Controlados- Interativa
6 Capítulo 5- A Druida
Notas iniciais
Ísis Masquerain
The Druid
Sentiu o seu corpo formigar até o último fio de cabelo. Sua vista rodopiava e embaçava como se ela tivesse sido colocada em uma roleta russa. Levou às mãos a cabeça esfregando os olhos. Queria voltar para a realidade, devia estar mesmo sonhando. Tentou andar, mas cambaleou e caiu de joelhos no chão, suas pernas não estavam fortes o suficiente. Queria se lembrar do que tinha acontecido. Queria poder saber como ela viera parar ali.
Mesmo com a sua cabeça rodopiando ela tentou reconstituir o que fizera naquele dia. Tinha brigado com a alcoólatra da sua mãe, pois ela tinha prometido largar a maldita bebida e já estava com uma garrafa de vodka em mãos. Depois disso ficou andando pelas ruas da base o dia inteiro até ser abordada por militares, desacordada e puff... Num passe de mágica estava ali naquele lugar totalmente estranho.
“Como se a minha vida já não fosse uma droga antes...” Ela pensou consigo mesma. Desde pequena fora maltratada pelo pai, e a mãe nada fazia apenas ficava bebericando o seu álcool diário enquanto assistia as torturas da filha como quem assiste a uma novela. Eles viviam na Base do Istambul, uma pequena parte do que restara da Turquia, seu pai era um mercador e um fazendeiro, ganhava bastante dinheiro.
Mas ele sempre desejou um filho homem, um filho que cuidasse de seus negócios quando ele partisse, um filho que fosse a sua cópia idêntica. Mas ela não era homem, e era esse o motivo das seções diárias de espancamento. Até que um dia ela “acidentalmente” empurrou o pai da janela e ele caiu do terceiro andar da casa onde eles moravam, e ela viu-se livre das torturas, ninguém a condenou afinal fora apenas um “acidente”. Sua mãe era a única coisa que lhe sobrara agora, tinha prometido largar a bebida, conseguiu por dois dias, mas naquela manhã já estava semibêbada e com uma garrafa de vodka nas mãos.
Então ela correu pelas ruas da base pra esquecer a sua vida triste e sem sentido, mas foi abordada pelos militares, que perguntaram o seu nome e a apagaram. Pronto, essa era a história da sua vida, se fosse um livro daria cem páginas, cinco de sua história, e as outras noventa e cinco dos modos como ela era torturada pelo pai e menosprezada pela mãe. Ela queria poder desaparecer daquele planeta, que aliás estava morrendo, então que ele morresse logo e levasse todos com ele.
Depois de alguns minutos ajoelhada conseguiu recuperar as forças, retirou os cabelos castanhos da frente dos seus olhos cintilantes e obrigou-se a ficar de pé, não estava mais tão tonta quanto antes. Estava apenas um pouco sonolenta. Percebeu que não vestia mais as suas roupas e sim um macacão branco e fino que mostrava praticamente toda sua roupa íntima.
Ela viu-se numa sala totalmente branca, uma porta na direita e uma câmera que apontava para ela. Que espécie de lugar era aquele? Ela correu para a porta, puxou-a e empurrou-a com toda a força que seus membros possuíam, mas a porta apenas estremecia, estava trancada e era bastante resistente. Ela levou as mãos a cabeça novamente e começou a chorar, estaria pagando pelos seus pecados?
A câmera focava nela, como se fosse uma pessoa que estivesse olhando-a, observando-a... era isso, se tinha uma câmera. Então tinha alguém por detrás de tudo aquilo. Eça enxugou as lágrimas e foi na direção do aparelho, encarou bem as lentes dele como se ele fosse um ser vivo e gritou:
– Me tira daqui! Agora mesmo. Eu quero sair da porra deste lugar- ela gritava e esperneava- eu não sei quem está por trás disso, mas eu juro que vou matar todos vocês seus filhos da puta!
Ela jogou mais uns vinte palavrões que conhecia contra a câmera e parou ofegante, continuava a encarar as lentes esperando alguma resposta, a mínima que fosse. E de súbito, a porta branca abriu-se automaticamente, por ela entraram dois militares. Ela nem teve tempo de falar alguma coisa, pois eles borrifaram novamente algo em seu rosto e ela apagou mais uma vez.
° ° °
Ela acordou mais uma vez, sua cabeça doía tanto, parecia que iria explodir. Ela percebeu que estava deitada em uma cama branca e macia. Seus pés e mãos estavam amarrados a ela, e uma espécie de cinta prendia sua cintura a cama, a cama ao menos era macia. A sala também era branca, mas era bem maior do que a anterior. Ela tentava se livrar das amarras de todo o modo, mas não conseguia. E quando olhou para o seu lado teve uma surpresa, outras dezenove camas se estendiam ao longo da extensão da sala. Outra coisa intrigante era um maquinário colocado ao lado de cada cama, do qual emanavam diversos fios brancos, os mesmos ligados aos seus braços pernas e cabeça.
Ela não conseguia falar, sua voz estava presa. As outras pessoas também se debatiam e tentavam falar alguma coisa. Todas aparentavam ter idades entre dezoito e quinze anos. O que um bando de adolescentes faria ali? Ela queria sumir daquele lugar, e mesmo que não sumisse, pelo menos queria uma explicação para tudo aquilo.
Como se os anjos tivessem ouvido o seu pedido alguém entrou na sala a passos duros que ecoavam por todo o local. Ela olhou bem para o ser humano que se colocou diante das vinte camas. Era uma mulher de aparentemente trinta anos, tinha cabelos vermelhos vivos e olhos verdes cintilantes, usava um vestido verde limão coberto por um jaleco branco, segurava na mão direita uma espécie de prancheta metálica e sorria como uma sádica:
– Sei que todos vocês devem estar se perguntando o que estão fazendo aqui- ela falou num tom calmo, mas rude ao mesmo tempo- mas antes de tudo me chamo Elisabeth e sou a programadora chefe do Projeto Esperança.
Todos a olharam com curiosidade, Ísis já tinha ouvido falar no Projeto Esperança, ou como costumavam dizer, a salvação da humanidade. A mulher ajeitou os cabelos e continuou a encará-los com a mesma frieza:
– Vocês vinte foram trazidos de diversas partes do mundo para realizar este projeto. Sei que não podem falar agora, é por causa do gás que usamos em vocês, sinto muito por tudo isso. Vocês são jovens de habilidades excepcionais e por isso terão um papel crucial em nosso projeto. Que papel é esse? Simples, eu e minha equipe criamos uma realidade virtual, retiramos a mente do nosso corpo e a mandamos para esta nova realidade. Desse modo toda a humanidade iria sobreviver para sempre e ninguém temeria o fim- ela deu uma longa pausa como se estivesse querendo recuperar o fôlego- bom, essa realidade foi baseada naqueles jogos de RPG, cheios de monstros, missões, guildas, coisas que vocês adolescentes devem conhecer. Criamos a realidade perfeita e nada entediante. Mas precisávamos testá-la, ver se ela era instável o suficiente. E precisávamos de seres humanos para isso, e o que seria melhor do que vinte jovens com mentes brilhantes para testar essa nova realidade? Vocês serão declarados heróis mundiais.
A mulher riu de forma irônica, Ísis queria poder se soltar daquelas amarras e socar a cara daquela mulherzinha até que o seu sangue espirrasse por todos os lados. Mas ela estava tão presa e indefesa quanto um pássaro em uma gaiola, por mais que se debata, nunca conseguirá sair, viverá preso pelo resto de sua vida:
– A máquina ao lado de vocês irá transportar as suas mentes para esta nova realidade, lá vocês poderão andar, falar, comer, dormir, enfim fazer de tudo o que desejarem. Seus corpos ficaram intactos, mesmo que se machuquem ou morram na realidade, vão se curar ou ressuscitar automaticamente, pois não há como a mente morrer certo? Para facilitar a comunicação entre vocês, como são de locais diferentes, no jogo, vocês entenderão claramente o que os outros estão dizendo. Boa sorte, heróis!
Ela deu de costas as camas e começou a andar em direção à porta, a única saída daquele lugar. Lágrimas começaram a cair dos olhos de Ísis enquanto a garota se debatia para sair dali. Ela não merecia mais uma tortura, já tinha sofrido demais naquela vida. Elisabeth- a mulher ruiva- parou no meio do caminho e virou-se novamente para eles com um sorriso encabulado nos lábios:
– A propósito cada um de vocês recebeu um título, uma espécie de classe que lhes permitirá usar habilidades inumanas, se é que me entendem, os títulos foram dados de acordo com a personalidade de cada um, então, irão se acostumar rapidamente ao seu novo mundo. Que será este. E não me olhem com tanta fúria, salvamos vocês da destruição e suas famílias estão sendo bem tratadas pelo governo de suas bases, não faltará nada a eles e nem a vocês. Até mais, vamos começar o transporte de mentes em cinco minutos.
Ela andou até a porta que abriu num rangido estridente e saiu da sala. Uma espécie de cronômetro foi ligado mostrando 5:00, e logo depois 4:59. Em cinco minutos ela estaria junto de vinte estranhos dentro de uma realidade que poderia ser fatal. Ela fechou os olhos esperando o tempo passar, o que mais ela poderia fazer? Não tinha como sair dali mesmo, tinha que aceitar a sua nova condição, aceitar o seu novo destino. Ela ouvira alguém dizer uma vez que o passado é a marca do presente que levaremos para o futuro, uma coisa meio louca na verdade, que nem ela própria entendia.
Abriu os olhos e olhou para o cronômetro que agora marcava 2:35. Faltava pouquíssimo tempo para que ela fosse levada a essa nova realidade. Sentia seu estômago borbulhar de ansiosidade. Talvez não fosse tão ruim assim ficar dentro de um novo mundo, um mundo cheio de monstros e lutas poderia ser até divertido. Embora ela não pudesse acreditar 100% em uma pessoa que a sequestrara.
Ela fechou os olhos mais uma vez ao ver que o cronômetro já marcava 1:00. Ela tinha apenas um minuto pra poder se despedir de sua família, dos seus amigos, de sua base, do mundo ao qual ela nasceu e cresceu e provavelmente o mundo ao qual ela nunca voltará. Abriu os olhos rapidamente para ver o cronômetro. Apenas 15 segundos.
Ela contou o tempo junto com ele, 15...14...13...12...11...10...9...8...7...6...5...4...3...2...1.
Sentiu o seu corpo sumir, era como se ela estivesse sendo sugada para dentro de um abismo, um buraco negro que parecia não ter fim. Não sentia mais os seus braços, nem suas pernas, nada. Apenas o seu corpo caindo em um vazio sem fim. Permaneceu de olhos fechados até sentir suas mãos e pés tocarem uma coisa sólida, parecia grama. Ela abriu os olhos e viu-se em uma imensa campina verdejante que se erguia até onde a vista poderia alcanãr, podia ver algumas vilas se espalhando como ilhas pela campina e um imponente castelo de ferro se erguia ao longe, depois das montanhas, um rio serpenteava tudo e o vento batia graciosamente em seu rosto.
O macacão branco agora se transformara. Ela usava uma blusa verde-floresta com um sobrecasaco marrom, uma calça também marrom bastante colada a sua pele. Usava botas de couro, perfeitas para qualquer tipo de ambiente. Usava um cinto de couro avermelhado e preso a ele uma pequena sacola. Ela puxou-a e viu o seu conteúdo: uma adaga, vinte moedas de ouro, um cantil com água e um pão fresco. Guardou tudo novamente na sacola e colocou a adaga na cinta, seus cabelos estavam amarrados em um rabo de cavalo. Antes de dar o primeiro passo, algo a parou e ela pode ouvir uma voz totalmente inumana:
– Bem-vinda Ísis Masquerain aos Descampados do Cavaleiro Negro, você já está dentro de nosso novo mundo, a salvação da humanidade. Aqui você sentirá as mesmas necessidades do mundo real, terá de beber, comer, dormir, trocar de roupa, entre outras coisas. As moedas de ouro em sua bolsa podem ser chamadas de dracmas, com ela você poderá comprar diversas coisas. Para adquira-las você pode realizar missões, trabalhar e outras funções que serão encontradas. A propósito, graças a sua personalidade, você a partir de hoje é a Druida. Tem o poder de controlar as plantas e animais e outras habilidades que poderá aprender sozinha. Bem-vinda ao jogo, Ísis Masquerain, a Druida!
A voz se desfez no ar e um cajado foi projetado na sua mão, era um cajado de madeira clara e com ramas presas a ele, era reto com uma pequena curvatura na ponta, devia ser a sua arma para o jogo. Ela deu um leve sorriso enquanto o examinava. Tinha poder de controlar as plantas não é? Ela apontou a mão para algumas ervas que estavam ao seu lado e se concentrou. Uma luz verde intensa emanava de sua mão e as ervas cresciam rapidamente. Ela parou, agora as ervas estavam gigantescas. Talvez aquele jogo fosse mais divertido do que parecesse.

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