mais próxima, um rapaz com metade do rosto vermelho de sangue que mancava sem direção.

Tomás já devia estar saindo antes de Thiago ir chamá-lo, porque chegou logo em seguida. Ele podia muito bem ser confundido com um dos passageiros, com o olhar atônito e desorientado, apenas olhando ao redor cobrindo a boca com uma das mãos.

— Isso é insano... — murmurou.

— Me ajuda aqui — Anália resmungou, tentando levantar a lateral de uma placa de metal para tirar uma mulher que estava presa. Tomás ainda demorou a entender, os olhos marejados por trás dos óculos, mas Anália também nunca tinha visto uma tragédia dessa magnitude e nem por isso estava paralisada como ele. — Tomás, dá pra você começar a se mexer?!

Ele despertou, indo logo ajudá-la. Os bombeiros já haviam sido acionados e o Hospital Metropolitano mandara suas ambulâncias e magos curandeiros, mas a queda do Perpétuo havia bloqueado as avenidas.

E ali, no meio do caos, uma mulher caminhou devagar até o topo de um vagão e pigarreou para chamar atenção. Ela segurava o braço como se estivesse machucada, mas tinha um sorriso eufórico que mostrava não se importar.

— Com licença. Sei que estão um pouco ocupados. Eu peço desculpas, sou a culpada por isso.

Com toda a confusão, ninguém deu muita bola para ela de início, mas ela esperou pacientemente.

— Quem é a maluca? — Anália ouviu alguém perguntar. Com a maioria dos sobreviventes fora de risco imediato, algumas pessoas notaram a mulher sobre um palco feito de destroços.

— Meu nome é Lygia Soriano e eu sou a líder dos Sânticos.

Primeiro, o silêncio. Estático, atônito. Depois, o despertar de uma onda de murmúrios se espalhou, a maioria descrentes, alguns atemorizados e outros irritados. Um xingamento abafado na multidão fez com que a mulher, Lygia, levasse o indicador aos lábios com uma falsa expressão de seriedade. Anália desceu a mão para a lateral do corpo, mas não estava em serviço e a arma estava no apartamento.

Lygia esperou os murmúrios diminuírem com um sorriso elegante no rosto, como um mestre de cerimônias no centro de um salão de festa.

— Então vocês já sabem sobre nós. Ótimo. Deixem-me explicar o que está acontecendo. A cidade de Sagrada e tudo dentro dela, incluindo vocês, pertence aos Sânticos agora.

— O que está dizendo?!

— Isso foi um ataque sântico?

— Vocês são terroristas!

Os gritos revoltados foram tantos que Anália não conseguiu ouvir o que foi dito depois. A líder dos Sânticos falou mais alto, sem sucesso, bateu palmas tentando recuperar o silêncio dos ouvintes, mas por fim, apenas fez um gesto com a mão e, como uma onda se alastrando pelo chão, uma força invisível derrubou a todos.

Uma cinética, então, pensou Anália, se levantando. Fazia sentido.

— Eu estou tentando dizer coisas importantes aqui. Tenham educação.

— Vai se ferrar!

— Vejam bem, não adianta se estressarem; isso não é temporário. Os Sânticos possuem a cidade. Ponto. O que pode ser temporário é isso — ela apontou para a rua destruída. — Tenho assuntos a resolver com a Cátedra, mas eles são ótimos em ignorar pedidos civilizados, então Sagrada é nossa refém por enquanto. Se tiverem contato com moradores de Monte Luzeiro e puderem pressioná-los a fazer alguma coisa, eu apreciaria muito, de coração. Sugiro que permaneçam em suas casas na maior parte do tempo, pois não garanto que a tragédia do Perpétuo não voltará a acontecer enquanto eles não me responderem. Alguma dúvida?

Mesmo desarmada, Anália fez menção de avançar. Não podia deixar aquela mulher ir embora. Se ela fosse mesmo a líder, aquilo era uma chance única. Mas Tomás agarrou seu braço.

— Ela derrubou o Perpétuo aparentemente sozinha — sussurrou. — Não seja louca, Ana.

— Então faz você alguma coisa! Você é um mago também.

— Eu... — respondeu, hesitante. Sirenes podiam ser ouvidas, mas, com as ruas bloqueadas, qualquer apoio demoraria para chegar. — Preciso de contato visual para isso.

— Então deixa comigo. — Escapando da mão de Tomás, Anália deu um passo a frente e gritou: — Ei, terrorista!

Lygia olhou em sua direção e abriu um sorriso largo. Anália teve a impressão de rever um rosto familiar, mas não sabia dizer de onde a reconhecia. A voz era a da mulher na coletiva de imprensa, mas ela não tinha visto seu rosto naquele dia e era o rosto que lhe parecia um mistério. Era surreal pensar que poderia ter encontrado com a líder dos Sânticos sem saber.

— Delegada! Eu estava torcendo para nos reencontrarmos.

— Não deveria, já que acabou de revelar que é uma das pessoas mais procuradas do país. Você está presa. Fique onde está.

— Não posso garantir. Nunca fui boa em obedecer.

— Então, vocês são os Sânticos. — Anália olhou ao redor, fazendo o melhor para não parecer muito impressionada. Era difícil. — E o que querem com isso? Apenas provar que temem o que mundanos não subjugados podem fazer? Ou é só puro ódio por eles? Ah, já sei! Uma mundana roubou seu namorado no ensino médio? Deve ter sido um trauma e tanto…

Lygia cruzou os braços nas costas e inclinou a cabeça.

— Eu pensei que você fosse mais séria, delegada, mas isso é divertido também.

Tomás se aproximou de Anália, atraindo a atenção de Lygia, mas, no momento que seu olhar cruzou com o dela e a ponte entre suas mentes foi aberta, ele recuou com a dor e surpresa de uma sobrecarga sensorial. Fechou a conexão imediatamente, arfando com a intensidade do feitiço.

— Você está bem? — Anália o apoiou, mais confusa do que preocupada. Aquilo nunca tinha acontecido. Olhou acusadoramente para Lygia, mas ela também parecia ter sido pega de surpresa, quase preocupada, compreendendo o que eles tinham acabado de tentar. Sob o cenho franzido, seus olhos castanhos vaguearam de Anália para Tomás e para ela de novo, antes de sua expressão suavizar de repente.

De onde a conhecia?

— Eu tô bem... — ele respondeu.

— Isso foi... inesperado — Lygia falou, virando o rosto na direção das sirenes e, por um instante, pareceu não pensar em nada. Ainda desorientada pela tentativa falha de invasão da mente. Pelo menos tinha tirado o sorriso do rosto, o que Anália considerava uma meia vitória. — Peço licença, mas já disse o que tinha para dizer.

— Ah, você não vai…

Anália correu para perto do palco improvisado, mas Lygia desceu e se misturou no meio das pessoas apenas por tempo o bastante para fugir do olhar da delegada. A multidão não era um bom lugar para ficar por muito tempo, já que o medo dos mundanos não era maior que a raiva e revolta, muitos tentavam segurá-la ou abrir caminho para a delegada, mas falhavam das formas menos espontâneas possíveis. Magia cinética os forçava a errar o alvo, a ir um passo na direção errada ou a agarrar o braço da pessoa só alguns centímetros ao lado dela.

Bastante sutil para alguém que acabara de derrubar o céu sobre a cidade.

Lygia pulou por cima de um vagão em chamas e correu para a rua menos movimentada, ainda sendo seguida. Em um momento, ela virou totalmente para trás, continuando a correr de costas, apenas para dar um tchauzinho com a mão para Anália, antes de dar um salto para a parede ao lado e correr pela lateral do prédio como se não tivesse saído do chão.

Anália parou bruscamente. Nunca tinha visto um cinético se mover assim. Ao perceber, Lygia também parou no lugar, formando um perfeito ângulo reto sobre a parede do prédio.

— Cansou do pega-pega? — provocou, fazendo uma reverência em despedida. — Até a próxima, delegada.

Seguindo seu caminho cada vez mais distante do chão, Lygia logo desapareceu.

.

Não muito longe dali, Thea e Dante observavam o céu, horrorizados. Todos os dias eles usavam o Perpétuo para ir e voltar da Convergencial. Eles estariam no trem aquele mesmo dia, se Lourdes, que tinha um compromisso no Bairro Universitário pela manhã, não lhes tivesse oferecido carona na ida e na volta. Ela fazia isso às vezes, e, sabendo que Thea não iria sem Dante, os convites se estendiam a ele também.

Dante olhou para a irmã ao sentir que ela segurava sua mão. Os olhos marejados encaravam o céu, a mão livre sobre a boca.

— Pelo Oculto, o que está acontecendo...? — Ela murmurou, sem ser realmente uma pergunta.

Lourdes os deixara na Praça Pontífice por um motivo inventado por eles. A verdade era que não ficava muito longe da delegacia; depois que Thea contara a Dante sobre o texto encontrado na dobra de seu bolso e a suspeita de ter tido a mente invadida por um psíquico, ele não tinha se acalmado até ela concordar em fazer uma denúncia.

Mas a preocupação da noite anterior ficara esquecida, distante. Um novo estrondo causou outro tremor. O Trem não havia sido derrubado de uma única vez. Alguns dos vagões ainda se moviam pelo trajeto aéreo, movidos pela força residual dos signos mágicos destruídos; quando essa força os abandonava, eles acompanhavam os demais e caíam sobre a cidade.

— Melhor sairmos daqui… Vamos para um lugar coberto — Dante falou, mesmo vendo ao seu redor diversas construções com o teto destruído pelos destroços. A situação era tão absurda que nenhuma ideia melhor lhe ocorreu no momento.

O celular de Thea tocou, o contato de sua avó aparecendo na tela. Tinham deixado o carro a menos de 15 minutos.

— Vó, você está bem? — A ligação inspirou Dante a pegar o próprio celular e ver se já tinha alguma notícia ou orientação sobre o acontecido. Aparentemente, um atentado sântico. Seu sangue ferveu. Como uma catástrofe dessa dimensão podia ser proposital? Como pessoas conseguiam planejar algo assim contra outras pessoas? — Nós também. Ainda estamos na Praça Pontífice. Vamos procurar um abrigo até você chegar, os vagões... ainda estão caindo.

— Ela não vai conseguir vir — disse Dante, mostrando fotos de todas as principais ruas bloqueadas por metal e concreto e carros largados por motoristas que tinham deixado os veículos para ver a tragédia. As ruas secundárias estavam um caos, com todos aterrorizados, querendo voltar para suas casas o mais depressa possível. Thea empalideceu, mas passou a mensagem para a avó, que com certeza tentaria buscá-los mesmo assim.

— Isso é aqui na Ramos, não é? — Ela pegou o celular de Dante após desligar a ligação. A Avenida dos Ramos era uma principal quilométrica que acompanhava a Praça Pontífice até a orla. Muitos lugares da cidade haviam sido atingidos, mas a Ramos parecia ser um dos piores casos. — Vamos até lá, devem precisar de toda a ajuda possível!

Girando o anel prateado no dedo mindinho, como fazia quando ficava ansioso, Dante meneou a cabeça, ainda pensando na sorte deles terem sido poupados de alguma tragédia, um nervosismo retroativo pelo que poderia ter acontecido.

— Thea, a gente realmente devia sair da rua. Pode ter sido um atentado, não dá para saber se isso é o pior que vai acontecer. Com certeza já mobilizaram a polícia e os bombeiros.

— Veja a foto de novo, parece que algum socorro vai conseguir chegar aqui rápido? Eu posso ajudar. — Ela não esperou resposta e foi em direção à Avenida em passos tão ligeiros que Dante precisou de uma curta corrida para alcançá-la.

— Se isso ainda não tiver acabado, se os Sânticos ainda estiverem agindo, você não vai tentar nada além de ajudar os feridos, certo?

— Ora, mas essa pode ser a minha chance heroica, você vai mesmo se colocar no caminho entre mim e o Chamado à Aventura pelo qual tenho esperado?! — zombou. — O que eu tentaria? Não sou doida.

— Eu sei lá…

Não demorou para chegarem na Avenida. O cheiro de queimado e sangue sobrepondo a normalmente agradável maresia da orla próxima. Muitas pessoas pareciam já fora de perigo, mas outras ainda estavam sob os destroços, esperando ajuda. Thea não esperou uma deixa, estendeu as mãos e a pilha de escombros estremeceu. Como eram muitos objetos, tinha que estar bastante atenta para que um deles não escapasse e ferisse a pessoa que, assim que sentiu o peso desaparecer, se arrastou para fora antes de Thea descer a pilha de destroços novamente. Uma mulher estava com metade do corpo sob um vagão quase intacto, ainda consciente e lhe pedindo ajuda. Levantar um único objeto era bem mais fácil, mesmo que a maioria dos cinéticos tivesse dificuldade com objetos grandes. Só tinha erguido poucos centímetros do chão e o homem que acompanhava a mulher começou a gritar:

— Para, para! Ela tá sangrando mais!

Thea se assustou com a quantidade súbita de sangue. Aparentemente, a mulher estava muito ferida e o peso do vagão era a única coisa a impedia de sangrar até a morte. Ela precisaria de atendimento imediato assim que estivesse livre. Teria de esperar ajuda especializada. Mas não foi fácil para Thea deixá-la ali, enquanto a mulher pedia por ajuda, incapaz de entender a situação, achando que estava sendo abandonada.

Thea sentiu a mão de Dante em seu ombro enquanto se afastavam. Por que a magia não podia vir inteira? Uma maga cinética que não podia curar era tão útil naquela situação quanto um curandeiro que não podia remover os escombros. Mas Thea podia abrir as ruas, removendo obstáculos quase sem esforço algum, para que os bombeiros e ambulâncias chegassem o mais depressa possível.

— Ei, ei, esse carro é meu! — reclamou um homem que estava gravando a tragédia com o celular. Thea o encarou, incrédula e bastante tentada a arrancar o celular das mãos dele, mas foi Dante quem o respondeu.

— Se não desceu para socorrer alguém, poderia ao menos ter estacionado em vez de barrar a rua.

— Não se preocupe, eu coloco na rua de novo depois que as ambulâncias passarem.

O homem xingou eles e correu para ver se o carro estava avariado, mas pelo menos a nova preocupação o tinha feito parar de gravar. Thea continuou abrindo as vias e ajudando pessoas.

Em meio ao caos, Dante, que não saíra do lado da irmã, às vezes ajudando a arrastar alguém para fora do entulho, às vezes intervindo em desentendimentos entre pessoas sem-noção como o homem do celular, ouviu uma voz familiar sob a cacofonia de desespero. Olhou ao redor e avistou Tomás tentando organizar uma espécie de zona segura, gritando para algumas pessoas trazerem os feridos para uma única área enquanto aguardavam ajuda. Em um momento, ele até olhou em sua direção, mas não o viu, a atenção em algo mais distante. Então Tomás desviou o rosto novamente para o pequeno grupo que tinha conseguido organizar e se afastou.

— Ao menos já tem gente da polícia por aqui... — Ele se virou para Thea, sentindo-se um pouco mais aliviado. Sabia que Tomás e a delegada moravam próximos, então ela também deveria estar por perto. Mas estranhou o olhar de Thea, que, uma vez na vida, estava sério. — O que houve, algum problema?

Lentamente, ela o encarou, como se ainda precisasse interpretar o significado do que quer que tivesse visto.

— É ele, Dante. O psíquico no jantar.

Notas finais
Eu fico com peso na consciência de aparecer de vez em nunca com um capítulo que avança só 1% da história, mas fazer o quê se às vezes é necessário. Dois novos posts foram pulicados no blog, mas por favor, leiam o capítulo antes, risco de spoiler rs Link do blog: https://convergencial.tumblr.com/ Senha: kamyaz
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.