Notas iniciais
Eu quase chorei quando escrevi este capítulo, tive tanta pena dele, mas espero que gostem!!!

Egídio Mir’daguntin

The Angel

Buck-Tick- Kuchizuke

As ruas da Base de Berlim nunca foram tão frias e esquisitas, nem mesmo tão assustadoras. Mas para ele nada importava, o inverno meio que escondia sua pele desprovida de cor. As pessoas passavam por ele sem nem mesmo notarem sua existência, como se ele fosse apenas um inseto. Um animal. Algo que não merecesse atenção. Mas o que ele fizera de errado? Porque Deus havia castigado ele daquela forma, sem que ele tivesse feito nada? Será que tudo aquilo tinha um propósito? Mas que merda de vida era aquela.

Abraçou-se contra o próprio corpo enquanto dois filetes de lágrimas escorriam quentes pelo se rosto e deslizavam pelo seu peito magro. Ele tinha vontade de gritar e chorar bem alto, mas apenas continuou abraçando-se, ele era o seu próprio amigo. A solidão o acompanhava. O casaco marrom- dado por sua mãe as escondidas- escondias as marcas das correntes e das bitucas de cigarro que aquele maldito do seu pai queimava em pobre corpo.

Que mal havia em ser albino? Não fora ele que escolhera nascer assim, ele não queria ser assim, queria ser normal como todas as outras pessoas da base. Queria um dia poder criar coragem o suficiente para enfrentar os seus colegas de classe, aqueles malditos colegas de classe que viviam o chamando de mulherzinha. Ele não queria isso, queria sumir.

Olhou para o céu acinzentado, de onde uma fraca chuva caía misturada com alguns flocos de neve, seu pai dizia que ele era um demônio, filho do Coisa-Ruim, diabo de olhos vermelhos. Mas sua mãe dizia que ele era um anjo que veio do céu para salvá-la e para transformar a vida de todos que o rodeassem, ele ficou sem saber em quem acreditar. Preferia manter-se neutro a essa situação.

Continuou andando pelas ruelas da Base de Berlim, a terceira maior base militar que foi construída. Perdendo apenas para a Base da Esperança e a Base de Pequim. Andava fitando o chão de pedra coberto por neve. Lembrava-se de quando era amarrado com correntes pelo próprio pai, de quando viu sua mãe sendo espancada apenas por lhe dar comida. Mas ele não culpava o seu pai, tinha pena dele. Era apenas um homem que desejava ter tido um filho forte e saudável e que não tivesse medo da própria sombra.

O frio aumentou. Egídio abraçou-se ainda mais contra o próprio corpo sentindo o cheiro de sua pele. Cheirava a limão e a sabonete, detestava sujeita, tinha medo de pequenos seres que pudessem estar caminhando por ele naquele momento. Tinha medo de ficar sozinho, medo de ser tocado, e milhares de fobias que dariam um dicionário se fossem citadas.

Quando chegou ao cruzamento parou, fechou os olhos e respirou fundo. “Era apenas uma rua”, ele disse para si mesmo. Com passos lentos e calculados milimetricamente ele cruzou-a, soltando depois um suspiro de aliviado, havia conseguido superar o seu medo. Se ao menos tivesse um amigo com quem pudesse contar naquelas horas tão difíceis, não estaria passando por todo esse sufoco, pelo menos não agora.

Em casa, ele era apenas um objeto de tortura do seu pai e o animal de estimação da sua mãe. Na escola os garotos zombavam dele, chamando-os de homossexual, de bicha, de gay, e milhares de outros palavrões. Todos questionavam sob sua opção sexual. Mas ele tinha apenas quinze anos, não tinha a mente totalmente formada pra saber o que realmente queria da vida. Mas era um adolescente preso no corpo de uma criança e acho que isso era o principal motivo de tanta zombaria.

Certa vez, um grupo de garotos dos primeiros, segundos e terceiros anos o arrastaram a força para o banheiro masculino da escola. Mergulharam sua cabeça em um dos vasos sanitários e o fizeram engolir todos os dejetos que ali havia. Como se não bastasse, ele foi abusado por quatro daqueles garotos. No dia seguinte, as dores eram insuportáveis e quando ele disse que não podia sentar-se por causa delas, foi motivo de risadas para todos os seus colegas, agora sim ele poderia ser taxado como um fracote que sequer podia ter a chance de se defender.

Aquelas lembranças o fizeram chorar alto, suas lágrimas lavavam todo o seu rosto e escorriam para dentro do seu casaco esquentando o seu corpo. Ele parou junto a esquina enquanto soluçava alto. Não queria mais aquela vida, queria ser um anjo e ir para o céu, viver no Paraíso, ao lado de Deus onde não há sofrimento, talvez o Criador tivesse um cantinho reservado só para ele e para ninguém mais.

Ajeitou as alças da mochila que carregava, precisava andar pela base antes de voltar para casa, aproveitar a pouca liberdade que tinha antes de ser acorrentado e torturado por aquele velho maluco. Ele apenas queria viver como as outras crianças, ele tinha esse direito não tinha? Precisava ir o mais rápido possível ou o sofrimento seria multiplicado dez vezes mais, quem sabe ele até seria morto.

Voltou a andar- com medo- pelas ruelas escuras e vazias da Base de Berlim, a Áustria era bem menos assustadora, as bases de lá eram alegres e todos eram felizes, mas a de Berlim? Um bando de preconceituosos antiquados que não aceitavam as diferenças naturais de todos. Enquanto andava pode ouvir uma voz que o chamava:

– Égídio, espere- quando ele virou-se se deparou com um rapaz bem mais alto que ele, tinha os cabelos loiros dourados e os olhos azulados, um típico alemão, ele mantinha um sorriso amigável- está andando sozinho?

– S-sim, eu nunca tenho ninguém que vá para casa comigo.

– Sabe Egídio eu tenho visto como aqueles garotos tratam você e eu sou totalmente contra o que eles fazem. De agora em diante eu vou te proteger deles.

Os olhos de Egídio marejavam, agora ele tinha um amigo, alguém que o defendesse e que cuidasse dele, que fosse um ombro amigo, um conselheiro. Ele deu uma gargalhada alta de felicidade, o garoto sorriu em resposta:

– Me chamo Jacqes, sou do terceiro ano. Então, quer companhia até em casa?

– Sim, por favor.

Jacqes segurou a sua mãe fina e pálida como um irmão mais velho faria e ambos começaram a andar pelas ruelas da base. A neve caía levemente e a luz dos postes dava a ela um brilho incomum, parecia uma chuva de diamantes, aquele era o melhor dia da vida dele. Agora ele tinha um protetor e estava vislumbrando uma chuva de diamantes:

– O que acha da paisagem?-perguntou Jacqes com um sorriso.

– É linda- ele disse fascinado- é como se um diamante gigantesco tivesse explodido e os seus restos estivessem caindo sobre nós, me sinto como num sonho.

– E o céu? O que acha dele?

– Bom- Egídio encarou o céu cinzento- ele me lembra tristeza. Quando o céu está azul com o sol brilhando nele, me lembra alegria, tranquilidade, quando está estrelado me lembra a felicidade plena, cheia de estrelas que brilham como joias. Mas assim nublado, ele me parece triste.

– Você está caminhando de forma estranha Egídio- só então o rapaz notou que parecia estar mancando, devia ter sido por causa da... deixa pra lá- aconteceu alguma coisa com você?

– Não, eu apenas torci o pé. Só isso. Tenho que chegar logo em casa, meu pai é muito rígido com horários.

– Eu conheço um atalho- Jacqes apontou para um beco escuro e vazio, Egídio detestava locais escuros e vazios- podemos ir por aqui e seu pai não vai brigar cm você.

Ele não queria ir por ali, mas era melhor andar por uma via escura que ficar acorrentado a noite inteira. Assentiu com a cabeça e ambos seguiram pelo beco escuro e lamacento, não haviam nem mesmo ratos ali. Ele apertou a mão de seu “irmão” com força enquanto tentava segurar as lágrimas que teimavam em descer pelo seu rosto. Mas quando chegaram na metade do caminho. Jacqes parou estatelado. Segurou com força a mão de Egídio e um sorriso maléfico tomou o seu rosto.

– Sou seu irmão mais velho Egídio, então você deve fazer o que eu mandar não é mesmo.

Os olhos azuis agora tomaram um tom cinzento, a fala doce e calma tornou-se demoníaca. Jacqes torceu o braço de Egídio com força e jogou-o no chão lamacento, arrancando suas calças rapidamente enquanto o olhava com aquele sorriso maléfico, aqueles olhos demoníacos. Egídio queria gritar mas sua voz estava presa.

– Vamos brincar, Egídio?

E aquele foi o dia em que sua vida mudou completamente... e para pior.

° ° °

Sua pele pálida ficou roxa de frio, havia sido estuprado, tinha vergonha disso, queria morrer, queria desaparecer daquele planeta e nunca mais voltar. Queria ser um anjo no céu, afinal os anjos não sofrem não é mesmo? Ele chorava e se esperneava enquanto andava pelas ruas cheias de neve da base. Jacqes o abandonara para morrer de frio, mas ele teve forças o suficiente. Foi até em casa e quebrou a janela, pegando tudo o que precisava.

Mas o frio estava mesmo insuportável aquela noite, era como uma faca gélida que cortava cada canto do seu corpo. Uma ou duas pessoas passavam pela rua sem socorrê-lo, apenas olhando com repulsa para os seus olhos vermelhos. Todos diziam que aqueles olhos vermelhos eram do demônio e sua pele pálida de um fantasma. Mas não, seus olhos tinham a cor do amor e a sua pele era como a de um anjo,

Suas forças o abandonaram e ele caiu de joelhos na neve fofa. Queria criar asas e voar para bem longe daqueles alemães. Para um país quente e cheio de doces onde ele pudesse ser feliz. Sentiu a vista embaçar. Se sentia culpado por abandonar sua mãe, sua gentil e doce mãe sozinha nas mãos daquele monstro que ele tinha que chamar de pai. Suas forças o abandonaram e ele caiu na neve. A neve fofa lhe pareceu uma cama.

Sentia cada membro do seu corpo travar como se ele estivesse congelando, seu casaco fora totalmente destruído pelo seu estuprador e ele não tinha outros, estava a mercê do frio. Fechou os olhos imaginando-se numa paisagem verdejante e florida, ao lado da pessoa que ele amasse, com sua mãe afagando seus cabelos brancos e seu pai implorando por perdão. Queria viver num mundo onde o inverno nunca existisse, onde ele pudesse fazer o que quiser sem ser incomodado por ninguém.

Ele tentou rastejar pela neve lamacenta em busca de alguém, mas nem mesmo uma alma viva sequer apareceu. Ele continuou tentando rastejar, a neve entrava por sua roupa tocando toda a sua pele que agora já estava roxa, sua vista começou a embaçar cada vez mais, sua garganta travou, tudo o que ele via era apenas um vulto cinzento junto a ele pronto pra levá-lo. Sim, a morte estava lá para lhe dar o beijo que sugaria sua alma.

Ele fechou os olhos, sua respiração estava fraca e o seu coração palpitava. Duas lágrimas quentes escorreram pelo seu rosto enquanto ele esboçava um pequeno sorriso, um sorriso de satisfação. Finalmente ele estaria livre daquele mundo sádico e cruel onde todos pensavam apenas em dinheiro e em fazer os outros sofrerem.

Ele podia sentir o vulto negro deslizar por cima da neve em direção a ele. Estava morto e sabia disso, havia chegado o dia de cumprir sua sina na Terra. O vulto ergueu sua foice prateada para poder enfim levar a sua alma, mas um raio luminoso o atingiu. De súbito o vulto negro não estava mais lá, apenas um ser luminoso de asas douradas que o fitava com piedade. Estaria enlouquecendo? Não, era real.

O anjo sorriu para ele e depois desapareceu. Egídio fechou os olhos, estava cansado demais não importava que ele morresse, pelo menos o sofrimento não mais existiria e toda a sua vida insignificante agora teria um sentido num outro mundo, numa outra dimensão. Até porque de que adiantava ele viver, o mundo estava a beira do fim não era mesmo? Em pouco tempo todos morreriam, inclusive Jacqes, seu pai e todos os garotos que abusavam dele. Todos morreriam.

Enquanto aceitava a sua morte ele escutou passos se aproximando, vozes distorcidas. Sentiu dedos quentes pegarem o seu pulso que ainda pulsava fracamente:

– Ele está vivo- disse uma das vozes- e agora o que vamos fazer com ele?

– O governador pediu que pegássemos um garoto excepcional- o militar puxou alguma coisa do bolso de Egídio- Está faltando um para o projeto esperança, esse garoto tem notas excelentes na escola e ele está a beira da morte, vamos levá-lo.

Ele sentiu ser erguido pelos militares. Estava salvo, recebera uma segunda chance. Embora sequer soubesse o que seria esse tal projeto, tinha certeza que deveria ser mil vezes melhor do que perecer ao frio da Base de Berlim. Ele viu o anjo dourado acenando ao longe para ele, Deus tinha um propósito para sua vida e ele sabia disso, agora sim, ele poderia viver a vida que quisesse.

Notas finais
Espero que tenham gostado do nosso anjinho. Teremos apenas mais um capítulo de apresentação, depois um curto período de vivência na Base Esperança onde os outros serão apresentados e por fim, o nosso joguinho!!!