Contra o Reino da Babilônia
4 Nova Vida
Notas iniciais
Reino da Babilônia, pátio central – 14:50 hrs
Salatiel voltou ao sonho. O sonho que tivera dos corpos carbonizados de seus bem-amados, de seus irmãos, de sua família, tomando parte do banquete de sangue da Babilônia, perecendo nas chamas do seu castigo.
Do alto, ouviu uma voz, algo reluzia atrás de si. Quando se virou, deu de cara com a presença gloriosa de Sua Majestade, o Rei. Como um bom e leal súdito, caiu de joelhos, prostrou-se e deixou o que havia restado de suas madeixas longas resvalar até o chão.
O Rei lhe disse:
"Filho… diga ao anjo de Éfeso:
'Conheço as suas obras, o seu trabalho árduo e a sua perseverança. Sei que você não pode tolerar homens maus, que pôs à prova os que dizem ser apóstolos mas não são, e descobriu que eles eram impostores.
Você tem perseverado e suportado sofrimentos por causa do meu nome e não tem desfalecido.
Contra você, porém, tenho isto: você abandonou o seu primeiro amor.
Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio. Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele.'"
Salatiel apertou os olhos em prantos.
— N-não posso! Não posso fazer isso… Eles não vão me ouvir.
"Diga! Aqueles que têm ouvidos, ouçam!"
Sua voz foi seguida por um trovão suficiente para arrebatar o rapaz daquele lugar e levá-lo de volta ao corpo. Assim, ele acordou.
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Reino de Éfeso, campo de treinamento – 20:46 hrs
Salatiel acordou com um burburinho do lado de fora.
Lentamente esfregou os olhos, olhou para o lado e viu a cama vazia do seu amigo. Ele suspirou, nada do que vivenciou fora um pesadelo, teria que enfrentar o seu general uma hora ou outra.
Levantou-se, vestiu alguma coisa e preparou uma bolsa com os seus pertences e mantimentos, já havia premeditado tudo, só faltava executar o plano. Se retirou e encontrou todos os homens deliberando; não somente soldados, mas sacerdotes, profetas, tenentes, oficiais e outros nomes importantes por aquele meio… Todos queriam saber as novidades sobre o ataque de Éfeso ao reino da Babilônia. Salatiel havia enrolado a alça da bolsa em seu tronco, ela passava por seu peito como se fosse uma faixa cerimonial; todos olharam para ele.
— Finalmente… acordou.
O moreno deu alguns passos para frente.
— Tenho uma mensagem do Rei…
— Lá vem ele de novo com essa loucura! — exclamou o general, furioso. — Salatiel, não comece! Eu quero o seu relatório! Me diga o que aconteceu com Urias!
Ele suspirou.
— Um babilônio o atacou…
— Era o que eu pensava… — murmurou o homem, encarando as demais personalidades ali presentes. — Vamos contra-atacar! Olho por olho, dente por dente.
— Não…
Salatiel disse, em tom forte. O general arqueou a sobrancelha e voltou a encará-lo.
— Disse “não” pra mim…?
Ele não moveu um músculo da face. Estava irredutível.
— O Rei não está se agradando das nossas ações…
— Salatiel, quem é você para dizer o que o Rei es…
— Ele me disse! Eu estou alertando vocês! Quem tem ouvidos, ouça!
Logo todos ficaram em silêncio. O general encarou os sacerdotes e profetas, que não ousaram mover um dedo contra o moreno. Ele tinha a atenção de todos.
— A Babilônia é nossa inimiga, não os babilônios.
— Mas era só o que me faltava!
— Escute! Que tipo de amor é esse que estamos pregando, assassinando essas pessoas?! Não permitindo que elas tenham a oportunidade de, se quiserem, vislumbrar ou até mesmo vivenciar nossa vida em Éfeso, servindo ao Rei? E se tiver gente lá, naquele pedaço de terra, que gostaria de estar aqui?! E as crianças que ainda não podem escolher o seu destino?!
— E o que você quer com isso? Salvar aquelas pessoas de uma condenação ordenada pelo próprio Rei?! Quer trazer para o nosso lado babilônios do mesmo tipo daquele que apunhalou Urias?!
— Ele não matou Urias! Fui eu!!
Novamente silêncio. O general arqueou a sobrancelha, seu olhar confuso e assustado dizia que havia compreendido o peso daquelas palavras, mas não queria admitir; ele estimava Urias como se fosse um filho obediente seu. Salatiel, segurando as lágrimas, de expressão inerte, prosseguiu.
— Eu matei Urias. Ele tentou matar a menina babilônica e eu impedi. Eu lutei contra ele, eu o cansei. Eu o despreparei para o que viria a seguir, eu o deixei vulnerável para o ataque inimigo. Fui eu…
Após mais um momento em absoluto silêncio, Salatiel, já decidido, lentamente roçou a palma da mão e os dedos pela alça da bolsa, relembrando-se, pelo toque, do que havia planejado fazer. Ele voltou a encarar suas autoridades.
— Eu vou embora. O Rei me ordenou dizer essas coisas, e eu estou livre do castigo que virá se vocês não obedecerem. Eu vou embora porque não mereço mais estar aqui. Exílio é o mínimo que mereço pelo que fiz a Urias.
— Você sabe que pode ficar se pedir um perdão sincero ao Rei, Salatiel… — disse um dos sacerdotes.
— Já pedi. Um perdão sincero vem acompanhado de uma penitência, seja ela uma vergonha, uma tristeza, uma dor… Não é o Rei que me atormenta, mas a minha própria consciência, então me deixe pagar a minha pena. Eu vou embora.
Com a sua decisão, o moreno não esperou ser impedido. Cedeu ao peso de alguns passos e caminhou por entre aqueles homens, abrindo uma fresta de pessoas diante de si. Salatiel seguiu em frente e não parou de caminhar até estar distante de todos eles, distante o suficiente para que não pudesse ouvir os seus comentários maldosos, cheios de uma piedade maquiada, ou até mesmo os furiosos e sinceros ataques do seu ex general. Ele prosseguiu pelo caminho que conhecia, naquela noite profunda, até encontrar o brilho acetinado das águas claras do rio, na floresta de Jônia. Ele encarou aquela paisagem por um segundo, pensou em tudo o que ela significava para ele e o que significaria quando atravessasse, em seguida suspirou e se despediu oficialmente do lugar onde nasceu. Pedra por pedra, caminhou pela passarela improvisada de rochas, as mesmas em que Safira atravessava quase todo santo dia para vê-lo e encher sua paciência. Agora ela não precisaria mais fazer aquilo, pois qualquer resquício da presença de Salatiel naquele reino já não existia mais.
Ele era outra pessoa, em outro lugar.
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Reino da Babilônia, floresta de Jônia – 08:11 hrs
Após o árduo conflito, a Babilônia amanheceu com todos os civis capacitados para trabalhar em sua reconstrução. Apesar da luta, apesar das perdas, apesar da dor, todos tiveram que deixar sua tristeza de lado e trabalhar pelo bem do reino.
Todavia, durante essas atividades, um grito foi ouvido.
— Aaaaah!!
O pequeno Salum apareceu por entre os arbustos, correndo, gritando e chacoalhando os braços como se tivesse visto algo assombroso. Ele se jogou nos braços da mãe, que estava trabalhando na reconstrução da plantação de uvas destruída pela batalha. Algumas mulheres estavam ajudando nessa tarefa — e uma delas era Safira —.
— O que foi, menino?
— Eu vi um monstro, um monstro!!
— Ai, deixe dessas histórias…
— Deixa a imaginação dele aflorar, tia — brincou Safira, sorrindo fraco. Ela deixou o saco de sementes de lado e se aproximou do menino. — Como é esse monstro, hein?
O menino falou baixinho, ainda assustado, como se tivesse medo do tal monstro ouvir.
— Soldado inimigo…
O sorriso da loira lentamente se desfez.
— Salum, me leva até lá.
Deixaram tudo para acompanhar o devaneio do garoto que, acompanhado de sua mãe, seguiu com a menina até parte do caminho, pois a mulher mais velha não deixou que ele fosse adiante.
— Safira, vá por sua conta e risco, não quero que o meu filho termine como Belsazar — ela disse, colocando o seu garotinho no colo.
— Não se preocupe. Podem ir…
Safira deu as costas e seguiu em frente, adentrando os arbustos até atravessar para o outro lado e encontrar nada mais, nada menos, que um Salatiel adormecido debaixo da sombra de uma árvore. Ela pensou sobre tudo o que aconteceu, pensou se devia se aproximar, mas então uma ideia melhor surgiu em sua mente.
Ela pegou um pouco da água da sua garrafa, acoplada na cintura, e derramou no rosto do rapaz, que acordou em um pulo.
— O-o quê?!
Ele tentou desembainhar sua espada, mas Safira deu um chute no livro e o lançou para longe do corpo dele.
— Seu idiota… — disse a loira, cruzando os braços. — Tá fazendo o quê aqui? O seu lugar é do outro lado.
Quando viu se tratar da garota, o rapaz suspirou e passou a mão no rosto, identificando aquele líquido como água. Sem dizer uma palavra, Salatiel buscou se recompor; enxugou o rosto com as mãos, recolheu suas coisas e se levantou.
— Sou um exilado.
— Olha o drama…
— Estou falando sério — ele a encarou, com um sorriso fraco no rosto. Safira custou a compreender, seu rosto travou na expressão de confusão. Ele prosseguiu: — Não pertenço mais ao reino de Éfeso.
— Não brinca…
— Não é brincadeira. E, bom… — ele pigarreou. — Espero que você possa me perdoar pelo seu amigo.
A loira arqueou a sobrancelha.
— Belsazar? Ele não era meu amigo. Era um idiota… — ela suspirou. — Mas não merecia ter morrido daquela forma…
Salatiel aquiesceu.
— Sinto muito…
— De onde você é agora? Vai virar andarilho ou morar por aqui?
— Não vou ficar na Babilônia, se é o que quer saber. Estou apenas atravessando o reino.
— Se o nosso rei souber que você tá por aqui, sua cabeça vai rolar pelo chão.
— Ele não vai precisar se preocupar com isso — Salatiel ajeitou a alça da bolsa nos ombros. — Safira, quero te pedir uma coisa…
A loira o olhou com certo desdém, mas ele prosseguiu, confiante.
— Quero que venha comigo.
— Nem ferrando…
— Por favor. Vou para o reino de Esmirna, o meu Rei me mandou para lá.
— Segue o seu rei, que eu sigo o meu.
— Safira…
— Não, Sal, chega. Esses reinos por aí são todos iguais. Todos, inimigos do meu povo. Eles não querem nem ouvir o que eu tenho pra falar, não entendem nada, só julgam e matam as pessoas. Eu não vou fazer parte da lavagem cerebral que eles fazem em vocês.
Salatiel aquiesceu, deixando a menina desabafar. Safira arqueou a sobrancelha.
— Tá concordando?
— Você tem direito de estar assim, atacamos o seu povo. Não é isso que eu busco, Safira. Nunca mais vou manchar minhas mãos com sangue inocente.
Ele lentamente se afastou da garota e recolheu o seu livro, em seguida o limpou com leves batidinhas.
— Esse livro não deveria machucar as pessoas… ele deveria curá-las. Usamos errado esse tempo todo. Quero combater as más práticas, não os praticantes.
Ela cruzou os braços.
— Sempre julgando, não é…? Já parou pra pensar que, talvez, o praticante não queira que as suas "más práticas" sejam combatidas?
Ele voltou a olhar nos olhos escuros dela.
— Então ele viverá com suas escolhas.
Safira ficou em silêncio. Vendo sua reação, Salatiel lentamente se aproximou e segurou a mão dela. A loira se surpreendeu, pois ele não era muito de tocar, mesmo para uma simples ação como aquela.
— Safi… eu sei que nem tudo aqui, na Babilônia, te agrada.
— Por que você supõe isso?
— Não estou supondo… Eu sei — ele sorriu, deixando a menina curiosa e sem a resposta para suas dúvidas. — Eu quero te mostrar um lugar diferente, uma vida diferente. Se você não gostar, pode voltar, faça o que quiser, mas eu quero te mostrar o vislumbre de uma vida nova… uma vida que você nunca viveu antes, onde poderá se sentir verdadeiramente amada e remida. Eu não vou te impedir de voltar se você não gostar. Você aceita?
Ela ponderou sobre aquele pedido.
— Promete?
Salatiel não lhe disse mais uma palavra, ela teria que confiar no silêncio de seus olhos. Safira olhou uma última vez para trás, para a Babilônia, a terra dos seus pais, avós e irmãos. Pensou se deveria deixar o seu seio familiar, mas reconfortou-se ao pensar que não iria dar “adeus” definitivamente, e sim apenas desbravar novos ares, conhecer novos costumes, dar uma chance a uma nova vida. Ao menos poderia voltar caso não gostasse, porém… e se gostasse? E se, de fato, ela gostasse de beber da mesma água de seus antigos algozes? Ela não queria gostar… mas sinceramente, no fundo, estava curiosa e torcendo para que isso acontecesse.
A loira apertou carinhosamente a mão ao rapaz em resposta e, seguindo pelo interior da Babilônia, partiram pela trilha que daria até Esmirna.
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