Contra o Reino da Babilônia

3 Mene, Mene, Tequel e Parsim


Notas iniciais
Ooi, gente! Então... não sei se tem alguém me acompanhando por aqui, mas eu vou parar de postar no Nyah, terminarei apenas as minhas histórias pendentes e ficarei ativa nos meus perfis de outros sites. Quem estiver me acompanhando por aqui, por favor veja o meu perfil e acesse os links nele para me acompanhar em outros sites. Obrigada e boa leitura! ♥

Reino da Babilônia, pátio central – 14:50 hrs

Os bacanais eram um dos feriados festivos no reino da Babilônia. Homens, mulheres, idosos e crianças se reuniam no pátio central para cantar e dançar em honra às suas crenças diversas e até mesmo os que não acreditavam em nada gostavam de participar. Álcool de todos os tipos percorria pelo local, as músicas eram altas e bastante expressivas, os mais criativos se fantasiavam para trazer cor à festa e há quem preferisse usar o mínimo de roupa possível. Tudo era permitido na grande festa bacanália.

Safira até gostava das comemorações, mas detestava quando a coisa saía de controle e os bêbados começavam a provocar conflitos com os sóbrios. Ela não quis beber nada naquele dia, preferiu apenas fazer algumas serpentinas coloridas para brincar com as crianças na rua.

— Eu vou te pegar!

— Não me pega! Não me pega!

Um garotinho de cabelos castanhos escuros e olhos grandes e brilhantes correu por entre as pernas das pessoas, fugindo de Safira, que tentava lhe acertar algumas serpentinas esverdeadas. Ela removeu as botas e entrou de cabeça na brincadeira do garoto, usando apenas os seus pés nus para correr pelo chão de areia, levantando um pouco de poeira. Eles se sujaram e brincaram bastante, o que não durou muito, pois, assim que ela conseguiu acertá-lo, sentiu alguém a puxando pela cintura.

— Oi, fofinha…

— Ai, Bel, para com isso, que saco! Eu tô brincando com o Salum.

Ela se afastou bruscamente, porém novamente foi pega pela cintura. Belsazar era um rapaz forte e apenas um pouco mais alto que Salatiel. Tinha a pele bronzeada, os olhos verdes, os cabelos negros, curtos e bagunçados, além de uma barba bem cortada. Estava sem camisa e tinha sombra escura ao redor dos seus olhos, o que acentuava-os ainda mais.

— Sua mãe disse que você não iria festejar hoje. O que aconteceu, minha pipoquinha?

— Vai se ferrar, cara! Eu, hein… — ela tentou se desvencilhar novamente, dessa vez conseguindo — O que eu vou fazer, ou não, é problema meu! Você tá até a tampa de cachaça, não é?

— Nada, princesa, bebi pouco. Até parece que não me conhece! — ele riu, ele era o único que achava aquilo engraçado — Por que não vem beber comigo? Assim a gente tira o atraso…

Ela revirou os olhos, mas, antes que pudesse responder alguma coisa, ouviu as sirenes da sentinela dispararem. De repente tudo ficou em silêncio. A festa rapidamente tomou outros ares; e o que era cor, barulho e alegria, se tornou cinza, medo e alerta.

— Invadiram… — sussurrou a garota.

— Que filhos da mãe! Fica perto de mim, princesa — disse o homem, puxando um punhal da cintura.

Safira quase não prestou atenção nele, apenas correu na direção do pequeno Salum e o colocou no colo.

— Você quer ser útil? Me ajuda a levar essas crianças pra dentro agora!!

Ela passou o menino para o rapaz e se afastou para recolher mais daquelas crianças que estavam na rua. Belsazar guiou a todos para dentro de uma escola próxima que estava recolhendo os civis enquanto os soldados babilônios eram convocados. Ao segurar a última criança, Safira correu para buscar suas botas e sua espada, porém foi novamente impedida pelo homem.

— Aonde você vai??

— Vou pegar minhas coisas! Cuida do pessoal!

Assim que ela se afastou, correu de volta para casa. Belsazar ficou ali, incrédulo, mas maravilhado com a coragem da garota; ele não a perderia de vista de jeito nenhum.

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Travessia, floresta de Jônia – 15:23 hrs

O general seguiu em frente com a primeira infantaria e deixou Urias sob o controle da segunda. Salatiel estava ao seu lado, todos estavam armados até os dentes, em alto estado de alerta. Naquele momento, a formosa floresta de Jônia parecia menos agraciada pelos anjos e tinha o aspecto acinzentado e melancólico. Salatiel prosseguiu em passos lentos, acompanhando o ritmo dos seus companheiros, quando, de repente, viu uma inscrição luminosa e laranja como fogo crepitar sobre o caule de uma árvore. Ele olhou por alguns segundos para os seus colegas e percebeu que, em poucos instantes, estes seguiram em frente e sequer se deram conta que um soldado havia ficado para trás. O moreno pensou em segui-los, mas a inscrição cintilava para que fosse vista, ele precisava ver o que era.

Ao se aproximar, encontrou escrita a palavra “MENE”. Repentinamente outras transcrições apareceram concomitantemente.

“MENE, MENE”

— “Contados foram os seus dias…” — ele sussurrou e logo seguiu a direção da outra palavra.

“TEQUEL”

— “Foste pesado na balança e encontrado em falta…” — ele sussurrou e, novamente, seguiu em direção à última inscrição.

“PERES (PARSIM)”

— “Dividido foi o teu reino…”

Quando leu a última inscrição, as palavras se apagaram e apenas suas gravuras escuras permaneceram por lá. Salatiel suspirou, ele sabia do que se tratava, pois o Rei já havia falado a ele.

— A grande Babilônia chegará ao fim.

Ele ouviu passos abruptos à sua esquerda e, por isso, se armou, retirando sua espada reluzente do livro e a erguendo. Não demorou muito para, do meio dos arbustos, uma loirinha surgir por entre as folhagens.

Safira.

— Salatiel!

O moreno a encarou com certo espanto. Quando ela se aproximou, ele rapidamente recuou, mantendo a espada como sua defesa.

— Não se aproxime!

A garota prontamente cessou os seus passos, tinha uma expressão de confusão na face.

— O que deu em você? O que tá acontecendo??

— Vai embora, Safira, não torne as coisas mais difíceis!

Ele mudou de posição, mas sua intenção era a mesma: matar ou morrer. Safira lentamente começou a caminhar para o lado e ele a acompanhou, seguindo a direção contrária. No fim das contas, os dois começaram a andar em círculos.

— O que eles fizeram com você, Sal?

— Pare! Pare de me chamar assim! Nós não somos amigos, não podemos ser amigos!

— Mas você é meu amigo, você é!!

— NÃO!!

Salatiel a atacou pela primeira vez, e, se ela não tivesse bons reflexos, o corte profundo que sua espada provocou na árvore poderia ter sido nela. Assustada, mas coberta de raiva, a garota entendeu o seu recado e prontamente se armou com a própria espada.

— É assim? Você escolheu.

Safira atacou. Salatiel defendeu e suas espadas formaram uma cruz junto a um tilintar agressivo de metal com metal. O moreno desarmou, o que foi suficiente para a loira dar um mortal e escapar do seu campo de ataque. Ao repousar no chão, ela rapidamente se posicionou e deu uma rasteira que acabou por desestabilizá-lo, embora não o tenha derrubado, pois não tinha força suficiente para isso. Salatiel caiu de joelhos e Safira aproveitou para tocar no seu ponto fraco: os cabelos. Os puxou pelas pontas e segurou como se segurasse uma sacola; com esse ataque, ela sacou sua espada, porém Salatiel estudou seus movimentos e foi mais rápido nas suas ações. Ele tirou uma adaga de cabo marrom e pedra de rubi de sua cintura, e cortou seus próprios cabelos com tamanha agressividade, provocando, inclusive, alguns cortes superficiais na mão dela. Assim que Safira soltou, o moreno lhe deu um chute no abdome, suficiente para derrubá-la com falta de ar. A loira caiu com as mãos no ventre e uma expressão de dor, e, somente nesse momento, Salatiel reergueu sua espada e esperou que ela olhasse em seus olhos para golpeá-la.

Safira sabia que, se olhasse para cima, aquele seria o seu fim, mas ainda havia a chance daquele homem bruto, daquela máquina de matar, ali, na sua frente, ser o mesmo menino que conheceu no rio. Ela não havia desistido daquela ideia.

Virou o rosto em sua direção, fitou o seu olhar azul com vontade. Salatiel parecia concentrado, mas havia compaixão naqueles olhos, compaixão percebida por ela quando, após longos segundos que mais pareciam horas, ele não encerrou a luta com a sua morte. Seu punho tremia, a espada cambaleava em suas mãos, seu olhar centrado revelava como a sua mente estava em profundo tormento, dividido entre suas obrigações e suas vontades. Ele não queria matá-la, ele não iria matá-la.

— S-Safira… vá embora… por favor…

— Eu não vou… — ela murmurou, trêmula, chorosa, mas buscando se conter — n-não vou…

Ele ia dizer alguma coisa, porém viu algo se mover pelo reflexo da espada dela no chão; algo ali não estava certo. Por trás, esgueirando-se, Urias empunhava a própria espada e pedia silêncio ao moreno enquanto marcava o seu alvo com o olhar. Quando estava prestes a atacar, Salatiel tomou uma atitude impensável e golpeou a espada do soldado, que o encarou, espantado.

— Enlouqueceu??

Salatiel foi tomado por um desejo automático de proteger Safira. Empunhou a espada e golpeou Urias novamente, que bloqueou o ataque com a sua própria lâmina. Ele atacou de novo, e de novo, e de novo, parecia jamais se cansar. Urias recuava e bloqueava à medida que levava os golpes; suas mãos começaram a sangrar, pois, em um desses movimentos, Salatiel acabou o machucando de verdade.

— Salatiel, pare!!

— Sal, não faz isso!!

Salatiel parou. Com o peito arfando, ele lentamente encarou a menina que estava no centro daquele ringue improvisado, cansada e ferida, mas bem. Era a trégua perfeita para que Urias descansasse… se não houvesse uma quarta pessoa no meio daquela bagunça.

— Arh!!

— Toma essa, certinho!

Com o punhal em mãos, Belsazar esfaqueou Urias, e fora tão forte que Salatiel pôde jurar ter visto a lâmina transpassar.

— URIAS!!!

— Bel!! Eu falei pra você ficar com as crianças!!

— Vim te salvar, princesa! Depois você me agradece…

Belsazar estava pronto para eliminar o próximo, mas Salatiel não parecia ter compreendido a gravidade da situação. Ele olhou para Urias de longe, sangrando, agonizando, e passou um filme em sua cabeça. Urias era o “senhor perfeito”, mas era seu conselheiro, seu parceiro, seu amigo. Se gostava dele ou não, não importava mais, Salatiel estava preenchido com aquele sentimento ruim: ele não descansaria enquanto não pagasse sangue com sangue.

Com um grito de raiva, Salatiel atingiu a espada com força na mão armada do bronzeado, decepando-a no mesmo instante. Safira levou as mãos à boca enquanto via Belsazar se contorcer de dor. Salatiel, não satisfeito, foi até o punhal, tirou-lhe da mão antes que esta enrijecesse, e, com a mesma lâmina pela qual Urias morreu, o moreno avançou sobre o outro rapaz e desferiu golpes incessantes em seu peito e seu abdome, e não se cansou até que todo aquele sangue fosse derramado na terra.

Com medo, Safira fugiu. Salatiel apenas parou quando ouviu o ressoar da trombeta, Éfeso deveria se recolher agora. Ele lentamente se afastou do corpo daquele babilônio e voltou a encarar o corpo de Urias; não sabia como diria isso ao seu general, não sabia como diria que a culpa daquela morte era toda sua.

Notas finais
Próximo capítulo: Salatiel acordou com um burburinho do lado de fora. Lentamente esfregou os olhos, olhou para o lado e viu a cama vazia do seu amigo. Ele suspirou, nada do que vivenciou fora um pesadelo, teria que enfrentar o seu general uma hora ou outra. Levantou-se, vestiu alguma coisa e preparou uma bolsa com os seus pertences e mantimentos, [...] Se retirou e encontrou todos os homens deliberando; [...] Todos queriam saber as novidades sobre o ataque de Éfeso ao reino da Babilônia. Salatiel havia enrolado a alça da bolsa em seu tronco, ela passava por seu peito como se fosse uma faixa cerimonial; todos olharam para ele. — Finalmente… acordou. O moreno deu alguns passos para frente. — Tenho uma mensagem do Rei…