Convento Marcaboth

1 Capítulo único


Vivia certa vez, num magnífico convento de freiras, uma bela princesa que não tinha nem pretendentes para desposá-la e nem amigas para entretê-la. Possuía, em lugar deles, uma biblioteca repleta de livros românticos e fantásticos. Todos os dias após as aulas de etiqueta, ia à biblioteca e lia tudo o que podia; acreditava no amor verdadeiro e suspirava pelos cantos do convento idealizando um marido.

Um dia, ao procurar um livro que a agradasse, descobriu uma passagem secreta que a levava para uma sala ricamente decorada. Lá encontrou um quadro do tamanho natural de Marco Marcaboth, o fundador do convento. Imediatamente se apaixonou pela beleza indescritível do rapaz. "Santo Deus! Que hei de fazer agora? Estou perdidamente apaixonada". E depois de refletir uma porção de tempo, lembrou-se do livro de feitiços que herdara de sua mãe. Com muito cuidado para não chamar a atenção das freiras, a princesa foi ao seu quarto e retirou o livro debaixo de seu colchão. Folheou e folheou o livro por horas sem achar feitiço algum que a ajudasse a animar o homem do retrato.

Após semanas indo diariamente visitar o quadro de seu amado, as vezes fingindo doença para faltas às missas e aulas, a pobre princesa voltou novamente à sala secreta. Ficou horas incontáveis recitando poemas e juras de amor eterno ao quadro. E num momento de completo desespero se ajoelhou diante da pintura e orou fervorosamente para que o homem saísse da moldura e se casasse com ela. Vendo que suas preces não surtiram efeito, arrancou seu crucifixo do pescoço e o jogou para longe, praguejando todas as divindades que lhe vinham a cabeça. Voltou-se ao quadro e acariciou o rosto de Marco Marcaboth -manchando-o com suas lágrimas-, imitou o formato de sua mão, os quatro dedos levantados, e sussurrou "De que me adianta a vida se apenas na sua sombra eu consigo brilhar?".

E então o quadro começou a ficar quente. Quente o bastante para que a princesa o soltasse. Pensando que era por causa do calor do verão, ela foi até a janela para abri-la, mas parou no meio do caminho. O homem estava se mexendo, se retorcendo dentro do quadro; tentando sair. A nobre moça olhava petrificada o esforço do rapaz para sair do quadro. Marco se levantou, arrumou suas vestes e olhou para a princesa.

-Você me ama, acima de todas as coisas? — perguntou o homem.

-Eu o amo acima de todas as coisas- a princesa respondeu encantada.

- Então aproxima-se de mim- disse Marco, estendendo-lhe a mão- Aproxima-se de mim e eu hei de aproximar-me a você. Ir-nos-emos brilhar longe daqui, através do tempo e do espaço. Aproxima-se de mim.

Hipnotizada com as palavras de Marco, a princesa olhou em seus olhos e sentiu volúpia, segurou-lhe a mão e sorriu, pois enfim encontrara o tão desejado amor verdadeiro. E por fim deixou-se guiar para dentro do quadro, de onde nunca mais retornou.

O cheiro do corpo putrefaço ajudou as freiras do convento a encontrarem a princesa desaparecida. A Madre superior, desviando o olhar do corpo torturado da princesa, observou o quadro do fundador. Um belo homem sentado numa cadeira de veludo vermelha com a palma da mão estendida, os cinco dedos levantados.

-Devolva a minha menina- clamou a Madre, mas o quadro não se alterou.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Não se esqueçam de deixar review.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!