Contrição De Snarkii
6 Capítulo 006 - Assuntos pendentes
Notas iniciais
22 de Setembro de 1989.
Ainda tinha muitas perguntas não respondidas, coisas duvidosas acontecendo dentro de mim. Parecia que Killer enrolava para me contar a verdade, mas também parece que ele já a contou.
Vi em seus olhos azuis, o ódio que tinha pelo Comando Vermelho, cuja localização estava perto da nossa, pronto para nos invadir.
Estávamos no alto do morro, e conseguimos ver todos eles subindo as escadas e assustando os moradores da favela.
"Chamem os outros!" — Gritou Cobra, mandando tal mensagem para dois homens do Comando Azul, e indicando o local onde estariam as outras unidades.
Cobra nos informou que as unidades demorariam para chegar, cerca de cinco minutos. "Sem problemas." — Disse eu, sorrindo e preparando a munição para o contra-ataque dos vermelhos.
A escada era íngreme e estreita, como todas da favela, porém extensa, tendo muitos degraus. Dos lados direito e esquerdo dessa escada, haviam barracos e mais barracos, agora inabitados, pelas ações de evacuação dos Vermelhos.
Estávamos numa área extensa, relativamente grande comparado às pequenas passagens que a favela possuía. É lá onde o norte da favela terminava, no morro, mais detalhadamente, na cadeira de ouro de Cobra.
As tropas vermelhas pararam, e subiu apenas quem parecia ser Arbok. Sua aparência era velha, assim como a de Cobra, porém era calma e serena. Não conseguia ver maldade em seus olhos, tampouco cicatrizes que evidenciavam batalhas travadas.
Com um pouco de dificuldade, o velho Arbok subiu as escadas restantes para o encontro com Cobra. Parecia mais uma cena de guerras antigas, onde duas tropas se distanciavam uma das outras em um campo aberto, e um representante de cada tropa se encontravam no meio desse espaço para negociarem um acordo.
- Cobra! — Disse o velho Arbok, com um leve sorriso no rosto, se aproximando mais de Cobra.
- Arbok! Que surpresa você aqui, e com suas tropas!
- Surpresa? Há mais de 6 meses não nos atacamos! E agora... O que me diz daquele ataque no dia 19, de madrugada!?
- Ataque!? Que ataque!?
- É! O ataque das Suas tropas contra a minha barreira defensiva. O quê foi aquilo, e por que aquilo também!?
- Mas que ataque? — Perguntou Cobra, olhando para a face envergonhada de Killer.
- Mas eu já disse, no dia 19, as barrei--
- Tudo bem Arbok. Parece que alguém aqui atacou sem ordens minhas — Disse Cobra, lançando tal indireta, direta, para Killer.
- Desculpe velh-- di-digo, Mestre! Snarkii tinha chegado e eu aproveitei tal oportunidade para--
- Cala a boca! — Exclamou Cobra — Abaixe o tom! Não há como você se justificar! Agora veja o desnivelamento que você causou nessa balança!
- De-desculpe Cobra...
- É Mestre Cobra pra você! Idiota! Você tem sorte de ainda estar no cargo!
- Com licença, — Interrompeu Arbok — mas o que faremos com a minha barreira defensiva, hein senhor Cobra?
- Não faço ideia.
Nesse exato momento, as tropas aliadas, azuis, chegaram pelo caminho alternativo que Killer havia antes me mostrado. Todos estavam com equipamentos mais pesados, não eram mais rifles e sim metralhadores, daquelas pesadas e potentes.
Todos miraram para Arbok, com a intenção óbvia de executá-lo. Um único gesto de mão de Cobra, que indicava o não uso das armas, foi capaz de fazer com que todos voltassem suas armas à posições neutras. Tal gesto veio seguido da fala de Cobra.
- Acho que já sei o que podemos fazer. Que tal uma batalha, como nos velhos tempos de 6 meses?
- Com certeza. Minhas unidades estão muito mais bem preparadas, tome cuidado.
- Você não possui Snarkii e Killer, sugiro a você que tome cuidado, muito cuidado.
- Snarkii!?!? — Se espantou Arbok, olhando constantemente pra mim, com um olhar assustado.
- Sim, ele mesmo.
- Estava esperando você Snarkii!
- Eu? — Perguntei.
- Sim... Te explico mais tarde.
- Não se meta entre mim e Snarkii — Avisou Cobra.
- Não te garanto isso. Bem, vou mandar nossas unidades contra as suas, proteja-se, e eu me protegerei também. Quero uma batalha digna dessa vez.
- Teremos, e culpe Killer pelo ocorrido.
- Okay.
Arbok fez seu caminho de volta para as unidades vermelhas, cuspindo perto de onde Killer estava durante tal ida. Killer se enfureceu, estava estampado em seu rosto, porém se segurou para o momento tão desejado.
"Tragam as caixas de cobertura" — Disse Cobra, ordenando as unidades para o fazer.
Eles colocaram as caixas em lugares variados da grande, mas não gigante, arena. Era o que parecia, uma arena, um lugar reto, uma planície, em formato de círculo, com uma extensão maior que muitos lugares da favela.
Mas enfim, Cobra ordenou para que todos ficassem em formação, que seria ficar em cobertura, atrás das caixas.
Ele saiu do trono de ouro, e foi para outro lugar não tão longe, uma espécie de casa, na extrema direita do trono.
Eu e Killer ficamos atrás de algumas caixas que serviam muito bem de cobertura, eram resistentes.
Só ouvimos seus passos altos e fortes, como se estivessem marchando. As unidades do Comando Vermelho subiram as escadas, e se posicionaram no começo daquela "pequena" arena. "São 110 homens armados até os dentes! Tem certeza que quer continuar?" — Disse Arbok, provavelmente atrás deles, ainda das escadas, em voz alta. "Pode continuar! Comece logo com isso!" — Gritou Cobra, dentro da casa, respondendo à provocação de Arbok.
As unidades vermelhas miraram nas caixas com seus fuzis, esperando a ordem de Arbok. Um silêncio contínuo foi estabelecido durante alguns segundos, até que o mesmo foi quebrado com a ordem de Arbok, dizendo "Comecem!".
A Calma e o ambiente tranquilo finalmente se quebraram com os tiros dos vermelhos. Ouvíamos os estalos das balas, rachando a resistente madeira das caixas. Todas as nossas 80 unidades estavam se protegendo. Foi um tempo de quase 10 segundos. Foi quando Killer gritou: — "Atirar!!!"
Todos saíram de sua cobertura, protegendo do peito pra baixo, e começaram a abrir fogo contra os vermelhos. Eu não me contive, estava tremendo de emoção.
Saí da cobertura e comecei a atirar também. Todos os meus 8 tiros, atingiram os 8 inimigos na cabeça, e morreram instantaneamente, sem nenhuma dor. Recarreguei, foram cinco segundos desperdiçados de batalha.
Saí novamente da cobertura, já com a arma recarregada, e atirei 8 vezes novamente. Acertei apenas 4, e nem morreram, apenas se feriram. Errei tanto assim pois eles estavam evacuando e tomando cobertura na escada. Como era uma subida, eles deitaram na escada para que nós não acertássemos. Se eles levantassem, conseguiríamos acertar...
"Não joguem granadas!" — Exclamou Killer — Poderá danificar gravemente a escada!
Sem granadas, o combate era inútil, já que eles estavam se protegendo. Sem mais nem menos, Killer olhou para mim, sorriu, e disse.
- Me dá sua M1911.
- Quê? Tá louco!?
- Dá logo!!
- Tá bom, tá bom — Disse eu, já entregando a arma.
- Agora fica com meu rifle.
- Han!? Sério!?
- Claro, conheça a Ak-47, rifle soviético mais famoso do mundo.
- Wow!
- Sim, ela é muito mais potente comparado a uma pistola, claro, mas você se habitua.
- Hahahaha! Que emoção!!!
Estava muito empolgado, e foi quando todos saíram da proteção da escada, que na nossa visão era uma descida, e se levantaram para nos atingir com suas armas.
Eles saíram no pior momento, pois eu estava muito empolgado... Empolgado até demais. Saí da proteção das caixas e comecei a atirar, sem parar, e ficava rindo incessantemente.
A emoção estava no sangue, e no ato de tirar sangue dos outros, da pior forma possível: atirando. Me dava prazer em ver aquele sangue voando, sendo espalhado pelo chão.
Estourei muitas cabeças com aquela belezinha, deformei muitos corpos. Mutilados e estraçalhados no chão, a batalha teve fim.
Todos do Comando Azul se levantaram, todos que podiam, os que não foram atingidos. Tivemos uma baixa de 34 homens, totalizando 46 homens vivos. Como naquela madrugada, cheguei perto dos corpos, olhei... Alguns estavam vivos, pedindo socorro como antes.
Me lembrei daquela sensação... Recarreguei minha arma, mirei para a cabeça ferida do antes homem, agora quase morto, mas uma voz me interrompeu, dizendo: "Não faça isso!"... Era a de Arbok.
- Snarkii! Não faça isso, você não sabe o efeito que isso causa em você!
- Han!?
- Por favor, nós do Vermelho não somos ruins como os Azuis falam, eles que são! É sério, acredite em mim!
- M-mas...
- Você atirar nos outros, desencadeia uma reação anormal em você, mas isso é devido ao --
Killer não se segurou e atirou perto do Velho Arbok. Porém, o tiro pegou no chão, poucos centímetros do pé dele.
- Tenho ordens do mestre Cobra para não te matar, mas não sou proibído de te ferir, ou até te torturar.
- ...
- Saia daqui por bem, ou por mal — Disse Killer, mirando em Arbok.
Arbok saiu da arena e encostou o pé na escada para descer. Suas últimas palavras foram: — "Snarkii, procure saber do que estou falando!"
Realmente sentia emoções fortes e reações anormais, mas isso não acontecia com todos os humanos que matavam pela primeira vez? Killer olhou para mim, botou sua mão em meu bagunçado cabelo e disse: — "Ele está contra nós, ignore-o."
Tudo estava tão confuso, eu gostava de matar ou não? Eles estavam mentindo pra mim ou não?
Mas para aliviar um pouco o stress que estava corroendo meus pensamentos, fui visitar meus pais. Perguntei para Killer onde era, e ele disse que era para esperar, que ele iria comigo.
Estávamos a caminho da casa dele, pegar minhas coisas para, finalmente, visitar meus pais e a Gih. Foi um dos melhores momentos que senti até lá, ou seriam as matanças?
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- Alô!? Cobra? Onde estamos!? Cadê nosso filho e nossos parentes!?
- Oi Jack.
- Jack!?
- Sim, não se lembra de seu antigo nome?
- Eu deixei essa vida pra trás e você sabe disso!
- Mas por que se ainda temos assuntos pendentes??
- Eu comecei a ter uma família, e não pude continuar, nem quero!
- É, mas agora só te resta sua mulher e seu filho.
- Onde está ele!?
- Conosco.
- M-Mas... Deixe-me vê-lo!
- Ele está a caminho.
- Ele precisa saber do projeto que ocorreu... Ele precisa!
- Não é necessário. Já fiz ele usar a arma.
- Não! Não!!!!!
- Sim, e se você mencionar desse projeto para ele, eu juro por tudo que mato ele, sua família, e finalmente você.
- Filho de uma --
- Você vai ver ele daqui 15 anos, até lá, uma visita a cada mês.
- O que vocês obrigaram ele a fazer!?
- Está lembrado de suas dívidas? Ele irá pagar por você.
- É tudo culpa minha, mas não o envolva nisso!
- Já está envolvido... E está envolvido com algo grande!
- ...
- O Snark, se é que você me entende!
- N-não! M-Mas --
- Foi bom falar com você Jack, até mais!
- Ei! Esper --
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