Convalescença mortal
1 Capítulo 1 : Isso é muito sério.
Notas iniciais
Eu peguei minhas três malas e comecei a caminhar pelo aeroporto, chegara a poucos minutos antes, e deveria estar na casa de minha avó a poucas horas. Eu demoraria 1hra00min para chegar à casa de vovó, isso caso o transito não atrapalhasse. Esperei 3min na frente do aeroporto e o taxi que eu havia pedido parou em frente ao mesmo.
Cumprimentei o motorista e pedi para que me levasse até a minha mais nova rua. Assim ele fez.
Peguei o telefone e liguei para minha avó, já havia tentado fazer isso 5 vezes, mas nenhuma das vezes eu tive sorte. Deixei o telefone chamar até cair na caixa postal, então deixei uma mensagem de texto:
‘’Vó, eu me atrasei, aliás, o voo me atrasou, mas já estou a caminho...Beijos, amo você.
– Marylin’’
Sabe quando você olha pela janela e vê aqueles respingos de chuva que escorrem por ela? E de repente, seu coração aperta e seus olhos se enchem de lágrimas, e você aproveita a paisagem que se revela através da janela para permitir que sua mente tão fértil viaje pelo seu passado? Construindo um filme com retrospectivas simultâneas a seus pensamentos de tristeza? E ai de repente você se pega pensando em como chegou a essa linha de raciocínio louca? Pois é... Isso tem acontecido muito comigo ultimamente.
(. . .)
Senti o taxi freiar, havia, finalmente, depois de muito tempo, chegado a minha nova -e antiga- casa. O trânsito, definitivamente, foi uma das dez pragas enviadas por Deus. Ele deve ter pensado: ''Com certeza os barulhos das buzinas ensurdecerão a todos! Essa é a melhor praga que eu poderia criar''.Me despedi do motorista e o paguei, imagino como deve ser a vida dura dele, passar o dia — e as noites — ouvindo esses barulhos.
Peguei minhas três malas, e com dificuldade devido ao peso caminhei até a casa. Ao me deparar com a faixaida dela, percebi que todo aquele tempo havia feito muito mal para a beleza da mesma. O balanço que antes havia servido de entreterimento para meus colegas na infância, já não estava lá. A porta vermelha, não estava mais vermelha, e sim, num tom que se aproximava do marrom. E a placa dourada que informava o numeração da casa tivera sua cor substuida não intencionalmente pela cor prata. A casa havia perdido totalmente sua vida. Mas eu não me importei muito com a aparencia da mesma, apenas apertei o botão da campainha e esperei, enquanto tirava os fones de ouvido e os guardava junto ao celular no bolso.
Ouvi muitos sussurros, e depois; silêncio.
A porta foi aberta e então:
–SURPRESA! -Gritaram em unissono.
Me assustei, mas o sentimento desapareceu em questão de segundos, abri um largo sorriso. Minha avó caminhou até mim e me abraçou apertado. Na verdade, bem apertado, extremamente apertado, SUPER apertado, a ponto de eu não conseguir mais respirar.
Falei com dificuldade:
–Vó, pelo amor de Deus me larga que eu estou sufocando!
Ela atendeu meu pedido, me soltando e dando leves batidinhas em cada uma de minhas bochechas. Então falou:
–Querida, que saudades! -Sorriu com os olhos brilhantes. — Deixe-me te apresenta-los...Estes são: Andrew, — Apontou para o loiro alto em pé na escada. — E essa é Larissa — Apontou para a menina da trança azul.
Sorri simpaticamente, e acenei para ambos, que retribuíram os dois gestos.
–Então, querida...Larissa cuida de mim e faz o que eu preciso, ela é muito altruísta. E este loiro é o ''amigo'' -Deu enfase no ''amigo'', me olhando e dando um sorriso malicioso — da Larissa. Eles riram envergonhado. — Mas, vocês já se conhecem. Ele é filho do Ricardo, ex-sócio do seu pai.
–Andrew...-Murmurei, pensando. -Andrew...? -Procurava nos arquivos de minha cabeça, nos documentos sobre a infância. -Andrew? Eu não...-Me lembrei, num piscar de olhos, quem ele era.
Estalei os dedos, sorrindo e o envolvendo em meus braços.
–Meu Deus! Andrew! Nossa! Como que eu não me toquei? E você não ia me dizer nada? -Eu ria. — A gente perdeu o contato...-Fiz cara de triste. -Me conte as novidades...-Me aproximei dele, falando em tom confidencial. — E as namoradinhas?
Gargalhamos.
–Ah, Marylin...nós falaremos disso depois. -Falou e riu.
Conversamos um pouco, e então minha vó disse:
–Andrew, ajude a Marylin a carregar as malas para cima. Ela deve estar cansada e você é sempre um cavalheiro mesmo. –Pediu minha vó.
Eu estava com muito sono; muito mesmo. Mas também estava com saudade da velhinha. Mesmo assim deixei que Andrew pegasse duas de minhas malas e começasse a subir as escadas. O mesmo eu fiz, só que com apenas uma mala.
–Cuidado Marylin, eu me lembro bem como era desastrada. – Andrew me olhou de soslaio, rindo em seguida.
–HÁ-HÁ-HÁ – Fingi o riso – Tragam um prêmio para o cara mais engraçado do mundo!
Todos riram. E então:
PLAFT!
Senti uma mala bater na minha perna e por reflexo segurei no corrimão da escada, que merda era aquela? Após me recuperar do susto, o que houvera acontecido logo em seguida, olhei para o primeiro degrau da escada, minha maior mala estava estirada no chão.
Eu gargalhei sarcasticamente.
–E ainda diz que eu sou a pessoa desastrada, Andrew? –Ele me olhou feio, descendo as escadas e pegando novamente a mala. – Cuidado, Andrew querido...Lembro-me de como era...Ops, É desastrado. –Falei ironicamente, em tom de brincadeira.
Andrew fez beicinho:
–Porque faz isso comigo, Mary? Poxa...nunca te fiz nada...
–DRAMA! – Larissa gritou, rindo.
Continuamos subindo as escadas, até chegarmos a um corredor onde haviam 5 portas. Duas no final do corredor ao lado esquerdo, uma no meio e duas para o lado direito, que foi até onde eu caminhei. Dei uns três passos e Andrew me agarrou bruscamente pelo braço, olhei para a cara dele tipo: ‘’me solta que eu não sou tuas negas’’ e ele afrouxou; mas estava sério. Entretanto, desfez a cara e abriu um sorriso, dizendo:
–Mary, seu quarto é para cá...ou você também esqueceu disso? –Nós caminhamos até o quarto e entramos. — Sinceramente...você andou por aí apagando memórias tipo como no filme ‘’Brilho eterno de uma mente sem lembranças’’?
–Uou, uou. –Larguei as malas perto da penteadeira e levantei os braços como se fosse me render. – É que você cresceu, está másculo! – Mostrei meus músculos, indicando a forma como ele estava ‘’másculo’’...E lindo, meu Deus como estava lindo.
Ele riu, e aí, bem do nada...Ele me abraçou. Retribui o abraço, mesmo sem entender.
Nos afastamos e ele disse:
–Cara! Você sumiu mesmo...sabe, numa hora você estava aqui, a gente estava brincando, e na outra.... Tudo aquilo aconteceu e então.... Nós estavámos no enterro, e aí você se despediu.... Eu, nós.... Todos nós ficamos com saudades.
–Nós éramos crianças, Andrew. Crianças não tem poder de decisão; se fosse agora, te juro que eu ficava aqui no Brasil...Mas, pô! Eu ainda tinha 9 anos...
–Eu sei, não te culpo. Ainda mais depois do que aconteceu com a sua mãe.... Com a sociedade dos nossos pais que não deu certo...-Ele deu uma pausa. – Eu sinto muito pelo o seu pai...Ele era um mito!
Rimos fraco.
–Obrigada..., mas enfim...Trocando de assunto que eu ainda nem cheguei para a tristeza vir. –Ri e me recompus. –E a Larissa, em? –O cutuquei provocadora, me sentando na cama.
–Aaaaah...Você sabe né...Só mais uma.
Não acreditando na besteira que ele havia falado, peguei um dos travesseiros e joguei no rosto dele, mas o idiota segurou o travesseiro, jogando de volta e gritando: ‘’CHOLA MAIS! ’’.
Gargalhamos, e eu o obriguei a prosseguir.
–Ela é uma amiga do ano passado, ela faz parte do grêmio estudantil e de ousada tem só o cabelo. Tipo, até que eu gosto dela..., mas quase todo mundo quer ficar comigo –Se gabou – Então, meio que ela não faz diferença.
–Homens...-Murmurei. –Vocês são ridículos.
...
–MARYYYYLIN, AAANDREWW! DESÇAM AQUI QUE O BOLINHO DE QUEIJO TA PRONTO! –Minha avó gritou do andar de baixo.
*Eu só queria dormir, vovó querida...* -Pensei.
Descemos as escadas e fomos para a cozinha, o cheiro de bolinho de queijo fresquinho exalava pelo ar e Larissa e minha avó conversavam tranquilamente sobre uma atriz de TV. Elas elogiavam a Carolina Dieckmann, falando de sua beleza e do papel que ela fez em alguma novela, onde raspou o cabelo.
–Eu acho a Paolla Oliveira mais bonita. –Falei, sem me importar muito, apenas para entrar no assunto.
Eu e Andrew nos sentamos na mesa retangular, e ficamos conversando por uns 30 minutos, quando a campainha tocou. Larissa foi atender, e eu apoiei minha cabeça em minha mão, entediada.
Ouvi gritos.
–CADÊ ELA? ELA VOLTOU MESMO? CARA, EU PRECISO VER A CARA DESSA MONGA DE NOVO!
Uma loira dos olhos claros, assim como Andrew entrou na casa, berrando. Ela estava falando de mim.
–Nossa! Era você mesmo...A tapada, filha de um casal tapado! Que bom que morreram. -Ela riu, uma risada sem humor.- A próxima será a filhinha...-Ela deslizava as palavras, estava bêbada. Podia sentir o cheiro do álcool. Eu não iria socar a cara de uma bêbada. Mas eu estava com vontade. –Escuta...fica BEM longe da minha família, ok? E não dê uma de curiosa...A curiosidade matou o gato... –Ela cantarolou. –E nunca...nunca mesmo ouse ...
Andrew apareceu e a mandou ficar quieta, segurou-a pelos braços. Se desculpando pelos atos da garota. Era sua irmã, Lyra.
Ele levou a garota que berrava para fora da casa que eu ainda não conseguia novamente chamar de minha, e Larissa o acompanhou.
Olhei para a minha avó incrédula com o que tinha acabado de acontecer. Estava confusa demais para perguntar algo que me deixaria, com certeza, mais confusa.
Xinguei a garota baixinho, tomei um pouco d’água e fui para o meu quarto. Não havia o analisado quando conversara com Andrew a minutos atrás; ele ainda estava quase do mesmo jeito, mas, as paredes que estavam rosas, agora estavam brancas, e o quarto parecia um pouco mais para adolescentes/adultos. Aposto que minha avó havia feito aquilo por mim.
Me deitei, e encarei o teto por alguns minutos, eu estava exausta.
{. . .}
–Você está louca, Lyra? Está louca?! O que você veio fazer aqui? NÃO ERA PARA VOCÊ TER FEITO ISSO! Tem noção do que poderia ter dito? Qual é o seu problema? Por que você bebeu? Está louca? Sim, com certeza está! –Andrew cuspia as palavras, estava bravo. –Eu vou te colocar dentro de um táxi, e você vai ir direto para casa, ok?
Lyra ria da situação, e apenas fazia ‘’aham’’ para tudo o que ele dizia. Larissa estava ao lado dele, se controlando muito para não voar em Lyra.
Andrew chamou o táxi colocou sua irmã dentro do mesmo, então ela foi para sua casa. Ele entrou para a casa de Marylin e subiu até o quarto da mesma, seguido de Larissa. Mas, ao chegar em sua porta, Larissa o puxou pelo braço.
–Ela não pode, de jeito nenhum, saber o que está acontecendo. Entendeu? De jeito nenhum. Isso é muito sério.
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